tempos da peste

Abracildo, Pintassilgo e Lilica

Era uma vez três crianças com Covid-19 que se mudaram para a casa do pai e da madrasta

Angelica Lino e Renato Terra
No desenho de Lilica, ela, os gêmeos, Renato Terra e Angelica Lino: “Observei os três serzinhos com máscaras, contaminados com um vírus violento, e senti um misto de ternura e terror”
No desenho de Lilica, ela, os gêmeos, Renato Terra e Angelica Lino: “Observei os três serzinhos com máscaras, contaminados com um vírus violento, e senti um misto de ternura e terror” CREDITO: DESENHO DE LILICA SOBRE FOTO DE RENATO TERRA_2021

ANGELICA LINO, 25 anos, e RENATO TERRA, 39 anos, estão casados desde outubro de 2020. Terra compartilha a guarda de três filhos de um casamento anterior, e as crianças pegaram o novo coronavírus no fim de semana na casa da mãe, apesar dos cuidados tomados por todos. Com cansaço, dores no corpo e falta de ar, a mãe segurou as pontas durante três dias. No quarto dia, Lino e Terra resolveram buscar as crianças e iniciaram um período insólito de convivência com os pequenos infectados.

 

30 DE NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA

Angelica Lino_Desde cedo me senti congestionada, com um sentimento ruim. Deve ser a mesma sensação que os animais têm quando pressentem catástrofes. De noite, fiquei observando Renato. Notei que ele digitava rápido no celular, com cara de preocupado. Não deu outra: teríamos a semana mais difícil – até agora – da nossa vida de casados. Tudo indicava que as crianças estavam infectadas com Covid-19.

 

3 DE DEZEMBRO, QUINTA-FEIRA

Renato Terra_Na iminência de buscar meus três filhos na casa da mãe, todos eles contaminados pela Covid-19, planejo minhas ações como um estrategista do Pentágono. Há alguns dias, contratei uma empresa que prometeu fazer uma desinfecção que dura noventa dias e inclui, claro, o extermínio do novo coronavírus.

O combatente da empresa chegou ao meio-dia. Quando ele colocou a roupa de trabalho, cobrindo todo o corpo com um tecido branco impermeável, senti imediatamente uma confusão mental: não sabia mais se estava em casa ou em Chernobil. Em dado momento, ele segurou uma espécie de mangueira e começou a disparar uma fumaça pela casa. Tentei me refugiar na varanda do apartamento, mas não aguentei.

Tossindo como um tuberculoso, corri para a escada e fui comprar um arsenal de máscaras, inclusive infantis, protetores faciais, luvas, Lysoform… De álcool em gel não preciso: no começo da pandemia, em março, comprei dois galões de 5 litros, e ainda tenho uma boa reserva. Comprei também alguns jogos para entreter as crianças e abasteci a geladeira com comida pronta. Espero que seja suficiente para uma semana. Tento planejar tudo, mas tenho a clara sensação de que me falta talento para planejamentos.

Para preservar a identidade das crianças, vou tratá-las neste diário pelos apelidos. Lilica, de 6 anos, é uma menina doce, criativa e com sensibilidade artística. Os gêmeos, de 3 anos, não poderiam ser mais diferentes: Pintassilgo é delicado, carinhoso e concentrado – um fenômeno no jogo da memória. Abracildo (que ganhou essa alcunha por ter um abraço delicioso) é enérgico, esperto e malandro cheio de ginga – um fenômeno incontrolável da natureza.

As crianças ficam metade da semana aqui comigo, metade na casa da mãe. Ontem seria o dia de elas virem para cá. Mas não vieram, por estarem doentes. O protocolo exigia que, antes disso, ficassem catorze dias de quarentena na casa da mãe até que eu pudesse vê-las de novo. Sofri de saudade e ansiedade. Mas, como o estado de saúde da mãe piorou e ela não tinha como cuidar das crianças, a solução foi esta: trazer os pequenos infectados para a minha casa.

