questões raciais

Letra preta

Os negros na imprensa brasileira

Yasmin Santos
“É complicado ser o único preto sempre”, disse-me um colega. “Enquanto os brancos se apoiam e dão tapinhas nas costas um do outro, você está lutando para não adoecer e pedir as contas”
“É complicado ser o único preto sempre”, disse-me um colega. “Enquanto os brancos se apoiam e dão tapinhas nas costas um do outro, você está lutando para não adoecer e pedir as contas” CREDITO: CAIO BORGES_2019

Do meu quarto, gritei pela minha mãe, que estava no quintal lavando roupa. Era janeiro de 2015. Ela veio a passos curtos, secando com uma toalhinha de algodão as gotas de suor que escorriam em seu rosto redondo. Pelas frestas da janela, ela me olhava com olhos cansados. Eu olhava o computador. A pequena tela revelava que eu figurava depois da milésima posição em uma das listas do Sisu, o sistema do Ministério da Educação para ingresso nas universidades públicas do país. O curso a que eu concorria, jornalismo, oferecia apenas 120 vagas a cada semestre.

Tenho uma leve lembrança de quando coloquei na cabeça que deveria estudar na Universidade Federal do Rio de Janeiro, qualquer que fosse o curso. Foi durante o ensino fundamental. Naquela época, entre os meus 10 e 12 anos, eu tinha certa paixão pelos números. Passava horas repetindo sequências numéricas sobre uma folha de papel no chão do meu quarto. De certa forma, eu acreditava que tudo que eu quisesse dizer poderia ser facilmente convertido em algarismos, com uma ajuda aqui ou ali de algumas letras – relação que se inverteu com o passar do tempo. Ouvi um professor de matemática dizer, diante da turma de uma pequena escola particular de Paciência, bairro da Zona Oeste carioca, que a UFRJ era a melhor universidade do país. A informação era equivocada, algo que fui descobrir apenas uma década depois. Nos anos de ignorância que se seguiram, essa foi uma lembrança que me guiou. Eu, que também queria ser professora de matemática, guardei o que havia ouvido com carinho.

Foram os meus avós, Arlindo Moreira e Alayde dos Santos, que mal sabiam escrever o próprio nome, que ensinaram a minha mãe o valor do estudo. Deve ser difícil desejar para os filhos tudo aquilo que nunca se teve – e rezar dia e noite para que a miséria não volte a bater à porta de casa. Minha avó era uma mulher de muita fé. Em seu quarto, havia um pequeno altar, bem ao lado da cama. Ela passava horas olhando para aquele recanto, repetindo canções e uma sequência de ladainhas que ouvia na Rádio Tupi. Entre as dezenas de santinhos, a única que me causava medo era o quadro de Anastácia. O olhar forte daquela mulher negra era envolto por pequenas correntes de metal. Elas percorriam seu rosto até encontrar os lábios, cobertos por um pequeno pedaço de ferro fundido. No pescoço, havia ainda uma argola de metal. Anastácia foi estuprada e amordaçada por um senhor de engenho, que a escravizou por não ceder a seus apelos sexuais. Eu não entendia a necessidade católica de lembrar seus santos pelas chagas que carregam. Com o passar do tempo, compreendi a vontade de minha vó de se fiar na imagem daquela mulher. Seu corpo também já havia sido atravessado por muitas lanças.

De meu avô sei sobretudo que ele era o provedor da família. Um homem firme, duro, pouco afeito ao diálogo. Morreu lutando contra um câncer de próstata em 1997, um ano antes de meu nascimento. Sempre que minha mãe, meus tios e até primos mais velhos evocam o meu avô, vejo poucos vestígios de sua personalidade. Ele era quem botava a comida na mesa e a ordem na casa. O que distingue meu avô de outros tantos homens negros que nasceram duas ou três décadas após a assinatura da Lei Áurea? O fato de ter conseguido fugir das senzalas de Minas Gerais e chegar, descalço, ao solo fértil do Rio de Janeiro? Quando me pergunto quem era o meu avô, para além de sua dor e de seu jeito turrão, encontro poucas respostas.

