esquina

A roteirista negra

Histórias em três atos

Tiago Coelho
ANDRÉS SANDOVAL_2018

“Todo personagem é movido por um desejo, uma necessidade”, disse o diretor e roteirista Jorge Furtado no auditório do Museu do Amanhã, no Centro do Rio de Janeiro. “As histórias geralmente falam sobre alguém que quer muito alguma coisa e tem dificuldade para conseguir”, continuou. Em seguida, pediu aos alunos que expusessem as tramas nas quais vinham trabalhando para transformar em roteiros para cinema ou tevê.

A plateia naquele sábado de setembro era composta por trinta homens e mulheres – todos negros – que se inscreveram na oficina de roteiros oferecida pela Flup, a Festa Literária das Periferias. Furtado era um dos palestrantes que falaria aos alunos em quinze encontros semanais ao longo de três meses.

Susan Kalik, uma paulista de 42 anos, pediu a palavra e contou que estava desenvolvendo a história de Ritinha, uma diarista que trabalha para cinco famílias. “Numa dessas casas, ela se depara com uma senhora para quem presta serviços há muito tempo e que deseja morrer”, continuou. “Ela pede a ajuda de Ritinha. Depois que a mulher morre, a filha dela, Ângela, acusa a diarista de matar sua mãe. A partir desse momento, Ritinha vai a julgamento e passa a ser condenada pela sociedade.”

Oficinas de criação literária são a marca registrada da Flup desde sua primeira edição, em 2012. Foi em uma delas que se revelou o escritor Geovani Martins, criado na favela da Rocinha – seu livro de estreia foi publicado pela Companhia das Letras, e vendido para nove países. No ano passado, os organizadores mudaram o foco do curso: por julgarem que o mercado audiovisual tem mais espaço para absorver novos autores, começaram a apostar na formação de roteiristas.

Kalik desenvolvia seu roteiro sob a supervisão de Edna Palatnik, gerente de Desenvolvimento de Dramaturgia da TV Globo, parceira da Flup na organização do curso. O envolvimento da emissora carioca despertava nos alunos a expectativa de ingressar num mercado disputado – no ano passado, a Globo comprou três projetos produzidos durante o evento e selecionou uma aluna para seu quadro de roteiristas fixos.

 

Prega o Manual do Roteiro, escrito em 2001 pelo americano Syd Field – uma bíblia para os profissionais da área –, que as narrativas hollywoodianas canônicas se estruturam em três atos. O primeiro apresenta o protagonista e sua motivação, que servirá como motor para a ação. No segundo ato, o personagem tem seu desejo confrontado e se vê às voltas com um obstáculo a ser superado; o desfecho, por fim, traz a resolução do conflito.

A trajetória de Susan Kalik e sua tentativa de se firmar como roteirista podem ser contadas como um roteiro à moda de Syd Field. Descendente de negros do lado paterno e de libaneses por parte de mãe, lembra ter assistido na infância a apenas dois filmes no cinema: E.T. – O Extraterrestre e um dos Trapalhões. Saiu de casa aos 19 anos, quando casou pela primeira vez e foi morar em Salvador. Trabalhando como atriz e produtora, encenou peças que tratavam de questões raciais, religiosas e de diversidade de gênero. Mais recentemente, envolveu-se com cinema e produziu curtas-metragens, até que sentiu o desejo de contar suas próprias histórias. Ganhou um edital do Ministério da Cultura para escrever o roteiro de um longa-metragem, que não chegou a ser filmado. Já no Rio de Janeiro, onde foi morar com o atual marido, matriculou-se na oficina da Flup, determinada a apostar na nova carreira.

O segundo ato da história de Kalik teve início em meados de junho, logo no início do curso, quando ela teve uma crise asmática e foi parar no hospital. Um exame acusou um câncer no timo, uma glândula situada entre os dois pulmões. A notícia lhe tirou o chão. “Não podia ter acontecido naquele momento”, ela disse. “Eu estava me dedicando muito às aulas.” O tumor poderia ser extirpado, mas ameaçava seus planos profissionais. Para concluir a oficina, ela não poderia faltar a mais de duas palestras. Com isso em mente, pediu a seu médico que adiasse a cirurgia para a retirada do tumor. Se a operação não fosse feita imediatamente, disse o oncologista, era grande o risco de metástase. Kalik fez a cirurgia e conseguiu limitar a dois sábados as ausências durante a recuperação.

A retomada das aulas e do trabalho no roteiro marcou o terceiro ato de seu drama pessoal. No dia 22 de setembro, o último do curso, ela e os colegas se reuniram numa sala do Museu da Escravidão e da Liberdade, onde ocorriam as aulas práticas do curso. Os alunos se entreolhavam com ansiedade quando duas funcionárias da Globo anunciaram o nome dos seis selecionados para uma oficina de roteiro promovida pela emissora. Kalik foi a terceira a ser chamada. A roteirista desabou a chorar. Ao sair da sala, foi abraçada pelos colegas – com cautela, já que ela ainda tinha os pontos da cirurgia na altura do peito.

 

Susan Kalik pode contribuir para aumentar a diversidade de um campo profissional dominado por homens brancos. Segundo um levantamento da Ancine, dentre os 142 longas-metragens lançados comercialmente no Brasil em 2016, 2,1% tiveram o roteiro elaborado por homens negros, e 3,5% foram escritos por homens negros e brancos em parceria. Nenhuma autora negra assinou qualquer roteiro.

A história de Ritinha, inspirada no filme Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, e desenvolvida durante a oficina da Flup, foi originalmente pensada para ser uma série de doze episódios. “Eu queria falar sobre a nova configuração da diarista como prestadora de serviços”, disse a roteirista. “É uma mulher que não tolera abusos e estabelece uma nova posição nessa profissão, um lugar distante da representação clássica de empregada doméstica na dramaturgia.”

Kalik continua trabalhando no projeto, que também se enquadra no paradigma de roteiro de Syd Field. No primeiro ato, conhecemos Ritinha e sua busca por respeito profissional; no segundo, ela se confronta com a acusação de assassinato e com o julgamento pela opinião pública. Quanto ao desfecho da história, a roteirista preferiu guardar segredo.

Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista

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