No começo da semana, levei uma mala com comida pronta e alguns jogos à casa dela. Mas tomei o cuidado de deixar duas cartelas do Bingo dos Animais na minha casa para que eu pudesse jogar com as crianças remotamente. Passei a tarde jogando Bingo por videochamada, e Lilica tomou o cuidado de aproximar as peças sorteadas da câmera para que eu pudesse enxergá-las. Era também uma maneira de olhar as crianças enquanto a mãe descansava.

Expliquei a situação no trabalho. Todos foram compreensivos. Fui liberado.

De noite, eu e Angelica batemos o martelo: vamos mesmo pegar as crianças e trazê-las para nossa casa. Tivemos uma conversa tensa. Como nem ela nem eu fomos infectados pelo vírus, pedi que ela ficasse durante alguns dias na casa dos seus pais. Mas ela insistiu em enfrentar a situação comigo. Fiquei emocionado, mas também preocupado. (Aqui, sugiro que a música da série Missão Impossível comece a tocar na cabeça do leitor.)

Borrifamos Lysoform no carro e, numa mala, colocamos luvas descartáveis, dois casacos e um estoque de álcool em gel – e lá fomos nós.

Corta para mim, dirigindo com máscara e escudo facial, as janelas abertas para o cheiro do Lysoform se dissipar.

Chegando na casa onde mora a mãe, mandei a ela um WhatsApp pedindo que as crianças esperassem na porta, de máscara. Eu e Angelica vestimos luvas, casaco, escudo facial e máscara. A porta se abriu. Lilica estava chorando porque não podia nos abraçar. Mas concluímos a primeira parte da missão de forma bem veloz.

Ao retornar para o carro, eu tinha que colocar as crianças nas cadeirinhas. Segurei-as como se fossem três instáveis pastilhas de urânio-235. Prendi a respiração e tentei atar os cintos do modo mais rápido possível. Mas, claro, me embananei. Em seguida, para reduzir os riscos de infecção, descartei as luvas e o casaco na mala. Missão dada, missão cumprida.

Voltamos com as janelas do carro abertas. Nunca senti tanto medo de um espirro. Minha sensação era a de ter sido abduzido para uma aventura de um clássico da Sessão da Tarde, como E.T. – O Extraterrestre ou Os Goonies, mas com Chevy Chase no volante.

Assim que chegamos, todos foram tomar banho e se trocar. Jogamos as roupas na máquina de lavar sem nenhum critério: pretas, brancas, tecidos diferentes – todas as peças convivendo em comunhão, como numa música de John Lennon. Limpei as mãos e os escudos faciais com álcool em gel.

Moramos num apartamento de três quartos na Zona Sul do Rio de Janeiro. A sala e o quarto de casal dão para uma ampla varanda. Colocamos Pintassilgo e Abracildo num quarto, e Lilica em outro, só para ela. Na sala, delimitamos um espaço diante da tevê onde as crianças poderiam transitar. Apelidamos esse perímetro, carinhosamente, de “Saigon”. Abri todas as janelas da sala e coloquei um ventilador soprando o ar de dentro para fora. Pedi a atenção de Pintassilgo, Abracildo e Lilica e apresentei para eles as regras que vigorariam em casa a partir de agora:

1) Não pode tirar a máscara;

2) Não pode chegar perto de mim nem da Angelica;

3) Não pode entrar no nosso quarto nem na cozinha;

4) Não pode fechar nenhuma janela.

Consegui agendar um exame PCR em domicílio para as três crianças para amanhã. Depois, limpei as mãos com álcool em gel.

Na hora do jantar, esquentei a comida e coloquei no prato para cada uma das crianças. Elas se sentaram na mesinha infantil de plástico onde fazem as refeições, mas ninguém comeu. O clima era de apreensão. Liberamos, então, a arma secreta encantadora de crianças: o chocolate. Lavei a louça deles separadamente e coloquei para secar à parte.

Besuntei uma mãozinha de plástico com álcool gel, coloquei escudo facial, casaco e, de uma distância segura, fui jogar Tapa Certo com os três. Perdi.

