anais do crime

A morte na mala

Ciúme, intriga e assassinato nas comunidades imigrantes de São Paulo nas primeiras décadas do século XX

Boris Fausto
Casados na Argentina, Maria Mercedes Féa e Giuseppe Pistone voltaram de navio para uma temporada na Itália antes de se estabelecerem no Brasil, onde ele matou a mulher e escondeu o corpo num baú
Casados na Argentina, Maria Mercedes Féa e Giuseppe Pistone voltaram de navio para uma temporada na Itália antes de se estabelecerem no Brasil, onde ele matou a mulher e escondeu o corpo num baú FOTOS: ARQUIVO DR. MILTON BEDNARSKI_FOLHAPRESS

Aquele 7 de outubro de 1928 era um dia rotineiro no porto de Santos. Uma chuva miúda caía sobre o cais, enquanto alguns navios embarcavam cargas e passageiros. Um guindaste içava as bagagens do vapor de bandeira francesa Massilia, com destino a Bordeaux. De repente, nessa operação, várias malas e um baú se soltaram do guindaste e se estatelaram nas pedras do cais, diante do armazém nº 13.

Pelo forte cheiro que exalava, o baú despertou suspeitas. Trancado a sete chaves e amarrado por uma corda de juta, trazia indicações de que viera de São Paulo pela SPR – a Inglesa, como era conhecida a ferrovia que ligava São Paulo a Santos. Policiais se aproximaram, abrindo caminho entre os curiosos que começavam a se aglomerar. Rompida a fechadura, cortada a corda que envolvia o baú, surgiu o corpo despedaçado de uma mulher clara, delgada, coberta com partes de um vestido. Alguns objetos prosaicos acompanhavam os despojos. Entre eles, uma caixinha de pó de arroz Coty, um frasco de pastilhas para a garganta, outro de perfume e um missal impresso em italiano.

A notícia lúgubre espalhou-se de boca em boca, antes mesmo de sair nos jornais. Nessas primeiras horas de incerteza, muita gente especulava se, pelas circunstâncias do crime, o autor daquela barbaridade não seria Michel Trad, de regresso ao Brasil.

 

Muita gente se lembrava ou ouvira falar de Michel Trad, um jovem alto, bem-apessoado, vestido com elegância e versado em francês. Segundo havia declarado, nascera em Beirute, na Síria [Beirute hoje é a capital do Líbano], em 1885, proveniente de uma família de certos recursos; emigrara para o Cairo em 1903 e então para São Paulo, aonde chegou em 1906. Trouxe uma carta de recomendação para um comerciante estabelecido na rua 25 de Março, patrício, que o empregou. Depois trabalhou em um banco inglês, como guarda-livros, que era como então se designavam os contadores. Em seguida, foi contratado por outra casa comercial, também na 25 de Março, cujo dono era Elias Farhat, de quem ficou amigo. Foi a Beirute visitar o pai e, após voltar a São Paulo, tornou a viajar, dessa vez para Paris, a fim de providenciar mercadorias para o estabelecimento que pretendia abrir com José Farhat, irmão de Elias.

Os imigrantes sírios que aportavam entre nós eram chamados de turcos, uma vez que entravam no país com passaporte do Império Otomano. Eram vistos como pessoas obstinadas e dispostas a muitos sacrifícios para vencer na vida; embora pouco instruídos, logo aprendiam as frases básicas de um “português comercial”. Em São Paulo, desde as últimas décadas do século XIX, quando a cidade contava com cerca de 240 mil habitantes, os sírios já se concentravam na 25 de Março.

Sem ostentar o torvelinho multiétnico dos dias de hoje, a rua tinha certa importância. Fotografias da época mostram carroças enfileiradas dos dois lados das calçadas, à espera de clientes e suas mercadorias. Muitos sírios que haviam começado a vida como mascates fixaram-se definitivamente “na rua dos turcos”; outros se transferiram para as lojas de atacado da rua Florêncio de Abreu. Mais tarde, alguns se tornaram grandes industriais e foram morar em palacetes no bairro do Ipiranga, próximo a suas fábricas têxteis.

A paisagem da rua 25 de Março era modesta: lojas de tecidos e de armarinho, algumas fábricas, residências sem muitos ornatos, restaurantes de comida árabe. Elias Farhat e seu irmão Abrahão ali se destacavam. Proprietários de uma fábrica de calçados e de uma loja de tecidos, moravam no piso superior do sobrado que abrigava o comércio no térreo. A empresa fora constituída em 1899 sob a denominação de Elias Farhat & Irmão, e tinha um expressivo nome de fantasia: Casa Síria.

