esquina

AARG!

Revista de celebridades abraça ideais igualitários

Clarissa Vasconcellos
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Ao sair de uma festa, a ubíqua Paris Hilton escorregou. Na tentativa de ampará-la, o guarda-costas – sempre há um, tão importante quanto a lancha ou o fim de semana em St. Barts – encostou a mão num dos seios da moça. Clic. Dali a pouco, a imagem chegava às redações especializadas em investigar a fundo quem anda pondo a mão em quem – contanto, é claro, que sujeito e/ou objeto sejam da espécie homo celebris.

Dentre tantas dessas publicações que honram o jornalismo, a espanhola Cuore (sim, a palavra é italiana) merece destaque. Naquele dia, a foto de Hilton trouxe grande alegria à redação madrilena. “Essa aqui está ótima”, iluminou-se Silvia Collado, editora-chefe de fotografia. “Ela está até com um sorrisinho, feliz com a apalpada.” Mais uma celebridade sucumbia à impiedade semanal de Cuore.

A revista nasceu há três anos para aplacar um anseio não confessado dos não-VIPS: o de se comprazer com o fato de que celebridades metem o pé na jaca. Os editores da Cuore, finos conhecedores da alma humana, partem de um princípio insofismável: muito melhor do que o sublime desfile de deuses e deusas pelos tapetes vermelhos do grand monde é o tropeção que eles dão na calçada, se possível pondo à mostra a roupa de baixo. Cuore vive dos pequenos prazeres de testemunhar que Madonna e Jennifer Lopez, para não falar em Amy Winehouse ou Britney Spears, são espetacularmente falíveis, ou que Nicole Kidman e Scarlett Johansson também têm lá suas gordurinhas localizadas. “É uma filosofia 100% livre de Photoshop”, define Silvia, repetindo um slogan da revista.

Joanetes, celulite, estrias, pelos à mostra, seios caídos, manchas de suor e mazelas assemelhadas da nossa triste condição são prospectados com zelo de relojoeiro suíço. Todas as manhãs, Silvia analisa cada centímetro de celebridades flagradas em poses apolíneas ou dionisíacas. Apolo e Dioniso são deixados para os outros. A sua função é separar o joio do trigo – para publicar o joio. Das fotos, Silvia pinça tão somente as mais impublicáveis e as encaminha aos seus dois colegas de comando, a redatora-chefe Mayka Sánchez e o diretor Álvaro García.

“Dizem que fizemos essas varizes com o computador, mas são dela!”, protesta Álvaro García diante de uma foto da atriz Eva Longoria de biquíni. Certificando-se de que convenceu o interlocutor quanto ao rigor dos seus critérios jornalísticos, García modera a indignação e prossegue: sim, as chamadas são obrigatoriamente espalhafatosas. O primeiro número da revista, que chegou às bancas em maio de 2006, trazia na capa as seguintes informações: “Bisturi que te vi. As famosas que mais se gastaram em plástica”, “Celulites: Oh, não! Nem as estrelas escapam” e a ambígua “Todos os cabelos de Penélope [Cruz]”.

O sucesso foi instantâneo e o caminho estava traçado. Era uma questão de tempo para a publicação das reportagens investigativas “Dentes amarelos” (com presença marcante de Amy Winehouse), “Aarg! Por que não se depilam?” (Julia Roberts) e as churchillianas “Espinhas, suor e herpes” e “Vícios, anorexia e halitose”.

As nádegas têm especial destaque na publicação, como na edificante matéria “É rica, famosa, top-model… Mas tem essa bunda! Suba sua autoestima com Kate Moss”. No concurso “As Piores Bundas do Ano”, foram agraciadas Britney Spears, Beyoncé e Victoria Beckham. A revista foi processada cinco vezes. Ganhou quatro.

 

A cada novo oficial de justiça que bate à porta, aumenta o ânimo para exibir varizes alheias. Toda olheira merece atenção. Sim, pequenas tristezas são exibidas sem grande alarde, mas quando a falta de gosto no vestuário, as estripulias do acaso ou as indignidades do tempo adquirem proporções mesopotâmicas, a revista toma o cuidado de alertar o leitor estampando um carimbo indelével: Aarg! Num número recente, mereceram Aargs a cantora Rihanna (um volume no seu maiô revelava que ela estava naqueles dias), a viúva profissional Courtney Love (celulite mórbida), a atriz Cameron Diaz (axilas não depiladas) e, claro, Amy Winehouse, cuja camisa parecia lambuzada de gordura. Volta e meia a revista lança um especial Aarg que leitores e celebridades aguardam ansiosamente, por razões opostas.

 

Cuore tem suas prediletas: Amy Winehouse (que não deve ligar) e Britney Spears (que deve). Spears costuma protagonizar a seção Corpo de Delito, na qual se exibem as metamorfoses de celebridades: ontem, barriga tanquinho; hoje, dobras de pele flácida. A cantante também bate cartão nas páginas dedicadas à fauna mais malvestida da semana. Nelas, a competição mais cerrada vem de La Toya Jackson, mas as pernas desnudas e gordotas de Spears enfiadas num par de botas de plástico rosa com detalhes de pelúcia branca são efetivamente imbatíveis. O carimbo confirma: Aarg!

A redação é formada por vinte jornalistas na faixa dos 30 anos. As mesas de trabalho estão atulhadas de revistas, enfeites coloridos e mimos variados que equivalem ao nosso conhecido “jabá” e que ali, com saudável franqueza, recebem o nome de sobornos. Naquela semana, os jogos de videogame Band Hero e Virtua Tennis 2009 haviam feito a alegria da moçada. Devidamente aprovados, seriam anunciados no número seguinte, na seção intitulada Esta Semana nos Subornaram com…

A Cuore (“Otra forma de contar el corazón“) custa 1,50 euro. A tiragem é de 350 mil exemplares semanais, próxima à de Hola, tia espanhola da nossa Caras. Já é a terceira revista de celebridades mais vendida na Espanha, e a empresa que a publica só vem aumentando a carteira de títulos. Existe um especial Cuore Pelos (“La única revista que necesitas para tu cabello“), um Cuore Biuty (beleza “para una mujer de verdad“), um Cuore Stars (astrologia: “Tu futuro y el de tus celebrities favoritas“), Cuore Stilo (“Toda la moda de las famosas“), um Cuore Bio (“Todos los secretos de tus celebrities favoritas“) e um Cuore Tiempos (passatempos: “Tu cuoreantídoto al aburrimiento“), além do carro-chefe Cuore Aarg.

“Trazemos as estrelas de volta a terra. Dizemos não só que você poderia ser essa mulher rica, bonita e famosa, mas que talvez você esteja melhor do que ela”, elabora Álvaro García, explicando os sentimentos elevados que o norteiam. Yolanda Colías, a secretária de redação, complementa: “Trabalhamos para aumentar a autoestima das pessoas.” Funciona, contanto que não se fique quebrando a cabeça para descobrir por que razão se é igual a uma celebridade Cuore. Não é bem que sejamos parecidos com Courtney Love. É que Courtney Love tem tantas estrias que pelo menos no quesito flacidez a gente empata. Nunca seremos belos como eles; eles então que sejam feios como nós. Para no mímino 350 mil pessoas, já é um consolo.

Clarissa Vasconcellos

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