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    A polícia chilena dissolve uma manifestação de protesto, em Santiago: as pautas do feminismo, do ambientalismo e dos povos originários podem ter ofuscado a importância do estado de bem-estar social defendido pela Constituição rejeitada CRÉDITO: PABLO SANHUEZA_REUTERS_FOTOARENA_2022

carta do chile

A ressaca

Derrota da nova Constituição nas urnas compromete futuro do governo Boric

Fernando de Barros e Silva | Edição 193, Outubro 2022

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De Santiago

Hoje o mundo todo está nos olhando.” O presidente Gabriel Boric tinha acabado de votar quando se dirigiu à imprensa com essas palavras, na manhã de 4 de setembro, um domingo. Estava em Punta Arenas, sua cidade natal, erguida à beira do Estreito de Magalhães, um pedaço de mar ao Sul do Chile, que interliga os oceanos Atlântico e Pacífico. “No Chile, nós resolvemos nossas divergências com mais democracia, nunca com menos”, havia escrito no Twitter véspera da votação. Eram declarações protocolares, de um líder político preocupado com a institucionalidade e zeloso de seu papel histórico. Mas eram também declarações com lastro na realidade. O mundo, de fato, voltava suas atenções para o Chile a fim de acompanhar o resultado do plebiscito que decidiria se o país finalmente teria – ou não – a sua nova Constituição, feita para substituir a Carta de 1980, herdada da ditadura do general Augusto Pinochet, que ficou à frente do país por dezessete anos, de 1973 a 1990.

A nova Carta seria a expressão material – o ponto de chegada e, ao mesmo tempo, a confirmação e a consequência mais duradouras – do processo de intensas transformações por que passou o Chile nos últimos três anos. O mesmo processo que havia levado um líder oriundo do movimento estudantil, com ideais de esquerda e ideias novas, à Presidência da República aos 35 anos de idade. A eleição de Boric, em dezembro de 2021, e a nova Constituição chilena, concluída e aprovada pela Constituinte em meados deste ano, têm (ou tinham) a mesma origem: um levante popular sem precedentes, o chamado estallido social deflagrado em outubro de 2019, que veio a ser a maior onda de protestos da história do país.

 

Horas depois da declaração de Boric, no final da tarde do 4 de setembro, o interesse do que se passava no Chile podia ser medido pelo número de jornalistas que acompanhavam a apuração dos votos no comitê do apruebo (aprovo), no Centro de Santiago. O comando da campanha dos partidários da aprovação da Carta havia preparado um esquema grandioso, com palco e telão montados no meio de uma rua previamente isolada, à qual só tinham acesso profissionais de imprensa credenciados. The New York Times, CNN, The Guardian, Al Jazeera, El País, Le Monde, Associated Press e Reuters se juntavam a veículos de comunicação chilenos e da América Latina – éramos mais de cem jornalistas, entre repórteres, fotógrafos e cinegrafistas.

No início da noite, conforme as parciais da apuração iam surgindo nas telas dos celulares, já estava claro que o rechazo (rejeição) iria ganhar a votação, e com folga. A diferença, no entanto, foi maior do que todos esperavam, inclusive os vitoriosos. A nova Constituição do Chile, concebida no calor do estallido social como uma saída para a crise profunda de legitimidade do governo e da própria representação política, foi derrotada de maneira acachapante: o rechazo obteve 61,9% dos votos, contra 38,1% para o apruebo. Até essa derrota taxativa, no entanto, a esquerda que nasceu nas ruas e ascendeu ao poder havia vencido todas as disputas ao longo dos últimos anos.

