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    Nascimento descobre o valor relativo das verdades que considerava inquestionáveis ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_ESTÚDIO ONZE

questões cinematográficas

A pausa que diverte

Em Tropa de Elite 2, José Padilha mobilizou valores que formam o caldo de cultura das ditaduras; e milhões de espectadores-eleitores parecem ter encontrado no filme a representação da sua descrença na política e nos políticos

Eduardo Escorel | Edição 50, Novembro 2010

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O fato de ter sido visto por mais de 7 milhões de espectadores nas primeiras semanas de exibição – demonstrando potencial para se tornar o filme de maior público do cinema brasileiro – não exclui a necessidade de argumentos que procurem equilibrar a euforia em torno de Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro.

Com talento artístico e competência empresarial, José Padilha – diretor, produtor e roteirista – e sua equipe realizaram o feito singular de serem bem-sucedidos ao tratar de assunto da atualidade, façanha que situa Tropa de Elite 2 em categoria à parte entre os títulos que integram a lista dos filmes mais vistos do cinema nacional.

Ao contrário do conservadorismo predominante nos subprodutos da televisão e nos filmes de proselitismo espírita, únicas alternativas com bom público até o advento de Tropa de Elite 2, o filme dirigido por José Padilha lota cinemas contrariando preceitos. Além de ser narrado em voz off pelo personagem principal – recurso tido como pouco comercial por supostos entendidos em marketing – o filme invalida a noção de que o público rejeita sua própria realidade quando mostrada na tela, ideia usada muitas vezes como justificativa para fracassos comerciais.

Favorecido pelo acaso de ter estreado no início do segundo turno da eleição presidencial, Tropa de Elite 2 trata de segurança pública e corrupção, temas na ordem do dia. Espectadores-eleitores, cientes da obrigação de votar no final de outubro, parecem ter encontrado no filme a representação da sua descrença na política e nos políticos. Indo ao encontro desse sentimento, Tropa de Elite 2 talvez tenha aberto o caminho do sucesso – antes do exercício compulsório do voto, nada como a pausa que diverte.

O pressuposto que fundamenta o roteiro de Tropa de Elite 2, escrito por José Padilha e Bráulio Mantovani, parece ser o mesmo do livro Elite da Tropa, lançado em 2005. No prefácio, os autores – Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel, os dois últimos ex-integrantes do Batalhão de Operações Policiais Especiais, o Bope, da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, sendo Pimentel também um dos argumentistas de Tropa de Elite 2 – fazem uma profissão de fé na verdade, inspirada em Nelson Mandela: “É preciso olhar nos olhos a verdade e reconhecê-la, sem meias palavras e subterfúgios, sem hipocrisia e retórica política. Nua e crua. Mesmo que ela seja dolorosa e disforme. Mesmo que a encontremos apenas pelas mediações da ficção.”

 

A semelhança entre os eventos encenados em Tropa de Elite 2 e diversos fatos de conhecimento público está longe de ser mera coincidência, como afirma a legenda de abertura do filme. Há uma deliberada ironia em informar que se trata de uma obra de ficção passada no “Rio de Janeiro”, nos “dias de hoje”. O sarcasmo leva o espectador a estabelecer logo de início um laço de cumplicidade com o que está vendo. Por outro lado, o destaque dado a essa advertência, delimitando a responsabilidade legal dos produtores, enfraquece de saída qualquer hipotética intenção de Tropa de Elite 2 ter algum poder regenerador.

Além disso, a hipocrisia implícita em definir Tropa de Elite 2 como “obra de ficção” talvez explique a ausência de reação por parte de instituições e categorias profissionais criticadas no filme. Policiais, políticos e ativistas de direitos humanos não parecem sentir nenhuma necessidade de se manifestar. É como se houvesse um acordo tácito estabelecendo que um lado sofisma e o outro finge acreditar. Dizendo que “apesar das possíveis coincidências o filme é uma obra de ficção”, ninguém se sente atingido, esvai-se o caráter crítico de Tropa de Elite 2 e os espectadores, reconfortados, podem voltar satisfeitos para casa.

Situado no domínio do espetáculo ficcional, não cabe cobrar, como foi feito, verossimilhança de cada uma das situações encenadas. Mais relevante é o pragmatismo adotado por José Padilha em nome da eficácia para causar impacto, levando a procedimentos convencionais bem realizados: estrutura narrativa cíclica começando e acabando, fora o epílogo, com um atentado; cenas de violência explícita servindo para justificar o vale-tudo da guerra; música de andamento acelerado parecendo soar de forma ininterrupta; pieguice ao retratar a relação do personagem principal com seu filho; ritmo frenético graças à câmera ágil e inquieta que busca reproduzir o olhar de quem participa da ação; montagem cadenciada privilegiando planos curtos. Em Tropa de Elite 2 não há tempo para contemplar e refletir – o filme transcorre em estado de transe permanente.

 

O personagem principal, o tenente-coronel Roberto Nascimento, comandante-geral do Bope e depois subsecretário de Inteligência, interpretado de forma memorável por Wagner Moura, agrava sua crise existencial ao descobrir o valor relativo das verdades que, para ele, sempre foram inquestionáveis. Anti-herói calejado por ter enfrentado sucessivas situações-limite, parece estar em rota suicida, confrontando o que ele mesmo chama de “o sistema” – comunidade de interesses envolvendo policiais e políticos corruptos. Em sua missão solitária não há lugar para nuances. Segundo afirma, na Assembleia Legislativa não há nem dez fichas limpas e é preciso acabar com a Polícia Militar do Rio.

Franco-atirador, José Padilha mobiliza valores arraigados de classe média que formam o caldo de cultura de regimes ditatoriais. Basta lembrar uma das primeiras providências de Getúlio Vargas ao implantar o Estado Novo, em 1937 – extinguiu os partidos políticos. Medida idêntica à do governo militar de 1964, que criou dois novos partidos apenas para manter as aparências.

Se as assembleias legislativas e o Congresso Nacional estão contaminados por corrupção e envoltos em criminalidade, como se vê em Tropa de Elite 2, proclamar a falência da atividade política, como faz o filme, estimula a descrença na democracia – regime de governo que assegura o direito de fazer críticas desse gênero.

Mesmo sendo panfletárias, não há por que contestar as ideias de um personagem de ficção. No prefácio de Elite da Tropa, porém, os autores foram mais cautelosos: “Este livro foi escrito com o propósito de enriquecer o processo de reflexão dos policiais e da opinião pública. Seu objetivo não é depreciar os profissionais da segurança, mas valorizá-los; não é atingir as instituições, mas promover seu aperfeiçoamento. Não há democracia sem polícia.” Posição diferente da defendida pelo tenente-coronel Roberto Nascimento. Maniqueísta, a cada passo ele se surpreende diante da complexidade do que está em jogo. À sua visão simplificadora, talvez se deva parte do sucesso do filme.

Seria esperar demais que Tropa de Elite 2 tivesse adotado perspectiva mais próxima àquela dos autores do livro? Nessa hipótese, a empatia do filme talvez fosse afetada. Para evitar esse risco, Tropa de Elite 2 escolheu jogar para a plateia e foi amplamente recompensado.