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Abençoado Madoff!

Sócio do Country Club agora pode ter orgulho de ser ex-rico ou neopobre

Consuelo Dieguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Na noite de 25 de abril do ano passado, uma sexta-feira, o empresário Alex Haegler comemorou seu aniversário de 75 anos com uma festa no Country Club do Rio, em Ipanema. Ao lado de sua mulher, Sandra, ele circulou radiante pelos salões. Os dois formam um dos belos casais da sociedade carioca. Ele, alto, magro, cabelos grisalhos e olhos azuis. Ela, esguia e elegante, com o rosto esculpido a cinzel que na juventude a fez modelo e, na maturidade, poderia lhe dar o papel de aristocrata austríaca em qualquer filme ambientado nos châteux dos Alpes.

A festa coroou uma história de sucesso. Campeão de tênis na juventude, Haegler representara por décadas o banco Credit Suisse no Brasil e, cinco anos antes, aposentara-se como executivo bem-sucedido e de grande credibilidade. Boa parte da sociedade carioca compareceu ao aniversário. Quem ficou de fora queria estar lá.

Oito meses depois, Haegler se tornaria alvo de olhares atravessados nas raras vezes em que arriscou ir ao Country. Um grupo de sócios do clube chegou a propor sua expulsão.

O que alterou tão radicalmente a situação foram as relações de Haegler com Walter Noel, sócio majoritário do Fairfield Greenwich Group, empresa americana que captava dinheiro de investidores para aplicar em fundos de investimento. A Fairfield administrava recursos de 14,1 bilhões de dólares e, de acordo com seus prospectos, diversificava as aplicações.

Mas não era bem assim. No dia 11 de dezembro, quando o maior corretor de Wall Street, Bernard Madoff, confessou a fraude de 65 bilhões de dólares, descobriu-se que 48% dos recursos captados pelo Fairfield estavam concentrados nos fundos de Madoff. A notícia de que o dinheiro investido ali tinha virado pó chegou imediatamente ao Brasil e ao Country. No mesmo instante, começaram a tocar os telefones da empresa de Haegler, a Haegler S/A, uma representação de máquinas e equipamentos. Eles seguiriam tocando ao longo dos dias.

No mesmo local funciona também, imaculadamente branco do piso ao teto (incluído aí o couro branco das poltronas Barcelona), o escritório de Bianca Haegler, 34 anos, filha caçula de Haegler. Formada em finanças na Universidade Bentley de Boston, ela representou durante anos o Fairfield Greenwich Group na América do Sul – assim atestava a página da Fairfield na internet – e tinha como missão atrair investidores ricos. Conquistou o posto não só por sua enorme rede de relacionamentos, mas também pelas estreitas ligações com Walter Noel. Ele é seu tio. Mônica Haegler Noel, irmã de Alex Haegler, é casada com Walter Noel.

A maior parte dos clientes de Bianca foi de membros da tradicional sociedade carioca – o chamado dinheiro velho, cujo último reduto é há tempos o Country Club. “A Bianca procurava os sócios e oferecia oportunidades de investimento no Fairfield”, conta um deles. E não era a única. Houve sócios que foram procurados pelo próprio Haegler e por seu filho Philip, que trabalha com ele na Haegler S/A. “Todo mundo sabia que era o Alex que estava por trás do negócio”, diz outro sócio. “Vamos ser francos: ninguém apostaria seu patrimônio por consultoria da Bianca. Era a credibilidade do Alex que garantia a operação.”

A atividade dos Haegler está sendo investigada pela CVM – Comissão de Valores Imobiliários. Se, além de prestar consultoria, eles de fato captaram recursos para esses fundos, agiram ilegalmente, porque não tinham registro na CVM.

 

Nos últimos meses, o Country virou um centro de lamentações da elite carioca. À boca pequena, é claro, os sócios contam sobre os milhões de dólares (ou no mínimo as centenas de milhares) que perderam nas aplicações no Fairfield. Um empresário da área de entretenimento, amigo íntimo de Alex Haegler, teve um AVC ao tomar conhecimento de que todo o seu dinheiro se evaporara. Recupera-se lentamente. Um outro que havia decidido viver de renda vendeu todas as suas fazendas e aplicou o dinheiro no Fairfield através dos Haegler. Está desesperado. Outro desfez-se de sua mansão no Jardim Pernambuco, um dos endereços mais caros do Rio, e recebeu em pagamento cotas dos fundos Fairfield investidos com Madoff. Está atônito, sem casa e sem dinheiro.

Os Haegler também sofreram o baque. Conta-se em sociedade que Alex tinha milhões investidos com o cunhado. Seus quatro filhos e seus genros viram o dinheiro se pulverizar.

No final de dezembro, quando a revolta dos investidores chegou ao auge, muitos sócios receberam cartas anônimas que acabavam com a reputação dos Haegler. Os amigos de Alex saíram em sua defesa. “Ele nunca empurrou esses fundos pra cima de ninguém. Ao contrário, tinha fila de gente querendo investir”, diz um deles. Numa manhã ensolarada de março, quando um grupo de sócios trocava opiniões acaloradas à beira da piscina, alguém afirmou: “Quem aplicava ali sabia do risco que estava correndo. Qualquer um que olhasse para a cara do Noel pensaria duas vezes antes de dar dinheiro a ele. Ele tem cara de tonto. E agora querem crucificar o Alex. Não é justo.”

Algumas dessas debacles devem ser tomadas com umas pitadas de desconfiança. Inúmeros sócios do Country perderam a fortuna há décadas, mas continuaram a enrolar o foulard no pescoço e a esbanjar seus poucos caraminguás em um ou outro mocassim italiano. Para maior desgraça de alguns, eles volta e meia se viam constrangidos a bancar o jantar dos amigos. Manter a pose dava trabalho e era custoso.

Não mais. Hoje eles choram pelos cantos “os milhões que perdi com o Madoff” – e assim estão livres do fardo de se pretenderem nababos. Eles são os neo-ex-ricos. O Brasil acaba de inventar a lavagem da pobreza.

Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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