esquina

A Eurico deu pé

Nem todos estão atrás de sapatos na loja especializada em tamanhos GG

Luiz Henrique Ligabue
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

O cliente passou sem dar trela para as estantes repletas de escarpins, saltos agulha e modelitos festivos. Rasteirinhas e sandálias, um sucesso de vendas, foram solenemente ignoradas. Queria saber onde era o banheiro. Pouco depois, saiu de lá transfigurado, sem a jaqueta e a calça jeans com que ingressara na loja: vestia agora camiseta preta justa, sutiã e espartilho. Para combinar com a calça skinny, era fundamental encontrar um belo par de sapatos. Por isso decidira ir à Casa Eurico, especializada em calçados masculinos e femininos tamanho GG. Saiu todo serelepe, levando debaixo do braço um esplêndido par de peep toe de ar retrô que lhe caíram muito bem, com salto baixo quadrado e tamanho 41.

Mas nem só de crossdressers, gays e travestis vive a Casa Eurico. Pelo contrário, eles são minoria por lá, embora muito bem-vindos. Fundada em 1938 por um judeu alemão, a loja nasceu como sapataria, camisaria e chapelaria em Moema, São Paulo, na época um bairro afastado e repleto de imigrantes. Cioso da anatomia de seus conterrâneos e dotado de bom faro para os negócios, Erich Rosenthal não teve dúvida: publicou no jornal da comunidade, na língua de Goethe: “Temos sapatos para pés grandes.” Foi um sucesso imediato: o estoque se esgotou rapidamente. Mas a dedicação exclusiva ao nicho da numeração acima da média só veio nos anos 70, quando a clientela minguou após a inauguração de um centro comercial a poucas quadras dali.

A Casa Eurico valoriza a tradição, a começar pela vendedora Ema Berta Vetters, que já atendeu a várias gerações de clientes em 51 anos de balcão. Filha de alemães, ela é a responsável pelas vendas no idioma do fundador da loja, cada vez mais raras. Dona Bety, como é tratada pelos fregueses, não revela a idade nem sob tortura, mas informou com orgulho que começou na Eurico em 1960, aos 19 anos de idade. Paradoxalmente, ela é obrigada a ir a outras lojas para comprar sapatos para seus discretos pés 38.

De todos os atendentes, a melhor média de vendas por dia é de dona Bety, que preza a eficiência, ainda que em detrimento da simpatia. Se um cliente se interessa por algum modelo, ela corre ao estoque, 32 degraus acima, e só volta de lá com pelo menos cinco pares. Para não perder uma venda, chega a descer duas ou três dezenas de caixas.

Os vendedores da Casa Eurico conhecem como poucos as aflições dos pés grandes. Os homens sofrem menos na compra de calçados masculinos. Já quando procuram por sapatos para moças, são corroídos pela dúvida. Nessas ocasiões, preferem ser atendidos por mulheres, que entendem melhor as sutilezas da alma e dos pés femininos. Poucos têm o privilégio de um senhor – um 43 convicto – que há anos frequenta a filial da rua Oscar Freire, há pouco rebatizada como Max. Ele chega invariavelmente de terno e na companhia da mulher, sem cuja anuência nenhuma compra é concluída. Costuma fazer pedidos exuberantes. Na última visita, a esposa aprovou a compra de um sapato boneca roxo com um salto discreto e detalhes de flores rosa. Quem viu o modelo arrematado garante que vai muito bem com terno risca de giz.

 

O tamanho do pé pode ser um bom indicador da altura de um indivíduo. Por isso, a Casa Eurico se presta vez ou outra para finalidades extraindumentárias. Involuntariamente, acabou se tornando um ponto de paquera para maiores de 1,80 metro. Não é incomum flagrar demoradas trocas de olhares entre os clientes mais jovens. Um romance iniciado ali entre uma 43 e um 51 – com a intermediação dos vendedores – já terminou em casamento, contou dona Bety. Mas que não se enxergue um gesto desinteressado nessa acareação: os frutos da união decerto serão fregueses da casa.

Com olhar clínico para assuntos podológicos, dona Bety é pródiga em identificar no berço as novas gerações de compradores. “Olha que bonitinho o tamanho do pezinho dele”, emocionou-se ela certa vez ao conhecer o filho de 1 mês e meio de uma cliente de pé 43. “Vai ser nosso cliente”, vaticinou.

A Casa Eurico dispõe ainda de outros meios para promover a felicidade conjugal. Com a autoridade de anos de observação empírica, o gerente Marcos asseverou que, naquele ambiente, as mulheres não gostam de desfilar com maridos mais baixos que elas. Para remediar esse desconforto, a loja oferece uma linha especial de sapatos – disponível até o 44. Com uma plataforma de elevação dissimulada, os pisantes permitem ao portador ganhar até 6,5 centímetros de altura, equiparar-se à amada e anular o descompasso vertical.

 

Nem só de anônimos vive a Casa Eurico, que se orgulha dos notórios pés grandes que vão amiúde se abastecer ali. É o caso da jornalista Marília Gabriela, que calça 41. A modelo Roberta Close, um número acima, já foi uma habituée do estabelecimento, embora há tempos não apareça para conferir as novidades. Outra 42 que é figurinha fácil por lá é a atleta Virna Dias, que defendeu a Seleção de vôlei e costuma sair dali de sacolas cheias. Compra de tudo, de rasteirinha a salto agulha. Silvia Poppovic prefere escarpins e saltos altos, tamanho 41.

Entre os homens, Joelmir Beting busca sempre sapatos sóbrios para seus pés 45. Na mesma numeração estão o comediante Rafinha Bastos, adepto do All Star e de outros modelos esportivos, e o nadador Cesar Cielo, frequentador da filial da Oscar Freire. Mas quem surpreende os demais clientes é o padre Marcelo Rossi, que esconde sob a batina pés 46, muito bem tratados, aliás: ele só usa sapatos antiestresse, sem costura, de pele de ovelha.

Difícil é encontrar rival para o vice-governador do Rio de Janeiro, um 47 bico largo apelidado justamente de Pezão. Na última vez que passou pela Casa Eurico, saiu com uma dúzia de pares. “Pagou com cheque pessoal”, notou o gerente. Em tempos de cartões corporativos, é sempre prudente esclarecer.

Luiz Henrique Ligabue

Luiz Henrique Ligabue é geógrafo e jornalista.

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