esquina

A conversão de Frigide

Líder da campanha contra casamento gay na França quer ser uma neocatólica moderninha

Cíntia Cardoso
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

“Vamos despentear esse cabelo, gente!”, “Tirem esses arcos da cabeça!”, exortou Frigide Barjot numa das passeatas contra o casamento gay que percorreram as ruas da França este ano. Líder do movimento Manif pour Tous (Protesto para Todos), ela não se conformava com a aparência careta dos manifestantes. Os homens, brancos na imensa maioria, vestiam calça social e camisa; as mulheres estavam muito mais arrumadinhas do que suas precursoras rebeldes de 1968, usando mechas bem penteadas ou, no caso das mais jovens, franjas cuidadosamente desalinhadas.

Ocorre que Frigide pretende ser a porta-voz de um catolicismo moderninho, e tenta fazer do próprio visual uma síntese disso. A maquiagem em tons de rosa combina com o casaquinho de moletom rosa-choque, estampado com um desenho que representa uma família tradicional – papai, mamãe e um casal de filhos. A singeleza do conjunto contrasta com o jeans bem justo e os cabelos oxigenados – e, claro, despenteados –, com as raízes escuras de quem avisa que não tem muito tempo para a vaidade.

Desde o ano passado, quando começou o debate da lei que definiu o casamento como a união “de duas pessoas de sexos diferentes ou do mesmo sexo”, Frigide Barjot é presença constante na mídia francesa. “Estou defendendo a civilização e o valor mais essencial do ser humano, que é nascer de um pai e uma mãe”, martela madame Barjot, referindo-se à oposição da direita à eventual legalização da “barriga de aluguel” (que o governo socialista nega pretender) e ao projeto de implementação, como política pública, da reprodução assistida para casais de mulheres.

Frigide Barjot na verdade se chama Virginie Tellene. O nome artístico remete à sonoridade de Brigitte Bardot e o prenome, “frígida”, é uma lembrança dos tempos em que a “assessora de imprensa de Jesus”, como ela se define agora, ganhava a vida como comediante nas casas noturnas e boates gay friendly da capital francesa, nos anos 80 e 90. Entre os esquetes humorísticos com músicas de duplo sentido como Fais-moi l’Amour avec Deux Doigts (Faça Amor Comigo com Dois Dedos) e a comissão de frente das passeatas contra o casamento gay, o caminho foi longo.

Filha de um empresário de Lyon e de uma cantora, Barjot, de 50 anos, é mestre em direito e foi aluna do prestigiado Instituto de Ciências Políticas (Sciences Po), em Paris. Lá, teve aulas com ninguém menos que François Hollande, hoje presidente da França, que incluiu o casamento gay entre suas promessas de campanha. Nas suas múltiplas encarnações, Frigide foi militante em prol do ex-presidente conservador Jacques Chirac, comandou uma agência de publicidade, estrelou reportagens sobre a vida das socialites e enveredou pelo humor.

Isso até sua conversão no início da década passada, ou, como ela prefere dizer, sua “saída do armário cristã”. “Vi que minha vida não fazia sentido sem Jesus”, revelou. Na autobiografia Confessions d’une Catho Branchée [Confissões de uma Católica Descolada], Frigide conta que, antes de se fantasiar de freira para um programa humorístico na televisão, teve uma “revelação” e decidiu naquele instante que deveria seguir outro caminho. O quadro nunca foi ao ar. A tríade balada–álcool–rock’n’roll ficou para trás, e uma nova carreira começou.

A ex-comediante partiu, então, para a turnê “Barjot Tour Jésus”. No lugar dos inferninhos parisienses, encontrou seu público nas paróquias da França profunda – mas sempre com uma dose de provocação bem calculada para atrair a maior atenção midiática possível. Foi assim quando criou o Benoithon, um evento organizado pelas redes sociais para festejar o pontificado e o aniversário do papa Bento XVI em 2009, e se autoproclamou a porta-voz de um catolicismo sorridente e de vanguarda. Quando marcha ao lado de líderes católicos tradicionais, madame Barjot continua a usar camisetas algo transparentes com dizeres como “Jesus, the boss”.

 

Nos tempos de baladeira, entre um coquetel e outro, Frigide ostentava um círculo de amigos homossexuais e chegou a celebrar um casamento de mentirinha entre eles. Na vida real, insiste: “Casamento é apenas para um homem e uma mulher, com fins reprodutivos.” E os gays, não têm direito a ter uma família também? “Sim, claro”, responde sem hesitar. Sim, a sua bandeira contra o casamento gay tenta conciliar dogmas tradicionais com um discurso light que nega ser homofóbico. “Acho que dois gays podem criar crianças, formar suas famílias, se amar… Casar, não.”

Na visão de Frigide, os casais gays devem ser protegidos e amados, mas devem ocupar um lugar específico na sociedade. Um lugar que não permita que o nome de dois pais ou duas mães apareça nos documentos de uma criança. “Nem pensar! Uma lei não pode querer mudar o princípio mais básico da biologia: macho e fêmea”, defendeu, em tom exaltado.

Mesmo com a publicação no Journal Officiel, no dia 18 de maio, da lei que autoriza o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Frigide e seus “quase mil colaboradores voluntários” não abandonaram as ruas nem os palanques. O Manif pour Tous continua a programar passeatas pela França e pretende participar das eleições municipais de 2014.

Frigide Barjot desconversa sobre suas aspirações políticas. “Não sonho com o poder para mim”, diz. “Estou aqui para comunicar e para servir o povo francês da melhor maneira possível.” Nos bastidores, porém, ela se encontrou recentemente com o ex-presidente Nicolas Sarkozy e as passeatas que organiza têm a participação de pesos pesados da direita francesa. “Nosso movimento veio para ficar”, profetizou. Mas, na última passeata de maio, houve nova reviravolta. “Ameaçada por extremistas”, Frigide não desfilou e defendeu seus ideais em um estúdio de televisão. Para vê-la nas ruas, talvez seja preciso esperar mais um pouco. “Quero muito ir ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude.”

Cíntia Cardoso

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