esquina

A mulher audiência é do Méier

O teste de elenco para o programa Trash Hour

Mariana Filgueiras
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2011

Na tarde da quinta-feira que antecedeu o Carnaval – que no Rio de Janeiro já é praticamente Carnaval –, uma chuvarada repentina esfriou os ânimos e esvaziou as ruas de Copacabana. Por isso, ao contemplar o pouco movimento da janela do único restaurante chinês da rua Bulhões de Carvalho (que os mais antigos chamam de Quase-Quase), o garçom estranhou a buliçosa colmeia de moças lindas e esbaforidas no portão da casa ao lado. Elas tocavam o interfone e entravam com pressa, em meio a interjeições, indecisas entre proteger da chuva os cabelos recém-saídos da chapinha ou as sandálias de salto altíssimo.

Chegou a primeira, a segunda, a terceira, a quarta, ele chamou um colega para compartilhar a miragem, a quinta, a sexta (a mais bonita, na sua opinião), a sétima, a oitava (“Não é aquela do programa do Luciano Huck?”, cutucou o companheiro) e a nona. Quando o gerente do restaurante percebeu o burburinho, andou tão rápido até a janela que quase caiu do parapeito. Só deu tempo de ver a 11ª, uma morena de vestido preto ajustado (aparentemente) a vácuo.

Era a última convocada para o teste de elenco para o papel de Mulher Audiência do programa de televisão Trash Hour. A função estava marcada para as quatro da tarde numa locação improvisada: uma velha casa de vila onde funciona a Toscographics, a produtora do cartunista Allan Sieber. Dois meses antes, numa mesa de bar, o cineasta Fabiano Maciel havia apresentado a Sieber uma ideia de programa. Ainda que de humor, o programa tinha vocação para incorrer nos maus bofes tanto de uma hipotética Sociedade Protetora de Animais Recolhidos em Enchentes quanto do Sindicato das Enfermeiras de Porto Alegre, já que Sieber é de lá, e tem um sotaque mais ortodoxo que chimarrão.

O cartunista topou. Para quem já foi demitido de uma editora luterana por usar indevidamente o maquinário cristão para fazer revistas de conteúdo pagão (Glória, Glória, Aleluia!, de 1997) e uma série de animação rechaçada pelo arcebispo do Rio de Janeiro pelas referências etílico-profanas (Deus é Pai, no início dos anos 2000), ser apresentador de um programa-lixo era, ele explicou, “como roubar doce de criança cega”.



Juntos, Sieber e Maciel convenceram o Canal Brasil a liberar a faixa da meia-noite para a empreitada. Escreveram roteiros e, como um dos quadros mimetizaria um talk-trash-show, escolheram entrevistados mais próximos da bizarrice que do estrelato. Integravam a lista o artista plástico Cabelo, que explodia peixes nos anos 80, o diretor de filme pornô (e motorista de van nas horas vagas) Athayde de Amar e um ex-anão da cidade de Itabaianinha.

Mas o primeiro passo para a concretização do programa seria dado naquela véspera de Carnaval: o teste de escolha da Mulher Audiência. O raciocínio que justificou a criação da atração foi o seguinte: todo programa de televisão com boa audiência tem mulher.

“E não é que elas vieram mesmo?”, surpreendeu-se Sieber – um maço de cigarros num bolso, balinhas para o hálito no outro, braços cobertos de tatuagem –, ao atender o interfone. O teste seria simples. Na pequena sala onde o cartunista rabisca as tirinhas que publica na Folha de S.Paulo – um espaço de 10 metros quadrados entulhado de papéis velhos, decorado com manchetes de jornal curiosas (“Chifrudo moído entope privada”, por exemplo), encimadas por um aparelho de ar-condicionado que nunca foi limpo –, as candidatas deveriam entrar de salto alto e biquíni, sentar-se ao lado de Sieber e responder a perguntas do diretor.

As perguntas deveriam ser desconcertantes, para testar a espontaneidade e a capacidade de improvisação das jovens. Depois, elas deveriam se levantar da cadeira, dar uma voltinha pela sala, para testar a videogenia do rosto e do corpo, e acender uma vela para Nossa Senhora dos Eufemismos.