Mais do que me motivar a estudar para ser alguém na vida, minha mãe me incentivava a sonhar, até mesmo com o impossível. “A gente precisa ter ambição, minha filha”, ela dizia. “Ambição para poder sair do lugar.” Eu gostava muito do lugar onde estava. Sempre morei na mesma casa com meus pais e meu irmão mais velho, a uma esquina de distância da casa de minha avó. Nunca me faltou o que comer, nem com o que brincar. Cresci fazendo catequese na Paróquia de Santa Rita de Cássia, igreja que meus avós viram ser construída, logo depois que chegaram ao bairro, em 1967. Foi lá que cultivei amizades mantidas até hoje. Morava bem perto da escola em que estudava e sempre tive o que vestir. Era uma vida bem simples, com muitas renúncias, mas eu não desejava nada mais do que isso. Por que eu deveria querer sair dali?

Estudar naquela que – me disseram – era a melhor universidade do país tinha sido até então a minha maior ambição. Quando, naquele dia de janeiro de 2015, olhei para o computador e vi quão distante o sonho estava de mim, senti que tinha fracassado.

 

Ainda frustrada, descobri que havia um curso de jornalismo a pouco mais de 20 km da minha casa, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. O campus de Seropédica, município da Baixada Fluminense, passou a abrigar o curso em 2010, após o programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, o Reuni. Da milésima posição na UFRJ, pulei para a terceira na lista da Rural. O motivo me parecia bem simples: se eu, que morava no meio do nada, não queria estudar em Seropédica, o que pensar de quem vivia sob as bênçãos do Cristo Redentor?

Como costumavam dizer alguns colegas, ninguém escolhia a Rural. Era a Rural quem escolhia os seus alunos.

A turma na qual ingressei tinha 45 estudantes. Grande parte deles morava na Baixada Fluminense ou, assim como eu, na Zona Oeste carioca. O corpo docente do curso de jornalismo contava com oito ou nove professores, que se revezavam para ministrar todas as disciplinas do currículo. Os laboratórios de edição e gravação necessários para as aulas de tele e radiojornalismo pareciam ser uma falsa promessa. O prédio destinado a eles estava vazio e sofria com infiltrações. Não havia sequer internet nos computadores de um dos laboratórios de informática.

Tudo era muito rudimentar. Tinha a impressão de que o curso havia sido criado às pressas, com pouca verba e sem planejamento por parte do Ministério da Educação ou da própria reitoria. Ao mesmo tempo, eram nítidas a dedicação dos poucos professores, a maneira como incentivavam os alunos a seguir adiante e insistiam que podíamos construir algo importante juntos. As relações eram horizontais. Não sei se foi encanto juvenil, mas eu tinha a sensação de que lá poderia ser escutada, sem precisar mover o mundo ao meu redor. O modo como as pessoas se vestiam, como falavam, como se portavam diante de situações cotidianas – tudo me era muito familiar. Quando assisti à colação de grau de meus ex-colegas, em janeiro deste ano, tive a sensação de que a UFRJ jamais poderia criar algo tão potente.

Estudando na Rural, voltei ao Sisu ainda em 2015. Fiz minha inscrição no segundo semestre apenas para desencargo de consciência. Eu tinha certeza de que não passaria para a UFRJ, mas não custava tentar. Coloquei como segunda opção a Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Mas, confesso, a única coisa que me atraía na UFF era a possibilidade de postar uma foto com a legenda “o bom filho à casa torna”, já que nasci em Niterói. Fui convocada logo na primeira lista de chamada da UFF e fiz o que, modéstia à parte, faço de melhor: fingi a doida e ignorei o e-mail do sistema.

Semanas depois, abri a lista de reclassificação da UFRJ. E lá estava o meu nome. Eu finalmente consegui entrar na melhor faculdade de comunicação do estado, a universidade dos meus sonhos. Acabei me vendo num dilema: de um lado, o que eu sempre quis; do outro, o que eu já tinha. Conheci as minhas duas melhores amigas na Rural. Eu era apaixonada pelo campus, gostava até das capivaras que ficavam escondidas no lago do Instituto de Agronomia.

Quem me fez abrir mão da Rural foi justamente uma dessas amigas, Ana Beatriz Ribeiro. Desde então ela esteve presente em todas as decisões importantes que venho tomando. Sentadas numa van rumo a Campo Grande, bairro da Zona Oeste carioca, ela segurou minha mão e disse que era importante que eu, uma mulher negra, pudesse ocupar um espaço elitista como a UFRJ e a Zona Sul. Eu não deveria desistir só porque era mais confortável ficar em casa.