A estabilidade das relações entre esses personagens sofreu um abalo quando Michel se encantou pela jovem italiana Carolina Farhat, em solteira Catarina Mori, casada com Elias Farhat. Michel e Carolina tinham a mesma idade, 23 anos, enquanto Elias era onze anos mais velho. Numa fotografia tirada em estúdio, Elias, de terno e colete escuros, um plastron branco no lugar da gravata, ostenta bigodes bem cuidados, com as pontas viradas para cima. A seu lado, Carolina, o rosto cheio, bastos cabelos armados com cuidado, veste um vestido largo, cuja saia chega aos sapatos.

O casamento de Elias e Carolina havia sido encarado com muitas reticências por Maria Mori, mãe de Carolina, e não teve a aprovação dos irmãos de Elias, assim como de outros membros da colônia síria. Casamentos exógenos eram condenados não só pelos sírios, mas por outros grupos minoritários de imigrantes, que buscavam manter a identidade e garantir um mercado matrimonial cativo para as jovens da colônia. Para piorar, nas conversas entre os sírios surgiram suspeitas acerca da fidelidade de Carolina. Dizia-se que Elias, obcecado pelos rumores, maltratava a mulher. O suposto adultério nunca foi confirmado, mas cartas trocadas por Carolina e Michel revelavam intimidade entre os dois.

Nas cartas, Carolina reclamava do que vinha sofrendo. Sentiu-se confortada ao perceber suas mágoas acolhidas por Michel – enfim encontrara um amigo disposto a ouvir suas queixas. Segundo ela, Elias tinha sido um bom marido até a chegada de sua família de intrigantes. A jovem senhora via apenas duas saídas para as agruras de que padecia: ou o marido se afastava de sua nefasta família, ou Deus lhe enviava um filho que viria a ser a razão de sua vida.

Para quem lê essas cartas hoje, parece claro que Carolina e Michel se encaminhavam para uma relação além da fraterna. Solteiro e livre de compromissos familiares, o rapaz tinha poucos motivos para reprimir sua paixão. O único obstáculo era o marido. Michel chegou à conclusão de que Elias deveria sumir do mapa.

 

Ao planejar o crime, começou pelo fim, convencido de que o corpo da vítima teria de desaparecer. Comprou uma mala numa loja da ladeira Porto Geral e, em seguida, foi à rua de São João – na época, uma rua modesta de casas baixas –, em busca de um funileiro para forrar a mala com folhas de zinco. Entrou na oficina do italiano Francesco Ascoli, regateou o preço e fechou o serviço.

Ascoli não sabia que a encomenda o levaria a viver seu segundo momento de fama no cenário noir, agora como testemunha de um crime sensacional. Ele já havia sido protagonista de um delito culposo, ao tentar se livrar de ratões e ratazanas que infestavam sua oficina. Na luta contra os roedores, Ascoli se munira de vassouras e armadilhas, mas sempre fracassava porque os predadores mortos eram substituídos por outros, em número cada vez maior. Certo dia, desesperado, ele apelou para um recurso extremo. Pegou uma espingarda e começou a atirar para o chão. Os fundos da oficina, porém, eram contíguos a uma casa de espetáculos muito concorrida – o Teatro Politeama –, instalada num barracão. Em meio à fuzilaria, um tiro perfurou o precário tabique de madeira que separava as duas construções e feriu um espectador. Ascoli não só continuou com seus roedores como teve de se haver com um processo.

Em princípios de 1908, depois de anos de bons negócios, a empresa Elias Farhat & Irmão enfrentava dificuldades e estava à beira da falência. Em 2 de setembro de 1908 – uma quarta-feira –, Michel convidou Elias para conversar sobre os problemas da empresa em um lugar calmo: o sobrado da rua Boa Vista, nº 39, onde ele tinha escritório e um quarto para morar. Quando Elias chegou, Trad ofereceu-lhe uma cadeira e, sem interromper a conversa, afastou-se para pegar uma corda, escondida debaixo de um móvel. Num gesto rápido, envolveu o pescoço do outro, que estava de costas para ele. Foi apertando o laço cada vez mais, e só parou quando a cabeça da vítima pendeu para o peito e ruídos abafados silenciaram.

