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Afroprogramadores

Um workshop só para negros

Emily Almeida
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

Com longas tranças box braids de pontas rosa-choque que se estendiam até pouco abaixo da cintura, a estudante Larissa Gomes Lessa de Souza Cosme acomodou-se diante do computador. Ela se preparava para participar de um workshop de linguagem de programação dirigido exclusivamente a estudantes negros. Havia catorze participantes naquele sábado, dia 14 de setembro, no salão do evento no bairro Saúde, na Região Portuária do Rio de Janeiro. “Não queremos representatividade, queremos proporcionalidade”, proclamou uma das organizadoras, minutos antes de os alunos ligarem as máquinas. Ela se referia ao reduzido número de profissionais negros no mercado de tecnologia da informação (TI).

Larissa, de 21 anos, vestiu a camiseta do workshop que havia acabado de ser entregue a ela. A peça de cor vermelha tinha faixas de tecidos étnicos coloridos nas mangas e na barra e trazia escrita no centro, em branco, a palavra “AfroPython”. Uma canção de Beyoncé soava no local quando a estudante ligou o computador e seus dedos agitados começaram a reproduzir linha por linha o código indicado no tutorial.

O AfroPython foi criado por cinco jovens negros de Porto Alegre que perceberam a necessidade de incentivar maior diversidade na área de TI. Em novembro de 2017, eles organizaram na capital gaúcha a primeira edição do workshop, com lições de linguagem de programação Python e também dicas sobre o mercado de trabalho.

A iniciativa ganhou força e espalhou-se por alguns estados do país. Já houve encontros em São Paulo, Recife e Belo Horizonte. Os cursos gratuitos duram oito horas, são realizados num só dia e financiados por empresas privadas. “Um dos objetivos do projeto é desmistificar a ideia de que a área de TI é difícil e é exclusiva para brancos”, diz o site do AfroPython.

O engenheiro de software Patrick da Silveira Porto, de 25 anos, foi quem cuidou da realização do workshop pela primeira vez no Rio de Janeiro. Morador do bairro Cosmos, na Zona Oeste, ele percebeu que entre os estudantes negros havia uma demanda de referências profissionais no setor. “As vagas de TI estão sobrando no Rio, as empresas brigam pelos profissionais”, disse. “Achei importante capacitar essas pessoas para que as vagas sejam preenchidas por elas. Existem poucos negros no mercado, e olha que somos mais de 50% da população.”

Dados fornecidos pelo Ministério da Economia mostram que no Brasil, em 2018, apenas 4% dos profissionais de tecnologia da informação eram negros.

 

O workshop no Rio começou às nove da manhã. Moradora do bairro Pavuna, na Zona Norte do Rio, Larissa saiu de casa duas horas antes, pegou um ônibus, o metrô e depois uma carona. Ela cursa o primeiro semestre de análise e desenvolvimento de sistemas, na Faculdade de Educação Tecnológica do Estado do Rio de Janeiro, a Faeterj. Há pouco mais de um ano, conseguiu um emprego na área, depois de participar de um curso gratuito de capacitação. Na equipe de dezoito pessoas, ela é a única mulher negra. “O que me atraiu para essa área foi a perspectiva de deixar de ser somente usuária e passar para trás da tela. Eu era muito curiosa sobre isso, queria saber como é programação, e agora já sei.”

A algumas mesas de distância da estudante, Rodrigo Sousa Silva fazia anotações em seu caderno. Aluno de ciências sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele pesquisa questões relacionadas ao “racismo algorítmico”, ou seja, ao modo como as plataformas digitais reproduzem a discriminação racial. “O racismo algorítmico é um desdobramento a mais de comportamentos racistas da sociedade, porque a gente vê que a tecnologia não é neutra”, afirmou o estudante. Em 2015, um aplicativo de fotos do Google que utilizava reconhecimento facial etiquetou um casal de negros como gorilas. Depois do escândalo causado pela revelação, a empresa se desculpou e fez a correção do algoritmo.

Os organizadores e instrutores passeavam pela sala, atentos aos chamados dos alunos, que vez ou outra esbarravam em dificuldades. “Se eu falar ‘oi’ para um brasileiro, ele vai entender. Mas se eu falar ‘oi’ em inglês, talvez ele não entenda. Com o Python é assim: é preciso usar a linguagem adequada”, explicou a programadora Gabrielly de Andrade da Silva, agachada ao lado de uma das alunas. “A lógica das linguagens de programação é a mesma, mas a sintaxe pode ser diferente de linguagem para linguagem”, completou.

 

No fim da tarde, as linhas de código, destacadas em verde no fundo preto da tela do computador, começavam a dar forma a blogs – o objetivo da atividade de programação naquele dia. O clima era de sintonia entre os participantes do workshop, que também compartilhavam suas experiências no mercado de trabalho. Entre eles, havia profissionais de direito, estudantes da área tecnológica, de ciências humanas e das engenharias. Alguns anseiam por uma inserção profissional na área de TI, outros pretendem aplicar a tecnologia a diferentes campos de estudo.

Prestes a encerrar a atividade, Larissa contou que planeja fazer um projeto semelhante ao AfroPython. “Será voltado a alguma comunidade. Quero receber conhecimento e passar para a frente”, disse, ajeitando os óculos redondos de armação transparente. Estava satisfeita por encontrar pessoas negras como ela fazendo tarefas similares em TI. “No meu trabalho é tão diferente. Me deixou mais motivada ainda.”

Uma hora antes do fim do workshop, as cadeiras foram rearranjadas em círculo para os participantes trocarem impressões e críticas. “Eu senti falta de mais pessoas retintas”, disse uma aluna. “Na maioria desses eventos que eu vou, as pessoas negras são de pele clara.” Seus colegas concordaram e, em conjunto, sugeriram que, para a próxima edição do AfroPython, cada participante convide um amigo negro de pele escura.

Emily Almeida

É estagiária de jornalismo da piauí. Antes, trabalhou no jornal O Globo

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