minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
piauí jogos

    Os afegãos Mahboba Rezayi, Masuma Yavari, Matin Wakily, Shigofa Rasouli e Zahra Karimi, com Luciana Capobianco, diretora da ONG Estou Refugiado (segunda, da esq. à dir.): apesar do visto brasileiro, alguns tentam entrar nos Estados Unidos CRÉDITO: EGBERTO NOGUEIRA_ÍMÃ FOTOGALERIA_2022

questões geopolíticas

A grande diáspora

Afegãos buscam refúgio no Brasil, país que lhes concede o visto humanitário mais amplo do mundo

Consuelo Dieguez | Edição 196, Janeiro 2023

A+ A- A

O iraniano Ali Javidfar, agente de atendimento do consulado do Brasil em Teerã, é um homem alto, forte e completamente calvo, apesar dos seus 38 anos. Até 3 de setembro de 2021, ele lidava com a rotineira burocracia consular, atendendo os poucos brasileiros que residem no país ou os iranianos interessados em viajar ao Brasil, a negócios ou a turismo. A partir daquele dia, quando o governo brasileiro baixou uma portaria autorizando a concessão de vistos humanitários a refugiados afegãos, a vida de Javidfar passou a girar em torno da dor alheia. “Você está vendo este pouco de cabelo que me resta?”, ele me perguntou, em junho passado, enquanto apontava os raríssimos fios nas têmporas. “Está branco. Branco de lidar com o drama dessas pessoas. Nunca pensei que ouviria relatos tão brutais como os que eles contam. Como o ser humano pode submeter o semelhante a tamanho sofrimento?”

Desde que começou a lidar com a tragédia dos afegãos, Javidfar passou a ter dificuldade para dormir e, vez ou outra, tem pesadelos. Sua carga de trabalho é dura. Ele atende no consulado das nove da manhã até cinco da tarde, fazendo apenas uma pausa breve para o almoço. Suas férias foram adiadas. Tudo isso ocorreu porque a embaixada brasileira em Teerã – onde também funciona o consulado – virou local de romaria de refugiados depois que o Talibã tomou o poder no Afeganistão, em 15 de agosto de 2021, e passou a perseguir, prender, torturar e matar todos que considera “infiéis”. Os afegãos estão fugindo para o Irã e países próximos – como Paquistão, Rússia, Turquia e Emirados Árabes Unidos – e tentam encontrar uma nova pátria, que os abrigue em definitivo. A maioria dos países do mundo, entretanto, só tem concedido a eles, quando o fazem, vistos temporários – que demoram muito a ser emitidos, o que, para os afegãos, pode custar a vida.

Até o momento, o Brasil é o único que está concedendo um visto humanitário abrangente aos afegãos, o que lhes dá direito a fixar residência permanente no país. A Austrália também concede visto humanitário, porém com restrições. Devido a isso, um grande número de refugiados tem se dirigido às embaixadas brasileiras em Teerã, Islamabad, Moscou, Ancara e Abu Dhabi, que, por estarem mais próximas do Afeganistão, foram autorizadas pelo Ministério das Relações Exteriores a conceder os vistos humanitários.

Os refugiados chegam exaustos e traumatizados ao Irã. Vários deles, inclusive crianças, trazem cicatrizes de chicotadas, de queimaduras com água fervente e de torturas feitas pelo Talibã. Outros carregam ferimentos adquiridos durante a fuga, ao cruzarem a fronteira a pé. Eles relatam casos de estupro de mulheres na frente dos filhos e maridos. Muitos contam que tiveram familiares degolados ou mortos a tiros no lugar deles, por vingança, uma vez que o Talibã não os encontrou. Outras pessoas capturadas são, às vezes, submetidas a julgamento, apenas para dar à prisão uma aparência de legalidade. Mas a sentença é quase sempre a mesma: pena de morte.

A maioria dos afegãos que trabalhou para os governos anteriores, para organismos norte-americanos ou europeus, empresas estrangeiras e ONGs internacionais que atuavam no país antes do Talibã corre o risco de ser morta. As categorias mais perseguidas são os funcionários públicos civis, principalmente juízes e promotores, os integrantes das antigas Forças Armadas e das polícias, além de jornalistas, professores, intérpretes e ativistas sociais.

É para esses afegãos que o governo brasileiro tem priorizado a concessão de visto. Por isso, grande número dos afegãos que chega ao Brasil faz parte da elite cultural e econômica do país. Pesa também a questão financeira, já que muitos têm que bancar com os próprios recursos a viagem para São Paulo, a começar pelo bilhete aéreo, que custa em torno de 1 mil dólares (cerca de 5,5 mil reais) – somente a vinda.

 

A Embaixada do Brasil em Teerã está instalada em um prédio de oito andares, de arquitetura eclética, numa rua pacata de um bairro sofisticado da capital. Diariamente, quase uma centena de refugiados afegãos se dirige para lá na tentativa de ser atendido. E a fila em frente ao prédio é cada vez maior. Para evitar tumulto e reclamações dos vizinhos, a embaixada passou a atender com hora marcada por e-mail, estabelecendo um limite diário de cinquenta pessoas. Não adiantou. O desespero é tamanho que mesmo quem não tem hora marcada se posta em frente ao portão na esperança de conseguir entrar.

Para ajudar no trabalho, o Ministério das Relações Exteriores enviou mais um funcionário a Teerã, Antônio Alves Bezerra, que atua agora como vice-cônsul. A previsão era que ele ficasse no país por três meses, mas em junho Bezerra já completara dez meses e teve a sua permanência estendida, sem data para o retorno. A embaixada tem poucos braços para atender tanta gente – são 21 funcionários no total, sendo seis no consulado. Bezerra conta que, desde que começou a fazer o atendimento aos afegãos, sua vida ganhou novo sentido. “Me sinto bem de poder ajudar tanta gente”, disse ele, enquanto me mostrava cartas escritas  pelos solicitantes de visto. “Veja, são famílias muito jovens. Todas com histórias de ameaça e perseguição, de perda de esperança e falta de perspectiva. É bom saber que nosso país está fazendo algo por elas.”

Quem chega à embaixada se depara com cenas desalentadoras. Cada vez que o portão é aberto para a entrada de um funcionário, visitante ou solicitante de visto com hora marcada, os guardas precisam impedir o avanço de vários refugiados sem agendamento que também querem entrar. Desesperados, eles interceptam os visitantes e pedem para acompanhá-los. Mães exibem filhos, alguns machucados. Idosos agarram os braços dos funcionários. Quando uma pessoa se dispõe a ouvir um dos refugiados, ela é logo cercada por outros, igualmente aflitos para dar seu testemunho. Cada história é mais terrível que a outra. Quem conseguiu escapar do Afeganistão garante ter fugido do inferno.