 

À medida que a chuva apertava, o frenesi na antessala aumentava. Não havia secador de cabelos para as que chegavam respingadas da rua. Como é de praxe no ambiente de televisão, a solidariedade era zero: quem levou secador não o emprestou às demais. A verba curta de produção tampouco permitira a contratação de maquiador. Era cada uma por si e um espelho contra todas.

A primeira foi chamada. Os 27 minutos que a loura passou a portas fechadas deixaram as outras dez concorrentes ressabiadas. “Demora tanto assim?”, perguntava a segunda concorrente à produtora de elenco. A moça ansiosa tinha que chegar a Angra dos Reis para participar de um baile pré-carnavalesco ainda naquela noite. É assim que algumas candidatas ganham o sustento: são contratadas para circular em festas, mesmo sem conhecer ninguém, por um cachê em torno de 300 reais. “Como foi o teste?”, perguntaram à primeira candidata, assim que a porta abriu. “Tranquilo, nem pediram para mostrar a bunda”, soltou a loura, já vestindo a calça jeans para ir embora. Até hoje não se sabe se a moça foi sincera.

O segundo teste não durou nem dez minutos, e a jovem conseguiu chegar em Angra a tempo. Quando a terceira avaliação terminou, o diretor juntou a equipe num canto e comunicou: “Já temos a nossa Mulher Audiência.” Era como se Maciel, o Fellini da Bulhões de Carvalho, tivesse topado com uma Anita Ekberg. Como aquela deusa tinha aparecido ali? Atriz formada pela Casa das Artes de Laranjeiras, escola de atores que já formou de Patrícia Pillar a Dado Dolabella, a candidata reunia o que os criadores do programa sonhavam: o aristotélico encontro entre o bom e o belo.

“Ela fotografa perfeitamente, tem atitude”, justificou Maciel. “E mora no Méier”, completou. O bairro de Thatiana Moraes – esse é o seu nome – fica no simpático subúrbio carioca, espremido entre a linha do trem e uma praça com uma estátua gigante de um leão (que sempre tem os testículos de concreto pintados de vermelho pelos moleques da vizinhança).

Mas ainda havia oito almas e corpos derretendo na antessala improvisada como camarim, à espera de uma chance de alçarem à ribalta. A quarta candidata ruborizava demais, a quinta não conseguia ignorar a câmera. No sexto teste, o diretor titubeou quanto à decisão anterior: a jovem, que era a preferida da turma do restaurante chinês, era exótica e excelente atriz. Em novo comunicado à equipe, antes da gravação com a sétima convocada, Maciel marcou um segundo teste para tirar a teima entre as duas semifinalistas.

Na sequência, passaram batidas a sétima e a oitava candidatas. A nona foi desclassificada por excesso de testosterona. E a décima provou que a ideia de um segundo teste era realmente adequada. Passista de escola de samba, ela tinha uma praia inteira – com mar, areia e coqueiro – desenhada em cada uma das unhas, o que intrigou o futuro apresentador: em que parte do corpo alguém, um dia, seria capaz de pintar seus cartuns?

A 11ª (a do vestido preto) também foi selecionada para o novo teste, apesar de já fazer parte do elenco de um seriado de tevê em horário nobre: era gaúcha, tal e qual, tchê, 98% da equipe de produção.

Na semana seguinte, pós-Carnaval, já fazia sol em Copacabana quando as quatro finalistas se reencontraram na antessala. Era o grande dia. Dessa vez, estranhamente, o filtro do ar-condicionado estava limpo. O espelho era o mesmo, assim como o repertório de perguntas inesperadas no teste (“Onde fica o Curdistão?”, era uma delas). Mas não teve jeito. Nem para a excelente e exótica atriz, a passista ou a gaúcha. Nada era mais trash do que uma legítima representante de um bairro que ostenta em praça pública o símbolo do Lions Club.

Mariana Filgueiras

Mariana Filgueiras é jornalista.

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