Em outubro de 2020, os chilenos foram às urnas para decidir sobre duas questões: Quiere usted una Nueva Constitución? E: Qué tipo de órgano debiera redactar la Nueva Constitución? Na ocasião, quase 80% do eleitorado se manifestou a favor de uma nova Carta e disse que ela deveria ser elaborada por uma assembleia a ser eleita especificamente para esse fim. A Convenção Constitucional eleita em maio de 2021 tinha ampla maioria de progressistas e composição paritária – 50% de mulheres e 50% de homens –, além de 11% das 155 cadeiras reservadas a representantes dos povos originários. Nada menos que 32% dos convencionais eram “independentes”, o que exprimia a desconfiança generalizada diante dos partidos e da política tradicional. Em dezembro de 2021, finalmente, Gabriel Boric derrotou no segundo turno José Antonio Kast, o candidato da extrema direita, tornando-se presidente com 55,9% dos votos. Parecia o roteiro perfeito, que a nova Constituição iria coroar.

 

Entre a vitória do rechazo e todas as eleições anteriores há uma diferença fundamental: só no plebiscito de 4 de setembro o voto foi obrigatório. Mais do que isso, a multa para os adeptos da abstenção foi fixada num valor altíssimo, equivalente a mil reais. Daí resultou um recorde de comparecimento: 13 milhões de chilenos foram às urnas para responder à questão: Aprueba usted el texto de Nueva Constitución propuesto por la Convención Constitucional? Cerca de 7,8 milhões de pessoas disseram “não”. Ou seja: o número de adeptos do rechazo foi maior do que o total de pessoas que votaram no plebiscito de outubro de 2020 – 7,5 milhões. A explicação para um revés histórico de tamanha proporção passa certamente por aí.

 

Eram quase oito da noite de domingo quando os líderes da campanha pelo apruebo subiram ao palco para se dirigir à imprensa. Reconheceram a derrota e fizeram um “chamado à calma”, procurando dissuadir manifestações violentas nas ruas. Lembraram em seguida que o desejo de mudança constitucional consagrado no plebiscito de 2020 seguia vivo e que a Constituição de 1980 não une o Chile nem representa os anseios de sua sociedade. Frisaram que os próprios adeptos do rechazo admitiram isso ao longo dos últimos meses e falaram que o caminho para uma nova Constituição iria requerer “diálogo honesto, conversas e relações de confiança”.

Na parte de trás do palco alguns tentaram puxar gritos de guerra e ensaiar cantorias, mas o clima era de consternação e as vozes ficavam pelo meio do caminho. Uma pequena plateia, de algumas dezenas de pessoas, insistia em desfraldar bandeiras em defesa do apruebo, o que só parecia acentuar o mal-estar incontornável.

 

Decidi voltar caminhando para o hotel em que estava hospedado, um trajeto de mais ou menos 3 km, na maior parte pela Avenida Libertador General Bernardo O’Higgins, a mais famosa de Santiago, que os chilenos só chamam de La Alameda. É nela que fica o Palácio de La Moneda, sede do governo. É nela também que se localiza, 2 km acima, a Praça Baquedano, epicentro das manifestações do estallido. É ali que os estudantes se reúnem ainda hoje pelo menos uma vez por semana, no final da tarde das sextas-feiras, invariavelmente, desde que os protestos eclodiram em 2019.

A fisionomia do lugar tem as marcas do enfrentamento com a polícia. A vegetação que circundava a estátua no centro da praça não existe mais, deu lugar a um chão seco de terra. A desertificação do solo é decorrência dos jatos de água misturada a produtos tóxicos que os caminhões blindados dos carabineros, conhecidos como guanacos, usam sempre para dissolver os protestos no local. Além deles, é comum que também entrem em ação os zorrillos, blindados menores que lançam gás lacrimogêneo sobre os jovens recalcitrantes.

