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    O parque Haesindang, na Coreia, homenageia a noiva abandonada que se afogou no mar e fez a pesca sumir FOTO: FERNANDA EZABELLA

portfólio

A virgem e os peixes

Na Coreia do Sul, um parque cheio de pênis homenageia a moça que se afogou no mar sem os ter conhecido. (com imagens extras)

Fernanda Ezabella | Edição 50, Novembro 2010

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Não há nada de muito diferente na entrada do parque Haesindang, no leste da Coreia do Sul. Ao final de um pacato vilarejo cheio de barraquinhas de peixes e frutos do mar, apenas uma bilheteria e um arco colorido dão boas-vindas aos turistas. Prestando atenção, é possível detectar num pequeno mercado das redondezas um sinal do que está por vir. Ele vende garrafinhas de vidro cuja tampa de plástico tem formato de pênis e vira um copinho. Mas nada prepara o visitante para o que vem depois: um ambiente surreal de esculturas de pênis gigantes.

O ponto favorito para fotos, numa tarde do mês passado, era um falo negro de bronze, com um motor que o fazia subir e descer como um canhão de guerra. Um barulhento grupo de vinte velhinhas contemplava a obra. Algumas riam, outras faziam “V” com os dedos. Mais adiante, um casal passeava de mãos dadas com a filha de uns 10 anos.

O parque Haesindang começou a nascer há quatro séculos, ali no vilarejo de Shinnam, quando um pescador levou a noiva para pegar algas marinhas numa rocha distante da costa. Ele prometeu voltar para buscá-la depois do trabalho. Mas não contava com a mudança súbita no tempo. Ventos e tempestades provocaram ondas enormes. A pobre jovem foi arrastada para longe. Morreu afogada nas águas geladas.

 

A partir de então, os peixes sumiram do lugar. Os moradores começaram a pensar em maneiras de aplacar a ira do espírito da virgem que, eles acreditavam, assombrara o mar. Pescadores se masturbaram na areia e esculturas fálicas de madeira foram levantadas na praia. Deu certo: os peixes voltaram a cair na rede dos pescadores.

Quatrocentos anos depois, em julho de 2002, a cidade resolveu lucrar com a crença local. Fundou um parque de 30 mil metros quadrados, com mais de 100 pênis das mais variadas formas, cores e, claro, tamanhos. A prefeitura também patrocina um concurso anual para selecionar dez novos trabalhos, no qual os dois primeiros classificados saem com prêmios de 3 mil e 2 mil dólares.

“Venerar imagens fálicas é uma prática ancestral na Coreia. Alguns dos túmulos mais antigos descobertos na península tinham esculturas bem exageradas de pênis e outras partes sexuais”, explicou o professor Michael J. Pettid, de Estudos Coreanos Pré-modernos da Universidade de Binghamton, em Nova York. “A reprodução humana era muito importante, além de estar relacionada ao desejo da fartura nas colheitas e energia sexual.”

 

O parque Haesindang recebe anualmente cerca de 270 mil visitantes. Não é um local de fácil acesso. A partir de Seul, a viagem de ônibus até a cidade mais próxima, Samcheok, dura quatro horas. Dali ao parque são mais cinquenta minutos. Escultores fálicos do Brasil serão bem recebidos no concurso anual. A prefeitura de Samcheok providencia hospedagem e alimentação de artistas estrangeiros durante o certame. Quem quiser se inscrever deve telefonar para (82) 33-574-6961.

Fernanda Ezabella

Fernanda Ezabella, jornalista, é correspondente da Folha de S.Paulo em Los Angeles

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