Para meu alívio, Ana Beatriz passou para a UFRJ na chamada seguinte à minha. Mudamos juntas. Percorri pela primeira vez, no dia da matrícula, o trajeto de três horas até a Escola de Comunicação, a ECO. Entre uma baldeação e outra, minha mãe e minha madrinha, que me faziam companhia, tentaram me demover da ideia de estudar ali. Preferi ficar em silêncio. Chegamos. E, de cara, não gostei do que vi. O prédio que abriga a faculdade estava caindo aos pedaços. O Palácio Universitário, nome pomposo que a construção recebeu, recuperava-se de um incêndio. Em 2011, o segundo andar foi consumido pelas chamas, provocando o desabamento de parte do terceiro andar do prédio. As paredes brancas da fachada ainda traziam manchas negras.

O Palácio foi inaugurado em meados do século XIX para abrigar o Hospício Pedro II. O escritor Lima Barreto, um dos internos, fez em seu diário, em 1920, quase um século atrás, uma anotação premonitória: “Um maluco vendo-me passar com um livro debaixo do braço, quando ia para o refeitório, disse: ‘Isto aqui está virando colégio.’”

Enquanto Bia e eu observávamos o prédio, sua mãe nos interpelou: “É aqui mesmo que vocês querem estudar?”

 

Às vezes penso que cresci em um vilarejo, não na segunda maior metrópole do país. Lembro-me de um trabalho que apresentei no primeiro período de curso na ECO. Fotografei, com a ajuda de uma amiga, o trajeto que percorria diariamente de Paciência até a sala de aula. A primeira imagem do trabalho retratava um senhor de bermuda, camisa clara e boné vermelho caminhando pela pracinha que ficava próxima à minha casa. Havia um ônibus da escola municipal estacionado ao fundo. O sol reluzia. É uma foto que guardo com muito afeto. Aquele era o único lugar a que eu sentia pertencer.

Quando a professora pediu para que a turma comentasse a minha apresentação, uma colega disse que não reconhecia o Rio de Janeiro naquelas imagens iniciais do trajeto. Eu morava naquilo que consideram o fim da cidade. A distância, na verdade, era muito maior do que os cerca de 60 km que me separavam de minha colega, de quase todos ali. Eu entendia o que ela queria dizer, mas isso me revoltava. Antes de estudar na Zona Sul, eu tinha ido àquela região três ou quatro vezes em toda a minha vida. Mas essa parte da cidade era tão bem representada na tevê que muito provavelmente eu mesma descreveria a ida à praia de Copacabana, o pôr do sol no Arpoador, em Ipanema, ou uma corrida ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas como parte da rotina do carioca. De onde eu venho, no entanto, as coisas eram um pouco diferentes. Praia, na minha família, era um evento que acontecia duas ou três vezes ao ano. Alugávamos uma van, preparávamos sanduíches e, quando dava, frango e farofa. Alguns litros de cerveja para os adultos, e algumas garrafas de refrigerante e água para as crianças. Quem corria, no meu bairro, tinha como paisagem um valão ou, no máximo, uma pracinha. Nem cinema era algo tão fácil. Precisávamos pegar ao menos dois ônibus para chegar ao mais próximo.

Eu reconhecia o Rio de Janeiro representado nas novelas de Manoel Carlos, mas não o lugar onde morei. Isso não me parecia um problema até chegar à ECO. Lá eu sentia como se nunca tivesse feito verdadeiramente parte do Rio. Talvez esse tenha sido o meu maior embate na UFRJ. A universidade me mostrava que eu habitava um não lugar, tanto geográfica quanto socialmente.

A minha experiência simplesmente não existia. Eu precisava inventá-la com minhas próprias palavras, elaborá-la para que só então ela tomasse forma diante dos olhos dos outros. Pessoas como eu foram e ainda costumam ser representadas dentro da academia como objeto, não como sujeito. Lembrei-me das palavras de Bia que me convenceram a mudar os rumos da minha viagem. Todo espaço que ocupei conscientemente na UFRJ foi um espaço de disputa.

Lendo Abdias Nascimento, percebi que a dita universalidade da universidade brasileira não comporta o mundo negro-africano. “O modelo ocidental europeu ou norte-americano se repete, e as populações afro-brasileiras são tangidas para longe do chão universitário como gado leproso”, escreveu, nos anos 1970, o intelectual que é um dos mais importantes nomes do movimento negro brasileiro. “Falar em identidade negra numa universidade do país é o mesmo que provocar todas as iras do inferno, e constitui um difícil desafio aos raros universitários afro-brasileiros.” Quando citei esse trecho no meu trabalho de conclusão de curso, refleti durante muito tempo se deveria trocar o tempo verbal.

