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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

esquina

Acocorai-vos uns aos outros

Uma terapia paleolítica

Carol Pires | Edição 98, Novembro 2014

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“Desafio aceito”, anunciou Renata Olah no Facebook, ilustrando a mensagem com uma foto sua, sentada sobre os calcanhares, fazendo sinal de joinha para a câmera.

Desde janeiro deste ano, Pablo Santurbano, um simpático fisioterapeuta de 30 anos, corpo atlético e barba preta cerrada, acostumou-se a receber fotos e selfies de pessoas de cócoras. Seria constrangedor, não fosse ele o maior entusiasta da postura, comum na cultura oriental e entre crianças que ensaiam os primeiros passos. Para Santurbano, passar cinco minutos do dia agachado – como ele propõe aos inscritos no Desafio Cócoras – pode alavancar uma vida mais saudável.

Na casa que ele divide com a namorada, em Santos, litoral paulista, o fisioterapeuta fez do assoalho a sua mesa de trabalho. Enfrenta o computador de cócoras. As visitas – com exceção do avô, que ainda tem mesa e cadeira cativas nos almoços de domingo – são convidadas a sentar no chão. Sobre o tapete, pululam almofadas e futons. “Cadeira é coisa do capeta. É um troço tão confortável que você fica dezesseis horas sentado sem perceber”, alerta Santurbano.

O único sofá está em estado terminal, destroçado pela vira-lata Lupita. A cama foi poupada, mas por pouco tempo: será substituída por um tatame. “Perto dos meus amigos, que já dormem todos no chão, eu sou um coxinha”, admite o dono da casa. Deitar em superfícies macias, ele explica, comprime os músculos e as veias, atrapalhando a circulação. “Se dormir sobre uma superfície dura, você vai se mexer mais. O sangue flui e você acorda mais bem-disposto.”

 

Formado pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas, a FMU, e pela Universidade Federal de São Paulo, Unifesp, o fisioterapeuta montou um consultório no Itaim Bibi, em São Paulo, onde percebeu que muitos de seus pacientes – jovens, saudáveis e workaholics– sentiam dores musculoesqueléticas.

Segundo Santurbano, os ocidentais se esquecem das funções originais do corpo. “As pessoas fazem ioga achando que é natural. Não é, é cultural. Não é porque o corpo é capaz de fazer uma coisa que ela é natural. Se uma criança faz, é natural”, ensina. Na fisioterapia, ele procura ser menos interventor (fazer uma massagem para aliviar a dor, por exemplo) e dar mais autonomia ao paciente. “O cara tem uma dor no ombro e o fisioterapeuta passa um exercício com pesos, em vez de mandar o sujeito lançar objetos, que é a função natural daquele músculo”, exemplifica.

Estudando a teoria da evolução – que julga subestimada pelos estudos de fisioterapia –, o profissional propõe aos pacientes hábitos mais primitivos. Ou, como ele diz, “comportamentos ancestrais”. Na prática, isso significa que uma pessoa com prisão de ventre, por exemplo, deveria jogar fora os iogurtes com probióticos e passar mais tempo de cócoras.

Numa tarde amena do inverno paulistano, Santurbano chegou a um café em Pinheiros vestindo polo e sapato FiveFingers, aquele com um compartimento para cada um dos artelhos. Na hora de se exercitar, porém, ele em geral prefere ficar descalço. “As pessoas te olham estranho se você está sem sapato. Veem que você está com uma roupa arrumadinha e ficam confusas. É um mendigo? Que pessoa é essa?”

Nos parques de São Paulo e na orla arborizada de Santos, ele também gosta de subir em árvores e não raro é repreendido. “Logo vem um policial me tirar de lá: ‘O senhor poderia estar descendo da árvore?’”, imita Santurbano, acentuando o gerúndio com seu sotaque paulistano. “Os primatas sobem em árvores há 30 milhões de anos, mas agora é proibido pelos regimentos internos dos parques”, disse, arqueando as fartas sobrancelhas.

 

No Facebook, até o final de outubro, 495 pessoas haviam curtido o Desafio Cócoras. As únicas orientações são relaxar a coluna e distanciar um pouco os pés para que o tronco possa descer o mais baixo possível. Essa é a posição adotada pelos primatas para manipular alimentos e objetos no chão, e que o homem ocidental foi abolindo da rotina. Não são poucos os que não conseguem se acocorar. Para esses, o conselho é levantar e tentar de novo.

Alguns participantes custam a ficar na posição (provavelmente “por falta de dorsiflexão”, explica Santurbano) e calçam os calcanhares com livros, manobra admitida pelo desafio. “Se eu fosse usar um livro de apoio pro calcanhar, seria Ascensão e Queda do Império Romano”, publicou uma usuária, referindo-se ao catatau como paliativo para a sua dificuldade. Outra aguentou três dias e parou porque sentiu “dormência nos dedos, formigamento, queimação, alfinetadas e agulhadas”.

O esforço vale a pena: reorganiza e relaxa a coluna, diminui as pressões nos joelhos, organiza os membros inferiores para a corrida, regula o intestino e facilita o parto. “As pessoas pensam que é uma postura de transição, mas é mais que isso. Se você não fica bem de cócoras, não vai caminhar nem correr bem.”

Orgulhosos, muitos publicam testemunhos visuais da empreitada. Dada a complexidade de tirar um autorretrato que foque rosto, cócoras e pés no chão, os selfies costumam ser feitos no espelho. Mas também há fotos posadas de amigos agachados na academia, aventureiros acocorados em cachoeiras, uma amazonas de cócoras sobre um cavalo em movimento. Uma turista brasileira publicou sua foto de cócoras no Pavillon de la Reine, em Paris.

A despeito dos cursos e palestras que ministra pelo país – inclusive entre comunidades anarquistas que defendem o empoderamento do corpo –, Santurbano ainda sofre com piadinhas de uns e outros. “Porque defendo o estudo da evolução, sou taxado de natureba”, queixa-se. Além da casa sem conforto, da escalada de árvores e das corridas sem calçado, Santurbano procura não ingerir alimentos advindos da revolução agrícola. “Mas não abro mão de um pão de queijo.” Semanas depois, por mensagem, disse ter refletido sobre o tema. Como a receita é feita com polvilho, que é da mandioca, não resta dúvida: comer pão de queijo também é um comportamento paleolítico.