Até julho de 2022, como havia mais de 9 mil pedidos de visto humanitário na embaixada, o agendamento foi bloqueado automaticamente pelo sistema, por ter ultrapassado a capacidade de atendimento. Com o limite diário de cinquenta pessoas – que serão entrevistadas por Javidfar –, ainda levará muito tempo até que todos os agendados sejam recebidos. Os que conseguem marcar um horário entregam ao consulado – responsável pelo processo de asilo – um conjunto de documentos que é conferido pelos funcionários e depois expedido pa­ra o Brasil, o mais rapidamente possível, por ordem do embaixador brasileiro no Irã, Laudemar Aguiar Neto.

No Brasil, os papéis são analisados pela Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que investigam os antecedentes dos solicitantes, a fim de evitar que integrantes do Talibã ou algum criminoso se infiltre entre os refugiados. Somente depois desse procedimento, que leva cerca de vinte dias, dependendo do caso, os vistos são concedidos. A prioridade é dada aos afegãos mais vulneráveis e os que contam com apoio de instituições civis brasileiras, como igrejas e ONGs, para recebê-los, já que o governo não banca a mudança dessas pessoas.

Dentro da embaixada os afegãos recebem um atendimento digno. Eles se acomodam em sofás confortáveis na ampla recepção, no primeiro andar, e são chamados pelo nome. É Javidfar quem os recebe porque é o único funcionário do consulado nessa função que sabe farsi, o idioma persa, falado no Irã, parecido com o dari ou o pachto dos afegãos (a maioria dos refugiados fala mal o inglês e não sabe nada de português). Separado por um balcão com um painel de vidro, herança da pandemia, Javidfar cumpre sua rotina.

 

Em uma terça-feira de junho, pela manhã, um dos primeiros a serem chamados foi um jovem casal. Ele era promotor de Justiça no Afeganistão, e ela, ex-funcionária de uma organização norte-­americana no país. Ambos estavam bem-vestidos, com roupas ocidentais, a mulher portando um véu sobre a cabeça, como é obrigatório tanto em seu país como no Irã. Eles se sentaram diante de Javidfar e, com olhos aflitos, entregaram seus passaportes. Primeiro, o atendente examinou se tinham visto de permanência no Irã. A pedido do governo iraniano, foi estabelecido que o Brasil só dará visto humanitário aos afegãos que tenham registrado a sua entrada no país. Com isso, o Irã tenta manter o controle dos milhares de refugiados que cruzam diariamente a sua fronteira.

O jovem promotor (seu nome não é citado aqui por razões de segurança) anexou aos documentos algumas fotos para comprovar a situação de risco dele e da mulher. Eram imagens terríveis de parentes assassinados pelo Talibã. Em uma delas, homens apareciam caídos no chão de uma sala, com marcas de tiros e facadas, em meio a poças de sangue. O promotor disse tratar-se do seu pai, de um tio e de primos. Todos foram mortos pelo Talibã no lugar dele, uma vez que não o encontraram. O casal estava na lista de prioridade para conseguir o visto.

Assim que o casal deixou a sala, Javid­far disse que situações como aquela são recorrentes entre os refugiados. Ele contou que, dias antes, uma família chegou com a mãe, já idosa, em uma cadeira de rodas. Ela tinha sido espancada quase até a morte no lugar do filho, que também não havia sido encontrado. No rol de barbaridades, também consta o caso de três adolescentes e uma irmã de 23 anos que foram enviadas ao Brasil antes dos pais. A mãe havia sido queimada com água fervente porque o marido não foi encontrado. Ela teve que passar por um tratamento no Irã e aguardava a recuperação para vir ao Brasil com o marido e finalmente se reunir às filhas.

Javidfar consultou uma lista de pessoas que esperavam ser atendidas e chamou dois irmãos. Eles entraram e lhe entregaram os documentos, mas o funcionário do consulado não encontrou os nomes deles na relação oficial que constava no computador. Intrigado, procurou de novo. Nada. Perguntou então como eles haviam agendado o pedido de visto. Os homens revelaram que pagaram um intermediador para fazer o agendamento. O documento que haviam entregado na portaria da embaixada para terem seus nomes na fila era falso.

O serviço do intermediador custou mais de 2 mil dólares (cerca de 11 mil reais), o que é uma fortuna para os afegãos. “Colocamos todo o nosso dinheiro nisso”, disse um deles. Javidfar explicou que é comum as pessoas desesperadas por um visto serem enganadas por atravessadores, e informou aos irmãos que eles teriam que fazer o pedido novamente, embora, naquele momento, não houvesse previsão de novas marcações. Também os alertou que os vistos humanitários para o Brasil são concedidos gratuitamente. Os dois se levantaram, cabisbaixos, e foram embora.

Um ex-comerciante no Afeganistão foi o próximo a se sentar na frente do funcionário. Mostrou seu passaporte e os da família, mas também foi recusado. Ele não tinha visto de permanência no Irã. Desesperado, o homem mostrou no celular as fotos e os vídeos da sua viagem a pé até a fronteira. Nas imagens, era possível ver quase uma centena de pessoas seguindo, feito formigas, pela cadeia de montanhas que é preciso cruzar para alcançar o Irã. O homem contou que estava sendo perseguido porque sua empresa, que empregava quinze pessoas, tinha feito serviços para estrangeiros. “O que podíamos fazer? Os estrangeiros ficaram lá por vinte anos”, disse. Javidfar lamentou não poder atendê-lo e informou que ele teria que voltar ao Afeganistão para conseguir o documento de entrada legal no Irã. O homem, que estava sozinho, mirou Javidfar, incrédulo. Não acreditava que teria que enfrentar novamente a dura jornada de volta até Cabul para pegar o visto no consulado do Irã. E, mesmo que conseguisse chegar lá, tinha dúvidas de que sobreviveria depois. Os guardas afegãos da fronteira têm dito às pessoas em fuga do país que, caso voltem, elas serão mortas.

No saguão da embaixada, uma jovem vestindo uma túnica preta e um véu azul-petróleo tentou me contar, num inglês precário, sua história, enquanto aguardava ser atendida. Disse que seu marido é músico, e ela, atriz. Nenhum dos dois podia mais trabalhar no Afeganistão. “Não tínhamos como sobreviver. Não temos mais música, não temos mais arte nenhuma no país. Não podemos ser quem somos.”

O escaninho do consulado logo fica abarrotado de documentos de afegãos. Em geral, cada solicitante chega com uma pilha de passaportes, pois as famílias costumam ser numerosas. Os pedidos de vistos são para o marido, a mulher e os filhos, mas podem incluir os pais do casal, os irmãos e suas mulheres e filhos. O Afeganistão vive uma fuga em massa.