O que posso dizer é que as universidades brasileiras foram obrigadas a nos engolir. De fato, não fomos recebidos de braços abertos. Em setembro de 2012, Roberto Salles, então reitor da UFF, deu uma entrevista questionando veementemente a implementação das ações afirmativas. Salles negou a existência de desigualdade racial entre a população pobre e ironizou a reserva para estudantes indígenas: “Vamos ter que importar índios.” Penso no que o professor poderia ter dito se a população negra não fosse maioria no país.

 

Quando cheguei à UFRJ, as questões raciais ainda se manifestavam de forma muito confusa na minha cabeça. Havia uma nítida diferença entre as classes sociais, mas, no primeiro momento, não relacionei o modo como eu me sentia ao racismo. Eu queria apenas poder existir naquele lugar. Os temas que eu escolhia para os meus trabalhos acadêmicos surgiam da urgência de me sentir representada e ouvida de alguma maneira. Foi uma estratégia que criei para que aquele ambiente não conseguisse me consumir.

Uma coisa que aprendi é que muitas pessoas brancas detestam a palavra racismo e se sentem pessoalmente atacadas ao ouvi-la. Por consequência, qualquer negro que busca sobreviver num ambiente majoritariamente branco se vê tentado a andar com uma sacola de eufemismos debaixo do braço para que possa ser ouvido sem provocar mal-estar ou cair em descrédito. É tanto eufemismo que o senso de urgência por vezes desaparece na nossa fala. Eu não vejo o mesmo esforço de comunicação do outro lado.

É um comportamento que Frantz Fanon, importante intelectual da descolonização e um dos líderes da independência da Argélia, já denunciava nos anos 1950: “Quando um preto fala de Marx a primeira reação é a seguinte: ‘Nós vos educamos e agora vocês se voltam contra os seus benfeitores. Ingratos! Decididamente, não se pode esperar nada de vocês.’ E depois há ainda este argumento-porrete do empresário agrícola europeu na África: ‘Nosso inimigo é o professor.’”

Fanon, que também era psiquiatra, escreveu sobre o modo como o negro tenta racionalizar o tempo todo suas próprias ações diante do branco. O racismo, no entanto, também se manifesta irracionalmente. “Os psicanalistas dizem que não há nada mais traumatizante para a criança do que o contato com o racional. Pessoalmente eu diria que, para um homem que só tem como arma a razão, não há nada de mais neurotizante do que o contato com o irracional”, escreveu Fanon. “Senti nascer em mim lâminas de aço. Tomei a decisão de me defender. Como boa tática, quis racionalizar o mundo, mostrar ao branco que ele estava errado.”

Assim, fui atrás de tudo que discutisse relações raciais: livros, filmes, séries, músicas. Eu ansiava desesperadamente por uma resposta. Eu queria poder controlar a forma como os outros me enxergavam, ignorando o modo como eu mesma me olhava diante do espelho. Foi difícil e doloroso deixar de “performar” a mulher forte que haviam me estereotipado para ser simplesmente a mulher que eu sou. Quanto mais eu mudava o meu jeito de ser para caber nesse novo ambiente, mais eu me distanciava da menina que um dia fui. Por muito tempo achei que estava apenas amadurecendo. Quando dei por mim, já não estava nem lá nem cá. É o limbo no qual ainda me encontro.

Em maio do ano passado, deparei com o vídeo de uma entrevista da jornalista negra Flávia Oliveira. Ela cresceu em Irajá, bairro da Zona Norte carioca, e estudou jornalismo na UFF. Conforme foi galgando degraus na carreira, passou a construir uma vida do outro lado do túnel, na Zona Sul. “Quando você faz trajetórias de mobilidade social numa sociedade tão desigual quanto a nossa, você lida com a solidão.” Ela elaborou o que eu ainda me esforçava para entender. “Você deixa de pertencer, de alguma forma, ao seu ponto de origem, mas jamais é totalmente incorporado ao seu ponto de destino.”

Por mais que eu tente, ainda há estruturas que me repelem e impedem que eu possa fazer parte integralmente do meio universitário ou, ainda, do jornalismo. E, agora, minha visão de mundo e meu jeito de ser pouco se assemelham ao jeito de ser e à visão das pessoas de onde eu vim. Eu sinto um medo brutal da solidão.