Praticado o crime, cercou-se de alguns cuidados. Visitou a família de Elias e, aparentemente muito preocupado, foi à polícia comunicar seu desaparecimento. De volta ao escritório, deu início a um trabalho cirúrgico. Com paciência, seccionou o corpo da vítima utilizando um instrumento cortante, a fim de que os despojos coubessem na mala. Providenciou o transporte do volume até a Estação da Luz e desceu a serra por trem, rumo a Santos.

No cais, Trad inventou um destinatário falso para a bagagem e a embarcou no vapor Cordillère, que seguia para a França, com escala no Rio de Janeiro. Ao ser transportada para o navio, a mala exalava um odor insuportável, que Trad explicou provir dos salames e queijos destinados a um amigo, no outro lado do Atlântico. O imediato do navio deixou-se convencer por aquele moço educado que, além do mais, argumentava em francês. Sem abrir a mala, determinou que ela fosse colocada num ponto isolado do convés. Michel escapara por pouco. Passado o susto, e já a bordo, pois decidira ir até o Rio, resolveu desembaraçar-se daquela carga incômoda.

Nas proximidades da capital federal, quando tentava deslocar o baú para a amurada do navio, de onde pretendia atirá-lo ao mar, foi surpreendido por um tripulante e em seguida detido. Em vez de laticínios e embutidos, encontraram o corpo despedaçado de um homem, em estado de decomposição.

Ao desembarcar, Trad tentou se safar com uma desculpa esfarrapada. Alguns dias antes teria chegado em casa e, para seu espanto, encontrara o volume. Ao lado dele, postavam-se dois italianos cujos nomes não conseguia lembrar. Sob ameaça de morte, os mal-encarados o obrigaram a transportar o volume até Santos e a embarcá-lo num navio que seguisse para a Europa.

Depois de narrar essa história inverossímil, Trad foi remetido para São Paulo, pela Central do Brasil, onde foi instalado no vagão postal. Segundo narrativas da imprensa, o comboio era abordado por grupos de sírios raivosos em cada estação onde parava. Em Palmeiras, alguns homens teriam tentado quebrar a janela do carro para atacar Trad – o assassino que com um ato nefando manchara o nome da colônia.

Uma vez em São Paulo, Trad chegou a insistir na história dos dois italianos, mas acabou por confessar o crime nos mínimos detalhes. Recusou-se, porém, a revelar as razões de seu ato. Nem mesmo uma conversa com o secretário da Justiça, Washington Luís, o fez mudar de atitude. Ele permaneceu calado durante os longos anos de prisão.

 

Por suas características macabras, por sugerir atritos entre as colônias estrangeiras e, sobretudo, por encerrar, quem sabe, um mistério amoroso, o primeiro crime da mala sacudiu a cidade de São Paulo. Tanto mais quando, a certa altura da investigação, os pormenores escabrosos cederam terreno a um folhetim judiciário, em que figuravam como personagens o marido traído, a esposa infiel, o amante apaixonado. Tudo atravessado por uma interrogação crucial: teria a esposa sido infiel?

Para o delegado que presidiu o inquérito, a dúvida não fazia sentido. Ele justificou o pedido de prisão preventiva sem meias palavras: “D. Carolina Farhat teve com Michel Trad colóquios amorosos e troca de cartas que, entre senhora casada e moço solteiro, nos termos em que são escritas, não deixam dúvidas a respeito das relações entre os dois.” O juiz de primeira instância deferiu o pedido, e em 10 de setembro de 1908 Carolina, acompanhada da mãe, viu-se obrigada a comparecer à Central de Polícia, onde foi detida.

O fato provocou uma onda de consternação e grande parte da imprensa se colocou decididamente ao lado da moça. No dia seguinte à prisão, um habeas corpus foi impetrado em favor de Carolina, perante o Tribunal de Justiça. No dia do julgamento, uma aglomeração se formou diante do fórum da cidade desde as primeiras horas da manhã. Para evitar manifestações, a polícia mandou cercar a Praça da Sé e imediações, e para lá foram enviados cavalarianos e soldados da Força Pública.

