chegada

A tragédia da vida privada

Imprensa, campanhas e caçadores de escândalos

Alejandro Chacoff
ILUSTRAÇÃO: ROBERTO NEGREIROS_2014

O crítico francês Roland Barthes certa vez afirmou que a literatura é como o fósforo: brilha com mais intensidade quando está prestes a morrer, nas últimas linhas do texto. Algo similar pode ser dito de políticos promissores atingidos por escândalos. Por um momento final eles reluzem, estrelas a estampar capas de revistas e jornais, e aí de um só golpe parecem evaporar – supernovas relegadas a um cargo inofensivo numa fundação filantrópica ou a uma consultoria silenciosa num recanto elegante da metrópole.

Em 1987, o senador americano Gary Hart era um democrata em ascensão. Nas pesquisas para a Presidência, superava com folga seu provável adversário republicano, George H.W. Bush. Com a fotogenia de John Kennedy e o apelo sóbrio de ex-procurador, Hart ainda tinha uma benesse mais incomum: ideias interessantes. Falava da importância de uma economia menos industrial quando o seu partido ainda sonhava em salvar Detroit. Alertava para os perigos do terrorismo na época em que Osama bin Laden lutava contra os soviéticos no Afeganistão. Os mais entusiasmados com sua candidatura previam uma lavada histórica contra os republicanos na eleição de 1988.

Foi então que, na primavera de 1987, dois repórteres do Miami Herald revelaram que Hart, casado e orgulhoso pai de família, estava de namoro com Donna Rice, uma ex-miss e atriz bissexta que vivia na Flórida. A imprensa seguiu a pista e investigou com afinco. Hart jogou a toalha e precisou renunciar às primárias. A certo ponto, o National Enquirer publicou uma foto do casal: ele aparece sorrindo à beira de um cais, com Rice sentada em seu colo, um mar azul pálido ao fundo. A banalidade do clichê ganha um traço cômico ao se ler a frase estampada na camiseta do senador: Monkey Business Crew, uma expressão que em inglês pode ser lida como uma alusão oblíqua a escapadas sexuais.

Em seu livro recém-lançado, All the Truth is Out: The Week Politics Went Tabloid, (A Verdade à Tona: A Semana em que a Política Virou Tabloide), o jornalista Matt Bai retoma o episódio Hart em suas minúcias. Bai vê ali o início da obsessão americana pela conduta privada de seus políticos. Segundo o autor, a queda de Richard Nixon no escândalo de Watergate teria precipitado um interesse maior pela vida pessoal dos políticos; o caso Hart teria levado essa obsessão a níveis doentios, até desembocar no affair mais famoso, o de Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. O tom do livro é melancólico – jornalistas políticos teriam coisas mais importantes a fazer do que investigar a vida íntima de figurões. Ele admira Hart, e vê na sua evaporação política uma perda para a vida pública americana. Hoje, com os cabelos brancos e um olhar bem menos efusivo que outrora, o ex-aspirante à Presidência divide seu tempo entre escrever um blog e sentar no conselho de instituições do terceiro setor.

 

No Brasil, todo o auê em torno de Hart pode causar certo estranhamento. Escândalos de corrupção são comuns, mas desde a redemocratização nenhum político brasileiro se viu compelido a abandonar uma candidatura por pecadilhos da vida doméstica. Ciro Gomes, em sua campanha presidencial de 2002, errou a mão ao fazer uma piada sobre sua então mulher, a atriz Patrícia Pillar: “Minha companheira tem um dos papéis mais importantes, que é dormir comigo.” Mas seria equivocado dizer que esse foi o fator fundamental de seu declínio. Na corrida para a Prefeitura de São Paulo em 2008, a equipe de Marta Suplicy colocou no ar uma propaganda que aludia à intimidade de seu adversário Gilberto Kassab: “Você sabe de onde ele veio? É casado? Tem filhos? Será que ele esconde mais coisas?” Não colou, e a candidata ainda teve de conciliar seu histórico feminista com uma insinuação que, se não explicitamente homofóbica, era preconceituosa e provinciana. Mas o ataque pessoal mais marcante ocorreu em 1989, na véspera da primeira eleição presidencial após o fim da ditadura. Na reta final do segundo turno, o então candidato Fernando Collor de Mello usou em sua propaganda na tevê um depoimento da enfermeira Miriam Cordeiro, com quem Lula tivera uma filha fora do casamento, Lurian. A enfermeira acusava Lula de tê-la pressionado a fazer um aborto. Talvez seja o único caso em que a exploração da esfera íntima tenha participado de forma decisiva do resultado de uma eleição.

