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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

esquina

A marcha dos colchões

O fardo de uma estudante de arte

Audrey Furlaneto | Edição 99, Dezembro 2014

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Numa tarde nublada do fim de outubro, foram reunidos 28 colchões em frente ao campus principal da Universidade Columbia, em Nova York. Até então, na fábrica, eram todos iguais: de matelassê branco, ortopédicos, tamanho padrão para uma cama de solteiro. Naquela quarta-feira, porém, cruzaram a Broadway cobertos por assinaturas e rubricas de organizações feministas. Representavam 28 estudantes que levavam à universidade queixas de algum tipo de abuso sexual sofrido dentro do campus ou nos alojamentos da instituição.

“Vamos lá, sobreviventes!”, gritou no megafone a estudante de arte Allie Rickard, acionando o cortejo dos colchões e de um solitário travesseiro com fronha da Hello Kitty. Pequena, cabelo à la Joãozinho, a universitária, a quem coubera a organização, conseguira que 130 escolas e universidades do país (além de outras na Inglaterra, Canadá, Hungria e em Cingapura) aderissem ao movimento. Allie batizou aquela tarde de “National Carry That Weight Toghether Day of Action”, algo como “Dia nacional de carregar aquele fardo juntos”.

Trata-se de uma referência à performance “Carry That Weight”, criada pela estudante de arte de Columbia Emma Sulkowicz, a essa altura conhecida como “a garota do colchão”. Pelas regras que estipulou para sua performance, Emma deve transportar o objeto – em que alega ter sido estuprada por outro estudante dois anos atrás – sempre que vai do alojamento à instituição ou quando se desloca dentro da escola. Não solicita ajuda, mas aceita dividir o peso se alguém se oferecer para ajudar (seis pessoas, na conta dela, fazem o colchão de 23 quilos ficar leve como uma pluma).

O périplo de Emma começou em setembro, meses depois que a universidade avaliou seu pedido de expulsão do suposto agressor. A instituição negou a requisição, mesmo confrontada com o depoimento de outras duas moças que relataram também ter sido vítimas do mesmo estuprador. De origem chinesa, japonesa e judaica, filha de psiquiatras de Nova York, a universitária de 21 anos decidiu fazer de sua dor um gesto artístico.

Em setembro, o New York Times escreveu que a intervenção de Emma segue a linhagem das obras da sérvia Marina Abramović, pioneira da arte performática, e que combina “aspectos da arte de resistência, de corpo e de protesto”. Abramović, por sua vez, quis conhecer a jovem artista, conforme afirmou em entrevista à revista New York. Hillary Clinton disse que a imagem de Emma com o colchão “deveria assombrar a todos nós”. E Barack Obama, por fim, anunciou uma campanha nacional para tratar da violência sexual nas universidades do país.

Os pais de Emma também divulgaram uma carta na qual diziam temer que o fato de ela ter se tornado uma “recente celebridade” atenuasse o fracasso de Columbia em aplicar sanções ao homem que a garota apontou como seu estuprador. Assim como as demais estudantes na marcha, eles voltaram a cobrar a expulsão do jovem. Já Emma cessou as entrevistas depois de estampar jornais e revistas internacionais. “Sou um ser humano frágil”, justificou-se à piauí. “Se continuasse, acho que me mataria.”

 

“Todos estão me ouvindo?”, perguntou Emma ao megafone no final da passeata, quando o dia já se fazia noite e as nuvens carregadas do início da tarde vertiam uma chuva grossa. “É o comprometimento de vocês com essa causa que me inspira todos os dias”, disse a estudante; cada frase era pontuada por gritos e aplausos femininos. “Mesmo que com o passar do tempo menos pessoas se ofereçam para me ajudar com meu colchão, vocês são a razão para que eu continue forte e siga em frente”, clamou. Em seguida, dirigiu seu discurso ao presidente da Universidade Columbia, Lee C. Bollinger, tratado como “PrezBo” pelos estudantes. Ele já havia sido citado nos doze discursos daquela tarde – quase todos de mulheres com relatos similares, ocorridos no campus ou nos alojamentos da escola. De acordo com uma pesquisa divulgada em 2007 – entoada como mantra naquele dia –, uma em cada cinco universitárias dos Estados Unidos já sofreu algum tipo de assédio sexual.

Bollinger foi repetidas vezes acusado de não se engajar no debate e de arquivar casos para proteger a reputação da universidade, uma das mais prestigiadas do país (a instituição se recusa a divulgar estatísticas internas de assédio sexual e não comenta casos específicos). Ainda assim, no dia da marcha, Bollinger publicou um artigo sobre o tema na revista New Republic. De forma genérica, tratou do assunto e afirmou que os estudantes são livres para apresentar queixas – embora nem todas sejam levadas à esfera criminal.

O tiro saiu pela culatra, e o artigo foi apontado como “mera estratégia de assessoria de imprensa” e tachado de “autoindulgente” por Emma, que cobrou atitudes efetivas de Bollinger. “Querido PrezBo, sabemos todas por que você não divulga estatísticas de violência sexual: porque não houve até hoje uma única expulsão”, afirmou. “Pare de se esconder atrás de suas palavras e de tentar parecer melhor. É hora de tornar o campus viável para sobreviventes de violência sexual. Estamos de olho em você, esperando”, concluiu a estudante, antes de ser cercada por jovens em lágrimas e sair carregando seu colchão azul, seguida pela multidão.

Debaixo de chuva, o grupo iniciou nova caminhada, desta vez rumo à casa de Bollinger. “O que queremos? Justiça! E quando queremos? Agora!”, diziam em coro. Era noite quando os estudantes, a maioria mulheres, alinharam os 28 colchões na porta do presidente de Columbia, junto com uma lista de dez reivindicações, como a reabertura do caso de Emma, e o veto à presença de diretores da universidade em julgamentos afins.

Em menos de duas horas os colchões desapareceram, removidos por funcionários da universidade (esta, por sua vez, multou os organizadores da marcha em 500 dólares por terem deixado os objetos à deriva). Salvou-se apenas o colchão azul de Emma, que, nas costas da estudante, seguiu a caminho de casa.