Sempre ao lado da mãe, Carolina chegou ao fórum bem cedo, em automóvel de praça, sem ser notada. Mãe e filha entraram no prédio e foram acomodadas na sala dos advogados. À tarde, quando o julgamento ia começar no recinto do júri, o espaço reservado à assistência estava lotado de jornalistas, estudantes, profissionais liberais e três alunas da Faculdade de Direito, que se sobressaíam naquele ambiente masculino.

Após a entrada solene dos desembargadores, todos os olhos fixaram-se numa porta lateral, de onde surgiram duas mulheres, vestidas de luto rigoroso. A primeira era uma senhora idosa, bem nutrida, de fisionomia resignada e simpática – Maria Monti, mãe de Carolina; a outra era a própria Carolina, formosa, mas lívida, desfeita, cambaleante, como que a cair, não fosse o apoio do braço materno, como narrou uma reportagem de O Estado de S. Paulo. Ao descrever esse quadro dramático, o jornal chegou a dizer que o quase desfalecimento era, por si só, uma demonstração da inocência da jovem senhora.

Em primeiro lugar, falou a acusação, insistindo na existência de fortes indícios que justificavam a prisão preventiva. Dentre eles, a visita de Michel a Carolina, quando Elias já fora morto, testemunhada por três senhoras sírias; o comparecimento da viúva à polícia, a pedido de Michel, tão logo ele foi detido, e a rápida conversa que tiveram, sussurrando palavras em francês; e, principalmente, o teor das cartas trocadas entre os supostos amantes.

A seguir, tomou a palavra o dr. Alfredo Pujol, advogado de grande prestígio em São Paulo, que aceitara o encargo a pedido de pessoas influentes da colônia italiana. Além de considerar duvidosos os depoimentos das senhoras sírias, Pujol insistiu na argumentação de que as cartas só poderiam ser consideradas incriminadoras em consequência de uma tradução desastrada. O canhestro tradutor traduzira a expressão inicial mon cher e a expressão final bien à vous, conferindo-lhes uma intimidade que não correspondia ao sentido da língua original. Para provar sua afirmação, o dr. Pujol leu trechos de um manual de savoir-vivre, escrito por uma dama da “alta aristocracia francesa”, que demonstravam ser aquelas expressões indicadoras de cortesia, e não de íntimas relações.

O habeas corpus foi concedido por unanimidade. Nas declarações de voto, os desembargadores censuraram o açodamento do promotor público e do juiz do caso, por terem acolhido sem maior fundamento a solicitação da polícia. Quando logo em seguida a viúva foi libertada, a pequena multidão postada diante do fórum formou um cortejo que percorreu as ruas do Centro, lançando vivas à jovem viúva e hurras à Justiça.

Como explicar a comiseração e o carinho que Carolina despertou na imprensa e na opinião pública? Só é possível conjecturar. Teria ganho consistência, aos olhos do público, a figura de Carolina como uma jovem desamparada, vítima do marido e de seus parentes, despertando sentimentos de proteção? Do ponto de vista social, seria demais pensar que a corrente em favor da viúva refletia, respectivamente, imagens favoráveis e desfavoráveis das comunidades italiana e síria, na cidade de São Paulo?

Seja como for, após Carolina ter saído de cena, o processo tomou o rumo de uma crônica judicial, cujo desfecho era inevitável. Trad desinteressou-se de sua defesa e acabou condenado a 25 anos de prisão.

Em seus longos anos como prisioneiro, Trad sempre se situou acima da massa carcerária, considerando-se e sendo considerado um preso especial. Obteve a regalia de um pequeno escritório, onde registrou um diário em francês, que O Estado de S. Paulo publicou em fascículos. Escreveu ainda As Evasões Célebres da Cadeia Pública de São Paulo, em que descreve a psicologia dos presos e critica o sistema penitenciário; e ainda um relato da revolução tenentista de 1924, a partir de um ângulo peculiar: A Revolução de Julho Vista da Cadeia. Cumpridos dezesseis anos de pena, Trad foi posto em liberdade. Acabou se envolvendo com tráfico de drogas e, preso, foi expulso do território brasileiro, para onde nunca mais voltou.

 

A história do segundo crime da mala começou a ser esboçada a bordo de um navio de carreira que partira da Itália, rumo à Argentina, em dezembro de 1926. Nele viajavam Giuseppe Pistone e Maria Mercedes Féa. Ela ia se encontrar com a mãe e um irmão em Buenos Aires, onde viviam. Pistone nascera em 1897, em Canelli, pequena cidade do norte da Itália, famosa pela fabricação de espumantes. Seus pais, gente de classe média, eram agricultores vinhateiros. Ele participara da Primeira Guerra Mundial e, quando o conflito teve fim, sentiu-se livre para tentar a sorte do outro lado do Atlântico, tanto mais que os anos de pós-guerra foram marcados por uma intensa agitação social na Itália.