A estátua no centro da praça também não resistiu ao terremoto social. A figura em bronze do general Manuel Baquedano montado em seu cavalo sobre um grande pedestal foi removida numa madrugada de março de 2021, içada por um guindaste, enquanto um grupo de militares lhe prestavam continência. Durante meses a fio, estudantes picharam, pintaram, decoraram e atearam fogo à escultura, além de tentarem derrubá-la várias vezes, em vão. Considerado pela história oficial um herói militar do século XIX, Baquedano foi redescoberto pelo estallido e se tornou o símbolo da perseguição do Estado contra o povo Mapuche por sua atuação na região da Araucanía, no Sul do Chile. O próprio nome da praça entrou em disputa. Para os simpatizantes do estallido, o marco zero dos protestos se chama agora Praça Dignidade. Onde antes havia o general e seu cavalo, restou só o pedestal, todo pichado, uma espécie de instalação político-artística dos revoltosos a céu aberto.

Conforme eu subia a Alameda em direção ao hotel, a paisagem também ia se tornando mais deserta e menos iluminada. Poucas pessoas pelas calçadas, a maioria delas na direção oposta à minha, nenhuma circulação de carros depois de determinado ponto. A polícia havia bloqueado o trânsito nas proximidades da Praça Dignidade, onde ficava meu hotel, na própria Alameda, a apenas uma quadra dali. Pude ver focos de fogo espalhados pelas pistas e vultos de pessoas que se aglomeravam nos arredores da praça. Não pareciam ser muitas e estava evidente que não se tratava de comemoração, mas de protesto.

A fachada do meu hotel se escondia atrás de um muro de placas de aço com 4 ou 5 metros de altura, cuja aparência hostil eu não havia notado durante o dia, quando os portões ficavam abertos. Percebi que estava hospedado numa espécie de enclave burguês no coração do estallido, um bunker de luxo que havia sido desvalorizado pelas revoltas. Muitos estabelecimentos comerciais passavam pelo mesmo problema naquela área da cidade, me disse depois um funcionário do hotel. Peguei o elevador com as imagens das fogueiras na rua e do muro de aço em tom mostarda fixadas na memória.

Na tevê, em cadeia nacional, Boric fazia um pronunciamento. “Hoje o povo do Chile falou, e o fez de maneira forte e clara”, foram suas primeiras palavras. O discurso, de quase nove minutos, transcorreu sem nenhuma insinuação sobre a lisura do processo ou o resultado das urnas, pelo contrário. E houve, ao longo da campanha que antecedeu o plebiscito, propagação de muitas fake news pelas redes sociais para beneficiar o rechazo. Dizia-se, por exemplo, que o Chile iria mudar de nome, que o hino e a bandeira nacional seriam extintos, que os povos indígenas tomariam o poder, que o Estado iria se apropriar das casas das pessoas. A manipulação do medo dos cidadãos, que sempre foi uma arma poderosa da direita, encontrou terreno fértil para prosperar num país marcado hoje pela crise econômica e pelo aumento da criminalidade.

“No Chile as instituições funcionam”, disse Boric, prosseguindo: “Neste 4 de setembro, a democracia chilena sai mais robusta. Foi assim que o mundo inteiro viu e reconheceu.” Uma vez mais, a referência à curiosidade e aprovação da comunidade internacional lhe servia como uma espécie de âncora retórica, um atestado de que está no caminho certo, apesar dos reveses. Seu prestígio fora do país pôde ser confirmado no final de setembro, em sua primeira participação na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Boric foi bastante cortejado e saiu de lá maior do que entrou. Dentro do Chile, porém, se passa o contrário. Após seis meses de governo, o presidente perdeu popularidade. Uma pesquisa recente mostrou que a aprovação a seu governo caiu de 50% para 33% entre março e setembro. A desaprovação cresceu de 20% para 60%.

Dirigindo-se aos chilenos, Boric fez um apelo ao diálogo e disse que “o maximalismo, a violência e a intolerância com quem pensa diferente devem acabar definitivamente”. Suas palavras ecoavam o que eu tinha escutado um pouco antes dos líderes do apruebo.

