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    CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2025

esquina

A nova brasileira

Uma travesti angolana muda de nacionalidade

Thallys Braga | Edição 232, Janeiro 2026

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Quando Mara Liona Frederico tinha 20 e poucos anos, um amigo lhe disse: “Se quiser ser livre, você vai ter que ir para o Brasil.” O rapaz tinha acabado de voltar a Luanda depois de uma temporada no Rio de Janeiro, onde pôde beijar homens à luz do dia, na areia da praia, e não levou nenhuma pedrada. Para a amiga, era como se ele estivesse descrevendo o paraíso. “Em Angola, pessoas como nós saem na rua e pedras começam a voar”, diz ela, apertando o canto do olho para conter uma lágrima. A violência lhe deixou cicatrizes na sobrancelha esquerda e no queixo.

Mara, que é travesti, e seu amigo gay foram figuras ativas na cena LGBTQIAPN+ de Luanda no início dos anos 2000. Saíam para dançar quizomba em bares secretos e se dividiam para acolher os que eram abandonados pela família. Tudo longe dos olhos públicos. Em casa, a identidade de gênero de Mara não era problema para ninguém. Dos seus cinco irmãos, dois eram gays, e uma, lésbica. “Mamãe só queria ver a gente feliz”, ela conta. A mãe deu apoio incondicional quando Mara, cansada de temer a morte, decidiu se mudar para o Brasil em 2010.

Aos 31 anos, a moça se instalou no bairro Santa Cecília, em São Paulo, hospedada na casa de um conhecido angolano que havia desembarcado antes no Brasil. Foi trabalhar como cabeleireira, função que aprendeu com as mulheres da sua família. Mandava parte do salário para ajudar o tratamento de um irmão portador do HIV.

 

Durante os primeiros anos de liberdade no Brasil – amizades travestis, caminhadas na rua à luz do dia e alguns insultos, mas nenhuma pedrada –, Mara fez um pé de meia e comprou passagens para visitar a mãe em Angola. Foi presa por tráfico de drogas na sala de embarque do aeroporto do Galeão, no Rio, onde fazia uma escala.

 

Mara Frederico foi condenada em primeira instância. Ela até hoje alega inocência, mas não chegou a recorrer contra a sentença porque já tinha ficado quase quatro anos no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, no Rio de Janeiro, tempo que correspondia à sua pena. Ao deixar a cadeia, ela não sabia para onde ir. Acabou em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, na casa do único contato que tinha no Rio: um amigo que conheceu no presídio. “Nunca vi lugar tão feio”, diz.

Entre um trabalho temporário e outro, conseguiu um local para morar de aluguel em Costa Barros, na Zona Norte carioca. Foi contratada como cabeleireira num salão de beleza em Madureira, bairro onde conheceu outras travestis, que a acolheram como uma irmã.

 

Em 2016, as amigas contaram para Mara a novidade de que as travestis brasileiras tinham ganhado o direito de incluir o nome feminino na carteira de identidade. A então presidente Dilma Rousseff acabara de assinar um decreto garantindo o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas transexuais em documentos e em sistemas de informação públicos, como prontuários médicos.

Mara pôs uma pasta com documentos debaixo do braço e foi a uma unidade da Receita Federal pedir a inclusão do nome social no seu Registro Nacional de Estrangeiro. Poucos dias depois, recebeu a notícia de que o seu pedido não poderia avançar. A Polícia Federal classificou Mara como uma ameaça para a segurança nacional: ela já tinha sido presa antes e estaria pensando em usar um nome feminino para cometer novos crimes. Não levaram em consideração o fato de que, embora constasse um nome masculino em seus documentos, a estrangeira sempre se apresentou como Mara. E que na prisão ela ocupou uma ala separada para travestis. Também tinha silicones nos seios e no glúteo, e usava maquiagem e tranças longas no cabelo.

Ela buscou o apoio da Cáritas, um organismo da Igreja Católica que tem experiência com refugiados. Explicaram que precisaria se naturalizar brasileira para ganhar a confiança da Justiça e ter o seu nome social incluído nos registros do governo. Mara recorreu, então, a uma clínica jurídica para refugiados e imigrantes da Fundação Casa de Rui Barbosa especializada em casos que envolvem questões de gênero. Isso foi em 2018.

 

Como a reabilitação criminal é uma exigência do governo brasileiro para conceder a naturalização aos estrangeiros, ela teve que passar os sete anos seguintes se deslocando de Costa Barros ao Centro do Rio para regularizar a sua situação de imigrante até obter a confiança da Justiça brasileira.

Com o passaporte retido, Mara não vê a família há mais de dez anos. Quando seu irmão morreu por complicações da Aids, ela não pôde ir ao enterro dele em Luanda. Dos quatro irmãos que continuam vivos, um está em Lisboa, e outra, em Londres. “Falo com eles todo dia pelo telefone”, diz. “Mesmo longe, estamos perto.”

 

No dia 20 de outubro, Mara Frederico, de 44 anos, chegou às duas da tarde ao posto de atendimento do Detran no Centro do Rio de Janeiro. “Eu gosto de dar entrevistas”, disse à piauí. “Uma vez, uma faculdade de direito aqui do Brasil me chamou para falar sobre a Guerra Civil de Angola.” Na juventude, ela saiu para comprar pão em Luanda e foi atingida por estilhaços de uma bomba. Tem cicatrizes proeminentes nas duas canelas. “Depois que vi pedaços de carne humana espalhados pelo chão, passei dois anos sendo vegana.”

Mara foi ao Detran acompanhada de um advogado que começou a acompanhar o caso dela quando ainda era estagiário da Fundação Casa de Rui Barbosa. Na semana anterior, ele mandara uma mensagem à cabelereira dizendo que o governo lhe havia concedido a naturalização brasileira, e ela finalmente poderia emitir documentos com o nome feminino.

A fim de festejar a nova situação, Mara reuniu as amigas travestis no Parque Madureira para beber e ouvir música numa caixa de som portátil. No dia seguinte, a comemoração continuou na casa dela. “Minha irmã também fez festa em Londres”, conta. Mara só parou de comemorar porque voltou a sentir dores nas costas. Ela lida com crises esporádicas de coluna há mais de um ano. Seu último exame de raio X mostrou que as vértebras da lombar estão tortas, resultado das muitas horas que passa trabalhando em pé no salão de beleza.

No posto do Detran, no dia 20, duas horas depois de sua chegada, Mara se posicionou diante de uma câmera fotográfica. Ouviu-se um clique e uma luz agressiva iluminou o rosto da moça. A atendente disse que ela deveria voltar ali na primeira semana de novembro para buscar sua nova carteira de identidade. Mara se levantou com os braços para o alto, mexeu o quadril para cá e para lá e disse: “Agora eu sou brasileira como vocês.”

Thallys Braga
Thallys Braga

Repórter da piauí

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