 

Participei do processo seletivo da piauí, em março de 2018, graças à indicação de uma antiga professora da UFRJ. Eu, que mal havia aproveitado o Carnaval daquele ano, soltei confetes e serpentinas com a possibilidade de estagiar na revista.

A piauí passou a frequentar meus sonhos em 2015, assim que entrei na faculdade. Enquanto me equilibrava em pé no metrô para ler este trambolho de revista, imaginava que talvez, quando eu completasse 30 anos, pudesse trabalhar lá. Para mim e para todas as meninas que assistiram repetidas vezes a comédia romântica De Repente 30, a marca de três décadas simbolizava nada menos do que o sucesso profissional. Jenna Rink, a protagonista, também era jornalista.

Poucas semanas depois daquela mensagem, saltei na estação do metrô Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, pela primeira vez na vida. A única sensação que me acompanhou nos minutos de caminhada que se seguiram até a redação da piauí era de que eu não pertencia àquele lugar. Um incômodo de quem tem seus passos vigiados por pessoas brancas. Cheguei ao prédio de três andares mais cedo do que o previsto e aguardei, sentada, na sala de reunião. Pelas paredes de vidro, observei a lenta movimentação na redação. Não havia sequer uma pessoa negra. Eu estava no meu terceiro ano na faculdade e já havia adotado uma postura menos combativa, mais relaxada. Fingi que não vi. Voltei com dor de cabeça para casa.

Retornei à redação para mais uma entrevista. Dessa vez não olhei pela parede de vidro. Não me recordo se meu colega Tiago Coelho, o único repórter negro da revista até então, estava por lá. Lembro-me mais do que disse nesse segundo dia do que no primeiro. Falei algumas coisas que, para mim, pareciam óbvias. Eu não me dei conta de que aqueles três homens brancos que me entrevistavam se pareciam muito com as pessoas com que aprendi a lidar durante a faculdade. Havia um abismo entre nós.

Mais do que isso, havia uma grande lacuna no modo de se fazer jornalismo na revista. Com poucas semanas de piauí, descobri que Coelho tinha sido o primeiro profissional negro contratado pela revista, em 2015, e eu, a primeira mulher negra. Não era exatamente o que uma pessoa negra espera de um emprego dos sonhos. Aquilo me frustrou e ainda me frustra. Quando o diretor de redação me chamou para conversar, contei o meu incômodo. Na minha cabeça, a revista não refletia em sua equipe o compromisso que eu enxergava em suas páginas. São treze anos de boas histórias sobre o Brasil contadas majoritariamente por pessoas brancas. E, atualmente, a edição da revista está concentrada nas mãos de homens brancos de meia-idade. A proposta de textos diversos e pautas pouco convencionais não era, afinal, tão inovadora.

 

Paralelamente à rotina de estagiária na revista, eu tinha que desenvolver um projeto de conclusão de curso na universidade. Eu queria abordar as questões raciais, mas durante um bom tempo não considerei a ideia de as tornar o meu tema central. Nada mais óbvio do que uma pessoa negra falando sobre o que é ser negro. Eu cobrava de mim um posicionamento que não me permitisse cair na mesmice. Tinha certo pavor de me tornar uma pessoa que só sabe falar disso. Mas lá estava eu, lendo um livro atrás do outro sobre questões raciais. Quanto mais eu lia, mais eu queria ler. Como se eu estivesse sempre lutando contra a falta de algo, contra um suposto atraso. Eu me sentia muito aquém do que eu esperava ser por não entender quem eu era.

Decidi que pesquisaria sobre jornalismo literário. Convidei a professora Cristiane Costa para ser minha orientadora depois de ler seu livro Pena de Aluguel: Escritores Jornalistas no Brasil 1904-2004. Um dos autores tratados por ela é João do Rio, considerado o primeiro repórter brasileiro. Eu não havia assistido a uma aula sequer sobre ele na faculdade, mas seu encantamento pelas ruas e algumas de suas particularidades me fascinavam. Eu acreditava que João do Rio, negro e homossexual assumido, encarnava a figura do escritor marginal do final do século XIX. Cristiane Costa me advertiu que não era bem assim. As crônicas do jornalista lhe renderam muitos louros, e o que mais o aproximava da marginalidade era sua escrita, não sua condição social.