Pintassilgo e Abracildo costumam dormir abraçados comigo. Mas nessa semana não será possível. Instalado no canto do quarto, com outro casaco, escudo facial besuntado de álcool em gel e máscara, contei uma história para os gêmeos e cantei O Leãozinho, a canção de Caetano Veloso. Mesma coisa, meia hora depois, quando chegou a hora de Lilica dormir no quarto dela.

Antes de desabar na cama, passei álcool em gel nas mãos. Dormi rapidamente, tomado pelo cansaço e embalado pela tranquilidade de não ter percebido nas crianças nenhum sintoma preocupante.

Angelica_Após três dias de preocupação, noites maldormidas e oscilações de humor, conversamos e chegamos a um acordo: as crianças ficarão aqui em casa, mesmo que a gente corra risco de contaminação. Eu poderia ir para a casa dos meus pais, que moram a dois quarteirões daqui, mas optei por ficar e dar apoio ao Renato e aos meus enteados, que poderiam ter alguma piora no estado de saúde.

Renato e eu saímos de casa para buscá-los na casa da mãe. Imaginar que, em poucos minutos, três crianças exalando um vírus que já havia matado quase 200 mil pessoas no Brasil estariam dentro do carro foi desesperador. Me senti como num filme de ação de baixo orçamento e roteiro duvidoso.

No caminho, recebi uma mensagem no grupo da minha família. Meu pai havia fraturado o pé ao descer uma escada. Ficaria quinze dias sem poder pisar no chão. Não é nada grave, mas serviu para eu odiar ainda mais 2020 e, em especial, o mês de dezembro.

Como sou torcedora obsessiva do Santos, só consigo pensar no jogo contra o Grêmio na Libertadores, na próxima quarta-feira. É a única fonte de felicidade que encontro no momento.

Por volta das oito da noite já estávamos em casa. Depois de tomarmos banho, observei de longe aqueles três serzinhos no sofá, com máscaras, contaminados com um vírus violento, e senti um misto de ternura e terror. Queria abraçá-los e ao mesmo tempo pegar o elevador e sair correndo de casa. Mas chegamos a um ponto irreversível – e a única opção seria ficar.

Esquentei um leite para Lilica e passei pelo quarto dos gêmeos. Renato estava cantando O Leãozinho para eles dormirem. Fiquei parada à porta, com os olhos marejados. A cena era bonita, mas tinha um quê de desumano. Foi cruel ver um pai que não podia abraçar seus filhos.

 

4 DE DEZEMBRO, SEXTA-FEIRA

Renato_Abracildo acordou durante a madrugada e bateu à porta do meu quarto. Coloquei máscara e escudo facial e o levei de volta para o quarto dele. Esperei até que dormisse novamente. Às 6h40, ele acordou de vez. Fazia um calor brutal. Respirei fundo e levantei da cama decidido a dar um pouco de leveza àquela situação.

Lilica lançou um enigma: “Por que a gente mexe o copo do Nescau?” Adorei a pergunta e dei uma boa risada ao ouvir a resposta: “Para o Nescau fazer amizade com o leite.” Alguns minutos depois, Abracildo derrubou seu copo de Nescau no chão. Prometi não brigar com ele, mas, por dentro, estava furioso. Percebi logo que minha decisão de trazer leveza à situação que estamos vivendo seria tão eficaz quanto a cloroquina.

Fora a urticária atrás do joelho de Lilica, todos os três estão saudáveis, correndo incansáveis por Saigon. O interfone tocou, e o porteiro anunciou que uma pessoa do laboratório estava subindo para fazer o PCR nas crianças. Abracildo derrubou suco no sofá. Respirei fundo. Peguei um novo casaco limpo no armário. Lilica foi a primeira a ser testada. Sentou no meu colo, pegou na minha mão e suportou sem chorar o exame incômodo. Mas, para nosso desespero, depois de ter a narina futucada até o cerebelo, ela começou a espirrar. Eu e Angelica voamos para a cozinha, estabelecendo um novo recorde mundial para os 8 metros rasos. A cena pastelão se repetiu com Abracildo e Pintassilgo. Após os exames, espirros, correrias e borrifadas de napalm, digo Lysoform, em Saigon.