Maria viajava sozinha, em terceira classe. Giuseppe se interessou pela moça e, quando o navio fez escala em Barcelona, pagou a diferença de preço da passagem para que Maria subisse à segunda classe. Segundo ele, os dois dormiram em camarotes separados. Em Buenos Aires, começaram um namoro que resultou no casamento realizado em fevereiro de 1928. Logo em seguida, o casal viajou para a Itália, onde ela foi conhecer a família do marido.

Numa fotografia tirada a bordo, o casal parece feliz no convés do Conte Biancamano, um navio de passageiros que fazia a linha Itália–Argentina, com escalas no Brasil. Maria, apoiada na amurada do navio, tem o cabelo cortado à la garçonne e um turbante na cabeça. Traz um casaco escuro no braço direito, veste blusa e cardigã claro, saia plissada até o joelho, meias brancas cobrindo-lhe as pernas finas. Giuseppe está de perfil, olhando para Maria. De terno escuro e gravata-borboleta, usa um chapéu claro e calça botinas pretas.

O casal passou alguns meses na Itália, só regressando a Buenos Aires em meados de 1928. Não se fixaram na capital portenha, resolvidos a se instalar em São Paulo, aonde chegaram em agosto. Essa pressa em se transferir para o Brasil decorria da condenação de Pistone a alguns meses de prisão, pela prática de um estelionato na província de Santa Fé. O casal passou alguns dias no Hotel D’Oeste – o mesmo em que, mais de vinte anos antes, Trad, Carolina e Farhat costumavam jantar uma vez ou outra.

Pistone providenciou a locação de um quarto num apartamento recém-construído da rua Conceição (hoje Imaculada Conceição), no bairro de Santa Cecília. A escolha não era fortuita. Naquela rua, ao que parece, um parente distante, Francesco Pistone, estabelecera-se com um armazém de secos e molhados. Francesco acolheu o compatriota e o empregou em seu negócio.

Mas Pistone não estava disposto a vegetar num emprego. Tão logo chegou ao Brasil, escreveu uma carta para sua mãe, Marcellina Boeri, residente em Canelli, instando que lhe enviasse uma importância em dinheiro, resultante da herança deixada por seu pai. Em carta datada de 12 de setembro de 1928, Marcellina respondeu secamente: “Para acabar com isso de uma vez, dei ordens ao Banco Comercial para fazer a remessa das tuas 150 mil liras. Fico deste modo livre de uma preocupação. Não acreditava ter um filho assim tão perdulário. Ouve bem que essas são as últimas. Saúda a ti e à senhora, a tua mãe.”

Desconfiada das imprevidências do marido, Maria convenceu-o a confiar às mãos de Francesco Pistone 15 mil liras pertencentes ao casal. Quando foram entregar o dinheiro ao depositário, armou-se uma discussão: a quantia era menor e Francesco percebeu que Giuseppe sumira com a diferença. Àquela altura, as relações do casal azedaram de vez.

No dia 4 de outubro de 1928, Pistone saiu do armazém de Francesco e se dirigiu ao quarto do casal, onde habitualmente almoçava. Uma vizinha ouviu a porta bater. Em seguida, chegou-lhe aos ouvidos uma discussão entremeada de gritos, vinda do quarto. Aos gritos sucederam-se sons abafados e, por fim, o silêncio. Pistone assassinara Maria, apertando-lhe a garganta com as mãos.

Segundo o marido declarou mais tarde, o ato que cometera, apesar de justificável, conforme alegou, deixou-o desesperado. Vagou por muito tempo pelas ruas, pensou em entregar-se à polícia, e resolveu afinal suicidar-se, mas lhe faltou coragem. Em vez de tentar pôr fim à vida, preferiu salvar a pele.

