esquina

A fila da jaca

Em Belo Horizonte, um cadastro organiza o acesso à coisa pública

Nuno Manna
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

São seis da manhã de uma terça-feira de março, e os primeiros visitantes começam a circular pelas aleias do Parque Municipal Américo Renné Giannetti – uma grande área verde em pleno Centro de Belo Horizonte. No prédio administrativo, um funcionário recebe um senhor e o conduz até o depósito onde há equipamentos de jardinagem e quatro grandes barris de plástico verde. Ele pergunta o nome do visitante e confere se está na lista. Em seguida destampa um dos barris, de onde exala um cheiro forte, e tira dali um fruto esverdeado de casca grossa, do tamanho de um leitão. É tempo de jaca, e é chegada a vez daquele cidadão.

Um a um, outros visitantes se apresentam à administração. Ao encarar o porte da fruta que lhe foi reservada, um jovem, despreparado, se assusta. “Levar isso no ônibus vai ser fogo.” Mas o assistente administrativo Wallace Barbosa vem em seu socorro. Escolhe uma jaca mais modesta e entrega ao rapaz, que sai dali equilibrando a fruta nas duas mãos. Aos 24 anos, o baiano Barbosa é uma peça central na gestão das jacas do Parque Municipal. Não fosse pela sua diligência, a fila não andaria.

Barbosa faz funcionar o procedimento criado pela administração do parque para regular a cobiça irrefreável dos visitantes pelos frutos de suas dez jaqueiras. A fim de garantir o acesso democrático ao patrimônio público, foi instituído há mais de vinte anos um cadastro de pretendentes. Quem quisesse jaca que se inscrevesse e aguardasse a vez de colocar as mãos na graúda. No dia da sorte grande, o telefone traria a boa-nova: uma jaca madura aguardava o felizardo na administração, pronta para ser levada para casa.

Ultimamente, porém, o sistema não vinha funcionando bem. Como a temporada de jacas só vai de janeiro a março e o número de inscritos era grande, as jaqueiras não estavam dando conta de atender à demanda crescente. A espera entre o cadastro e a entrega da fruta podia chegar a anos. No fim de 2011, havia mais de mil sem-jaca registrados no livro de cadastros.

Naquele ano, numa tentativa de colocar ordem na casa, a administração decretou a moratória de inscrições. As jacas das últimas temporadas se destinariam a honrar os pedidos já protocolados. Muitos tinham se inscrito há tanto tempo que não apareceram para buscar o prêmio. “Às vezes a pessoa já tinha morrido, mudado”, disse Barbosa.

Quando chegou a temporada de jacas deste ano, a administração decidiu adotar uma medida extrema. Zerou a lista de espera e estabeleceu um novo método de entrega. Agora, o nome dos interessados é recolhido ao longo da semana. Na segunda-feira, quando o parque fecha para o público, as jacas maduras são colhidas. A terça é o dia que os inscritos têm para buscá-las, por ordem de chegada. O precipitado que aparecer sem ter feito cadastro é convidado a se inscrever na lista da semana seguinte, para não prejudicar quem já aguardava a vez. O ciclo é retomado a cada semana, enquanto houver frutas no pé.

 
A jaqueira é natural da Índia e foi trazida ao Brasil durante a colonização portuguesa. É uma árvore de até 20 metros de altura que dá frutos de sabor pronunciado e textura viscosa que não deixam ninguém indiferente. Uma jaca caprichada pode chegar a 15 quilos. Temerariamente, ficam suspensas a muitos metros de altura. Em lugares públicos, convém que sejam colhidas antes que se espatifem sobre a cabeça de um desavisado.

No Parque Municipal, os jardineiros que colhem as frutas maduras estão sempre alertas, manejando uma vara de bambu de mais de 6 metros para alcançar as mais altas. Para colher uma jaca, eles cutucam a dita com uma vara afiada na ponta (uma chacoalhada no galho ajuda a desprender as mais renitentes). No solo, uma espécie de tapete de lona apara as frutas, que costumam resistir incólumes à queda.

Todo o cuidado não impede que, vez ou outra, um fruto caia espontaneamente (não há registro recente de vítimas no parque). Quando o inevitável acontece, as regras do cadastro deixam de valer. “Se estiver no chão, pode levar”, explicou Barbosa. Mas os guardas municipais que circulam pelo Parque Municipal não têm tolerância com quem tentar furar a fila e cutucar as jaqueiras com seu próprio bambu. A administração teme especialmente os moradores de rua que habitam o parque – um total de 215 pessoas, segundo o último censo feito pela Guarda. Como o cadastro dispensa comprovante de endereço, Barbosa lembrou que nada impede que eles sigam os requerimentos formais para postular legitimamente uma fruta.

Enquanto caminhava lentamente à sombra das jaqueiras, Barbosa metralhou a explicação dos procedimentos necessários para o cadastro sem tropeçar em nenhuma sílaba, com um sotaque baiano residual atenuado por dez anos vivendo em Minas. O assistente contou que de vinte a trinta jacas foram distribuídas por semana na temporada 2013. “Pela quantidade que ainda resta, vai ter jaca até as primeiras semanas de abril”, sentenciou.

Quando aparece uma jaca muito volumosa, Barbosa pode se oferecer para parti-la ao meio. “Facilita o transporte e assim mais gente leva jaca para casa.” O funcionário disse ainda que, às vezes, a administração dá prioridade a pedidos emergenciais de idosos ou gestantes, mesmo que não seja terça-feira. “Grávida, né? Tem que atender.” A generosidade já lhe rendeu potes de doce de jaca e outros mimos em retribuição.

Quando a procura não está alta, os funcionários do parque aproveitam para se incluir na partilha. Para Barbosa, porém, trabalhar com o nariz nas jacas não é uma tentação. O baiano contou que na casa de sua avó há muito mais que dez jaqueiras, e que ele já comeu sua cota. Mas chamou a atenção para uma virtude pouco lembrada da fruta: laçar o coração de uma mulher. “Na próxima coleta, vou levar para a namorada. Estou só esperando aparecer uma bem madurinha.”

Nuno Manna

Nuno Manna é jornalista em Belo Horizonte.

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