Depois da sessão de testes, colocamos na varanda um brinquedo que lança espuma nos jogadores e fechamos as crianças lá por alguns minutos. Ligamos a tevê e esterilizamos os celulares para que elas pudessem jogar. Feito isso, Angelica e eu seguimos para o banho. Coloquei as roupas (sem critério) na máquina e separei os pratos e copos (com critério). Limpei as mãos com álcool em gel. Depois, coloquei as crianças debaixo do chuveiro.

Lilica ficou um tempo no quarto falando com duas amigas pelo celular. Ela inventou um jogo em que manda emojis durante as videochamadas e a outra pessoa tem que acertar qual é o filme. Um sapatinho de salto alto para Cinderela. Uma maçã para Branca de Neve. Um touro e uma flor para Touro Ferdinando. Ou então ela manda emojis, e a outra pessoa responde com uma figurinha que tenha a ver com a que foi enviada.

Pintassilgo não quer comer de jeito nenhum. Conversei com ele. Expliquei que está doente e precisa se alimentar. Implorei. Nada. Tive que colocar escudo facial, casaco e luva para dar comida na boca dele. Tudo seguiu muito bem até a penúltima garfada, quando Pintassilgo contraiu o nariz e fechou os olhos como quem fosse espirrar. Num movimento ridículo, dei um rolamento para trás como se tivesse reagido ao bote de uma jararaca. Mas ele não espirrou. Fake news. Angelica deu uma gargalhada. Eu lamentei que ela tenha se casado com o Mr. Bean.

Lilica veio na minha direção e disse: “Papai, eu queria muito te abraçar.” E Abracildo completou: “Papai, eu queria muito ser um passarinho.”

Tentamos lidar com as crianças com algum humor. Mas a situação é muito estressante. Angelica e eu começamos a trocar pequenas farpas longe dos olhos delas. Ela está se sentindo presa, quer sair dessa situação, mas não pode mais. Eu tento encarar as coisas com leveza e fico frustrado. Estamos sem paciência um com o outro.

Depois de colocar os gêmeos para dormir, eu me deitei na cama como um sorvete que derrete no sol. Lilica apareceu na janela do quarto, que dá para a varanda. Colocou as mãos no vidro e fez um bafinho. Tive um certo pânico de ver os perdigotos potencialmente letais saindo da boca da minha filha. Ela desenhou um coração no vapor que ficou no vidro. Fiquei comovido. Mas limpei tudo com Lysoform assim que ela foi dormir.

Voltei para a cama com a sensação de que não estou conseguindo dar conta de tudo, especialmente de demonstrar o quanto valorizo as pequenas e grandes atitudes da Angelica.

Angelica_Começou o primeiro dia oficial com as crianças em casa. Acordei, tomei banho e fiquei dentro do quarto trabalhando. O quarto virou um cômodo seguro, uma zona Covid-free, um refúgio.

Rodrigo, irmão do Renato, me mandou uma mensagem no WhatsApp: “Minha cunhada, muito obrigado pelo carinho, apoio e acolhimento ao Renato e às crianças numa hora tão complexa. Tenho certeza de que não foi uma decisão fácil. Fico feliz com o amor que você tem por todos nós. A recíproca é verdadeira.” Eu respondi: “Obrigada pelo carinho. Foi muito difícil e essa situação mexeu muito comigo. Vamos ter uma semana complicada aqui, mas embalando as crianças com carinho e paciência. Ontem, entrei no quarto dos gêmeos e vi o Renato cantando para eles dormirem. A distância, com máscara e luvas. Aí entendi que tudo isso valeu a pena.”

Fui para a sala na hora do almoço. Refeições com três crianças já são caóticas em condições normais, imagine nessa situação. Mas conseguimos levar tudo com leveza, humor e paciência. Eu e Renato fingimos que estamos num restaurante onde somos os garçons e as crianças, os clientes. “Hoje temos purê de batata, feijão, arroz, franguinho, carne moída e macarrão. Para beber: suco, água de coco ou água. Qual o seu desejo?” Depois, trazemos um prato cheio de requintes e colocamos sobre a mesinha deles.

