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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

esquina

A grande chance

Peneira no Sub-20 do America

Tiago Coelho | Edição 113, Fevereiro 2016

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Os garotos do Sub-20 do America Football Club, no Rio de Janeiro, trabalhavam duro na praia da Barra, em meados de dezembro de 2015. Sentado à margem do grupo, com o olhar abatido, Franklin Silva observava os colegas que faziam exercícios na areia. Com pintas vermelhas nos braços e sentindo-se febril, o rapaz de 17 anos havia sido impedido de treinar. Mais tarde descobriria que estava com o vírus zika. “O time está sendo formado para o Campeonato Carioca. Corro o risco de ficar fora do grupo.”

O último a chegar para o treino foi Washington Mendes, 19 anos, um garoto negro e pequeno. Estava atrasado. Os outros já tinham começado a corrida de quase 2 quilômetros até o Posto 6. Mendes se trocou depressa, ali mesmo no calçadão, fez o aquecimento e partiu no encalço dos demais. Abatido, Franklin Silva se levantou e foi embora. Seus colegas voltavam da corrida. Mendes, surpreendentemente, foi o primeiro a chegar. Um dos mais altos e mais velhos da equipe, Jackson Klayton, 20 anos, foi o segundo. “O Campeonato Carioca é a chance de ser visto e chamado pra um time profissional”, explicou. Depois de quatro anos na segunda divisão, o America volta à série A do torneio estadual fluminense em 2016. Pelas regras, o time do Sub-20 também sobe.

Na divisão de base, os garotos são identificados, muitas vezes, pelo ano de nascimento. “Aquele é de 97, ainda tem tempo”; “aquele outro ali é de 98, novinho ainda”, comentavam preparadores físicos, dirigentes e técnicos. Klayton é de 96. Este é o último ano dele no Sub-20.

No início de janeiro de 2016, os garotos voltaram a treinar com força. Franklin Silva estava de volta aos trabalhos. No estádio do America, em Mesquita, Baixada Fluminense, os meninos teriam um jogo-treino contra o time adulto. Era uma espécie de peneira. A grande chance: os jovens seriam avaliados pelo clube, para saber quem poderia, ocasionalmente, ser chamado para alguma partida do profissional.

Ainda no vestiário, o técnico do Sub-20, de prancheta nas mãos, passou as instruções para o jogo. Sérgio Freitas é um homem baixinho, de olhos azuis pequenos e atentos. Antes de liberar o time para o campo, reuniu os jogadores numa oração. Rezaram um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Em seguida o técnico pediu bênçãos a Deus para toda a equipe, como nos rituais neopentecostais. De olhos fechados, os rapazes balbuciavam preces, erguiam os braços e apontavam o dedo indicador para o alto.

Lá fora caía uma chuva copiosa, que encharcava o campo. Klayton, Sant’Ana e Ian Pedro estavam no time titular. Washington Mendes, Franklin Silva, Marlon Iury Gomes e Wilson Cruz – o Neto – ficaram na reserva, e treinaram na cabeceira do campo enquanto o jogo corria.

Da arquibancada, o pai de Franklin Silva acompanhava a partida. Já recuperado da infecção, o garoto afirmava não estar aborrecido por não ter sido selecionado para o time titular. Garantiu que sua hora chegaria. “Meu pai me apoia muito. Acho que ele não está chateado por eu não estar jogando.” Ficou em silêncio, deu um sorriso enviesado. “Acho que não”, insistiu. Com o olhar perdido na arquibancada quase vazia, o reserva Marlon Gomes argumentou que, se tivesse pai, talvez ele o ajudasse a conseguir um contrato. Alguns dos jogadores ganham uma bolsa-auxílio de 400 reais. Outros, como Gomes, não recebem nada. Na falta do pai, quem o ajuda é o dono da fábrica de gelo onde trabalha, em Acari. “Ele é como um pai pra mim. Além do salário, ele me patrocina com o dinheiro da passagem para vir ao treino, todos os dias.”

À beira do gramado, com uma capa de chuva azul, o treinador gritava, passando instruções. Não adiantou. O time do Sub-20 perdeu de 1 a 0 para o profissional. Os titulares tiraram o uniforme encharcado e foram para o chuveiro. Anoiteceu, e a chuva não parava de cair. O campo estava vazio, os garotos esperavam a tempestade dar trégua para poder ir embora. Antes de sair, ainda debaixo do temporal, Sérgio Freitas se voltou para os rapazes, que, à distância, faziam algazarra debaixo de uma marquise. “Deus botou a gente na primeira divisão. Esse é o campeonato da vida deles. E da minha também.”

 

O centro de treinamento dos times de base do America fica em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Cerca de trinta jovens do time Sub-20 participam regularmente dos treinos ali. Outras dezenas de garotos aparecem quase diariamente para fazer testes. Na manhã seguinte à do jogo contra o time de profissionais, uma partida pescaria possíveis talentos que pudessem integrar os reservas do Sub-20.

Para quem já estava no banco, era hora de mostrar trabalho. Os de fora tentavam cavar uma chance. Num lance rápido, Marlon Gomes bateu o escanteio e gritou o nome de Neto. O garoto se apresentou na área e marcou de cabeça. Sérgio Freitas decidiu trocar Ian Pedro de Alvarenga, que saiu contrariado. Franklin Silva, visivelmente animado, ocupou seu lugar. Mas o técnico, agora, só tinha olhos para um lateral que corria vigorosamente pelo campo e fazia jogadas precisas. “Olha aquele garoto lá. É de 98. Já está pronto. Nem sei o nome dele, mas é um talento.”

Final de jogo. Freitas chamou o lateral que tinha despertado sua atenção. “Ei, você! Já treinou em algum clube?” O jogador negro, estatura mediana, respondeu que sim, no Vasco e no Fluminense, mas fora dispensado pelos dois. “Qual é o seu nome?”, perguntou o treinador. “Gabriel Viana.” O técnico   o observou com atenção: “Vou te chamar de Viana. Nome de jogador. Fica aqui com a gente, vou te treinar.” O garoto sorriu, tímido. “Obrigado, professor.”

Enquanto atravessava o campo vazio, Freitas ponderou: “Hoje em dia, os clubes não querem trabalho. Procuram alguém já pronto. Eu vou lapidar esse menino, você vai ver.” Virou-se depois para mirar o campinho modesto e irregular, no qual trabalha há quinze anos. “O que eu quero mesmo é que esses garotos se deem bem na carreira. Está nos planos de Deus.” Enquanto caminhava em direção ao vestiário, encontrou uma camisa do time, suja, largada no meio do gramado. Recolheu a peça do uniforme e balançou a cabeça: “Esses moleques.”