chegada

A dieta de Evo

Para combater o capitalismo, o presidente da Bolívia lança o combate ao frango industrial que feminiza os homens

Dorrit Harazim
ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_ESTÚDIO ONZE

Não deve ter sido fácil para as 20 mil pessoas vindas de 129 países chegarem ao povoado de Tiquipaya, perto de Cochabamba, na Bolívia, para atender ao convite do anfitrião, Evo Morales. Justo naquela semana de abril o vulcão islandês irrompera no cenário mundial com todas as suas consoantes e nuvens tóxicas, provocando o cancelamento de 17 mil voos diários. Ainda assim, o estádio de futebol do vilarejo transbordava de gente quando o presidente boliviano subiu à tribuna para responsabilizar o capitalismo pela destruição do planeta na Conferência Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra.

Não fosse pelo discurso de Evo Morales, é possível que os três dias de encontro permanecessem confinados a blogs e redes sociais, sem chegar aos grandes meios de comunicação. Mas, diante do instigante rumo tomado pela oratória do palestrante, suas palavras correram o mundo mais rápido que os aviões.

Ao longo de uma hora, a cúpula social ali reunida ouviu uma aula de história das civilizações segundo o prisma da culinária, mesclada a receitas de endocrinologista para uma era pós-capitalista mais saudável. Partindo da premissa de que toda sociedade pode ser analisada e compreendida pela forma como ela se alimenta, Morales elencou o frango industrial, a batata holandesa e a Coca-Cola como agentes e sintomas de uma civilização à deriva. “O frango que comemos está repleto de hormônios femininos, e é por isso que homens que comem esses frangos tem desvios em sua maneira de serem homens”, assegurou.

Antes que o público pudesse assimilar o alcance da afirmação, Morales profetizou que, dentro de cinquenta anos, a humanidade inteira estará careca. “Devido à alimentação ocidental, a calvície já se tornou uma doença na Europa”, alardeou. “Enquanto isso, entre os povos indígenas não há carecas porque nos alimentamos de outras coisas.” E, orgulhoso, apontou com o dedo para a fartura de cabelos negros que ostenta na cabeça de cinquentão.

No capítulo das proteínas capitalistas, anunciou uma segunda descoberta: a ingestão de frango de granja e carne de vaca tratados com hormônios causa o crescimento prematuro de seios em meninas. O presidente assegurou que se tratava de uma informação científica comprovada. E aproveitou para desancar a batata holandesa. Apesar de serem “grandes e formosas”, como reconheceu, as espécies cultivadas pelo maior produtor europeu do tubérculo também conteriam hormônios. Além disso, pelo fato de terem a pele coberta de “veneno”, precisam ser descascadas para o consumo. Já as batatas andinas podem ser ingeridas com casca e tudo, sem medo.

Garoto-propaganda de uma dieta indígena, o presidente de origem aimara concluiu sua fala defendendo o uso de utensílios e pratos de barro cozido, comuns nas mesas bolivianas: “Caso venham a se quebrar, eles retornarão à condição de areia da Mãe Terra, com contaminação zero para a natureza”. Em contraponto, e para ilustrar as verdadeiras armas de destruição em massa do meio ambiente, fez desfilar nas mãos uma variedade de potes de plástico multicoloridos.

 

Pronto, a receita estava dada. E os engulhos foram se amontoando antes mesmo do encerramento da conferência. A Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Frangos, que agrupa alguns dos maiores vendedores de aves do mundo e abastece 153 países, foi uma das primeiras a sair em defesa do frango agroindustrial. Num comunicado, a associação disse: “Evo Morales revela o seu desconhecimento com relação a esta importante proteína animal. Ela é presença indispensável na mesa de todos os povos, em especial nas camadas mais pobres da sociedade que o presidente da Bolívia diz defender.”

A associação dos matadores de frango, imagina-se, seria integrada por gente conservadora, interessada em atacar o líder socialista boliviano. Mas e o que dizer da Federação Espanhola de Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais? Pois a entidade entregou uma carta de protesto na embaixada da Bolívia em Madri, classificando de “surrealista” a associação entre frango industrial e “desvios” na masculinidade.

Tido como homofóbico, esse fundamento da dieta de Evo provocou tanto barulho que o governo de La Paz viu-se obrigado a esclarecer as coisas. “Jamais passou pela cabeça do presidente atacar os direitos dos homossexuais”, garantiu o porta-voz da Presidência, Iván Canelas, lembrando que foi o próprio Evo quem impulsionou o respeito à liberdade sexual no texto da nova Constituição, promulgada em 2008. A crítica não era às aves em si. Nem aos gays. Nem a eventuais aves gays. Era, sim, à comida transgênica.

Excentricidades pseudocientíficas à parte, e relevando-se a exótica escolha de exemplos com que defendeu sua tese, Evo Morales se mostrou um pensador de seu tempo. Os alimentos que recomendou caberiam perfeitamente na horta orgânica plantada na Casa Branca por Michelle Obama. E poderiam ter sido reproduzidos no documentário Food, Inc., do americano Robert Kenner.

O filme, que expõe as vísceras da produção alimentar industrial, foi um dos finalistas ao Oscar de Melhor Documentário de 2009. Ainda não exibido no Brasil, Food, Inc., demonstra porque um terço dos americanos nascidos após o ano 2000 tenderão a desenvolver diabetes. O processo industrial que, nos EUA, transforma em alimentos cerca de 10 bilhões de animais a cada ano, está no centro da investigação feita pelo diretor.

Quinoa neles, recomendaria Evo Morales, na sua cruzada indígena por uma alternativa superior de valores e estilo de vida. E, sobretudo, distância da perversa Coca-Cola. O presidente contou ter se sentido mal depois de, uma vez, nos anos 90, tomar vários copos do refrigerante, enquanto seus companheiros de mesa se encharcaram de chicha, uma aguardente de milho, e saíram incólumes da noitada.

Uma alternativa nativa estava ao alcance dos participantes ao colóquio. Era um refrigerante também gasoso, de rótulo vermelho e branco, gosto adocicado e que provoca um leve formigamento no palato: a Coca Colla, com dois “l”. O nome, com sua pitada de humor embutida, é uma homenagem ao povo andino colla, que vive na fronteira com a Argentina e cultiva a folha de coca. O Irã já encomendou 2 milhões de garrafas da bebida, enquanto a Venezuela e o Paraguai cogitam financiar a sua expansão industrial.

Planos de exportação mundial do produto, porém, exigiriam que o Comitê Internacional de Controle de Narcóticos da ONU retire a folha de coca da lista de drogas proibidas. Empecilho intransponível? Depende. Tivesse Evo Morales a perspectiva cósmica de Mao Tsé-tung, essa questiúncula seria irrisória. Para o Grande Timoneiro chinês, morto em 1976, até mesmo uma guerra nuclear era transponível.

“A chantagem atômica dos Estados Unidos não pode intimidar o povo chinês”, escreveu o camarada Mao em 1955. “Nosso país tem 600 milhões de habitantes e se estende ao longo de 9,6 milhões de quilômetros quadrados. As poucas bombas atômicas de que dispõem os Estados Unidos não conseguiriam exterminar os chineses. Mesmo que, uma vez lançadas sobre a China, elas perfurassem ou rompessem o globo terrestre, isto seria um acontecimento de grande porte para o sistema solar. Para o conjunto do universo, contudo, teria significado pequeno.”

Por enquanto, os frangos com hormônios que alarmam Evo Morales sequer afetam o sistema solar. Afetam apenas os bípedes que frequentam transitoriamente o globo terrestre.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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