O que mais chamou a atenção dos comentaristas políticos naquele momento, no entanto, foi o trecho em que Boric estendia a mão ao Congresso Nacional pedindo ajuda. “Me comprometo a fazer tudo que está a meu alcance para construir em conjunto com o Congresso e a sociedade civil um novo itinerário constituinte”, disse. A seguir, convocou “todas as forças políticas para colocar o Chile acima de qualquer diferença legítima e definir, o mais rapidamente possível, os prazos e limites de um novo processo constitucional”. Por fim, para não deixar dúvidas, arrematou: “O Congresso Nacional deve ser o grande protagonista” do caminho a ser seguido. Era a primeira vez que ele admitia isso. Os congressistas que haviam sido eleitos no final de 2021, no mesmo pleito que levou Boric ao poder, estavam apartados do processo constituinte e, em grande medida, insatisfeitos com o rumo que a nova Carta tinha tomado.

Alguns minutos depois do pronunciamento de Boric, as sirenes começaram a soar na Alameda. O comboio de carros e blindados dos carabineros que subia a avenida pelas duas mãos lançava jatos d’água contra os manifestantes. Eram pelo menos quinze veículos policiais avançando de maneira coordenada, lentamente, liderados por dois guanacos, cada um de um lado da pista, que iam varrendo de água quem encontrassem pela frente, inclusive os que se encolhiam contra as paredes dos edifícios tentando se proteger. A cena não durou muito tempo. O protesto foi dissolvido com eficácia brutal e logo o silêncio se impôs. Do alto do 19º andar do meu hotel, eu avistava o asfalto molhado da Alameda e naquele momento pensava ingenuamente que os jatos d’água usados pela polícia eram apenas isso – jatos de água.

 

No final da tarde de terça-feira, 6 de setembro, fui conversar com Daniel Mondaca, professor de direito constitucional da Universidade de Valparaíso, cidade na Costa do Pacífico onde fica a sede do Legislativo chileno. Mondaca foi assessor especial da Constituinte durante todo o trabalho de redação da Carta que foi rejeitada e conhece como poucos os meandros do que se passou ali. Combinamos de nos encontrar em Santiago, na Praça da Constituição, em frente à entrada principal do La Moneda. Decidi ir a pé, aproveitando para observar o movimento da rua. Quando comecei a descer a Alameda, notei que quase não havia carros circulando, algo estranhíssimo para o horário. Logo vi, em contrapartida, que grupos de jovens cada vez mais numerosos caminhavam em sentido oposto ao meu, rumo à Praça Dignidade. Andavam de forma ligeira, vários deles portando mochilas nas costas e lenços cobrindo o rosto. Alguns usavam máscaras contra gases tóxicos, aquelas com dois respiradores laterais, que lembram a cabeça de uma mosca. Logo adiante comecei a avistar pedras no caminho – não uma, mas várias, na pista e na calçada, misturadas a estilhaços de vidro. Eram pedaços de concreto arrancados do próprio calçamento que os manifestantes usam para jogar na polícia. Poucos metros adiante comecei a sentir um ardor muito forte no nariz, tive dificuldade para respirar e não conseguia abrir os olhos, que lacrimejavam. O asfalto ainda molhado, os destroços espalhados pelo chão e o ar irrespirável testemunhavam confrontos recentes entre os jovens e a polícia. Momentos antes, os carabineros haviam dispersado manifestantes usando a mistura de água com produtos químicos.

Foi quando recebi uma mensagem de Mondaca pelo celular: a área do La Moneda tinha sido isolada devido aos protestos, havia muita confusão ao redor, teríamos que mudar nosso encontro de endereço. Remarcamos para um pouco mais tarde, o que me deu tempo de subir a Alameda até a Praça Dignidade. Já perto dela, passei bem ao lado de cinco rapazes – pareciam ser ainda adolescentes – empenhados em fazer manobras para derrubar uma placa de trânsito com haste de metal fixada na calçada. Executaram a tarefa de forma furiosa e monótona ao mesmo tempo, indiferentes à presença de quem quer que fosse. Caída no chão, a placa com indicações das linhas de ônibus que passavam por ali me pareceu um mau cadáver, observado com certo tédio pelos próprios autores da obra.