Podemos almejar uma participação nas próximas Olimpíadas de Tóquio em corrida com revezamento: enquanto um toma o décimo banho do dia, o outro serve o almoço; enquanto um separa os objetos, o outro faz chantagem emocional com chocolate. “Se você não tirar a máscara, ganha dois Bis depois do almoço.” Viramos também flanelinhas de banho, controlando as manobras a distância: “Isso, Lilica. Agora passa o xampu e esfrega bem até fazer espuma.”

As crianças ainda não estão acostumadas a essa situação e a todo momento chegam perto da gente. Até eu me esqueço também. Faço cafuné no cabelo do Pintassilgo, distraída, pelo costume. Lilica vem para perto de mim, de fininho, achando que eu não percebo, e faz um gesto que remete a um abraço. Inventamos ali o abraço a distância.

É difícil ficar fisicamente distante deles. Quando conheci o Renato, Lilica tinha 4 anos e os gêmeos, 1 ano e 6 meses. Eles não sabiam falar o nome Angelica, o que me rendeu uma nova identidade: “Jeca.” Rimos disso até hoje.

Naquele dia, vi de maneira ainda mais clara a beleza que é o conceito de família se expandir, incluindo filhos que não cresceram dentro de mim. É curioso sentir como o amor por uma pessoa se multiplica e resvala para outras. Esse deve ser um dos 728 733 significados do amor, a capacidade de se transmutar.

Mas ninguém sonha em ser madrasta. Uma menina pensa em ser qualquer coisa quando crescer, até gandula da série D do Campeonato sub-20 de Araruama, mas madrasta nunca. Ser madrasta é uma escolha e foi a minha. É difícil, mas possível. Muitos papéis desempenhados pela mulher foram discutidos e houve conquistas libertadoras. A posição da “madrasta”, porém, ficou parada no tempo, não se atualizou, não entrou nesses debates. A impressão que tenho é que o termo “madrasta” carrega um peso que dificulta sua aceitação plena nas novas configurações familiares.

Criei uma relação de profundo amor com as crianças. É uma troca bonita, honesta e bem delimitada. Dia desses, me senti o próprio “pai babão” quando recebi um vídeo em que elas brincavam na rede. Automaticamente mostrei para todas as minhas colegas de trabalho. Criamos uma família linda, dessas de porta-retrato, e que, ironicamente, eu sempre achava um pouco cafona. Só falta um cachorro. Mas a gente não consegue dar conta nem de um Tamagotchi até o próximo ano. Tento acreditar nesses vínculos para seguir essa semana que parece ter 45 dias.

Vim para o quarto e fiquei triste porque não acho mais espaço nem tempo para ficar triste. Todo meu tempo é dedicado a limpar a casa, trabalhar, verificar se todos estão de máscara, limpar celular com álcool em gel e limpar o álcool em gel com álcool em gel. Não consigo me desligar. Abro o jornal, só vejo gráficos com números exponenciais de mortos por causa da Covid-19. Parei de ler notícias por hoje. Como sou leitora contumaz, resolvi ler um livro, mas com um objetivo que sempre recriminei: me distrair. Abri aleatoriamente uma página de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e me deparei com o seguinte diálogo:

– Como é que o senhor disse que se chama o povoado que se vê lá embaixo?

– Comala, senhor.

– Tem certeza que é Comala?

– Tenho sim, senhor.

– E por que parece tão triste?

– São os tempos, senhor.

Fechei o livro. Parecia que tudo em volta apontava para a minha situação.

Renato chegou no quarto com um aspecto de quem não dorme desde o tempo em que o dólar estava cotado a 2 reais. Olhei para ele e reconheci tudo o que me faz estar aqui neste momento.

 

5 DE DEZEMBRO, SÁBADO

Renato_Lilica me chamou para perto e disse que tinha tido uma ideia: “Papai, se a gente comprar uma capa de chuva, a gente pode se abraçar?” Sorri, comovido. Pintassilgo e Abracildo não param de brigar. Tenho que tirar forças de encarnações passadas para manter a calma. E para entender que o ambiente é muito estressante para as crianças também.

