tipos brasileiros

A supersuperlativa

Esqueça as mulheres-frutas. A hora é de Marluce Marlene, a Mulher Brontossauro, que promete levar a opulência feminina a patamares inimagináveis

Marcos Caetano
ILUSTRAÇÃO: ROBERTO NEGREIROS

A parada é a seguinte: tudo começou quando o Wladimir, ex-peguete meu e um dos maiores intelectuais da Baixada Fluminense, veio elogiar o meu corpão com um papo-aranha de que a estética do brasileiro estava mudando e coisa e tal. Eu não sei bem o que ele queria dizer. Estética, para mim, são aqueles tratamentos de beleza que as dondocas da capital fazem para tirar o papo e esconder as celulites. Dragagem linfótica, esses troços. Mas o Wladimir, que cursou filosofia – e não foi aqui em Belford Roxo, não, o cara ia todo dia até São João de Meriti, onde o ensino é de primeira –, disse que estética, de um jeito assim mais geral, é coisa importante. E jurou de pés juntos que a homarada do Brasil, que antes gostava de futebol bonito e mulher delicada, hoje só quer saber é de ganhar os jogos na porrada e de mulher com mais de metro e meio de largura de coxa.

Segundo o Wladimir, nada excita mais o homem brasileiro contemporâneo (ele adora esses papos-cabeça) do que um volante de contenção e uma mulher com bíceps de caminhoneiro. Se a mulher-caminhoneiro jogar de volante de contenção, então, nem se fala! Deve ser por isso que ele vivia querendo me matricular na escolinha de futebol do Flamengo.

Mesmo com toda a lenga-lenga da pessoa, o que o Wladimir falou é a mais pura verdade. Estou com 35 anos e lembro bem que, quando era pequena, o meu pai elogiava o Zico, o Falcão, o Sócrates, carinhas de canela fina e que jogavam bonito. O técnico da época era o Telê, se não me engano. Agora, não. Agora a turma gosta é de retranca. De Dunga. De Felipe Melo. Do Muricy. Naquela mesma época, mulherão era a Luiza Brunet, a Gretchen, a Matilde Mastrangi e um monte de outras lambisgoias esqueléticas, que hoje, vendo as fotos, dá até aflição. Uma mulher dessas se entrar pelada num baile funk aqui da Baixada, o pessoal nem vira para olhar. O máximo de masculinidade que o pessoal tolerava era a Roberta Close, que, ao que parece, tinha um músculo bem avantajado. O Brasil mudou. O negócio é que eu saquei isso antes. E resolvi aproveitar.

A partir do momento em que percebi que quanto maior ficava a minha batata da perna, mais fiu-fius eu ouvia nas ruas, decidi pegar pesado. E quando falo pesado, é pesado mesmo. Jurei que ia acabar com a raça dessas mulheres-frutas que andavam por aí. Prometi a mim mesma que em pouco tempo o povo ia achar que a Mulher Jaca estava com princípio de anorexia.

Depois de oito meses de academia e 23 pequenas cirurgias, eu, Marluce Marlene, deixei de existir para dar lugar à Mulher Brontossauro. Hoje, meus vídeos correm o mundo e já fui capa de mais de vinte revistas de mulher pelada e umas trinta de fisiculturismo. Meus catorze implantes de silicone são mais comentados do que essas paradinhas de distribuição de cargos no governo, com a vantagem de dar muito mais ibope. Também pudera: algumas próteses que coloquei revolucionaram o mercado. Antes de mim, ninguém havia botado silicone em certos pontos do corpo, como o peito do pé, o lóbulo da orelha e as costas da mão. Mas nada se compara com o arraso que foi o implante na planta dos pés, que aumentou minha altura em 3 centímetros (hoje, tenho 1,54 metro, mas nas fotos pareço da altura do Schwarzenegger). No Japão não se fala em outra coisa: a mulherada toda quer botar próteses Brontossauro nos pés.

