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A lista de Giselle

A estudante que virou guardiã de pit bulls estropiados e outras feras feridas

Fábio Fujita
taxi dog
taxi dog

Giselle Sarbouck Pastorello atendeu o telefone e foi avisada de que, naquela tarde, a pit bull Miúcha estava sendo espancada, na Praça da Sé, por um carroceiro que dizia ser seu dono. A voz do outro lado da linha manifestava o desespero de quem testemunhara a danação da cadela. Os uivos eram terríveis. Alguma coisa precisava ser feita. Junto com a denunciante, Giselle dirigiu-se até o Centro de São Paulo. Teve de reprimir o desconcerto e a náusea ao descobrir que Miúcha vinha sofrendo agressão sexual do carroceiro.

Resgatar das ruas, ou de mãos erradas, bichos em situações-limite virou rotina na vida dessa estudante de direito de 26 anos. Giselle é uma espécie de anjo da guarda dos animais, a quem chegam denúncias de maus-tratos variados. Como um Schindler dos bichos, ela já livrou da morte certa dezenas de cães, gatos e afins. Hoje, vive com onze bichos em casa, além de bancar do próprio bolso outros vinte que ela tirou das ruas e que vivem em canis, abrigos ou hotéis.

A comiseração pelos bichos talvez tenha origem na primeira experiência que ela teve da morte, aos 4 anos. Acometida por um problema no cérebro, a pequinês Kika, da sua família, passou a latir 24 horas por dia. Precisou ser sacrificada. “Meus pais mentiram para mim”, lembrou-se. “Falaram que ela ia ficar na veterinária, mas nunca mais voltou.”

Ao longo dos anos, uma outra cadela – a pastora She-Ra, com quem Giselle não se acostumou de imediato – e outros bichos passaram a fazer parte de sua vida: pássaros, peixes, gatos. Quando houve a febre de tartaruguinhas de feira, vendidas sob o argumento de que ficariam pequenas para sempre, Giselle investiu sua mesada em duas. Mas era propaganda enganosa: June e Tuchê desembestaram a crescer e tiveram que deixar a casa, para preservar sua própria integridade física. Os quelônios foram despachados para uma chácara, onde podem descansar seus 12 quilos de saúde num amplo lago artificial.



Giselle começou a exercer sua vocação para salvadora de animais em 2007, quando um motorista bateu o carro próximo a sua casa. O dono abandonou a cena do acidente sem procurar por seu cachorro, que escapara ileso. Por dias, o cão, de nome Rubinho, andou a esmo pelo bairro, até que Giselle decidiu abordá-lo. A afeição mútua foi instantânea. Para hospedá-lo em casa, a estudante teve de reformar a laje de casa. Noutro dia, passeando com Rubinho, ela viu um vira-lata ser atropelado. Cuidou dele e levou-o para viver junto de Rubinho. Para desespero do pai, os bichos resgatados não paravam de chegar. A promessa de que ficariam apenas até que alguém os adotasse nem sempre era cumprida.

Foi assim com Miúcha, cujo resgate das mãos do carroceiro só foi possível mediante pagamento em dinheiro. Estava bastante judiada, e ainda por cima prenhe. Não foi fácil achar lugar para ela. Canis e hotéis para bichos eram categóricos: pit bull, não. Giselle conseguiu negociar que a cadela ficasse por um tempo numa casa desocupada que estava para alugar. Quando saía para passear com Miúcha, porém, Giselle sentia o desprezo das pessoas por se tratar de um pit bull.

“O animal sente, aquela energia negativa chega para ele”, lamentou a estudante, que tentava sempre explicar que Miúcha é extremamente dócil com pessoas e que nunca atacou quem quer que fosse. “Se eu tivesse passado pelo que ela passou, odiaria o ser humano”, observou a dona. Dos bichos que vivem em sua casa, Giselle assegurou que ela é quem tem a melhor índole.

 

Miúcha não é a única pit bull que Giselle já livrou de maus-tratos. Certa vez, soube de uma que vivia no meio de um bando de drogados de rua. Chamava-se Pinta Preta. Usavam-na para reprodução e vendiam os filhotes. Assim que saía de seu estágio, a estudante circulava pela região frequentada pelo bando, para monitorar a cadela. Um dia, uma moça abordou-a e deu o recado: “Ô burguesinha, você já veio três vezes aqui. Tem gente incomodada. Não apareça mais ou vai se arrepender. O bagulho vai ficar pequeno para você.” Giselle não se intimidou. Recorreu a um intermediário para vasculhar a área e conseguiu que a polícia interviesse. Um traficante foi preso. Nos dias que se seguiram, ela recebeu ameaças de morte pelo telefone. Mas a pit bull foi salva. Segue à espera de ser adotada, num hotel para cães.

Os bichos vêm à frente de outras prioridades para a estudante. Ela se endividou para apadrinhar as despesas veterinárias, de alimentação e de hospedagem dos animais que ela mantém em abrigos. Diz pensar primeiro na vida do bicho, depois em como pagar as despesas. Mantém uma rede de contatos para barganhar recursos. Chegou a gastar 3 mil reais com um pastor alemão que, ingrato, a mordeu depois de ela salvá-lo de um apedrejamento.

O animado paraplégico Banzé é um dos mais recentes afilhados de Giselle. Quando encontrou o vira-lata cheio de fraturas num acostamento, ela ignorou as sugestões para que ele fosse sacrificado. Acreditou na recuperação do cão, que passou por duas cirurgias de coluna e sessões de fisioterapia e acupuntura. Hoje, ele vive num hotel no interior do estado junto de outra cadela paraplégica, Cacau, que Giselle encontrou debilitada na rua. Ambos usam cadeirinha de rodas, e a estudante está convicta de que vivem felizes. “Quando o Banzé engata a quinta, ninguém segura!”

Para encerrar bem 2011, Giselle elegeu uma missão: salvar uma porca cujos filhotes são abatidos pelo proprietário para serem vendidos. Segundo a denúncia que recebeu, o dono asfixia os porquinhos num carro. A operação de resgate está sendo planejada, mas é complexa. “É uma porca de 450 quilos, não cabe num taxi dog. Teria de usar um daqueles caminhões de carga viva”, explicou a estudante, depois de estudar a logística do caso. Se neste Natal faltar leitão à pururuca em alguma ceia, o champanhe de Giselle descerá especialmente saboroso.

Fábio Fujita

Fábio Fujita é jornalista baseado em São Paulo.

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