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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

esquina

A teus pés

Um médico no Salão do Automóvel

Chico Felitti | Edição 99, Dezembro 2014

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“O que você aprendeu neste Salão do Automóvel?”, perguntaram à modelo Carolina Chafauzer, 23 anos, Miss Carapicuíba e candidata a Garota Top Motors 2014, concurso que elege a profissional mais bela dos estandes de montadoras. “Que ficar em pé doze horas por dia é muito difícil”, ela disse, explicando que sua natureza bípede tinha ido por terra, derrubada por um escarpim de salto 9.

Para alívio da paulista morena existia o dr. Gustavo Ochiuto. Foi o primeiro ano que o evento contou com um médico destacado só para cuidar de 300 das 450 modelos que acariciaram os carros entre os dias 30 de outubro e 9 de novembro no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo.

“É uma carga de trabalho pesada, de até quinze dias seguidos, em pé o dia todo, com muita gente ao redor, flashes. É bom que elas tenham uma atenção médica”, disse Adriane Zagari, ex-modelo no salão, hoje empresária, dona da HZ Eventos – responsável por fornecer o plantel de gatas para uma dúzia de marcas. Foi ela quem providenciou o doutor para “dar uma olhada” em suas profissionais, que representam 66% de todas as contratadas.

Não fosse pelo guarda-pó branco do facultativo, um incauto pensaria se tratar de um dos 756 114 visitantes (67% deles homens) que pagaram de 40 a 80 reais para entrar no pavilhão: 32 anos, estatura média, dentes brancos e alinhados, topetinho de Michel Teló, óculos escuros Prada e camisa com os dois primeiros botões abertos.

“Eu gosto de ser mais tranquilo no trabalho. Uma relação de médico e amigos, sabe?”, disse Ochiuto, com sotaque de Mato Grosso, onde se formou, enquanto se encaminhava ao camarim da empresa. Era lá que examinava as meninas, antes de elas assumirem seus postos em plataformas giratórias, encimando palcos ou abrindo portas automotivas e mostrando o interior com as mãos espalmadas, como uma assistente do Programa Silvio Santos.

A atenção dos homens oscilava entre os atributos femininos e os de máquinas como a BMW i8 (com um motor elétrico e outro de explosão, a 799 950 reais) e o TT Roadster, esportivo da Audi de preço “sob consulta”, cuja façanha é recolher a capota em dez segundos.

 

Já pelo terceiro ou quarto dia de evento, os modelos homens – um para cada vinte mulheres – tinham forjado um apelido, infalivelmente sexista, para o profissional de saúde: “O Médico das Máquinas.” “É ele que cuida dos aviões que os homens vão ver no Anhembi”, disse Marco Sá, loiro com a barba por fazer (um must) e um símbolo maori tatuado no braço hipertrofiado.

Antes de pegar no batente, ou durante os intervalos de que gozavam a cada hora e meia, cada uma tinha a pressão auferida e passava por uma ausculta pulmonar. No encontro do estetoscópio com os tórax femininos, porém, havia sempre um terceiro elemento. “Minha namorada também trabalha no Salão. Ela não desgruda o olho”, contou o doutor.

As feministas protestaram na internet contra a exposição das mulheres como objetos. Em meio à labuta, porém, as moças apontaram outro inimigo: “O pior problema é o chão”, afirmou Carolina Chafauzer. O tapete vermelho que cobre as alamedas do Anhembi esconde buracos, verdadeiras armadilhas para o salto alto fino, como revelou uma profissional de comunicação que trabalha ali faz anos – precavida, é adepta do salto plataforma.

“A gente tenta convencer os clientes a providenciar sapatos mais confortáveis para as modelos, mas nem sempre dá certo”, disse Adriane Zagari. A empresária nega com firmeza que suas profissionais sejam garotas de vida fácil, como alguns insinuam. “Até porque a vida delas não é nada fácil. Estudam e têm muita determinação. Quer tentar sorrir o dia inteiro para ver como é?”

 

Felizmente não se somaram moléstias graves às atribulações do grupo. Para pés inchados, machucados e joanetes saltados, havia massagistas ao fim de cada jornada. O dr. Ochiuto recomendava às moças que dormissem com os pés “em cima de um monte de travesseiros, que nem ensinou a vovó”. Ele também atendeu uma modelo, vítima de alergia causada pelas intensas luzes artificiais do pavilhão, mas prescreveu remédios em um único caso, o de uma garota que cruzava as pernas e se apoiava no capô do carro, aflita por causa de uma infecção urinária.

Não estava no contrato, no entanto o dr. Ochiuto fazia questão de dispensar uma atenção especial à outra extremidade das modelos, a cabeça. Especialista em tricologia, distribuía conselhos capilares. “Tá caindo uma mecha por dia”, queixou-se uma loira com tatuagem de borboleta no cóccix, que pediu para não ter o nome divulgado (“Já viu mulher ficando careca?”). Agendaram uma consulta para depois do evento.
O menu de opções do médico também inclui botox e preenchimento labial, just in case.

Enquanto o doutor cuidava da medicina preventiva e de conselhos estéticos durante as duas horas diárias que dava expediente no salão, as emergências médicas ocorridas ao longo do dia eram encaminhadas ao ambulatório do evento. As modelos – que no dia a dia trabalham como nutricionistas e professoras de educação física, matemática e inglês, entre outras profissões – passavam então pelas mãos de Antônio Francisco Nascimento, enfermeiro de 50 anos e cabelos tão brancos quanto seu mocassim e suas meias.

“Cefaleia é o maior dos problemas”, ele contou, evitando a piada que uma das modelos fez de si mesma: “É a prova de que temos, sim, cérebro.” “Além disso, uma queda de pressão ou outra. Intoxicação alimentar. E só.” Nascimento atendeu 200 pessoas durante a semana da feira, entre visitantes e prestadores de serviço. “Mas nada de grave.”

Já superada a ressaca dos onze dias seguidos de trabalho, quando os carros zero quilômetro já estavam de volta às montadoras, o dr. Ochiuto fechava a comanda da sua estreia profissional na meca automobilística: “É bastante trabalho, mais do que imagina quem vê de fora. Mas é bem legal. Se me chamarem de novo ano que vem, aceito na hora. É bem melhor que cuidar de time de futebol.”