Me aproximei mais um pouco dos manifestantes na praça. Eram uns trezentos. Protestavam contra a vitória do rechazo, mas também contra os rumos do governo Boric, a quem muitos chamavam de “traidor”. Vários deles tinham pedras na mão, à espera do cerco da polícia. Um deles fez soar um apito quando os blindados dos carabineros surgiram de repente, dobrando esquinas das ruas transversais para se postarem na Alameda, uma quadra abaixo do protesto. Vistos do nível do chão, com a fuça de metal apontada para nossos rostos, os guanacos eram mais assustadores. Tive tempo de me afastar da praça e descer a Alameda pelo canto da calçada, para ficar atrás do comboio policial, a uns 50 metros de distância. Alguns estudantes se aproximaram e começaram a atirar pedras na lataria blindada dos carros policiais. Quando aparentemente ninguém esperava, dois guanacos surgiram por trás, na parte de cima da praça, lançando água misturada a produtos tóxicos sobre quem estivesse pela frente. Encurralados, os jovens começaram a fugir pelas ruas laterais, houve momentos de gritaria e tumulto intenso. Pude presenciar uma pequena amostra do que o Chile viveu nos últimos anos. Fui ao encontro de Daniel Mondaca.

Ao relatar as cenas a meu interlocutor, ele não manifestou nenhuma surpresa. “Nos acostumamos com esse cheiro”, me disse Mondaca, referindose aos efeitos do gás lacrimogêneo. Ficou claro que aquilo que eu havia experimentado com certo sentimento de ridículo heroísmo já se tornara uma trivialidade para a população de Santiago. “As pessoas se habituaram aos transtornos”, ele me disse. Estávamos na varanda de um bar elegante no bairro Lastarria (a Vila Madalena ou o Baixo Gávea de Santiago), a dez minutos da Praça Dignidade, diante de dois copos de cerveja. A vida seguia seu curso, como se todos soubessem, a começar pelos manifestantes, que os protestos serão reprimidos metodicamente, todos os dias, do mesmo jeito de sempre. A frustração com a vitória do rechazo se misturava com a ressaca prolongada do estallido depois de alguns meses de grandes esperanças para a esquerda do Chile.

 

Perguntei a Daniel Mondaca se os protestos de rua tinham relação com a reforma ministerial que Boric havia feito naquele dia. “Não, não. Eles protestariam com ou sem mudança ministerial”, ele disse.

Foram seis trocas no primeiro escalão do governo, incluindo o Ministério do Interior e Segurança Pública, a quem se subordinam os carabineros, e a Secretaria-Geral da Presidência, responsável pela articulação com o Congresso. Além de responder pela segurança pública, a pasta do Interior tem peso na estrutura de poder porque não há vice-presidente no Chile, e seu ocupante é o primeiro na linha de sucessão. A médica Izkia Siches deixou o cargo desgastada, num quadro de escalada da violência, sobretudo no Sul do país, sob acusações de que não controlava nem as forças policiais nem os grupos paramilitares de origem mapuche que não reconhecem a autoridade do governo chileno. No lugar de Siches, que era sua amiga, mas não tinha experiência política, Boric nomeou Carolina Tohá, ex-prefeita de Santiago e uma das fundadoras do PPD, o Partido por la Democracia, parte do pool de agremiações políticas da Concertación, que conduziu a transição democrática após a queda de Pinochet e governou o país por trinta anos.

Além de Tohá, Boric nomeou para a Secretaria-Geral da Presidência a advogada Ana Lya Uriarte, ex-chefe de gabinete de Michelle Bachelet em seu segundo mandato (2014-18) e quadro destacado do Partido Socialista. Uriarte substituiu Giorgio Jackson, que se projetou na política ao lado de Boric como líder estudantil e faz parte, assim como o presidente, da Frente Ampla, que se consolidou na esteira do estallido como alternativa de poder à esquerda convencional.