 

A paquistanesa Duniya Aslam é chefe de comunicação do escritório da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) em Teerã. Ela estava no Iêmen, outro país em crise, antes de ser transferida para a capital iraniana a fim de cuidar dos refugiados. Com voz suave, mas sem esconder a indignação, ela falou sobre a dificuldade dos afegãos de conseguir asilo na Europa, no Canadá e nos Estados Unidos. “Todos esses países, de certa forma, ajudaram a criar a confusão no país, e agora deveriam ajudar os refugiados.”

Aslam acha que a recusa na concessão de vistos se dá em parte devido ao preconceito. A situação piorou muito após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro deste ano. “A mídia esqueceu completamente os afegãos. Passou a falar apenas dos ucranianos, que tiveram enorme acolhida, tanto por parte dos europeus como dos norte-americanos e canadenses”, disse.

Dias antes do meu encontro com ela, em Teerã, refugiados afegãos haviam feito um grande protesto em Islamabad, capital do Paquistão, cobrando da comunidade internacional o mesmo tratamento concedido aos ucranianos. As crianças afegãs portavam cartazes perguntando se a cor da pele fazia diferença na hora de conceder asilo. Um dos cartazes dizia: “Somos iguais às crianças ucranianas. Por que o mundo não olha também para nós?” Aslam contou que ficou furiosa ao ouvir jornalistas se compadecendo dos ucranianos e tratando os outros refugiados com desprezo. “Os jornalistas diziam: ‘Eles são europeus, são civilizados. Não são africanos, árabes, afegãos.’ É preciso empatia. Por que as pessoas acham que a cor da pele é definidora da civilidade?”

A Acnur estima que por volta de 800 mil pessoas fugiram do Afeganistão para o Irã desde agosto de 2021. Com isso, a população de afegãos no território iraniano passou a cerca de 4 milhões, incluídos os que já viviam lá. Para o Paquistão fugiram cerca de 250 mil. Outro tanto se dirigiu ao Cazaquistão, ao Uzbequistão e à Turquia. Vários foram resgatados no Afeganistão pelos norte-americanos, europeus e canadenses porque trabalhavam para seus governos. Pelo levantamento da agência da ONU, mais de 2 milhões de afegãos deixaram seu país após a tomada do poder pelo Talibã. Esse deslocamento fenomenal representa 5% da população do Afeganistão, que tem 40 milhões de habitantes.

As nações vizinhas enfrentam dificuldades para abrigar tantos refugiados. “O Irã tem uma boa política de acolhimento. O problema é que não tem mais capacidade de abrigar tanta gente”, disse Aslam. “Os serviços públicos de saúde e educação estão saturados. Aqui, 96% dos refugiados afegãos vivem em cidades e vilas, e apenas 4% em campos de refugiados. É diferente do que ocorre no Líbano e no Egito, onde a maioria dos refugiados fica confinada.” De uma hora para outra, o Irã teve que se virar para dar conta de atender quase 1 milhão de novas pessoas.

A situação é ainda mais complicada porque o Irã enfrenta sérios problemas econômicos em razão das sanções impostas pelos Estados Unidos contra a política nuclear do país. As sanções haviam sido parcialmente suspensas durante o governo de Barack Obama, mas foram retomadas pelo republicano Donald Trump e mantidas pelo democrata Joe Biden. “O povo sofre demais com as restrições”, afirmou Aslam. “O país só tem autorização para importar alimentos e remédios, e as suas exportações também são controladas. Se já é difícil atender aos iranianos, imagina as dificuldades com a entrada em massa dos refugiados.”

Como se não bastasse, a pandemia de Covid levou ao fechamento de muitas empresas no Irã e ao consequente desemprego. A comunidade internacional prometeu enviar em torno de 100 milhões de dólares ao país para atender aos refugiados, mas apenas 50% desses recursos chegaram, de acordo com Aslam. Desde 16 de setembro passado, a situação no Irã se agravou devido às manifestações que se espalharam pelo país contra a polícia moral. O estopim da revolta foi a morte de uma jovem de 22 anos depois de ela ser presa por estar usando “indevidamente” o hijab, o véu islâmico. A repressão aos protestos já causou mais de 400 mortes.

Aslam contou que as crianças e os jovens afegãos estão autorizados a estudar no Irã. Todos os refugiados têm acesso aos serviços de saúde e seguro. “Mas, em um país em que todos estão brigando por bons serviços e empregos, como esperar que refugiados tenham espaço?” Sem emprego e sem perspectiva, tanto no Irã como no Paquistão, os afegãos buscam socorro no Brasil, uma vez que as portas da Europa e dos Estados Unidos estão fechadas para eles.

Existe, hoje, de acordo com a Acnur, cerca de 100 milhões de refugiados (que recebem visto nessa condição) e deslocados no mundo, de várias nacionalidades, quase metade deles formada por crianças. Esse número representa mais de 1% da população do planeta, estimada em 8 bilhões. É um número recorde na história mundial. Essa grande diáspora atual, que superou até mesmo a provocada pela Segunda Guerra Mundial, se dá por várias razões: guerras, crises econômicas, perseguições religiosas, étnicas e políticas.

Ao contrário do imigrante, o refugiado não escolhe deixar seu país. É uma pessoa que corre o risco de morrer se não trocar de pátria. Além do Afeganistão, mais de uma dezena de países vive atualmente em situação de grande crise ou conflito, entre eles Ucrânia, Síria, Palestina, Iêmen, Sudão do Sul, Congo, Somália, Burundi, Mianmar e Venezuela. As economias desses lugares estão em colapso. As crianças não podem ir à escola, os serviços de saúde praticamente deixaram de existir, os ataques por bombas e armas ocorrem diariamente. A melhor alternativa é fugir.

“As pessoas pensam que os refugiados são mendigos, criminosos. Não é verdade. Quando fogem, levam consigo as habilidades que têm”, afirma Aslam. Entre os refugiados afegãos que escolheram o Brasil, por exemplo, há médicos, engenheiros, cientistas, professores, jornalistas, artistas, especialistas em computação e artesãos. “Os afegãos são bem preparados, eles têm muito a contribuir com os países que os recebem”, diz ela. “Nos últimos vinte anos, quando empresas e organizações estrangeiras se instalaram no Afeganistão, muitos fizeram pós-graduação no exterior e voltaram com grande expertise, repassando o seu conhecimento. Não à toa o governo norte-­americano acolheu vários desses profissionais.” Aslam dá o exemplo da maior fábrica de ternos do Irã, de um imigrante afegão, que hoje emprega os refugiados do seu país: 80% dos funcionários são afegãos, sendo 60% mulheres.

 

O Afeganistão talvez seja um dos países que mais enfrentou conflitos nos últimos quarenta anos. Em 1973, após um golpe de Estado, o rei Mohammed Zahir Shah foi deposto e o país se tornou uma república. Cinco anos depois, outro golpe – e assumiu o poder um governo de inclinação comunista, apoiado pela União Soviética. Inconformados com a presença dos russos nas proximidades do Golfo Pérsico, principalmente por causa do petróleo da região, os Estados Unidos e a Inglaterra, junto com o Paquistão e a Arábia Saudita, passaram a apoiar, em 1979, grupos rebeldes que se opunham ao novo governo. O apoio incluía o fornecimento de armas e logística.