Rosental Alves, ex-diretor executivo do Jornal do Brasil e atual diretor da escola de jornalismo da Universidade do Texas em Austin, mudou-se para os Estados Unidos em 1987, ano em que Hart ardia na fogueira. “Lembro de brincar com meus amigos americanos e dizer que, se fosse no Brasil, ele não só não estaria sendo sacrificado, como suas chances de vencer aumentariam.” A piada de Alves foi premonitória. Alguns anos depois, no Carnaval de 1994, o presidente Itamar Franco foi fotografado com um sorrisinho etéreo, ao lado da modelo Lilian Ramos, num camarote da Sapucaí. Na foto, percebia-se que a moça não usava calcinha. A popularidade de Itamar subiu após o incidente.

“Há um puritanismo expressivo na sociedade americana que se reflete na imprensa”, diz Carlos Eduardo Lins da Silva, ex-diretor adjunto de Redação da Folha de S.Paulo e do Valor Econômico, outro jornalista com experiência das duas culturas. “Mas até a década de 70 a cobertura nos dois países era mais ou menos parecida. Franklin Delano Roosevelt morreu na cama de uma amante, e sua esposa Eleanor supostamente teve relações amorosas com outras mulheres. A imprensa americana não foi invasiva com eles. É a partir de Watergate que se nota um ânimo maior em investigar a privacidade de políticos. Nosso marco aqui é o impeachment do Collor, mas embora o jornalismo tenha se tornado mais agressivo, não enveredamos pela vida particular. Quando se fala da intimidade de políticos, somos sempre elípticos.”

Nos Estados Unidos, os ataques pessoais a candidatos são tão aceitos que existe por lá uma pequena indústria do que é coloquialmente conhecido como oppo (opposition research): pesquisas sobre a vida privada que visam sujar a reputação de adversários. De acordo com um levantamento feito pela revista especializada POLITICO, cerca de 17 milhões de dólares foram investidos em pesquisas desse teor só durante a primeira quinzena do mês de setembro, às vésperas das eleições legislativas de 4 de novembro. São 2,6 milhões a mais do que no último ciclo eleitoral em 2010. Um regime mais liberal de financiamento de campanhas permite que o que antes era levantado em surdina por jovens estagiários ambiciosos seja cada vez mais institucionalizado. America Rising, um instituto de pesquisa ligado aos republicanos, e American Bridge, de tendência democrata, são duas das principais instituições que fazem esse tipo de trabalho. Alguns de seus produtos recentes incluem: uma história sobre um senador que confundiu Irã com Iraque; uma piada de mau gosto sobre mortes acidentais por arma, feita por um deputado; o áudio de um candidato ao Senado que queria processar o vizinho porque o gramado de sua mansão fora invadido pelas galinhas do outro. Mas o achado do ano é do Free Beacon, outro grupo ligado ao campo republicano. Em uma gravação que mais parece o áudio de alguma cena de um filme de David Lynch, Hillary Clinton, ainda jovem e com um sotaque carregado do Arkansas, discorre sobre a ocasião em que teve que atuar como advogada de defesa de um estuprador.

 

O caso que talvez melhor reflita as diferenças de abordagem entre a imprensa americana e brasileira é o de Larry Rohter, do New York Times. Em 2004, Rohter publicou uma reportagem na qual investigava o suposto hábito do então presidente Lula de se exceder na bebida. O governo reagiu de forma histriônica, ameaçando expulsar do país o correspondente, para depois recuar em meio a muita burocracia legal e tensão diplomática. Rohter contou que foi um dos choques culturais mais marcantes que viveu. “Minha posição na época, e minha posição agora, é a de que qualquer tema que possa afetar a capacidade de um político de exercer seu cargo deve ser apurado.” Em seu livro Deu no New York Times, Rohter argumenta que havia indícios suficientes para que uma matéria sobre Lula e o álcool fosse pauta, e seu jornal concordou. “Se um presidente bebe, se um governador cheira cocaína ou se um senador tem várias amantes, essa história é de interesse público se e somente se os atos privados de alguma forma afetarem a função pública.”