Mas eu queria discutir justamente a condição social. Tentei então João Antônio, um autor branco, considerado o criador do conto-reportagem. O que me atraía, no pouco que eu conhecia dele, era o rancor dirigido à imprensa. Criado na periferia de São Paulo, ele não se conformava com o fato de que o verdadeiro Brasil – popular, pobre, marginal – não aparecesse nas páginas dos jornais. “Evitem certos tipos, certos ambientes. Evitem a fala do povo, que vocês nem sabem onde mora e como. Não reportem povo, que ele fede. Não contem ruas, vidas, paixões violentas. Não se metam com o resto que vocês não veem humanidade ali. Que vocês não percebem vida ali. E vocês não sabem escrever essas coisas.” As investidas contra as limitações de classe da imprensa poderiam fazer de João Antônio um autor quase perfeito, mas, na verdade, eu sabia que estaria dando um salto no escuro. Teria que ler sua obra às pressas na esperança de descobrir ali um possível tema.

Passei alguns meses evitando a minha orientadora. Não admitia a mim mesma que nada do que eu propusesse sobre jornalismo literário me interessava de verdade. Eu estava em negação. Foi no próprio livro de Cristiane Costa que acabei encontrando uma saída. Logo na introdução, ela escreve: “Quem tem melhores condições para contar a história: quem a vê a partir de um ângulo privilegiado ou quem a vive na própria pele marcada por tortura, marginalidade, engajamento, patrulhismo ou cooptação? O que acontece quando o mesmo personagem ocupa as duas posições?” Só depois de terminar o livro e voltar àquela página eu percebi que havia ali algo que eu queria poder responder. Me faltava coragem.

 

Descrevo de forma breve um processo que foi muito doloroso. Passei o último semestre de 2018 sem conseguir frequentar as aulas da disciplina destinada a desenvolver o tema da monografia. Defender uma ideia que fosse minha e que falasse tão diretamente sobre mim diante da turma era algo que me causava pânico. Algumas vezes eu cheguei à porta do campus com o coração palpitante e a respiração ofegante. Chorei diversas vezes antes e depois das aulas. Havia noites em que eu dormia doze horas seguidas. Noutras, em que eu mal conseguia pregar o olho. Levantar da cama era algo difícil. A única coisa que me tirava de casa todos os dias era o estágio. Naquela altura do campeonato, o emprego era o que eu mais tinha medo de perder.

De forma despretensiosa, comecei a questionar estagiários e repórteres de outros veículos quanto à diversidade racial nas redações em que trabalhavam. Vasculhei os contatos na minha agenda e perguntei a uma amiga do jornal O Globo quantas pessoas negras ela conseguia contabilizar no seu ambiente de trabalho. A soma, que não me lembro ao certo, mal ultrapassava uma dezena, isso numa redação com pelo menos trezentos profissionais. Aos poucos, fui me aproximando de mais estagiários e repórteres negros. A questão aparecia, naturalmente, na mesa de bar. Era comum que compartilhássemos experiências muitas vezes dolorosas. O racismo travestido de condescendência era o que mais doía.

Há muito se pesquisava sobre o negro no jornalismo, principalmente sobre sua representação. Eu não queria tomar pessoas negras mais uma vez como objeto de estudo. Decidi que construiria um trabalho a partir da perspectiva de profissionais negros, de forma que eles pudessem assumir o papel de sujeitos dentro da minha escrita. Essa inversão valorosa eu aprendi durante as aulas da disciplina intelectuais negras, ministrada por Giovana Xavier na Faculdade de Educação. Xavier foi a única professora negra que tive na universidade.

Encontrei meus entrevistados depois de um tuíte que publiquei no dia 14 de abril de 2019. No texto, eu pedia ajuda para localizar jornalistas negros que já tivessem atuado em veículos impressos. Perdi o controle da situação – até hoje o tuíte já foi visto mais de 222 mil vezes. Muitas pessoas apareceram me indicando amigos, outras se voluntariando. Entrei em contato com mais de cem jornalistas. Os 47 que participaram da pesquisa foram os que conseguiram responder às questões, enviadas por e-mail, até meados de maio. Quis deixar os entrevistados à vontade para refletirem sobre sua trajetória e sobre cada questão com cuidado. Recebi algumas respostas em poucos dias. Outras, após semanas. Muitas delas vieram acompanhadas de um pedido de anonimato, que eu respeitei. Para um profissional negro que se inseriu a duras penas em um mercado majoritariamente branco, denunciar situações e comportamentos racistas é algo arriscado. Entre os meus entrevistados, há jornalistas entre 22 e 62 anos, das regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país.