“As ministras que ingressaram no governo representam os trinta anos de Concertación, que havia sido destronada pela Frente Ampla”, me disse Mondaca, reconhecendo o passo atrás. “Mas as mudanças me parecem corretas, e olha que é raro eu dizer isso”, completou, sorrindo. Alinhado à Frente Ampla, o professor de direito constitucional explicou sua posição: “O horizonte do país se reduz muito a partir de agora. O caminho do governo será  difícil, dificílimo. Teremos provavelmente muita instabilidade política pela frente. O governo havia depositado grande  esperança na nova Constituição. Sem ela, fica muito difícil caminhar na direção do estado de bem-estar social. Não há como financiar políticas públicas que distribuam renda de maneira duradoura com a Constituição de Pinochet.”

Quando estive no Chile por ocasião da posse de Boric, em março deste ano, o próprio Giorgio Jackson, então bastante poderoso, dizia: “Boa parte das reformas que defendemos tem como obstáculo a atual Constituição. Ter uma nova Carta é uma condição sine qua non para levar essas agendas adiante.”

Ao delegar agora à Concertación a articulação política do governo, bem como a pasta do Interior e o comando sobre os carabineros, Boric fez uma clara inflexão ao centro. Mas fez também um pedido de socorro à experiência dos profissionais. Recuo tático? Gesto de sobrevivência? Sinal de amadurecimento? Traição dos ideais do estallido? Ouvi todas essas coisas, a depender do ponto de vista e dos interesses envolvidos. Um analista político de perfil conservador comparou a chegada da Concertación ao comando político do governo ao apelo que um jovem de 18 anos faz à mãe logo depois de sair de casa e perceber que não consegue ligar a máquina de lavar roupa sozinho. Mãe, como é que isso funciona? A imagem pode soar escarninha, mas o contraste entre as ilusões da juventude e o pragmatismo da vida adulta serve para iluminar o descompasso entre as aspirações mudancistas ou utópicas e as limitações da realidade. No caso do Chile, isso é mais difícil de digerir porque a energia social do estallido desembocou na eleição de um presidente da República que parecia capaz de resolver a equação.

Boric foi um dos signatários do Acuerdo por la Paz y la Nueva Constitución, firmado em 15 de novembro de 2019. Mais de setenta militantes da Convergência Social, partido de Boric dentro da Frente Ampla, se desligaram da legenda, vendo no acordo uma capitulação. O Chile ardia havia quase um mês, e a promessa de uma Constituinte, assumida pelo governo de Sebastián Piñera, foi a forma que o establishment político encontrou para tentar conter a escalada dos protestos. O estallido só acabaria de fato quando a pandemia se impôs no país, em março de 2020, mas o acordo abriu uma porta de saída para acolher as demandas por mudança pela via institucional.

 

“As revoltas do estallido foram muito intempestivas, ninguém esperava nada com aquela intensidade”, me disse Daniel Mondaca ao começar a enumerar os problemas da Constituinte. Ele prosseguiu: “Os grupos e movimentos que chegaram à convenção não tinham um programa constituinte bem definido. Não havia convergência em torno de um modelo de sociedade. Cada grupo apresentou suas bandeiras, isso gerou uma atomização excessiva. Resultou num texto que é menos radical do que difícil de entender. Tem conceitos estranhos, eu diria que é um texto um tanto contracultural para a história chilena.”

Pedi que ele explicasse melhor – contracultural como? “Há conteúdos ligados aos direitos das mulheres e aos direitos da natureza que são bastante avançados, e não existem em Constituição nenhuma do mundo. Há também conteúdos a favor dos povos originários, em sintonia com certa tradição do constitucionalismo latino-americano. Esses três eixos convivem com a defesa de direitos sociais universais, educação, saúde, trabalho digno, aposentadoria. Não são conteúdos incompatíveis, longe disso, mas não se encaixaram num texto harmonioso.”