Na tentativa de proteger o governo aliado, a União Soviética enviou tropas ao Afeganistão para enfrentar a guerrilha. O resultado foi uma guerra sangrenta que durou dez anos e deixou milhares de mortos e refugiados. Os afegãos xiitas se deslocaram para o Irã, onde os seguidores desse ramo do islã são majoritários. Os refugiados sunitas foram para o Paquistão, aliado da Arábia Saudita.

Derrotadas, as tropas soviéticas saíram do país em 1989. O Afeganistão ficou nas mãos de um dos grupos rebeldes patrocinado pelos Estados Unidos, o Talibã, que, de início, recebeu apoio da população, cansada da guerra, da fome e da insegurança. A lua de mel do povo com o novo regime acabou logo. O Talibã instituiu um governo de fanáticos religiosos, perseguindo os xiitas,  as pessoas ligadas ao antigo regime, principalmente os comunistas, e os hazaras (povo da região central do Afeganistão que no século XIX teve 62% de sua população dizimada). Também proibiu as mulheres de frequentar escolas e de trabalhar. O terror implantado no país provocou mais mortes e novas ondas de refugiados.

Não bastassem as agruras sofridas sob o domínio do Talibã, os afegãos tiveram que lidar com uma nova guerra. Em 2001, depois do ataque às torres gêmeas em Nova York, o governo norte-americano saiu à caça dos integrantes da organização terrorista Al Qaeda, liderada por Osama bin Laden, ironicamente um membro da família real saudita, ligada aos norte-americanos. Aliados do Talibã, a Al Qaeda e Bin Laden receberam abrigo no Afeganistão. No dia 7 de outubro daquele ano, aviões norte-americanos bombardearam as montanhas de Tora Bora, onde ficam as cavernas em que os terroristas estavam escondidos. Por fim, os Estados Unidos derrubaram o Talibã, seu ex-aliado, e instalaram um novo governo, que passaram a monitorar, com o apoio dos europeus.

No começo de 2002, as Nações Unidas enviaram uma equipe de funcionários para acompanhar o processo de paz no país. O chefe da missão era o argelino Lakhdar Brahimi, veterano da guerra de independência da Argélia e ex-embaixador de seu país na Inglaterra. O responsável pela comunicação da missão era o jornalista brasileiro Manoel de Almeida e Silva, porta-voz do então secretário-­geral da ONU, Kofi Annan. Durante três anos, Silva morou em Cabul. Em outubro passado, ele me contou suas impressões daquele período, durante uma conversa em seu apartamento no Rio de Janeiro, com vista para o mar de Copacabana. “Quando desembarquei em Cabul, em janeiro de 2002, as ruas estavam desertas não só por causa do inverno rigoroso, mas pela destruição deixada pelos anos de guerra entre a União Soviética e os rebeldes”, relembrou.

Em meio ao cenário de desolação, chamou a atenção de Silva o espírito de organização dos afegãos: “Embora raríssimos veículos estivessem em circulação, um guarda, sobre um pequeno pedestal, controlava o trânsito quase inexistente.” Quando o carro com a delegação da ONU parou quase em frente ao palácio do governo, um homem de barba e turbante, montado em uma bicicleta, estacionou ao lado. Silva temeu pelo pior ao vê-lo retirar algo do bolso da túnica. Mas era apenas um espelho e um pente, com o qual passou a ajeitar a sua barba. “Veja só: nós estamos falando de um povo que conserva as noções de civilidade mesmo em meio ao caos em que está metido.” Na tentativa de ajudar as crianças afegãs a superar os traumas de guerra, a missão da ONU criou um jogo de tabuleiro para ser adotado nas escolas. Chamava-se Caminho para o Futuro e fez grande sucesso.

Naquela época, a Conferência Internacional sobre o Afeganistão em Bonn, na Alemanha, reuniu líderes de nações do Ocidente e do Oriente Médio, além do Afeganistão, e definiu que, a fim de unir o país, várias facções políticas afegãs participariam da formação de um governo de coalizão. Mas excluiu o Talibã do processo. “O erro começou aí”, afirmou Silva. “Lançados na ilegalidade, os integrantes do Talibã passaram a ser perseguidos, presos, julgados e condenados.” Muitos buscaram abrigo no Paquistão e nos confins do próprio Afeganistão. Enquanto seu ressentimento aumentava, o Talibã se recriava como força rebelde.

Ficou acertado na conferência em Bonn que o Afeganistão faria uma nova Constituição. Para isso, delegados escolhidos nas cidades e nas vilas, inclusive mulheres, se reuniriam em Cabul. O sistema preferido pela população era a monarquia, me contou um analista afegão que pediu anonimato, por razões de segurança. O rei Zahir Shah chegou a voltar ao país. Mas os Estados Unidos, aliados de integrantes de outras facções políticas, não aceitaram essa solução. “Quando percebeu que os norte-americanos e antigos grupos iriam decidir os destinos do Afeganistão, a sociedade se desiludiu”, afirmou o analista. A comunidade internacional enviou bilhões de dólares para a reconstrução do país, mas a maior parte do dinheiro foi desviada pela corrupção. Segundo o analista, políticos ligados aos norte-americanos eram os que mais se envolviam nos esquemas corruptos. Para evitar conflitos, os Estados Unidos faziam vista grossa.

Ainda assim, muitas pessoas voltaram do exílio na esperança de ajudar na reconstrução do país. Uma sensação de bem-estar se espalhou pelo Afeganistão. As mulheres puderam voltar a estudar, inclusive na universidade, a trabalhar e ocupar cargos importantes na administração pública, na política, na polícia e nas Forças Armadas. Até o Poder Judiciário se abriu para elas, e sete jovens juízas foram empregadas na Corte Nacional de Justiça, inclusive julgando e condenando ex-­integrantes do Talibã por violação dos direitos humanos. As pesadas burcas foram substituídas por roupas ocidentais, embora ainda se mantivesse o costume muçulmano do uso do véu. Os rapazes nas grandes cidades cortaram a barba e adotaram ternos para trabalhar em empresas mais modernas, como as de tecnologia. A música, a dança e as artes em geral foram autorizadas. A imprensa era razoavelmente livre.

No subterrâneo da nação, porém, o caos estava sendo gestado mais uma vez. Enquanto a corrupção enriquecia alguns, grande parte da sociedade empobrecia. “O dinheiro era levado para fora do país por meio de um sistema de lavagem espetacular”, disse o analista afegão. A falta de perspectiva econômica se ampliou – e o otimismo inicial foi dando lugar à insatisfação. Além disso, a presença militar estrangeira era brutal e insensível. O afegão é um povo de costumes tradicionais. Mesmo na casa mais modesta, as pessoas deixam os sapatos do lado de fora. Os militares norte-americanos não respeitavam essas regras. Em busca de terroristas, entravam nas residências sem retirar os coturnos – o que era uma grande ofensa para os afegãos. Enquanto isso, o Talibã começava a preparar seu retorno.