A intenção de circunscrever o trabalho aos veículos impressos num momento de explosão digital foi estratégica. Nas páginas de jornais e revistas, não existe para o leitor distinção entre os repórteres. Cada um assina seu nome, independentemente da cor da pele. A representatividade não se exprime pela imagem do profissional, como pode acontecer na televisão, mas pelo tipo de reportagem que ele produz, pelos personagens que ele escolhe e pelo modo como decide retratá-los. De certa forma, no caso da mídia impressa, a representatividade influencia de maneira ainda mais direta a produção do conteúdo jornalístico. Nos veículos digitais, a imagem do repórter pode ou não aparecer. Não há regras. Por isso, preferi me ater ao impresso.

Faltava pouco mais de um mês para que eu apresentasse minha monografia à banca quando vi, diante de mim, a dificuldade que as pessoas têm para enxergar a falta de diversidade racial nas redações. A capa de junho da piauí destacava o nome de oito autores: Bernardo Esteves, David Wallace-Wells, Roberto Kaz, Eduardo Escorel, Armando Antenore, Russel Shorto, Andrício de Souza e Primo Levi. No Instagram, uma seguidora comentou: “Só autores homens… Acho que desisti de assinar.” Ninguém, que eu saiba, havia reparado que todos os homens destacados eram brancos.

Construí minha monografia num contexto em que as mudanças tecnológicas multiplicaram as vozes dos leitores dos principais veículos do país. O público passou a pressionar mais diretamente a imprensa pelas redes sociais. Existe agora maior reivindicação por representatividade em produções artísticas, na produção do conhecimento acadêmico, nos meios de comunicação. Não é como se a imprensa tivesse a obrigação de se curvar diante de quaisquer burburinhos que surgem na internet, mas é inegável que ela passou a estar mais atenta às opiniões de seus leitores. Parte significativa dos jornalistas que entrevistei citou as redes sociais como aliadas na hora de propor pautas que possam discutir racismo e representar pessoas negras para além dos estereótipos. Alguns profissionais veem nisso o prenúncio de novos tempos. Guardo comigo certa dose de pessimismo. A mesma mão que oferece também estapeia.

Para não perder o pé nesse novo debate, talvez para se beneficiar dele, talvez para se resguardar de possíveis julgamentos, a imprensa começa a evidenciar a cor da pele das pessoas – tanto dos personagens que aborda como dos profissionais negros que integram seus veículos. A evidenciação da cor pode ensejar outras formas de silenciamento. Afinal, estamos no Brasil.

Os poucos negros que compõem as fileiras do jornalismo brasileiro somem em meio ao conjunto do noticiário, que permanece embranquecido. Responder às críticas ao racismo midiático com “esse ou aquele negro” ou “essa ou aquela cobertura” é insuficiente e exime o jornalismo de sua responsabilidade. Esses poucos profissionais incorporados às redações são usados como uma espécie de escudo ao racismo ou, mais recentemente, como totem de diversidade. É uma estratégia que inviabiliza qualquer proposta de mudança estrutural dos estereótipos impingidos à população negra, como defende o professor Muniz Sodré.

Em 1979, durante um discurso em Oakland, nos Estados Unidos, Angela Davis defendeu que “numa sociedade racista, não adianta não ser racista, nós devemos ser antirracistas”. A frase se tornou popular e circula pelas redes sociais quando algum caso de racismo ganha notoriedade. Num país como o Brasil, nós temos uma imprensa que, quando lhe convém, declara-se contra o racismo.

 

Há anos pesquisadores e profissionais da área da comunicação tentam mapear o perfil do jornalista brasileiro. Na virada do milênio, a revista Imprensa publicou uma pesquisa com esse intuito. A chamada na capa da edição de outubro de 2001 era categórica: “Jornalismo no Brasil ainda é coisa de branco.” Segundo a revista, foram enviados 5 mil questionários para redações de todo o país com três perguntas: Quantos jornalistas trabalham na sua redação? Destes, quantos são negros? E quantos ocupam cargos de chefia? Responderam ao questionário 230 redações, das quais somente 85, algo em torno de 37%, informaram contar com algum jornalista negro. O número de chefes negros era irrisório: 57 em um universo de 3 400 profissionais, 1,6% do total.