Depois de construir esse corpaço que é 30% água, 40% silicone e o resto puro músculo e osso, meus padrões de comparação passaram a ser outros. Não dou a mínima para a raça das mulheres-frutas, umas fracotes. Das mulheres tipo Gisele Bündchen e Angelina Jolie não falo por outro motivo: é que respeito muito essas paradas de doença. Não venham me dizer que com aquelas pernas canicinho e aqueles braços veiudos essas minas estão bem de saúde. Pô, meu tornozelo é mais roliço do que a cintura da Gisele. Deus esteja, pobrezinha.

Meu método de treinamento é o casca-grossa. Para vocês terem ideia, não faço mais leg press em academia: não há aparelho que aguente o meu tranco. Faço leg press com o Del Rey do meu pai. Deito de costas no chão da garagem e fico lá, vapt-vupt, vapt-vupt, levantando e baixando a caranga do velho. E aqueles exercícios para os glúteos, que o mulherio faz amarrando tornozeleiras com peso e escoiceando para trás como umas mulas, faço com meu afilhado. Boto o moleque de 12 anos sentado na minha panturrilha (dá até para dormir nela, com seus 57 centímetros de diâmetro) e fico lá dando meus coices, numa boa.

Meu padrão de comparação agora são os homens. Por exemplo: o bumbum mais trabalhado e feminino que eu conheço é o do Loco Abreu. Aquele uruguaio comemorando o título da Copa América com uma tanguinha azul, em pleno vestiário, arrasou. Se ele vai assim num baile da Baixada, os valentes vão ficar assanhadaços. No quesito pernas, nada mais lindo e feminino do que as do lateral Roberto Carlos. Ele chega a se depilar! Um dia encontrei a pessoa num programa de televisão e pedi para medir as pernas dele. As minhas são um pouquinho maiores, é verdade, mas o cara já está em final de carreira, temos que dar um desconto. Em 2006, quando o Brasil tomou aquele gol do Henry, o povaréu, malvado como sempre, disse que ele estava ajeitando o meião. Duvido. Ele estava era passando um creminho hidratante naqueles pernões. E tinha mais era que fazer isso mesmo. O que é bonito tem que ser cuidado. Se bem que a moda agora, lançada pela Galisteu, é mulher com a perna cabeluda. Não sei bem se as minhas coxas musculosésimas ficariam atraentes com uns pelinhos loiros enrolados. Mas, do jeito que anda o gosto dos machos brasileiros, acho que farão o maior sucesso.

Ninguém malha sem um objetivo, e o meu, além do sucesso que venho fazendo, tem um fundo patriótico. Para mim, é simplesmente inadmissível que a mulher com o maior bumbum do mundo seja uma americana, tal de Kim Kardashian. Caraca, se tem algo que as americanas jamais tiveram é retaguarda – e será o Benedito que agora elas entraram numa de humilhar a gente até nisso? Mas deixa estar. Estou fazendo cinco horas de agachamento por dia, e garanto que em poucas semanas vou trazer esse título de volta para o Brasil. É questão de patriotismo. Nem que eu tenha que acabar com o estoque de açaí e anabolizantes da cidade.

Aproveito para responder à pergunta que todo mundo vive me fazendo: de que tipo de homem eu gosto? Na boa? Homem para mim tem que ser romântico, delicado e bem magrelo. De preferência, pálido ou amarelo-biblioteca. Larguei o Wladimir porque ele entrou numa de fazer academia e ficar bombadinho. Academia é coisa de mulher. Homem não tem que levantar peso. Homem tem que ser é inteligente. E foi só por isso que eu aceitei escrever para esta revista, que sequer publica fotos de mulher pelada, cujos leitores só malham o cérebro. Quem sabe não encontro o homem da minha vida? Olha só: quem quiser me adicionar no Facebook, basta procurar por Marluce Brontossauro. Para me seguir no Twitter, procurem por @mulherbrontossauro. Não tenham medo. Além de um campeão de vale-tudo com quem tive um romance rápido e violento, jamais assediei nenhum homem.



Marcos Caetano

Marcos Caetano é especialista em comunicação, comentarista esportivo e colunista do Meio e Mensagem

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