esquina

A hora do Estrela

Saraus, bordado e kung fu na ocupação de um velho manicômio

Roberto Andrés
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Nascia o sol no dia 26 de outubro, um sábado, quando a viatura da Polícia Militar chegou ao número 348 da rua Manaus, na região leste de Belo Horizonte. O edifício fora ocupado, havia poucas horas, por ativistas em trajes carnavalesco-circenses. O interlocutor do grupo com a polícia foi Joviano Mayer, advogado de um movimento de luta pela moradia.

Segurando um guarda-sol colorido, de túnica tropicalista e batom vermelho, Joviano citava de cabeça artigos da Constituição. “Se há algum criminoso aqui é o estado de Minas Gerais, que tem o dever de preservar o patrimônio histórico”, provocou. O casarão, de estilo eclético e tombado pelo município, ruía diante dos olhos do policial. Segundo o advogado, o grupo cumpria ali o dever cívico de “colaborar para que a restauração acontecesse”. O policial saiu sem fazer boletim de ocorrência.

O maior empecilho parecia superado. Só que não. Os ocupantes se viram diante de uma ruína fechada havia dezenove anos. Tiraram duas caçambas de entulho e um palmo de poeira do chão. Arrumaram o lugar como deu, mas acabaram acampando mesmo na calçada e na rua. Em meio a um mobiliário improvisado e crescente, a vizinhança passou a conviver com shows, palestras, reuniões, saraus, serenatas, projeções de filmes, cafés da manhã e almoços coletivos, aulas de alemão, bordado, ioga, kung fu e origami.

O edifício ocupado era um antigo hospital militar inaugurado em 1913, no qual o médico Juscelino Kubitschek havia trabalhado antes de ser prefeito de Belo Horizonte. Na década de 40, abrigou o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, por onde passaram crianças e adolescentes a quem era destinado o malfadado tratamento manicomial da época. Há relatos de que cômodos pequenos no primeiro andar funcionavam como celas, com práticas de tortura e violência.

Na luta antimanicomial que ganhou destaque no Brasil no final dos anos 70, o estabelecimento foi convertido em escola para alunos com necessidades especiais. Em 1994, o imóvel – propriedade da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais – foi fechado e assim ficou até a ocupação. Em julho deste ano, foi cedido a uma fundação educacional, para que fizesse um memorial em homenagem ao período em que o ex-presidente Kubitschek clinicou ali.

 

A ocupação começou a ser pensada em abril. Temendo grampos e espionagens, as conversas só corriam a boca miúda. Para falar no celular ou na internet, era proibido dar nome aos bois. A noite da ocupação era chamada pelos ocupantes de “A Festa”.

Na véspera da invasão, a artista visual Tita e o ativista Gabriel entravam pelas janelas do prédio para fazer o reconhecimento do local. Passaram 36 horas no antigo sanatório. “Quando terminei o desenho do edifício, começamos a nos perguntar se a ocupação deveria ser ali mesmo, mas não dava mais para mudar”, contou Tita. A dúvida dos dois se deveu à fragmentação do espaço e ao péssimo estado de conservação. Mas, do lado de fora, oitenta arlequins, colombinas, pierrôs e machatins aguardavam ansiosos para entrar em grande estilo na madrugada seguinte. A invasão foi filmada e transmitida ao vivo pela internet.

A escolha do nome tomou várias reuniões. Com a iminência do dia D, o grupo acabou promovendo uma votação, em vez de levar o debate até o consenso, como é comum em movimentos autogeridos. Ganhou “Espaço Comum Luiz Estrela”, homenagem a um morador de rua, performer e ativista gay que foi encontrado morto com indícios de espancamento. Estrela morreu em 26 de junho, dia do último jogo da Copa das Confederações em Belo Horizonte – e da maior das manifestações populares que aconteceram naquele mês na capital mineira.

Luiz Otávio da Silva era bonito e inteligente, mas nunca teve vida fácil. Aos 5 anos assistiu à separação dos pais e à chegada de um padrasto com o qual nunca se deu. Por ser um menino afeminado, foi vítima de preconceito e do que hoje chamamos de bullying. Aos 15, assumiu a homossexualidade e foi internado pela família num centro de recuperação, onde ficou quatro meses antes de fugir. Não quis voltar a viver com a família e errava pelas casas de amigos e conhecidos. Fazia artesanato, vendia e gastava o dinheiro com facilidade incomum.

Nos últimos anos, assumiu a rua como morada e migrou para o Centro da cidade. Começou a conviver então com a esquerda festiva de classe média, em centros culturais e na Praia da Estação, evento de protesto que há quatro anos povoa uma praça no Centro de Belo Horizonte com veranistas em trajes de banho. Tatuou uma estrela na testa e incorporou a palavra ao seu nome. Escrevia poemas, recitava Drummond e Ana Cristina Cesar, ao mesmo tempo em que bebia cachaça a talagadas e ficava cada vez mais dependente do álcool. Entre moradores de rua, é lembrado pela indumentária exótica, com colares, brincos e meia arrastão.

Um grafite com a imagem de Luiz Estrela marca a entrada do edifício da rua Manaus. Meme de uma tribo, seu retrato passou a habitar as fotos de perfil de simpatizantes nas redes sociais. Ignorado pelo Google até o dia da ocupação, o morador de rua agora rende milhares de resultados numa busca por seu nome. Em geral, a imprensa e a vizinhança têm se mostrado favoráveis ao movimento. Os ocupantes tentam aproveitar os bons ventos para pressionar o estado para que cancele a cessão do espaço e o destine a um centro cultural autogerido.

Em maio, Luiz Estrela viu sua mãe pela última vez. Chegou de surpresa ao salão de beleza onde ela trabalha, pintou as unhas de azul e brincou com os clientes. Estava feliz porque ganharia de aniversário um tratamento que lhe devolveria os dentes frontais. “Vou poder voltar a sorrir.” Em junho, uma organização de defesa dos direitos humanos denunciou o assassinato maciço de moradores de rua na capital mineira, registrando o receio de que as mortes se intensificassem na Copa das Confederações.



Roberto Andrés

É urbanista, professor da UFMG e editor da revista Piseagrama. Coorganizou o livro Guia Morador Belo Horizonte (Piseagrama)

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