No ano passado, quando o governo norte-americano manifestou sua intenção de deixar o país, os afegãos passaram a se preocupar com uma eventual volta do Talibã ao poder. O pessoal da área do direito foi o primeiro a denunciar publicamente que o país estava sob risco. Numa reunião da Associação Internacional de Mulheres Juízas, na Nova Zelândia, em maio de 2021, algumas delas manifestaram sua preocupação com o que poderia ocorrer. E mais: que os magistrados que julgaram integrantes do Talibã corriam risco de morte.

Em julho de 2021, com o início da saída dos norte-americanos, começaram a pipocar notícias de que o Talibã estava tomando áreas do interior do país. Mas a maioria das pessoas acreditava que as Forças Armadas afegãs as protegeriam, antes que os guerrilheiros chegassem a Cabul, trazendo de volta o velho regime. Quando barulhos de bombas e tiros começaram a ser ouvidos às portas da capital, não restou mais dúvida: o governo estava chegando ao fim.

Em agosto de 2021, os norte-americanos saíram às pressas do país, deixando os afegãos à sua própria sorte. Juízes e promotores passaram a ser caçados em suas casas, enquanto o Talibã abria as cadeias, libertando os presos condenados. Funcionários de empresas e organizações estrangeiras também corriam risco. O aviso do Talibã era claro: todos os que haviam trabalhado para os governos anteriores ou para organizações internacionais eram “infiéis” e, portanto, sujeitos à prisão e até a sentença de morte.

 

A juíza Renata Gil de Alcantara Videira, presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), estava em seu gabinete em Brasília quando assistiu chocada, em 15 de agosto de 2021, à tomada de poder no Afeganistão. Nesse dia, Cabul foi invadida pelo Talibã e o mundo testemunhou cenas de horror, com milhares de afegãos ocupando o aeroporto da capital, na desesperada tentativa de escapar em alguma das últimas aeronaves que deixavam o país. Pessoas chegaram a se agarrar à fuselagem dos aviões, enquanto decolavam e despencavam das alturas, como ocorreu com um jogador de futebol de 19 anos, Zaki Anwari.

Ao ver essas cenas, Videira se lembrou do alerta feito na Nova Zelândia, três meses antes, de que os magistrados afegãos estavam em perigo e ligou para a juíza Maria Domitila Manssur Domingos, sua amiga, em São Paulo. Por coincidência, no dia seguinte, a União Internacional de Magistrados entrou em contato com a AMB pedindo ajuda para resgatar urgentemente as sete juízas afegãs.

Videira não perdeu tempo. Foi ao Ministério das Relações Exteriores e, ao se encontrar com o secretário-geral, Fernando Simas Magalhães, soube que era necessária a edição de uma portaria interministerial para incluir os refugiados afegãos no programa de concessão de vistos humanitários, como já ocorria com venezuelanos, haitianos e sírios. Outras organizações sociais brasileiras começaram a fazer pedidos similares. Com o suporte do Itamaraty e do Ministério da Justiça, uma portaria autorizando a concessão de visto humanitário para os afegãos foi assinada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 3 de setembro de 2021.

A AMB e o Itamaraty montaram uma operação de emergência para trazer as juízas para o Brasil. A retirada foi feita com a ajuda de juízes norte-americanos, que conseguiram transferi-las para a Turquia, de onde, com os vistos brasileiros, elas puderam voar até Brasília. Ao chegar, contaram com auxílio também da Organização Internacional para as Migrações. “Foi um trabalho emocionante”, disse Videira. “Nós ficamos cinco dias esperando no aeroporto pelas juízas e seus familiares, inclusive seis crianças. Eram 26 pessoas ao todo. Elas receberam vacinas e atendimento médico e psicológico.”

O representante interino da Acnur no Brasil, Federico Martinez, em conversa com a piauí em Brasília, em agosto passado, disse que o governo brasileiro tem uma política razoavelmente generosa de recepção de imigrantes e refugiados. Nos últimos anos, acolheu 375 mil pessoas, sendo 63,7 mil refugiados, entre eles quase 2 mil afegãos. “O Brasil é o segundo país do mundo em número de refugiados venezuelanos, só superado pela Espanha. Estamos bem preparados para receber este fluxo”, afirmou Martinez. O país tem refugiados de 121 nacionalidades, mas apenas os venezuelanos, haitianos, sírios e afegãos recebem visto humanitário. Isso se dá, no caso dos venezuelanos, por se tratar de um país vizinho em crise. No dos haitianos, por causa da atuação da força de paz da ONU que o Brasil liderou no país. No caso dos sírios, o governo brasileiro atendeu a uma solicitação da comunidade síria. Para os afegãos, o pedido veio da Associação de Magistrados Brasileiros. As pessoas das nacionalidades que não dispõem de visto humanitário entram no país com visto comum e pedem residência permanente.

Quem chega da Venezuela, da Síria, do Haiti ou do Afeganistão pode ser reconhecido como refugiado ou solicitar residência temporária. Todos ganham documentos, a começar pelo cpf, passando a ter direito aos mesmos benefícios sociais dos brasileiros natos, inclusive o Bolsa Família. Com o visto humanitário, a segurança de permanência no país é total.

 

Na mesma época em que, no Brasil, a AMB lutava para trazer as juízas, na Alemanha o fotógrafo Stefan Dotter recebeu o chamado aflito de um grupo de alunos do curso de fotografia que ele dera no Afeganistão. Eles imploravam para que Dotter os ajudasse a escapar do país, pois tinham ficado muito expostos devido aos seus trabalhos de moda, com fotos publicadas inclusive na Vogue alemã, e estavam sendo considerados infiéis pelo Talibã – portanto, passíveis de punição.

Um dos fotógrafos era a jovem Mahboba Rezayi, de 27 anos, que também era professora de literatura persa em uma escola secundária na capital afegã e começara o mestrado em literatura na Universidade de Cabul. Ela e sua família pertencem ao povo Hazara, de origem turca e mongol, vítima de preconceito e perseguições entre alguns muçulmanos. Nascida no Irã, de pais afegãos, Rezayi foi para o Afeganistão com sua família depois da queda do Talibã, em 2001. Enquanto fazia faculdade, ela se interessou por fotografia e resolveu fazer o curso de Dotter. A mesma ideia tiveram outros amigos dela, todos descendentes do povo Hazara: o engenheiro de minas e designer gráfico Ezatallah Matin Wakily, e as designers Masuma Yavari e Zahra Karimi. Juntos, os quatro passaram a atuar no campo da moda.