Mesmo sendo simpático às pautas do feminismo, do ambientalismo e dos povos originários, Mondaca acredita que elas ofuscaram a importância do estado de bem-estar social defendido pela Constituição. “Nenhuma dessas frentes se conectou como deveria ao modelo de estado social que buscamos. Somos um país que está tentando escapar do neoliberalismo exacerbado”, ele diz, quase num desabafo.

O prazo da Constituinte também foi muito exíguo, diz Mondaca. Os trabalhos dos convencionais começaram em junho de 2021 e terminaram no dia 4 de julho de 2022. “Um ano para fazer tudo é muito pouco. Discutir, escrever, corrigir e aprovar. É dificílimo fazer isso tudo em um ano.” Desse problema decorreu outro: “Não houve tempo para planejar uma estratégia sólida de comunicação.” As forças conservadoras ganharam de goleada nesse capítulo.

“A direita sempre esteve convencida de que o texto não deveria ser aprovado, antes mesmo de começar sua discussão. Isso fica claro quando olhamos para as iniciativas na Constituinte. As propostas da direita são copiadas da Carta atual. Nunca quiseram pensar coisas novas, mesmo da perspectiva conservadora”, disse Mondaca. No lugar disso, houve campanhas ininterruptas de desprestígio da Carta enquanto tal, que surtiram efeito.

A desconfiança sobre o processo de trabalho dos constituintes aparece em primeiro lugar entre as razões para o rechazo, de acordo com uma pesquisa de opinião feita logo depois do dia 4. Em segundo lugar vem a rejeição à noção de plurinacionalidade, entendida por grande parcela da população como uma ameaça à unidade do país. A direita insistiu muito na tecla de que a “chilenidade” estava sendo destruída pela Constituinte. A mobilização do sentimento patriótico, com uso de bandeiras do Chile e execução do hino nacional, foi uma constante nas campanhas do rechazo. O terceiro motivo mais citado pelos chilenos para votar contra a Carta foi o descontentamento com o governo Boric.

Analisando o resultado da pesquisa, a historiadora Joana Salém Vasconcelos escreveu o seguinte:

A opinião de que o processo constituinte foi “malfeito”, de que a Constituição não era uma obra tecnicamente viável e que a Convenção Constitucional foi marcada por escrachos, anarquia e confusão é particularmente importante para um país que havia acabado de “demitir” sua classe política e convocar “pessoas comuns” para o centro da elaboração constituinte. Há um paradoxo de difícil interpretação no fato de que a revolta de 2019 consolidou a crítica popular ao duopólio (da centro-esquerda com a Concertación e das direitas com o atual Chile Vamos), às instituições tradicionais e aos profissionais dos partidos, mas que somente três anos depois o plebiscito de saída [como os chilenos chamam o plebiscito de 4 de setembro] tenha desmoralizado os legítimos representantes do chileno comum, do lado de fora dos acordões e diretamente do chão das ruas. Com isso, o plebiscito de saída devolveu a bola para as mesmas instituições de sempre, que o estallido social havia deslegitimado e declarado incapazes de governar.

Em seu Chile: Ensaio Sobre uma Derrota Histórica, publicado no site da Revista Rosa, Joana Vasconcelos faz um exame detalhado do mapa de votação que consagrou o rechazo. Das 346 comunas do Chile (as comunas equivalem aos nossos municípios), o apruebo venceu em apenas oito, todas próximas a Santiago. Quanto mais pobres as comunas, maior a vantagem a favor do rechazo.