Na manhã seguinte ao crime, foi a uma casa de malas na avenida São João e comprou um baú na loja de um italiano chamado Domingos Mascigrande. Quando a peça lhe foi entregue, seccionou o corpo com uma navalha, na altura das pernas, para poder ajeitá-lo no contêiner. No mesmo dia, providenciou o despacho para Santos e desceu a serra pelo trem noturno. No dia seguinte, depois de ter recolhido o baú, foi a uma agência de viagens e pediu uma etiqueta, que preencheu com o nome de um falso destinatário: “Ferraro, Francesco – Bordeaux”. Um carregador deixou a encomenda perto do vapor Massilia, para ser embarcada.

 

Tudo corria bem, até que o plano desandou. Ao ser içado para bordo por um guindaste, o baú soltou-se e caiu ao chão. Aberto, dele surgiu o corpo despedaçado de Maria Féa. Pistone, que olhava a cena à distância, voltou imediatamente a São Paulo. Resolveu encenar com o senhorio a mudança de domicílio. Foi à rua Santa Efigênia, onde acertou com Max Tablow, um comerciante judeu de móveis usados – descrito como “um russo baixinho, gordo e com um defeito na vista” –, a venda da mobília do casal.

Como os vizinhos estranhassem a súbita transferência, explicou-lhes que Maria caíra doente e eles tinham decidido mudar-se para uma casa na Barra Funda. A história era meio esquisita. Quando os jornais publicaram em primeira página a notícia do crime, com fotos de Maria e Pistone, uma vizinha os reconheceu e foi à polícia, acompanhada do marido. Pistone acabou sendo preso na casa de um amigo italiano, onde se abrigara.

Em suas primeiras declarações, ele tentou justificar-se com uma história fantástica, que se não fosse tão mirabolante poderia livrá-lo de uma condenação, ou pelo menos reduzir sua pena, na condição de marido desesperado diante de uma cena de adultério.

Segundo sua narrativa, no dia do crime ele teria saído mais cedo do armazém de secos e molhados para almoçar em casa. Entrou no prédio em que morava, tomou o elevador, desceu no 3º andar e, ao caminhar pelo corredor, esbarrou num homem corpulento, que levava um chapéu palheta nas mãos. Achou o homem estranho, apressou o passo e, ao entrar no apartamento, surpreendeu a mulher seminua, na cama desfeita do casal. Uma centelha de desespero teria quase lhe escurecido a visão e, sem saber o que fazia, agarrou o pescoço de Maria e acabou por asfixiá-la.

Dias mais tarde, Pistone acrescentou mais pimenta à história, ao dizer que desconfiava havia algum tempo do procedimento da mulher. O ultraje à sua honra fora tamanho que a esposa teria chegado a frequentar os rendez-vous existentes no Largo do Arouche. Apesar dessa história nada crível, pelo sim, pelo não, alguns inspetores de polícia se encarregaram de fazer uma verificação. Percorreram os locais mencionados e exibiram às prostitutas uma fotografia de Maria, sem qualquer resultado.

Embora a condenação de Pistone a uma longa pena fosse previsível, o processo criminal não foi despido de interesse. Ainda que empobrecido a ponto de não poder pagar as despesas do processo, o réu foi defendido tenazmente por uma série de advogados. O mais importante deles foi o dr. Antonio Covello, um dos mais brilhantes profissionais de júri de São Paulo, famoso pela dramaticidade de sua oratória. Um outro, o dr. Moraes Sarmento, conseguiu suspender a exibição de um filme lançado em São Paulo, um mês após o crime. Depois de atacar o sensacionalismo da imprensa – que, segundo ele, fugia à sagrada missão de orientar a opinião pública –, o advogado acentuou que o filme acirraria as pessoas contra um réu em princípio inocente, pois ainda não fora julgado pelo Tribunal do Júri.

A batalha judicial girou sobretudo em torno de pareceres a um tempo minuciosos e contrastantes, assinados por peritos de prestígio, a partir do laudo necroscópico de Maria. O professor Afrânio Peixoto, catedrático de medicina legal da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, indicado pela acusação, depois de longas considerações concluiu que, sem sombra de dúvida, o laudo era exato em suas conclusões, ao demonstrar a morte de Maria Féa por asfixia. Já o professor Flamínio Fávero, catedrático da mesma disciplina na Faculdade de Medicina de São Paulo, concluiu que era forçada a afirmação do laudo, uma vez que a morte de Maria teria se dado por traumatismo externo da laringe. Como a autopsia constatasse que Maria estava grávida de seis meses, um dos peritos indicados pela defesa chegou a afirmar que uma eclampsia – enfermidade consequente da hipertensão arterial, que ocorre na gravidez ou no pós-parto – poderia ter sido a causa da sufocação da garganta.

