esquina

A torre prometida

Polícia Federal ganha nova sede em Brasília

Marcos Amorozo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Havia chovido na noite anterior em Brasília. Poças d’água ainda cobriam trechos da calçada da nova construção, e o piso estava marcado pelo solado das botas dos operários e as pegadas de cachorros. Numa área sem muros, cercada por palmeiras fênix, os prédios recém-erguidos brilhavam ao sol da tarde.

São quatro torres, parecidas com cubos gigantescos sobre os quais foram encravados outros cubos na diagonal, provocando assimetrias entre a metade de baixo e a de cima de cada construção. Vistas do alto, formam uma grande cruz ou um X – cada torre ocupando uma das pontas. Vistas de longe, chamam a atenção pelas fachadas inteiramente de vidro na forma de um mosaico de numerosas listas pretas, brancas e cinzas, de tamanhos variados, dispostas de maneira irregular. Em três delas, a Polícia Federal vai instalar a sua nova sede.

Com quinze andares cada uma, as torres ficam na Via W3 Norte, no Setor Comercial Norte, próximas do Setor Hoteleiro Norte, de dois shopping centers e não muito longe da Esplanada dos Ministérios e do Congresso Nacional. Lembram edifícios corporativos da Avenida Faria Lima, o centro financeiro e econômico de São Paulo – e não à toa o conjunto com 100 mil m2 de área construída se chama Multibrasil Corporate. Os funcionários da PF serão instalados nas torres B, C e D.

Em meados de abril, no saguão de entrada de um dos prédios, tudo estava pronto, esperando apenas a mobília, as pessoas e o acender das luzes. No hall de outro prédio, o pé-direito duplo parecia maior ainda, pois estava sem o forro (era possível ver as tubulações elétricas e hidráulicas). O complexo tem vagas para 2 mil carros no subsolo e vai abrigar um auditório com 280 lugares, centro de convenções, restaurante, lanchonete, cafeteria, bicicletário e vestiário. A entrega das chaves à Polícia Federal deve acontecer em julho.

 

O projeto do Multibrasil Corporate é do arquiteto paulistano Carlos Bratke, que morreu em 2017, aos 74 anos. As obras foram iniciadas em meados de 2014 pela Multi Construtora e Incorporadora, dona do empreendimento, em cujo radar não estava inicialmente a Polícia Federal: a empresa pensava em atender, com os prédios, à demanda de espaços corporativos em Brasília. “A aproximação com o Departamento de Polícia Federal e a consequente parceria se deu ao longo da construção, o que permitiu que a gente pudesse atender perfeitamente às necessidades requeridas pelo órgão federal”, explicou Gustavo Nicolau, gerente comercial da Multi.

Os prédios foram escolhidos a partir de um chamamento público sem licitação, pois, segundo a PF, o Multibrasil Corporate era o único espaço novo da cidade que apresentava as condições necessárias para receber a administração da autarquia. A PF vai pagar, por mês, 1,2 milhão de reais pelo aluguel das três torres, mais cerca de 243 mil reais de condomínio. Somados os cinco anos de vigência do contrato, serão gastos pelo menos 88,3 milhões de reais, sem contar os ajustes inflacionários.

A assessoria de imprensa da Polícia Federal disse à piauí que a mudança vai trazer uma significativa economia à corporação, uma vez que o setor de Inteligência será transferido para o local, deixando de ocupar um prédio alugado em outra parte da cidade, no Setor Sudoeste. Também serão cortados gastos com serviços terceirizados, como brigadistas de incêndio, recepcionistas, copeiragem, manutenção predial e água, pois tudo isso estará incorporado no valor do condomínio.

 

As novas torres ficam a cerca de sete minutos de carro da sede atual da PF, no Setor de Autarquias Sul, um prédio de onze andares inaugurado em 1977 e apelidado de Máscara Negra. É provável que o apelido esteja relacionado aos vidros escuros da fachada, mas há quem diga que tem a ver com as atividades sombrias exercidas no local durante a ditadura militar.

Atualmente, trabalham no Máscara Negra cerca de 1,5 mil servidores, entre policiais, delegados e agentes administrativos. Outros funcionários estão concentrados em prédios próprios no Setor Policial Sul e no imóvel alugado no Setor Sudoeste. De acordo com a PF, essa fragmentação causa dificuldades no andamento dos serviços e acaba gerando custos extras, como o traslado dos agentes. Além disso, o controle dos locais é mais difícil, o que coloca em risco a segurança e o sigilo das operações.

Os prédios atuais também estão com a infraestrutura defasada, sobretudo o Máscara Negra, que não dispõe de escada de emergência, não cumpre as normas atuais de acessibilidade e tem sistema elétrico antiquado, que já não comporta a demanda dos dispositivos tecnológicos. O receio de que um incêndio destrua os escritórios persegue há anos os funcionários.

Por esses motivos, a PF começou a cogitar, a partir de 2008, construir ou alugar um prédio mais moderno. Naquele ano, chegou a anunciar a construção de um complexo de quatro torres com nomes de personagens da mitologia grega, mas o projeto não saiu do papel. No Multibrasil Corporate, a PF vai usufruir de uma infraestrutura com recursos avançados de tecnologia, manutenção e sustentabilidade. A corporação não informou o que será feito do Máscara Negra.

Na Polícia Federal, a euforia com a mudança é grande. Sinal disso é um vídeo divulgado nas redes sociais para anunciar a transferência. Mescla de propaganda nacionalista retrô e de filme policial de baixo orçamento, o vídeo em tom épico mostra helicópteros cruzando o céu de Brasília, viaturas atravessando avenidas e agentes fardados emergindo de uma cortina de fumaça verde e amarela, como se uma grande operação estivesse prestes a ser deslanchada.

No final da gravação, o então diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Alexandre de Souza, diz: “As pessoas passam, mas as instituições ficam. Somos tijolos na obra e no legado de futuras gerações. Nossa contribuição foi dada com dedicação.” Ele aproveita para se despedir do cargo e saudar o novo diretor-geral, Paulo Gustavo Maiurino, que tomou posse em 8 de abril. Assim como o profeta Moisés, Souza liderou a mudança para a terra prometida, mas não vai pôr os pés lá, pelo menos não como mandachuva.

Marcos Amorozo

Estagiário de jornalismo na piauí, é estudante da Universidade de Brasília (UnB)

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