Sem saber como agir, dado que a Europa não estava concedendo vistos aos afegãos, o fotógrafo alemão recorreu a uma brasileira, Sabrina Herzog, que mo­ra na Suíça e trabalha no International Trade Center (ITC), uma agência da ONU para desenvolvimento econômico que ele conhecera no Afeganistão. Ela iniciou um trabalho hercúleo na embaixada brasileira no Paquistão para conseguir os vistos e tirar os cinco fotógrafos e o marido de Rezayi do Afeganistão. Enquanto Herzog tratava da documentação, Dotter promoveu uma exposição na França para arrecadar fundos para a viagem dos refugiados ao Brasil.

Conseguidos os vistos, os fotógrafos rumaram para a fronteira do Afeganistão com o Paquistão. Era setembro, fazia muito frio. Os guardas do Talibã autorizavam poucas pessoas a passar pelo posto de fronteira, e muitas delas eram submetidas a humilhações, como tapas no rosto e chicotadas nas pernas. Uma multidão se esmagava na tentativa de romper o bloqueio. O grupo de fotógrafos esperou dois dias para poder cruzar a fronteira. Na confusão, o marido de Rezayi ficou para trás. Ela voltou, gritando o nome dele. Após longa negociação, os guardas deixaram que ele partisse com a mulher.

No Paquistão, os seis foram para um hotel pago com os recursos levantados pelo fotógrafo. No dia marcado para a partida, a companhia de aviação Emirates bloqueou a saída deles porque a passagem era só de ida. Herzog recorreu ao embaixador brasileiro no Paquistão, que explicou à companhia que os afegãos haviam obtido um visto humanitário e, portanto, partiriam em definitivo para o Brasil. Não adiantou. Eles ficaram retidos por mais dois meses em Islamabad, até que finalmente pudessem comprar outras passagens de ida para o Brasil. Todo o dinheiro reservado para os primeiros dias no Brasil foi gasto nessa espera e na compra dos novos bilhetes, na Qatar Airways.

Em São Paulo, eles foram viver em uma casa no bairro Bela Vista, alugada com o apoio de organismos internacionais e empresas brasileiras pela ONG Estou Refugiado, que também recebe pessoas da Venezuela, do Haiti e de paí­ses africanos. A diretora da ONG, Luciana Capobianco, já tinha preparado tudo, a pedido de Herzog.

A Estou Refugiado trabalha em parceria com a ONG Compassiva, outra importante rede de suporte a refugiados, então dirigida por André Leitão. Também ele articulou para trazer afegãos, inclusive uma policial, Sabera Rezaie, de 33 anos. Ela trabalhava com o irmão policial e sentia muito orgulho das mulheres que faziam parte das forças de segurança do país. Durante a ocupação de Cabul pelo Talibã, enquanto tentava defender o Parlamento, Rezaie foi ferida na explosão de um carro-­bomba que matou doze pessoas. Como outros membros da polícia e das Forças Armadas, ela estava na mira do Talibã.

Também precisou se esconder, com sua família, a ativista social Khatera Moh­mand, de 38 anos, que trabalhava para o governo em um projeto de defesa do direito das mulheres. Mohmand conseguiu escapar do Afeganistão graças à ONG Panahgah, criada em Jundiaí, cidade próxima de São Paulo, pela advogada Sindy Nobre Santiago, depois que a filha dela, Sophia Nobre Santiago, lhe pediu que ajudasse os afegãos. Em contato com grupos de direitos humanos e movimentos cristãos brasileiros e internacionais, elas criaram uma rede de apoio para recebê-los. A palavra panahgah quer dizer, em dari, “casa segura”.

No Rio de Janeiro, o advogado tributarista André Simão, membro da Aliança Batista Mundial, juntou-se a outros fiéis da Igreja Batista para, com a ajuda dessa denominação nos Estados Unidos, levar para São Paulo cristãos afegãos, ameaçados de morte pelo Talibã. O primeiro grupo que desembarcou era formado por quinze funcionários de uma oficina administrada pelo governo norte-americano, que ensinava mulheres a costurar e a montar seus ateliês.

O trabalho desses voluntários empenhados em trazer os afegãos para o Brasil teve o suporte do diplomata André Veras Guimarães, diretor do Departamento de Imigração e Cooperação Jurídica (DIJ), do Ministério das Relações Exteriores, que conectava os grupos para que se ajudassem mutuamente. “Nem todos têm a mesma sorte”, afirmou Guimarães. “Muitos chegam sem apoio e ficam dias à espera de serem recolhidos pelos voluntários ou pela Prefeitura de Guarulhos [cidade onde fica o Aeroporto Internacional de São Paulo], que também faz um importante trabalho de acolhimento.” Ele explicou que outra dificuldade é a demora dos países de onde partem os refugiados em confirmar a saída deles. “Por isso, chegam muitas pessoas de uma vez, sem que os voluntários estejam preparados para recebê-los.”

Até o começo do ano passado, desembarcavam poucos afegãos ao Brasil, de modo que os grupos de voluntários os recebiam sem sobressalto. “Os refugiados não tinham conhecimento de que o Brasil estava concedendo vistos. Quando descobriram, foi uma correria”, disse Aguiar Neto, o embaixador brasileiro no Irã. O resultado é que muitos conseguem o visto, mas, por não terem o suporte de voluntários brasileiros, passam dias dormindo no saguão do aeroporto em Guarulhos, até que as organizações consigam acolhê-los. “São muitas pessoas chegando. Nós estamos preparando a logística para recebê-los, mas, às vezes, não conseguimos atender a tantos pedidos”, diz Capobianco, da ONG Estou Refugiado. A ONG Panahgah alugou duas chácaras perto de Jundiaí para abrigar os refugiados. Seus voluntários vão quase que diariamente, em comboio, ao aeroporto para recebê-los.

Apesar das dificuldades e dos atropelos, o acolhimento dado pelo Brasil aos refugiados se transformou num exemplo internacional, “não só pela agilidade na concessão de vistos como pela generosidade com que os recebe”, disse Martinez, o representante da Acnur no Brasil. O reconhecimento se dá também da parte dos afegãos. Na embaixada brasileira em Teerã, o sorridente embaixador Aguiar Neto foi homenageado no começo de junho por jornalistas afegãos que fugiram para o Irã. Eles lhe entregaram uma placa em agradecimento pelo esforço realizado para ajudar os profissionais de imprensa em risco a irem para o Brasil. Um dos jornalistas afegãos disse que a situação a cada dia se tornava mais perigosa porque o Talibã estava postando nas redes sociais informações de “locais seguros” para onde os refugiados poderiam ir. Mas era uma armadilha. Houve casos de mulheres estupradas e homens mortos.

