esquina

A fera e a presa

Policial da Deic dá uma de capitão de cinema

André Conti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Foi aos gritos de “Pega ladrão!” e “Derruba o vagabundo!” que o adolescente desceu rasgando a rua Jaguaribe, na fronteira dos bairros de Higienópolis e Santa Cecília, em São Paulo. Era perseguido por vultos que ordenavam que parasse. O garoto era negro e magro e vestia a indumentária padrão dos officeboys paulistanos: jeans surrado, camiseta, moletom de capuz e celular preso na cintura. Na esquina com a rua Martim Francisco, ele começou a perder impulso. Conforme passava, a vizinhança botava a cabeça para fora das janelas e aderia ao coro hostil. Era noite de segunda-feira, dia 22 de outubro, e a forte chuva da tarde se convertera numa fina garoa. Quem estava conseguindo se aproximar mais do fugitivo era um policial à paisana. Saíra de um furgão da Deic – Delegacia de Investigações do Crime Organizado, parado ali perto. Gigantesco, o investigador se movia com a velocidade de uma fera no encalço da presa assustada.

O acossamento durou apenas mais meio quarteirão. O menino ainda tentou atravessar a rua, mas foi pego e arremessado contra uma parede pelo policial e, em seguida, derrubado no chão com um soco na barriga. Caiu sentado com as costas no muro. Tomou mais duas pancadas na cabeça e, desesperado, passou a chorar convulsivamente. Uma mulher, assustada, puxou a filha, algumas pessoas desviaram o olhar, um grupo de meninos de rua passou como foguetes, mas a maioria dos passantes se aproximou para ver a cena de perto. Dois senhores que haviam saído de um bar comentaram que, apesar da brutalidade do policial, cujo porte e solidez lembravam um armário pesado, o garoto merecia o tratamento, pois roubara a bolsa e o celular de uma menina.

Quando o menino tentava falar, o policial aproximava a boca do ouvido dele e, com berros que faziam saltar as veias do pescoço, repetia que ele era um bandido, um vagabundo, e que se ousasse se mexer ia “morrer à toa”. A cada grito, o garoto soluçava e se contraía junto da parede. Como quem apruma um boneco, o policial o pegou pelo ombro e o levantou com uma só mão. Depois, num movimento fácil, o pôs de pé, virou-o contra a parede e torceu seu braço, para que pudessem caminhar. Gritando sempre, levou-o até um bar, onde estavam a menina roubada e dois colegas policiais, igualmente altos e fortes. O menino protestava, dizia que era funcionário da Caixa Econômica Federal. “Olha aqui o meu crachá”, mostrava. “Eu sou da Caixa, sou trabalhador.” Um dos balconistas do bar perguntou a um camarada: “Mas então por que estava correndo?”

O policial sentou o rapaz numa das cadeiras na calçada e lhe deu outro soco na barriga. Os espectadores deram um passo adiante; queriam acompanhar melhor o interrogatório. Alguns soltavam risadinhas. Uma senhora de feições nipônicas disse: “Esse se ferrou”. O policial, de punho em riste, olhando fixo o rapaz, insistia aos berros que ele era um bandido filho-da-puta
e que agora ia se dar mal. O fugitivo repetia que nada tinha a ver com o caso, que só estava de passagem. “Foram uns moleques, irmão, não fui eu não”, disse. Má idéia. O armário sacou um revólver prateado da cintura e gritou: “Tá entendendo que eu não sou teu irmão?” Alguém na assistência lembrou que, fazia pouco, uns meninos de rua haviam passado correndo por ali. Ninguém deu bola. Cada vez que o policial levantava a mão, o jovem soltava um grito agudo.
A vítima de roubo falava no celular, pedia que alguém fosse buscá-la. O policial tinha pressa, queria que ela reconhecesse logo o suspeito. Para bom efeito, deu mais um safanão na caça. Pela primeira vez, o menino reclamou: “Pô, tio, não precisa bater”. Levou mais um soco e em seguida ouviu a pergunta sarcástica: “E eu estou batendo em você?” Outro soco: “Eu encostei o dedo em você?” E mais um: “Você quer morrer à toa?”



A maioria dos espectadores ainda achava engraçado, mas uns poucos começaram a se revoltar: “E se o moleque for inocente?”, “E, mesmo se for culpado, tem que ser espancado?” Estes, porém, falavam entre si. Ninguém ousou dirigir a palavra ao policial, a essa altura vermelho e suando profusamente.

Veio enfim a pergunta. Virando-se para a garota que havia sido roubada, o policial inquiriu: “Foi esse garoto?” “Puxa, não tenho certeza, eram vários”, ela respondeu. Sem parar de chorar, o menino suplicou que ela não destruísse a vida dele. “Nunca fui bandido”, insistiu. O policial decidiu então revistá-lo. Olhou o crachá da Caixa Econômica e perguntou se ele tinha passagem pela polícia. “Não, senhor!”, respondeu o garoto, em alto e bom som. Como a menina repetia que não reconhecia o rapaz, o policial o soltou. Cabeça baixa, andando firme e sem olhar para trás, o office-boy foi embora. O policial voltou para a caminhonete da Deic. Os espectadores se dispersaram e a senhora japonesa, que não tirara os olhos do policial, concluiu: “Nossa, mas é o capitão Nascimento, hein?”

André Conti

André Conti é editor na Companhia das Letras.

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