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    Com os 137,5 milhões de dólares do contrato do grill, George Foreman tornou as irmãs milionárias FOTO: FERDAUS SHAMIM_WIREIMAGE_GETTY IMAGES_2006

o que aprendi

A gente morre e esquece tudo

De um homem temido, passei a ser objeto de pena. Perdi em dez segundos tudo que achava importante na vida

George Foreman | Edição 13, Outubro 2007

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Tenho pavor de apertos de mão. Tenho problemas nas mãos e, a todo lugar que vou, as pessoas querem me impressionar com a força de seu aperto. Para piorar, agora são as mulheres que vêm para cima de mim a fim de mostrar sua pegada firme. Aí eu levanto a mão aberta e digo “Cinco contra cinco!”, e a gente dá só um tapinha na mão um do outro.

Cresci no quinto distrito de Houston – o Quinto dos Infernos, como a gente chamava. Todo fim de semana morria alguém.

A gente não tinha dinheiro para comprar uma televisão. Mas minha tia Leola me deixava ver tevê na casa dela. Eu via o Donna Reed Show e também Leave it to Beaver , e vocês não podem imaginar o que era poder dormir numa cama inteira só para mim. Apagar a lâmpada na cabeceira da cama parecia o máximo do luxo.

Quando não tinha comida para levar para a merenda da escola, eu enchia de ar um saco de papel pardo para parecer cheio.

Na Olimpíada de 1968, Tommie Smith e John Carlos levantaram os punhos, metidos em luvas pretas, em cima do pódio, e as pessoas não falavam de outra coisa. Minha medalha de ouro não causou tanta admiração, quando voltei para casa, em Houston, mas para mim ela era o máximo. Eu usava aquele troço em todo lugar a que ia. Era o tempo dos paletós de estilo indiano e medalhões no pescoço, por isso caía bem. Usei tanto a medalha que, depois de um tempo, o ouro começou a descascar. Um joalheiro deu um jeito de ela ficar bonita outra vez, e eu não queria mais que o ouro descascasse, por isso guardei a medalha no cofre de um banco. Ficou lá por muito tempo. Nos anos 80, me mudei para Marshall, no Texas. Resolvi deixar a medalha na Sociedade Histórica, onde a criançada pudesse ver e ficar inspirada. A mensagem era: “Você pode sair desta cidadezinha mixuruca e fazer coisas importantes”. Quero que todas as crianças do mundo sintam que aquela medalha é tanto delas quanto dos meus filhos.

Quando venci o título mundial contra o Joe Frazier, alcancei tudo aquilo para o qual tinha me empenhado tanto.

Ninguém sabe o que é ser um campeão mundial dos pesos pesados até virar campeão mundial dos pesos pesados. É duro. A gente escuta assim: “Fulano virou campeão e tinha cinco namoradas e cinco Cadillacs”. Então a gente arranja cinco Cadillacs e cinco namoradas só porque Fulano fez isso. Não vem da nossa vontade. Não é um desejo nem uma necessidade física. É tudo ignorância.

A maioria de nós não passa de crianças.

Sandy Saddler, o grande campeão peso-pena, me deu uns conselhos depois que conquistei o título. Perguntei: “Cara, e esse lance de sexo. Como é que você lida com isso?” Ele respondeu: “George, é muito fácil quando a gente é casado e é fiel à esposa. Porque, quando você está a fim, ela está a fim. A coisa desanda quando você vive com duas ou três ao mesmo tempo. Fica incontrolável. Até você fica incontrolável. É melhor ser fiel a uma só”. Na época, não entendi nada.

Lembro como as pessoas olhavam para mim quando deixei os Estados Unidos e fui para o Zaire. “Cara, aquele é o George Foreman, vai lutar contra o Muhammad Ali.” Depois baixavam a cabeça. Medo. Ninguém me olhava no olho, cara a cara. Era um tipo gozado de admiração. Tinha gente assustada demais até para pedir autógrafo.

Um dia, depois que perdi para o Ali, as pessoas se aproximavam, punham a mão no meu ombro e diziam: “Tudo bem, George. Você vai ter outra chance”. De um homem temido, passei a ser objeto de pena. Cara, isso é uma queda muito grande.

Imagine perder em dez segundos tudo o que você acha que é importante na sua vida.

Vou lhe dizer a que ponto um homem pode despencar. Tinha uma música do B. B. King que dizia: “Ninguém me ama, a não ser minha mãe/ E ela também pode estar só fingindo”.

O mal está de tocaia ali onde a frustração faz a sua morada.

Todos os meus filhos se chamam George Foreman.

Mudar a natureza da gente é a coisa mais difícil. Mas descobri que a gente pode ser aquilo que escolher.

Conquistar o título pela segunda vez, contra Michael Moore, foi um momento especial. Porém não foi nada além disso. Uma semana depois, as pessoas me cobriam de elogios, e foi duro, porque tive de agir como se aquilo ainda fosse importante. Mas já tinha acabado.

Pregar é a coisa mais original que já fiz. Não tem nada de simples. A gente tem de ter coragem.

Perder a mãe é a perda mais misteriosa que existe. Sabe aquele jeito como os astronautas andam no espaço, presos à nave espacial por um cabo? Na hora em que a gente descobre que a mãe morreu, a gente se sente como se o cabo tivesse arrebentado e se soltado da nave espacial. A gente fica lá flutuando no vazio. Flutuando… Flutuando… Lembro que a minha filha telefonou e disse: “Não se preocupe. Eu já estou indo para aí”. E de repente o cabo se prendeu de novo e eu estava ancorado outra vez.

A primeira coisa que me veio à cabeça quando assinei o contrato do George Foreman Grill, pelo valor de 137,5 milhões de dólares, foi: vou fazer minhas irmãs ficarem milionárias. Depois de tantos anos, elas vão afinal ficar milionárias. E ficaram milionárias mesmo – com os mesmos velhos problemas de todo mundo.

Eu adoro o Joe Frazier. Ele foi um cara original desde o início. Alguns anos atrás, Joe, Muhammad e eu fizemos um vídeo na Inglaterra. Depois da gravação, a gente foi a um jantar beneficente com alguém da família real. Estavam servindo costeletas de carneiro com gelatina de menta – uma comida maravilhosa. O garçom perguntou: “Posso lhe servir mais alguma coisa?” E o Joe disse: “Quero mais um pouco da geléia verde”. O garçom respondeu: “O senhor se refere ao molho de menta?” Joe respondeu: “Dá na mesma“. Aí eu pensei: Há gente que tem muitas caras, uma cara para um e outra cara para outro. Mas esse homem tem só uma cara. “Dá na mesma.” Se você entendeu o que ele disse, por que precisa corrigir?

Não consigo parar de fazer exercício.

Depois que perdi para o Ali, no Zaire, espalhei para todo mundo que fui roubado. As cordas estavam frouxas, a água estava batizada com drogas… Então, quando mudei a minha natureza, me dei conta da minha mancada. Por que eu tinha de cuspir na vitória daquele grande homem?

Liguei para Muhammad Ali outro dia. Falei: “Muhammad, acho que agora eu posso derrotar você numa revanche”. Ele respondeu: “Está maluco!” Ele não fala depressa, mas me disse: “George, vou aí visitar você”. Falou com amor. Não, eu não tenho mágoas.

Minha mãe me dizia: “A gente vive e aprende. Depois a gente morre e esquece tudo“.