O jornalista de tevê Sami Ahmad Sultani, de 25 anos, foi um dos que participou da homenagem. Até pouco tempo atrás, ele estava feliz com a popularidade que vinha obtendo, mas precisou fugir para o Irã, disfarçado com uma barba espessa, túnica e turbante. Na cerimônia, Sultani estava aflito porque, como o seu visto no Irã iria expirar em breve, seria obrigado a pagar uma multa por cada dia que ficasse a mais no país – e seus recursos estavam acabando.

 

Em agosto passado, os fotógrafos trazidos do Paquistão por Capobianco, entre eles a jovem Mahboba Rezayi, estiveram no evento Casacor São Paulo 2022, uma mostra de decoração e arquitetura. Eles haviam ajudado na criação de um painel concebido pelo artista plástico Lavi Kasongo Israel, refugiado da República Democrática do Congo, para um restaurante instalado no local. O trabalho fazia parte do projeto Cores do Mundo, criado pela ONG Estou Refugiado com a participação de artistas refugiados, que já foram contratados por indústrias de São Paulo para criar pinturas nos muros externos.

Rezayi e seus colegas afegãos que lidavam com fotografia e moda foram empregados em escritórios de design em São Paulo. Ela contou que estava feliz com a vida e a liberdade que desfrutava na cidade, embora tivesse muitas saudades dos pais e dos irmãos. Disse também sentir falta de suas aulas de literatura persa e dos seus alunos. “Mas como vou trabalhar com literatura persa no Brasil? Ninguém vai se interessar.” Comentei com ela sobre Hafiz, que viveu no século XIV, um dos grandes poetas persas, e os olhos de Rezayi brilharam. Ela passou a citar outros autores que eu não conhecia e falou ainda sobre Rumi, poeta do século XIII que nasceu no Afeganistão, mas teve que fugir do país. “Poucos sabem que ele é afegão”, disse. Segurando minha mão, comentou: “Essa é a primeira vez desde que cheguei ao Brasil, há sete meses, que falo de poesia persa. Estou tão feliz.”

Sabera Rezaie, a policial, conseguiu fugir do Afeganistão usando uma burca como disfarce. Chegou ao Brasil no fim do ano passado, mora com o irmão, a cunhada e os sobrinhos, e é assídua frequentadora do curso de português patrocinado pela ONG Compassiva. Num fim de tarde de agosto, após passar o dia trabalhando em uma fábrica, em Santo André, na Grande São Paulo, ela foi assistir a mais uma aula. Falou que tinha esperança de, um dia, ser policial no Brasil. Na sala, estavam três rapazes sírios, um sudanês e um egípcio. A professora voluntária fez esse pedido em português: “Cite algum motivo para você sair do trabalho.” Um dos alunos disse: “Pouco dinheiro” (a professora sugeriu uma expressão melhor: “baixa remuneração”). Outro falou: “Maltratamento” (a professora propôs: “falta de respeito”). E Rezaie perguntou: “Não respeito não pode?”

Na sede da Panahgah, no Centro de Jundiaí, Khatera Mohmand está mais tranquila porque seus filhos têm se adaptado rápido ao Brasil. Ela não trabalha ainda, mas seu marido, sim, como voluntário na ONG. “Eu preciso primeiro dar suporte aos meus filhos, mas gostaria muito de voltar a trabalhar daqui a um tempo.” Mohmand diz que gosta muito do Brasil, embora sinta saudades do restante da família que ficou no Afeganistão. “É muito difícil ser refugiado. Fica sempre a vontade de voltar para casa. Mas, no caso dos afegãos, acho que isso será muito difícil de acontecer.”

 

Até setembro do ano passado, tudo parecia correr bem para a ONG Panahgah e os afegãos. Então, coisas estranhas começaram acontecer. No fim daquele mês, Sindy Nobre Santiago, diretora da Panahgah, estranhou o fato de algumas famílias terem passado a fazer o mesmo tipo de queixa: não gostavam das cidades onde estavam instaladas e pediam para serem transferidas para Brasília ou São Paulo. Diziam que as cidades eram pequenas e com pouca oferta de emprego, ou que eram perigosas, ou que tinham muitos pernilongos. Sindy argumentou que as cidades – como Americana, Paulínia, Jundiaí – eram de porte médio, com uma boa rede pública de ensino e saúde, além de serem importantes núcleos econômicos do estado de São Paulo. O fato de serem menores que a capital possibilitava à Panahgah ter mais acesso às prefeituras, também engajadas no programa de ajuda aos refugiados.

Naquele mês, estive na sede da Panahgah, em Jundiaí, onde conversei com Ahmad Naweed Kawusi, um ex-oficial das Forças Armadas afegãs, especializado na área de inteligência e com formação em escolas norte-americanas. Ele chegou ao Brasil no final de 2021, vindo do Paquistão. Em Jundiaí, passou a trabalhar como voluntário da Panahgah – nome que ele próprio sugeriu. Para a ONG, a presença de Kawusi era preciosa porque, além de falar o dari, ele é fluente em inglês e já sabe um pouco de português. O ex-oficial recepcionava seus conterrâneos no Aeroporto de Guarulhos e os levava para as chácaras que a ONG alugou, onde as pessoas são instaladas em quartos amplos e confortáveis. Assim que conseguem emprego, elas deixam o local e vão morar em cidades industriais próximas de Jundiaí. A Panahgah as ajuda a tirar documentos, a fazer supermercado e comprar móveis para suas novas casas.

Integrado à Panahgah, o ex-oficial pediu a Sindy e à filha dela, Sophia, que o seu cunhado, o também afegão Hamayoun Noori, trabalhasse na organização. Disse que o cunhado viera para Jundiaí com a mulher, a mãe, dois irmãos e suas respectivas esposas, e os filhos de todos eles. As diretoras da ONG aceitaram a sugestão, com a condição de que fosse um trabalho voluntário. Noori topou. Mas o seu comportamento começou a incomodar a cúpula da Panahgah. Segundo Sindy, ele começou a se aproximar de algumas famílias e, com alguns refugiados, criou um grupo privado no WhatsApp. Ela notou que foi depois da contratação dele que começaram a aparecer aquelas reclamações de algumas famílias. Desconfiada de que Noori pudesse ter alguma relação com as queixas, Sindy o dispensou.

Em outubro, um episódio deixou o comando da Panahgah em choque. A irmã mais velha das quatro jovens que vieram para o Brasil após a mãe ter sido queimada com água fervente disse a Sindy que iria se mudar para os Estados Unidos, pois conseguira um greencard e uma passagem, dada por um amigo. Sindy sugeriu que ela aguardasse mais seis meses, até a chegada dos pais, para ter alguém que olhasse pelas três irmãs menores – de 13, 15 e 16 anos – e para tentar que a Unicamp, onde ela estudava, conseguisse uma bolsa nos Estados Unidos. Mas ela não quis. Partiu, deixando as irmãs sob a guarda de um casal de brasileiros.