Acesso o site do laboratório que fez o PCR nas crianças: todos os exames deram positivo. Um resultado tão previsível quanto uma derrota do Botafogo.

As máscaras que lavamos não estão secando a tempo. Precisamos de novas. Nenhuma farmácia tem entrega imediata de máscaras N95. Eu reluto em pedir ajuda, detesto incomodar as pessoas. Por causa disso, eu e Angelica tivemos um desentendimento. Mas ouvi os argumentos dela e recorri a amigos próximos e ao meu irmão Fernando. Em pouco tempo, ele deixou um estoque de máscaras no elevador e se colocou à disposição para ajudar no que precisarmos. Limpo as mãos com álcool em gel.

Animado, peço à vizinha uma garrafa de óleo para fazermos batata frita.

Na cama, catatônico, como se tivesse tomado um balde de Rivotril, Angelica me deu uma boa notícia: o Fluminense ganhou. E completou: “Eu vejo que nossos dias são cansativos quando percebo que tenho visto as crianças mais vezes peladas do que você.” Sorri e pensei: “Que sorte eu tenho.” Dormimos abraçados.

Angelica_Começo a questionar minha madrasternidade (o Word acabou de corrigir essa palavra para “maternidade”). Confesso que só conheci essa palavra recentemente também. Aliás, descobri que existe o Dia da Madrasta! É comemorado no primeiro domingo de setembro e é o tipo de coisa que só se descobre depois que você se torna uma.

Tornei-me madrasta de três crianças pequenas aos 22 anos, quando comecei a namorar o Renato. Sempre soube que ser madrasta seria mais difícil do que passar em medicina na USP em primeiro lugar e sem ajuda de cursinho. Pois é isso mesmo: ser madrasta não tem spoiler, como tem a maternidade. Só tinha eu para desenrolar alguns nós.

Fiz um post no Instagram sobre nossos dias de isolamento com as crianças doentes. Muitos amigos e principalmente amigas desejaram força e ofereceram apoio. O perfil @somos.madrastas, dedicado a criar uma comunidade de troca de experiências, repostou a foto com toda a família sentada no chão, com máscaras. Várias madrastas me escreveram e recebi elogios. Sinto que elas se sentem representadas pelo fato de uma madrasta, essa figura sempre tão malvista, praticar um ato de carinho.

Para esquecer um pouco o caos doméstico, resolvi conversar com uma amiga que trocou de emprego e vai se mudar para São Paulo. Vibramos muito com a notícia: afinal, dar um salto na carreira profissional é algo que não está de acordo com a ordem natural de 2020. No auge da euforia, escutei dela: “Haha, tá vendo, amiga? Deus é pai, não é padrasto.” Definitivamente, não era o tipo de ditado popular que eu gostaria de ouvir. Virei para o lado e dormi.

 

6 DE DEZEMBRO, DOMINGO

Angelica_Pintassilgo e Abracildo ainda dormem de fralda. Atarefados com as roupas que lavamos a toda hora, as louças que separamos, a comida, o entretenimento, a limpeza da casa, o cumprimento das regras para evitar que sejamos contaminados, esquecemos de tirar as fraldas deles. Quase na hora do almoço, percebemos que Pintassilgo estava caminhando como um lutador de sumô. Cheguei perto dele e fiquei contente por não ter pedido o olfato – e triste por não ter perdido o olfato. Eu o ajudei a se desfazer de quase 3 kg de cocô e a tomar banho. Por sorte, não ficou assado.

Pequenas coisas começaram a causar um estresse desproporcional. Abracildo não consegue colocar a máscara sozinho. Tentei orientá-lo, mas depois de várias tentativas frustradas, perdi a paciência. Quando o Renato chegou, eu gritei: “Coloca lá a máscara nele. O delicado aqui é você. Eu sou bruta!”