Em termos numéricos, escreve Vasconcelos, “o voto Apruebo correspondeu de maneira quase exata ao voto em Boric no segundo turno […]. Territorialmente, a votação do Apruebo também foi quase idêntica à de Boric. […] Se conclui, portanto, que os quase 5 milhões de novos votantes no plebiscito de saída se direcionaram quase integralmente para o Rechazo.” Ou seja, o plebiscito trouxe à tona um Chile que estava escondido e se mostrou refratário às mudanças. “A relação entre as multidões mobilizadas no estallido e as multidões silenciosas, absenteístas e invisibilizadas (que estiveram em casa nos últimos dez anos), é profundamente contraditória e muito mais complexa e tensa do que os apruebistas supunham.”

 

Eu já tinha retornado a São Paulo quando assisti a Mi País Imaginario, documentário de Patricio Guzmán sobre o estallido social, que teve sua primeira exibição no Festival de Cannes, em maio, e estreou nos cinemas chilenos três semanas antes do plebiscito.

Guzmán, hoje com 81 anos, acompanha e filma a vida política do Chile há muitas décadas. Registrou os primeiros meses do governo de Salvador Allende no documentário O Primeiro Ano, lançado em 1972. Ficou preso no Estádio Nacional com milhares de chilenos nos primeiros dias do golpe de Pinochet, conseguiu escapar da morte e lançou do exílio sua trilogia sobre a crise que derrubou Allende – A Batalha do Chile: A Insurreição da Burguesia (1975), O Golpe de Estado (1977) e O Poder Popular (1979). Na última década, lançou “notáveis documentários ensaísticos”, como escreveu Eduardo Escorel, “para refletir sobre os vestígios e a perpetuação dos crimes da ditadura”. Entre eles, Nostalgia da Luz (2010), uma preciosidade.

Ao fazer Mi País Imaginario, Guzmán tinha a impressão de estar ligando os fios da história. O filme transborda esperança, seu arco narrativo aponta claramente na direção da redenção do país, do reencontro do Chile com suas melhores promessas. Mas Guzmán preserva ao mesmo tempo o tom reflexivo, não abandona a sobriedade e a vocação dubitativa diante da enormidade do que narra. A certa altura, depois de uma sequência de batalha de rua entre os manifestantes e a polícia, ele se pergunta: “Me inquieta o final dessa luta. Quem serão os perdedores e quem serão os ganhadores?”

A cena final mostra trechos do discurso da vitória de Boric, até que a câmera se afasta e sobrevoa a multidão em Santiago enquanto as palavras do novo presidente se perdem na imensidão – justamente no trecho em que ele agradecia, “com especial ênfase, as mulheres da nossa pátria, que se organizaram por todo o território para defender os direitos que tanto custaram para alcançar”.

Ao longo do filme, Guzmán exibe depoimentos de catorze mulheres, cada uma delas envolvida de uma maneira no estallido. Não há homens entre os entrevistados. As personagens organizam o país imaginário de Guzmán, que costura suas falas com imagens da explosão das ruas, muitas delas extremamente violentas.

A primeira personagem feminina do filme, no entanto, não é uma pessoa – são as pedras. Ele as filma nas ruas, como parte e restos dos acontecimentos, como se fossem testemunhas minerais da história. São, nas palavras dele, suas “velhas amigas, as pedras da Cordilheira. Estão esparramadas, e são muitas. Parece que por aqui andou chovendo pedras”. As imagens e a descrição me remeteram imediatamente às pedras que eu havia visto no começo de setembro.

O último depoimento de Mi País Imaginario é de Damaris Abarca, campeã chilena de xadrez, que atuava então como constituinte. Ela foi uma das independentes eleitas para escrever a nova Carta. A certa altura, Guzmán lhe pergunta:

– O que pode acontecer agora de mais perigoso?

– Que a campanha contra o plebiscito de saída vença e nós fiquemos com a Constituição do ditador – responde ela. – Isso seria algo terrível. É o que poderia acontecer de mais grave.

Mas Abarca menciona também um segundo perigo:

– Que se instalem novamente no poder setores de extrema direita, como vem ocorrendo na América Latina. Isso seria fatal.

Fernando de Barros e Silva
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