o que aprendi

A gente morre e esquece tudo

De um homem temido, passei a ser objeto de pena. Perdi em dez segundos tudo que achava importante na vida

George Foreman
Com os 137,5 milhões de dólares do contrato do grill, George Foreman tornou as irmãs milionárias
Com os 137,5 milhões de dólares do contrato do grill, George Foreman tornou as irmãs milionárias FOTO: FERDAUS SHAMIM_WIREIMAGE_GETTY IMAGES_2006

Tenho pavor de apertos de mão. Tenho problemas nas mãos e, a todo lugar que vou, as pessoas querem me impressionar com a força de seu aperto. Para piorar, agora são as mulheres que vêm para cima de mim a fim de mostrar sua pegada firme. Aí eu levanto a mão aberta e digo “Cinco contra cinco!”, e a gente dá só um tapinha na mão um do outro.

Cresci no quinto distrito de Houston – o Quinto dos Infernos, como a gente chamava. Todo fim de semana morria alguém.

A gente não tinha dinheiro para comprar uma televisão. Mas minha tia Leola me deixava ver tevê na casa dela. Eu via o Donna Reed Show e também Leave it to Beaver , e vocês não podem imaginar o que era poder dormir numa cama inteira só para mim. Apagar a lâmpada na cabeceira da cama parecia o máximo do luxo.

Quando não tinha comida para levar para a merenda da escola, eu enchia de ar um saco de papel pardo para parecer cheio.

Na Olimpíada de 1968, Tommie Smith e John Carlos levantaram os punhos, metidos em luvas pretas, em cima do pódio, e as pessoas não falavam de outra coisa. Minha medalha de ouro não causou tanta admiração, quando voltei para casa, em Houston, mas para mim ela era o máximo. Eu usava aquele troço em todo lugar a que ia. Era o tempo dos paletós de estilo indiano e medalhões no pescoço, por isso caía bem. Usei tanto a medalha que, depois de um tempo, o ouro começou a descascar. Um joalheiro deu um jeito de ela ficar bonita outra vez, e eu não queria mais que o ouro descascasse, por isso guardei a medalha no cofre de um banco. Ficou lá por muito tempo. Nos anos 80, me mudei para Marshall, no Texas. Resolvi deixar a medalha na Sociedade Histórica, onde a criançada pudesse ver e ficar inspirada. A mensagem era: “Você pode sair desta cidadezinha mixuruca e fazer coisas importantes”. Quero que todas as crianças do mundo sintam que aquela medalha é tanto delas quanto dos meus filhos.

Quando venci o título mundial contra o Joe Frazier, alcancei tudo aquilo para o qual tinha me empenhado tanto.

Ninguém sabe o que é ser um campeão mundial dos pesos pesados até virar campeão mundial dos pesos pesados. É duro. A gente escuta assim: “Fulano virou campeão e tinha cinco namoradas e cinco Cadillacs”. Então a gente arranja cinco Cadillacs e cinco namoradas só porque Fulano fez isso. Não vem da nossa vontade. Não é um desejo nem uma necessidade física. É tudo ignorância.

A maioria de nós não passa de crianças.

Sandy Saddler, o grande campeão peso-pena, me deu uns conselhos depois que conquistei o título. Perguntei: “Cara, e esse lance de sexo. Como é que você lida com isso?” Ele respondeu: “George, é muito fácil quando a gente é casado e é fiel à esposa. Porque, quando você está a fim, ela está a fim. A coisa desanda quando você vive com duas ou três ao mesmo tempo. Fica incontrolável. Até você fica incontrolável. É melhor ser fiel a uma só”. Na época, não entendi nada.

Lembro como as pessoas olhavam para mim quando deixei os Estados Unidos e fui para o Zaire. “Cara, aquele é o George Foreman, vai lutar contra o Muhammad Ali.” Depois baixavam a cabeça. Medo. Ninguém me olhava no olho, cara a cara. Era um tipo gozado de admiração. Tinha gente assustada demais até para pedir autógrafo.

Um dia, depois que perdi para o Ali, as pessoas se aproximavam, punham a mão no meu ombro e diziam: “Tudo bem, George. Você vai ter outra chance”. De um homem temido, passei a ser objeto de pena. Cara, isso é uma queda muito grande.

Imagine perder em dez segundos tudo o que você acha que é importante na sua vida.

Vou lhe dizer a que ponto um homem pode despencar. Tinha uma música do B. B. King que dizia: “Ninguém me ama, a não ser minha mãe/ E ela também pode estar só fingindo”.

O mal está de tocaia ali onde a frustração faz a sua morada.

Todos os meus filhos se chamam George Foreman.

Mudar a natureza da gente é a coisa mais difícil. Mas descobri que a gente pode ser aquilo que escolher.

Conquistar o título pela segunda vez, contra Michael Moore, foi um momento especial. Porém não foi nada além disso. Uma semana depois, as pessoas me cobriam de elogios, e foi duro, porque tive de agir como se aquilo ainda fosse importante. Mas já tinha acabado.

Pregar é a coisa mais original que já fiz. Não tem nada de simples. A gente tem de ter coragem.

Perder a mãe é a perda mais misteriosa que existe. Sabe aquele jeito como os astronautas andam no espaço, presos à nave espacial por um cabo? Na hora em que a gente descobre que a mãe morreu, a gente se sente como se o cabo tivesse arrebentado e se soltado da nave espacial. A gente fica lá flutuando no vazio. Flutuando… Flutuando… Lembro que a minha filha telefonou e disse: “Não se preocupe. Eu já estou indo para aí”. E de repente o cabo se prendeu de novo e eu estava ancorado outra vez.

A primeira coisa que me veio à cabeça quando assinei o contrato do George Foreman Grill, pelo valor de 137,5 milhões de dólares, foi: vou fazer minhas irmãs ficarem milionárias. Depois de tantos anos, elas vão afinal ficar milionárias. E ficaram milionárias mesmo – com os mesmos velhos problemas de todo mundo.

Eu adoro o Joe Frazier. Ele foi um cara original desde o início. Alguns anos atrás, Joe, Muhammad e eu fizemos um vídeo na Inglaterra. Depois da gravação, a gente foi a um jantar beneficente com alguém da família real. Estavam servindo costeletas de carneiro com gelatina de menta – uma comida maravilhosa. O garçom perguntou: “Posso lhe servir mais alguma coisa?” E o Joe disse: “Quero mais um pouco da geléia verde”. O garçom respondeu: “O senhor se refere ao molho de menta?” Joe respondeu: “Dá na mesma“. Aí eu pensei: Há gente que tem muitas caras, uma cara para um e outra cara para outro. Mas esse homem tem só uma cara. “Dá na mesma.” Se você entendeu o que ele disse, por que precisa corrigir?

Não consigo parar de fazer exercício.

Depois que perdi para o Ali, no Zaire, espalhei para todo mundo que fui roubado. As cordas estavam frouxas, a água estava batizada com drogas… Então, quando mudei a minha natureza, me dei conta da minha mancada. Por que eu tinha de cuspir na vitória daquele grande homem?

Liguei para Muhammad Ali outro dia. Falei: “Muhammad, acho que agora eu posso derrotar você numa revanche”. Ele respondeu: “Está maluco!” Ele não fala depressa, mas me disse: “George, vou aí visitar você”. Falou com amor. Não, eu não tenho mágoas.

Minha mãe me dizia: “A gente vive e aprende. Depois a gente morre e esquece tudo“.

George Foreman

George Foreman foi duas vezes campeão mundial de boxe, na categoria peso pesado. É empresário do ramo de grelhas caseiras e pastor.

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