Renato e eu nos olhamos e captamos o ridículo da situação. Ao mesmo tempo, entendemos que não estamos em condições normais de humor e tudo o que acontecer aqui, nessa semana infinita, será perdoado. Saí da sala igual a uma adolescente contrariada e fui para o banheiro tomar o quinto banho do dia.

Renato_As crianças pediram para brincar de Uno, um jogo de cartas coloridas. Depois de um período de hesitação, Angelica e eu colocamos nosso traje passeio completo: escudo facial, luvas, casaco, máscaras e nos sentamos no chão, dentro do território de Saigon. O calor era potencializado pela estufa criada pelo escudo facial. Meu suor pingava nos olhos. Do jogo, saímos direto para o banho. Roupas, sem critério, na máquina de lavar. Nas mãos: nova camada de álcool em gel.

Garimpando filmes no streaming, Lilica deu um grito. “É esse! Papai, é esse filme que eu quero te mostrar há um tempão.”

Chama-se UglyDolls (Bonecos feios). Na trama, brinquedos com defeito são separados dos “perfeitos”. Mas conseguem invadir o espaço dos “perfeitos” e conquistar o carinho das crianças. No fim, fiquei emocionado por Lilica ter gostado tanto de um filme assim. Juntei isso com toda a tensão do momento e derramei algumas lágrimas discretas. Antes de tocar o rosto, limpei as mãos com álcool em gel.

Falo diariamente com a mãe das crianças e tenho a boa notícia de que ela está melhor. Combinei de levá-las de volta amanhã. Limpei o celular com álcool em gel e devolvi o aparelho para as crianças com um suspiro.

 

7 DE DEZEMBRO, SEGUNDA-FEIRA

Renato_Acordei com a energia renovada por saber que aquela situação estrambólica estava perto do fim. A mãe das crianças havia conseguido descansar. Não teve nenhum sintoma grave e estava bem melhor.

Pintassilgo deu uma topada com o pé e começou a chorar. Como não podia abraçá-lo, comecei a dançar para ver se arrancava, ao menos, um sorriso. Mas quem gargalhou fui eu, quando notei que Abracildo mexia as sobrancelhas para, discretamente, alertar o irmão do constrangimento gerado pela minha malemolência.

Foi com alívio que coloquei de novo aquelas três pequenas pastilhas de urânio-235 nas cadeirinhas de criança. A viagem de carro foi feita outra vez com as janelas abertas. Mas o clima já era de final feliz de filme da Sessão da Tarde. Pedi para a mãe deles nos esperar na garagem do prédio.

Quando voltei para casa, entrei numa espécie de nirvana. Desde o dia em que surgiu a hipótese de as crianças e a mãe estarem contaminadas eu vivi num furacão cuja potência só foi aumentando. Deitei e fiquei olhando para o teto. Babei no travesseiro.

Angelica_O caos estava perto do fim. Quando as crianças foram embora, a casa ficou com um aspecto de terra arrasada. Demorei a me sentar no sofá, que havia apenas algumas horas era um foco inesgotável de contaminação. Coloquei uma manta por cima antes de me recostar ali.

Meus hábitos de limpeza e assepsia dos objetos continuaram. Todas as coisas que foram usadas pelas crianças estão isoladas na área de serviço. Tranquei a porta do quarto delas também. Depois de uma experiência como essa, ficamos um pouco paranoicos com a possibilidade de haver um vírus, ou mesmo um fragmento de vírus, em algum lugar que esteja passando despercebido por nós.

A casa estava vazia, as crianças estavam bem, mas eu não consegui relaxar. Não senti um alívio imediato, e sim uma espécie de trégua. Aproveitei o tempo livre para responder às mensagens no WhatsApp. Durante os dias de caos, eu mal consegui me comunicar com as outras pessoas, com exceção de meus pais, que pediam notícias sobre a situação em casa, minuto a minuto.

 

10 DE DEZEMBRO, QUINTA-FEIRA

Angelica_Agendamos meu teste para hoje. A enfermeira chegou na nossa casa por volta das 14 horas. Sentei numa cadeira na varanda e aguardei que me aplicassem essa técnica de mumificação do Egito Antigo que as pessoas gentilmente chamam de PCR.