Pistone tratou de fazer render as dúvidas a respeito da morte de Maria. Desmentiu a história do adultério, referiu-se ao estado de fraqueza da mulher durante a gravidez, e passou a afirmar que, quando entrou no quarto do casal, encontrou-a já morta. Se culpa tivera, fora por profanação de cadáver. Reconhecia ter cometido erro grave ao tentar dar cabo do corpo, mas praticara o ato movido pelo temor do que lhe poderia suceder, pois “estando em terra estranha não conhecia ainda a generosidade do povo brasileiro”.

Aos olhos de hoje, soa familiar a parafernália de recursos apresentada pelos advogados do réu. Apelações, embargos declaratórios, agravos de petição, agravos de instrumento, revisão da pena. Em meio ao processo, um delegado de polícia veio em socorro de Pistone, argumentando que o réu era impulsivo, e não um monstro, como a imprensa insistia. Mas todo o esforço dos defensores pouco lhe valeu. Encarcerado desde 1928, por ocasião do início do processo, Pistone foi condenado a 31 anos de prisão em agosto de 1937, num último julgamento, depois de esgotados todos os recursos. Após ficar aproximadamente vinte anos na cadeia, obteve a liberdade condicional em agosto de 1944; sua pena foi considerada cumprida em 1948. Conseguiu um emprego de zelador em Taubaté, no interior de São Paulo, casou-se e, ao que se presume, morreu em paz, em 1956.

 

Algumas características comuns estabelecem uma ponte entre os dois crimes da mala. Em ambos, não obstante a distância de vinte anos, salta aos olhos a forte presença dos imigrantes, na São Paulo das três primeiras décadas do século XX. Excetuando-se os membros do aparelho policial e judiciário, os protagonistas são sírios ou italianos. Cartas, atestados e outros documentos redigidos em francês, ou em italiano, recheiam os processos. Neles, as falas dos réus e de muitas testemunhas são transcritas com o auxílio de um tradutor.

Depois dos dois primeiros crimes da mala, muitos outros se sucederam em São Paulo, mas sem as peculiaridades dos dois primeiros e sem a mesma repercussão. Os crimes pioneiros foram cantados em prosa e verso, em fascículos publicados nos jornais, em reportagens, em romances e em filmes. As películas, como O Crime da Mala – A Tragédia Silenciosa, de Francisco Madrigano, e A Mala Sinistra, do cineasta luso-brasileiro António Leal, atraíram grande público aos cinemas não só de São Paulo e do Rio de Janeiro.

A lembrança dos dois assassinatos e de seus personagens variou. A tragédia de 1908 foi quase esquecida, a ponto de se falar da que lhe sucedeu como “o primeiro crime da mala”. As figuras de Trad, Elias Farhat ou Pistone desapareceram no tempo, ao contrário do que ocorreu com Maria Féa. Pela brutalidade do crime, pelas injúrias lançadas contra ela, pelo fato de estar grávida, Maria foi transformada em santa popular e a seu túmulo, no cemitério do Saboó, em Santos, ano após ano acorrem centenas de pessoas em busca de proteção.

Algumas perguntas, porém, restaram. Como teria ocorrido tanto a Trad quanto a Pistone esquartejar e enfiar numa mala os corpos de suas vítimas, e tentar remetê-los à Europa? No caso de Trad, não é demais sugerir que a ideia lhe teria vindo de relatos de crimes similares, lidos nas publicações estrangeiras que ele comprava habitualmente. E Pistone? Teria sido um imitador de Trad, em busca de lograr êxito onde o predecessor fracassara? Mais ainda: a escolha da travessia por mar para dar sumiço aos corpos poderia ser explicada pelo fato de navios, cargas e a imensidão oceânica constituírem para eles espaços familiares, mais conhecidos do que a terra de imigração a que haviam aportado recentemente?

Trad e Pistone não se assemelhavam ao estereótipo do imigrante. Pistone, sobretudo, pertencia a um grupo minoritário, mas significativo, de aventureiros e delinquentes que se moviam com facilidade de um país para outro. Se não foram personagens edificantes, nem por isso deixaram de fazer parte da história da imigração em massa para as terras da América.

Boris Fausto

Boris Fausto, historiador e ex-professor de ciência política da USP, é membro da Academia Brasileira de Ciências.

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