esquina

Abaporu em trânsito

O homem que se fez antropófago

Felipe Fortuna
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Foi numa tarde de quarta-feira que o Abaporu decolou do Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, rumo a Brasília. Era a terceira vez que deixava a Argentina, agora a pedido do governo brasileiro. Símbolo maior da Antropofagia, a corrente estética do modernismo teorizada por Oswald de Andrade, o quadro de Tarsila do Amaral faz parte do acervo do Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires, o Malba. Quem o comprou, em 1995, foi o empresário argentino Eduardo Costantini, por 1,5 milhão de dólares – uma bagatela, se for considerada uma oferta recente, recusada, de 40 milhões de dólares.

Até 5 de maio, o Abaporu estará na exposição “Mulheres, Artistas e Brasileiras”, montada no 2º andar do Palácio do Planalto. Em tupi-guarani, a palavra junta aba (homem), pora (gente) e ú (comer), “homem que come gente”. Mas isso não assusta a mignon Cintia Mezza, gestora do acervo do Malba, que acompanhou o quadro na viagem e pousou com ele em Brasília. Sua maior preocupação no desembarque era encontrar o quadro – que estava num engradado de madeira – são e salvo. Um empregado da empresa especializada em transporte de obras de arte lhe explicou que o Abaporu chegava embrulhado em papel glassine, amparado por bordas de isopor e espuma. Um agente de segurança com 26 anos de experiência comandou a escolta – um grupo de sete batedores – no transporte do quadro até o Planalto.

Assim partiu o comboio que protegia o antropófago dos perigos de um assalto e, quem sabe, de um acidente de trânsito. O visitante e a escolta estacionaram às 23h47 em frente à rampa do Palácio, ao lado da qual havia um grupo de cinegrafistas para registrar a saída do quadro de dentro do caminhão. O caixote com a obra de Tarsila do Amaral subiu a rampa com solenidade, acompanhado de sua atenta e pequenina protetora, de seguranças e de funcionários do cerimonial. Ao chegar ao topo, virou à esquerda e, atravessando as salas de exposição com obras de outras artistas brasileiras – Anita Malfatti, Beatriz Milhazes, Tomie Ohtake e Mariannita Luzzati –, a tela foi finalmente colocada em frente ao lugar de destino.

Mas só na manhã de sexta-feira o Abaporu foi tirado do caixote. Havia ainda 24horas antes da visita de Suas Excelências, os presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama. Cintia Mezza, ao lado dos curadores da Fundação Armando Alvares Penteado, acompanhou com apreensão a abertura: um a um os parafusos foram desenroscados e trabalhadores com luvas de feltro retiraram o quadro do seu cercado.



Surgiu então o Abaporu e suas molduras grossas e douradas, e foi colocado com cuidado em cima de uma mesa de pano preto. A acompanhante argentina começou então um minucioso exame da tela, marcando as imperfeições, as perdas de tinta, as ondulações e as avarias num relatório que classificou de “confidencial”. Acendeu uma lanterna de luz branca dirigida para a superfície da tela de 1928 e marcou no relatório, com caneta hidrográfica, os novos pontos de deterioração.

É bem visível, mesmo nas reproduções, a mancha esbranquiçada que se encontra no metatarso do antropófago. À direita de quem olha, ela aparece indisfarçável e sua restauração constitui, nas palavras de Cintia Mezza, “um desafio”. A gestora não sabe quando e em que circunstâncias a mancha se formou, mas a tela já tinha o problema quando foi vendida ao seu atual dono. Quando comentaram que o antropófago parecia “branco demais” para um brasileiro nativo e selvagem, a argentina sorriu e, em seu socorro, veio o curador da FAAP, José Luis Hernández Alfonso. Ele explicou que, de fato, o quadro foi oferecido por Tarsila do Amaral, em 11 de janeiro de 1928, a seu marido, Oswald de Andrade, que completava 38 anos. Impressionado com a tela, o escritor chamou o poeta Raul Bopp a sua casa, e lhe disse que a imagem parecia “o homem plantado na terra”. Envolvidos pelos temas nacionais, buscaram no dicionário do padre Ruiz de Montoya um título indígena que pudesse servir à obra. E encontraram abaporu. Assim, o quadro não nasceu antropófago; ele se fez antropófago.

 

Dilma Rousseff ciceroneou Obama pelos salões da exposição. Falou sobre a Semana de Arte Moderna, o Manifesto Antropófago e, também, sobre o detalhe de que um quadro tão significativo estivesse num museu da Argentina. Segundo a imprensa argentina, Barack Obama, que só visitou o Brasil, o Chile e El Salvador pelo seu passeio na América Latina, teria dito à presidente: “É um quadro genial. Seria preciso conversar com Cristina Kirchner para trazê-lo de volta ao Brasil.”

O encanto de Obama pela obra de Tarsila se estendeu ao Manteau Rouge, o autorretrato da pintora em que ela aparece radiante num sobretudo vermelho. A melhor descrição do quadro se encontra na biografia da artista escrita por Nádia Gotlib: “A pintora surge aí na sua elegância imponente, realçada pelo contraste entre o azul do fundo e o vermelho do casaco, o qual usou, aliás, no jantar em homenagem a Santos Dumont, em Paris. A gola demarca, geometricamente, o centro do quadro, em forma ovalada, de onde emergem o colo e a cabeça. A disposição da figura parece ensaiar futuras opções formais a serem adotadas no posterior autorretrato de 1924.”

O presidente americano, Michelle e Dilma tiraram uma foto em frente ao Abaporu. Seria o momento de lembrar as palavras de Oswald de Andrade no manifesto que o quadro inspirou: “Só a antropofagia nos une. Expressão mascarada de todos os tratados de paz. Tupy or not tupy, that is the question.”

Felipe Fortuna

Poeta, ensaísta e diplomata. Publicou O Mundo à Solta, pela Topbooks, e O Rugido do Sol, pela Pinakotheke, ambos de poesia

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