O casal, porém, precisou se mudar para Salvador. Sindy propôs às meninas que ficassem em Jundiaí, o que elas recusaram fazer. A ONG então comunicou a decisão ao juizado de menores, e as adolescentes seguiram para a capital baiana. Certa manhã, Sindy recebeu um telefonema aflito dos responsáveis pelas jovens dizendo que elas tinham fugido. Uma câmera do condomínio onde viviam captou o momento em que pularam a janela da casa e entraram em um carro.

Pouco depois, a Panahgah também foi avisada por coordenadores em Cascavel que uma família que dissera estar indo para São Paulo a fim de tratar de negócios havia desaparecido. Uma mãe e suas duas filhas disseram a Sindy que precisavam ir a Brasília resolver problemas com a documentação, mas a advogada desconfiou e disse que não liberaria o dinheiro da passagem se não explicassem o verdadeiro objetivo da viagem. A mãe respondeu que, caso a ida da família não fosse autorizada, iria denunciar a ONG por cárcere privado.

No dia 2 de novembro, desconfiada de um possível esquema de tráfico de pessoas, Sophia Santiago gravou um vídeo em inglês alertando os refugiados sobre os riscos de tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Informou que os refugiados poderiam sofrer todo tipo de violência ao longo do caminho, inclusive sequestro, para serem usados em trabalho escravo ou em prostituição forçada. Dois dias após a postagem do vídeo, a família de Noori – o cunhado do ex-oficial Kawusi –, incluindo suas irmãs e cunhados, desapareceu de sua casa. Além dele, também desapareceu com a família, sem deixar rastro, Bashir Almas, que viera para o Brasil com apoio financeiro de uma ONG norte-americana para a qual trabalhou no Afeganistão. Quando Sindy Santiago foi até a casa deles, a impressão que teve é que todos haviam partido às pressas, já que deixaram pratos com comida sobre a mesa, roupas e até remédios.

Em conversa com alguns afegãos, ela ouviu que Noori estava aliciando afegãos para entrarem ilegalmente nos Estados Unidos. Os relatos informavam que ele cobrava 14 mil dólares para levá-los até lá, e 800 dólares de afegãos que desejam vir para o Brasil, sendo que a concessão de visto é gratuita. Sindy se desesperou. “Logo nós, que chamamos nossa entidade de Casa Segura, contratamos como voluntário alguém que estava colocando as pessoas em grande risco”, ela disse. “O triste é que essas pessoas passaram vinte anos ouvindo que os Estados Unidos eram uma espécie de terra prometida e querem ir para lá.”

Ela comunicou o caso à Polícia Federal, ao Itamaraty e à Organização Internacional de Migração (OIM). O passo seguinte foi conversar com o ex-oficial Kawusi sobre o paradeiro do seu cunhado Noori. Ele disse que nada sabia. Desconfiada, Sindy pediu que ele deixasse a Panahgah. “Não tenho qualquer prova contra ele, mas não o quero mais trabalhando conosco.”

Dias depois da fuga de Noori e família, um dos seus irmãos ligou para Sindy dizendo que estavam todos no Panamá e passavam grandes dificuldades: as crianças estavam doentes e a mãe deles, internada em um hospital. Contaram que todo o dinheiro que tinham levado havia sido roubado na viagem. Sindy respondeu que poderia ajudá-los a voltar para o Brasil, mas não a continuar na tentativa de entrar nos Estados Unidos. Das três jovens que fugiram em Salvador, ela não teve mais notícias.

Segundo o Itamaraty, afegãos presos ao tentarem entrar ilegalmente nos Estados Unidos têm grande probabilidade de ser deportados para o país de onde saíram. O governo brasileiro não tem qualquer responsabilidade sobre os refugiados que saiam daqui. “Não podemos segurar ninguém que não queira ficar”, me disse Sindy. Ela estava mais conformada com os últimos episódios, mas disse ter chorado muito, porque se sentiu traída, além de desanimada com o trabalho ao qual se dedica incansavelmente. Insegura, ela buscou apoio da Caritas, um organismo da Igreja Católica que tem grande experiência com refugiados.

Para a tristeza de Luciana Capobianco, da ONG Estou Refugiado, Mahboba Rezayi, a fotógrafa e professora de literatura persa, disse que iria tentar entrar nos Estados Unidos, pela arriscada rota que passa na selva de Darién, na fronteira da Colômbia com o Panamá. No começo de dezembro passado, ela se despediu do grupo e, junto com o marido, seguiu para o Peru, apesar de todos os alertas de Capobianco. “Ela é muito frágil. Não sei como conseguirá sobreviver à travessia da selva.” Mahboba escreveu um livro sobre sua vida de refugiada, que será publicado pela ONG.

 

Em meados de novembro, o jornalista Sami Ahmad Sultani, com quem conversei ainda em Teerã, finalmente chegou ao Brasil. Como não tinha nenhuma instituição que o abrigasse, ele passou vários dias no aeroporto, de onde me ligou numa manhã para me contar seu drama. Do Rio de Janeiro, tentei tranquilizá-lo, dizendo que entraria em contato com uma das organizações que recebem refugiados. Antes de desligar, Sultani me disse que havia dito à sua mãe que tinha uma amiga no Brasil, o que a deixou bem mais tranquila.

Sultani foi acolhido por uma organização e hoje mora em um quarto e sala perto de Sorocaba. Está estudando português e tem esperanças de poder trabalhar daqui a um tempo como jornalista no Brasil. No dia 19 de novembro, ele me mandou uma mensagem em português: “Sami Ahmad, um jornalista afegão que se refugiou no Brasil, quer que o Brasil vença a Copa do Mundo de 2022.” Disse que estava feliz aqui.

As sete juízas resgatadas pela AMB moram hoje em apartamentos alugados pela associação. Um advogado de Brasília, amigo de Renata Gil Videira, as empregou no seu escritório para ajudá-lo em questões de direito internacional. A maior barreira é a língua. “A língua é a essência da cultura de uma pessoa. Talvez por isso eles resistam tanto em aprender português. É uma forma de continuarem fiéis aos seus países, à sua história”, disse Videira. Os filhos das juízas estudam em um colégio particular em Brasília, o Marista, que lhes deu bolsas de estudo integrais. A maioria está se saindo bem no português.

No dia em que estive na Casacor com Capobianco e os fotógrafos afegãos, um deles, Matin Wakily, ao ver o alegre burburinho em volta, disse: “Na religião muçulmana, acredita-se que as pessoas, ao morrerem, vão para o Paraíso, onde há um grande jardim, com rios de leite e mel e todas as frutas que você quiser. Mas o vinho é proibido no Paraíso.” Em seguida, confessou: “Ao ver a vida aqui em São Paulo, as pessoas andando nas ruas com liberdade, todos esses bares, essas luzes, essa decoração bonita, eu ouso dizer que o paraíso, na verdade, é aqui.” E deu uma gargalhada.