chegada

A última moda da vida eterna

O ponto de Nova York onde ficava a megastore da Virgin vira uma loja que embrulha roupa barata com o Evangelho

Rafael Teixeira
MONTAGEM SOBRE FOTO DE TONY SHU

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho único, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” João, capítulo 3, versículo 16, Forever 21.

Forever 21 é uma das maiores redes de lojas de roupas e acessórios dos Estados Unidos. E “John 3:16”, referência à citação do evangelista, é uma das marcas registradas de suas sacolas de compras, por exigência de seu proprietário Do-Won Chang – ou Don Chang, em versão ocidentalizada –, que está a um passo de invadir a Times Square, em Nova York, com as palavras da Bíblia.

Cristão fervoroso, o coreano Chang emigrou para os Estados Unidos em 1981. Em três anos, abriu seu primeiro negócio no país, uma loja com pouco mais de 84 metros quadrados na Figueroa Street, em Los Angeles. Chamou-a Fashion 21. Com o tempo, o Fashion de moda jovem virou Forever – para sempre –, como um para a eternidade aqui e agora.

A fé deve ter ajudado Chang, tanto que ele vendia bijuterias por menos de 5 dólares e vestidos de noite por menos de 50. Em um ano, suas vendas aumentaram em vinte vezes. Em 1989, ele tinha uma rede com dez filiais. E não parou mais de acelerar vertiginosamente.

A Forever 21 está plantada em cidades dos Estados Unidos, da Coréia, do Canadá, da China, da Indonésia, da Arábia Saudita, da Malásia, de Cingapura e dos Emirados Árabes, entre outros países e continentes anexados a seu império comercial. Mas é o seu próximo endereço que tem dado mesmo o que falar. Até meados do ano que vem, abrirá suas portas num dos melhores pontos de Nova York, a Times Square, na Broadway, entre as ruas 45 e 46 – onde, até dias atrás, funcionava a Virgin Megastore, loja de discos que já foi um grande símbolo mundano do sucesso temporal. Estima-se que, este ano, antes mesmo do outono americano, cinco outras megastores da Virgin sumirão dos Estados Unidos. A da Times Square acabou em março.

A troca da Virgin pela Forever 21 é mais um golpe na combalida indústria da música, e mais um sinal de que a indústria da moda, com crise ou sem crise, não pára de crescer. Como acontecia com a Virgin no começo da década, na época em que o filme Alta Fidelidade retratou o sufoco de Rob Gordon, um comerciante de bairro fictício mas verossímil, que só trabalhava com bolachas de vinil e ameaçava naufragar na onda dos CDs distribuídos por megastores.

Tudo nessa história parece que foi ontem. A primeira Virgin Megastore surgiu em Londres trinta anos atrás. Ficava na Oxford Street, esquina com a Tottenham Court Road. Seu fundador, Richard Branson, ainda longe de virar sir Richard Branson, partiu dessa base local para consolidar um conglomerado que se alastrou pelo ramo do turismo, dos jogos e das telecomunicações. Um de seus braços, a Virgin Galactic, aceita reservas para vôos interplanetários. Como a Forever 21, sua sucessora na Times Square, os negócios de Branson tiveram um começo modesto em 1971, no bairro londrino de Notting Hill Gate, com o nome de Virgin Records and Tapes.

Era um bom momento para abrir uma loja desse tipo na Inglaterra. Os Beatles haviam se dissolvido, mas John Lennon e Paul McCartney se lançavam em carreiras solo. Led Zeppelin, Rolling Stones, The Who e Pink Floyd se revezavam nas paradas de sucesso. Mas a Virgin Records and Tapes nasceu contra a corrente. Especializava-se em Krautrock, um tipo de rock experimental nascido na Alemanha nos anos 1960, que chegava à Inglaterra com certo atraso. De brinde, a loja ainda oferecia aos fregueses comida vegetariana.

Virgin queria dizer que Branson era novo na praça – ou virgem em matéria de comércio. Mas pegou. Em 1973, a Virgin Records lançava seu primeiro álbum, Tubular Bells, do inglês Mike Oldfield. E, como a Forever 21 faria mais tarde em seus calcanhares, suas lojas foram espalhando filiais pelo mundo, primeiro no Reino Unido, depois França, Austrália, Japão, Grécia, Alemanha, Canadá, Oriente Médio e Estados Unidos. Nos bons tempos do CD, teve 23 megastores, só nos Estados Unidos, que lucravam 280 milhões de dólares por ano, mesmo sustentando pelo menos doze lojas que funcionavam quase sempre no vermelho.

 

A megastore da Times Square foi a coroa desse reino. Abriu em 1996, quando a empresa tinha quatro anos de experiência no mercado americano e o download de músicas na internet nem estava à vista para ameaçar a indústria fonográfica com o degredo na realidade virtual. O Napster, primeiro programa de compartilhamento de arquivos musicais, só daria o ar de sua graça em 1999.

A loja ocupava três andares e 5,5 mil metros quadrados de pavimentos. Além de CDs, DVDs e vinis, vendia agendas, pôsteres, camisetas de artistas, filmes, equipamentos de som, videogames, livros e, com valentia à altura do estilo empresarial de Branson, engenhocas para tocar MP3, o antídoto eletrônico contra o hábito de comprar discos para ouvir em casa. Havia, em suas instalações, 600 pontos de headphones para testar músicas e 100 telas de tevê para vídeos. “Era um ponto turístico, um lugar que você tinha que visitar se estivesse na cidade, mesmo que não fosse comprar um disco sequer”, relembra a cantora carioca Silvia Machete, que morou sete anos em Nova York.

A Virgin da Times Square vivia cheia. Nem sempre na fila do caixa, apesar dos espíritos entusiastas que a frequentavam. “Eu baixo toneladas de músicas para o meu laptop. E vou a lojas de discos toda semana, mesmo assim. A Virgin era um dos últimos lugares em que eu ainda podia aproveitar aquele pequeno prazer, e em alguns meses isso estará acabado”, lamentou o jornalista americano Simon Vozick-Levinson.

A megastore resistiu como pôde à cultura do download e às previsões de que o CD devia morrer de vez em cinco anos. Ultimamente, os aparelhos eletrônicos respondiam por um quarto de suas vendas no Natal, admitiu Simon Wright, o presidente da empresa. E o primeiro sinal de que a Virgin não ia bem dos alicerces veio em 2007, quando Branson vendeu suas lojas nos Estados Unidos para dois pesos pesados do mercado imobiliário, o Vornado Realty Trust e a Related Companies. Sob essa nova ótica, os 55 milhões que a megastore faturava por ano não se mostraram mais compensadores do que os 540 dólares que a Virgin pagava pelo aluguel do metro quadrado naquele endereço, com o ponto na Times Square valendo dez vezes mais. A loja fechou no mês passado, depois de uma liquidação em que os descontos chegaram a 70%. Será para sempre uma perda insubstituível para quem se acostumara a sair dali, nos grandes lançamentos, com álbuns autografados por Michael Jackson, Nine Inch Nails, Eminen, N’Sync e outros astros de carne e osso, coisa que ainda não se pode baixar pela internet.

Mas a Forever 21 promete, em contrapartida, uma loja ainda maior, de 8,3 mil metros quadrados, repleta de roupas a preços de CDs. E Chang já anunciou pelo jornal The New York Times que seus diretores mal podem esperar para “criar um novo ambiente na Times Square”, com o Evangelho de São João num lugar que já foi famoso pelos serviços prestados a todos os tipos de pecadores.

Rafael Teixeira

Rafael Teixeira é repórter do jornal O Globo.

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