A enfermeira sacou aquele cotonete de Itu, começou a cavoucar minhas narinas. Pronto: passou.

A clínica prometeu o resultado em 24 horas. Minha sensação era de que estava esperando o resultado de um teste de gravidez, de um concurso público ou de algo que mudaria por completo a minha vida. Às 18h45, saiu o resultado. No momento em que li na internet “laudo disponível”, fui para o quarto e fiz uma oração. DEU NEGATIVO. Comecei a chorar e abracei Renato.

2020 começava a dar sinais de melhora.

Renato_No começo da quarentena, foi duro ter que trabalhar e ao mesmo tempo entreter três crianças em casa. Quando as aulas foram suspensas, com elas em casa em tempo integral, tive que criar todo dia novas brincadeiras e jogos para diverti-las (enquanto geria o home office). Meu repertório não previa tantos meses de pandemia, mas conseguimos atravessar tudo com alguma tranquilidade.

Em setembro, lancei o documentário Narciso em Férias. No mês seguinte, Angelica e eu nos casamos no papel e começamos a planejar uma cerimônia para depois da vacinação (ainda estamos planejando). Fizemos uma hortinha na varanda com as crianças em novembro. E assim, todos juntos, criamos um mundinho possível que nos dá força para enfrentar essa tragédia coletiva.

 

11 DE DEZEMBRO, SEXTA-FEIRA

Angelica_Depois de uma semana animada que tivemos, resolvi tirar a sexta-feira para relaxar. Pedimos comida e combinamos de ver um filme. Há algum tempo, eu estava querendo assistir As Pontes de Madison e conseguimos encontrar num streaming. Mas, antes de ligar a tevê, lembrei que um amigo havia nos emprestado um projetor de vídeo. Usando a ideia mais artificial de meritocracia, concluí: “A gente merece uma sessão de cinema. Olha a semana que tivemos!” Resolvemos instalar o projetor na tevê. Se a gente não vai ao cinema, o cinema vem até a gente. Fui fazer pipoca de panela com manteiga, enquanto Renato conectava os cabos para o projetor funcionar.

Voltei para a sala a tempo de presenciar mais um desastre.

Assim que o Renato ligou o cabo do projetor na televisão, ouvimos um barulho e sentimos instantaneamente um cheiro de queimado. A tevê não ligava mais. O projetor não ligava mais e soltava fumaça. Nós nos entreolhamos pensando que aquilo era alguma piada de mau gosto, mas não era. A televisão da sala queimou e o projetor emprestado pifou junto. Adeus, Pontes de Madison!

Renato_O lado bom é que eu não queria muito ver As Pontes de Madison (espero que Angelica não leia este diário).

 

12 DE DEZEMBRO, SÁBADO

Renato_A enfermeira subiu para fazer meu exame de PCR. Eu marquei o meu teste num dia diferente do da Angelica para reduzir as chances de falso negativo. Mas estou tão exausto que só consigo pensar em me deitar na rede e ler um livro.

A casa está vazia. Sinto falta da rotina anterior, com as crianças correndo, brincando. Sinto uma necessidade colossal de abraçar meus filhos. Mas também um alívio imenso de poder descansar em silêncio.

 

13 DE DEZEMBRO, DOMINGO

Renato_Saiu o resultado do meu PCR: NEGATIVO também. Decidimos ir à casa dos pais da Angelica para ver Santos x Flamengo.

Como a poeira baixou e meu sistema cognitivo voltou a funcionar, paro para pensar sobre o que passamos juntos. Passo a admirar ainda mais a Angelica e temer (ainda mais) suas intuições.

 

15 DE DEZEMBRO, TERÇA-FEIRA

Angelica e Renato_Já se passaram catorze dias corridos desde que as crianças se contaminaram. É hora de nos prepararmos para finalmente dar um abraço nelas.

Angelica Lino

É jornalista especializada em literatura. Colaboradora da revista Bula.

Renato Terra

É roteirista de Conversa com Bial, colunista da Folha de S.Paulo e diretor dos documentários Narciso em Férias e Uma Noite em 67

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