Lins da Silva concorda com Rohter quanto ao princípio, mas discorda quanto à aplicação. “Eu pessoalmente não acho que o gosto de Lula pela bebida tenha alguma vez impactado negativamente sua atuação como chefe de Estado”, disse. “Pelo que eu saiba, nunca houve vexame público. O burburinho no Planalto era sempre de vexames privados. Agora, quando o presidente é um alcóolatra incorrigível, aí é diferente. O Yeltsin, por exemplo. Ele mal conseguia sair do avião.”

Rohter dá exemplos concretos para ilustrar seu critério de escolha de matérias. A obsessão pelo episódio Bill Clinton e Monica Lewinsky, por exemplo, foi boba e hipócrita, e só se tornou de interesse público pelas repercussões que teve, com os republicanos forçando a barra para gerar um impeachment e Clinton mentindo sob juramento. Já o caso mais recente envolvendo Mark Sanford, ex-governador da Carolina do Sul, entra na categoria de histórias que merecem investigação. Sanford abandonou o cargo por vários dias para fazer uma viagem romântica com sua amante argentina, exemplo claro de negligência administrativa.

Segundo Rohter, a relação entre jornalistas e políticos nos Estados Unidos é mais espinhosa que no Brasil, mas não é fácil decifrar o que nos torna diferentes. “Quando eu morava no Brasil, algumas pessoas justificavam: ‘É porque nós somos católicos, e vocês são protestantes.’ Mas essa visão é bem simplista, e um pouco condescendente. Até porque sou judeu, como muitos outros repórteres americanos.” Ele especula que as diferenças talvez tenham mais a ver com a história política recente. Para ele, o relacionamento tenso entre a imprensa brasileira e a censura da ditadura militar pode ter gerado uma espécie de empatia entre repórteres e líderes democráticos da época, e essa admiração talvez esteja definhando aos poucos. “Era difícil não admirar alguém como Ulysses Guimarães, do MDB. Sei disso porque eu era repórter naquela ocasião também e o admirava.”

Mas, ainda que os americanos tendam mais a investigar a vida privada dos candidatos, Rohter discorda da tese central de Bai: a de que a ênfase na intimidade seja o maior problema do jornalismo político americano. E ele se irrita com o argumento do autor de que a queda de Nixon tenha ocorrido mais por uma questão pessoal do que política. “Só alguém que tinha 5 anos quando Watergate aconteceu, como Bai, pode pensar assim. Watergate aconteceu por causa de graves violações constitucionais. Eu estava no Washington Post em 1974 e posso garantir: Bai está errado. Ele distorceu um acontecimento histórico para poder encaixá-lo na tese do livro.”

Rohter argumenta que a verdadeira ameaça a um jornalismo político mais sério não vem do interesse pela vida íntima dos candidatos, mas sim da proliferação de horse race stories, causada em parte pelo ritmo acelerado do ciclo noticiário. São as matérias que discutem quem subiu e quem desceu nas pesquisas, como um boletim de turfe, e cujo foco é sempre no jogo eleitoral ou nas estratégias de campanha. “Na mídia impressa, nos blogs, na tevê, essas histórias ocupam mais e mais espaço, muitas vezes à custa de matérias mais substanciais que explicam as opções políticas de cada candidato. O foco na vida pessoal é um problema secundário, e olhe lá.”

O interesse no jogo eleitoral parece ricochetear em outros âmbitos da cultura americana. Três das séries televisivas mais populares hoje nos Estados Unidos – House of Cards, The Good Wife e Scandal – têm o jogo político como centro de gravidade. E o prazer voyeurístico das tramas está justamente naquele hábitat cinzento, onde a moralidade pública e a privada se confundem. A ideia de que vida pública e privada se contaminam a todo momento parece ser uma convicção não só da imprensa americana, mas também da sociedade daquele país.

Comparado ao fenômeno do oppo – as discussões sobre galinhas andarilhas ou as revelações sombrias de fitas gravadas há décadas –, o jogo eleitoral brasileiro parece ainda distante do americano. Mas a vontade latente de discutir temas da esfera de valores, como a descriminalização do aborto ou o casamento gay – e a dificuldade dos três principais candidatos de se esquivar desses tópicos –, sugere que as intersecções entre a esfera privada e a pública estão mais em evidência. Considerando a fidelidade com que importamos ondas culturais, não é difícil apostar que daqui a quatro anos estaremos um pouco menos cordiais.

Alejandro Chacoff

Jornalista da piauí, trabalhou como analista político em Londres

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