Em 2001, ano da pesquisa, o contexto social era outro. Não existiam ainda as políticas de ação afirmativa, tais como as conhecemos hoje, que foram implementadas paulatinamente a partir de 2012 nas universidades e instituições de ensino federais. Era, assim, ainda mais escasso o número de pessoas negras que conseguiam ter acesso às faculdades públicas de jornalismo. Quando nos voltamos para os colunistas, a situação de hoje se assemelha muito com o percentual de chefes negros de 2001, já que ter espaço para expressar a sua opinião sem precisar se submeter à chefia é inegavelmente uma posição de poder.

Um levantamento de 2016 debruçou-se sobre a questão racial e de gênero entre os colunistas dos principais jornais impressos do país. Realizado pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a pesquisa mostrou que nem 10% dos colunistas eram negros. A cor branca era predominante, chegando a atingir o percentual de 91% para o jornal O Globo, 96% para a Folha de S.Paulo e 99% para O Estado de S. Paulo.

Perguntei a cada um dos meus entrevistados com quantos jornalistas negros eles trabalharam ao longo da carreira, e quantos chefes negros tiveram. Cerca de 45% afirmaram ter trabalhado com até cinco colegas negros ao longo de suas carreiras em veículos impressos. Aproximadamente 19% (menos de um a cada cinco) afirmaram ter trabalhado com até dez colegas negros; o percentual cai para 10,6% quando nos referimos àqueles que trabalharam com até vinte colegas. Em torno de 8,5% disseram nunca ter tido um colega negro.

Se são poucos os repórteres e redatores, a situação se agrava ainda mais quando se trata dos cargos de chefia. Entre os entrevistados, apenas 23% tiveram um chefe negro. Das 47 pessoas com quem falei, ninguém relatou ter visto três ou mais negros em cargos de chefia ao longo de suas vidas profissionais.

Destaco a trajetória de Tania Regina Pinto, a jornalista mais velha entre os que entrevistei. Aos 62 anos, ela, que iniciou a vida profissional no Estado de S. Paulo e hoje está aposentada, relatou ter tido apenas um chefe negro na carreira. Lembra-se de ter trabalhado com apenas dez colegas negros durante toda sua trajetória.

Perguntei aos entrevistados quais poderiam ser os principais gargalos da profissão, que dificultam a inserção e facilitam a evasão de jornalistas negros das redações. O acesso às universidades é a resposta mais óbvia, mas nem de longe é o único motivo. A baixa remuneração, principalmente para profissionais iniciantes, parece ser um dos grandes fatores. Muitos dos jovens jornalistas negros que se formam nas universidades são arrimos de família. “Poucas empresas de comunicação oferecem planos de carreira a seus jornalistas, com direcionamento e metas factíveis”, escreveu-me um dos entrevistados. “Nesse cenário, o aspecto econômico acaba afugentando negros que dependem da própria força de trabalho para viver. Por outro lado, entre os brancos, muitos conseguem segurar as pontas (seja com economias, seja com suporte financeiro da família) numa realidade de baixos salários, empregos voláteis e ‘pejotização’ – a contratação em massa de profissionais como Pessoa Jurídica, sem vínculo empregatício com a empresa.”

Processos seletivos que só se iniciam a partir da indicação de terceiros também constituem um grande obstáculo. Os profissionais que costumam ser indicados para as vagas já fazem parte de um círculo de relações específico que costuma concentrar pessoas brancas de classe média e alta. Eu, por exemplo, fui uma exceção.

 

O racismo apareceu na minha pesquisa como uma prática comum e pouco ou nada penalizada dentro das redações. Mais da metade dos entrevistados (55%) disseram ter sofrido racismo no ambiente de trabalho. As práticas racistas, segundo os relatos, partem tanto da chefia quanto de colegas. A injúria racial, referindo-se à cor da pele, ao cabelo e reiterando estereótipos racistas foi uma das mais comentadas. Também recebi relatos de jornalistas que afirmaram não ter sofrido racismo dentro da redação, mas que se sentiram estereotipados e subestimados dentro do ambiente de trabalho. Relacionavam o tratamento diferenciado a sua pele. Se brancos não gostam da palavra racismo, negros tampouco. Os eufemismos que usamos também nos enganam.

Para não ter o seu profissionalismo posto à prova, jornalistas negros precisam ter cuidado redobrado com o modo como se vestem e até como penteiam o próprio cabelo. “Já tive chefe branca que me comparou a traficante e assassino porque, segundo ela, eu me parecia fisicamente com eles”, disse-me um jornalista cearense de 32 anos.

Uma jornalista de 44 anos contou que seus problemas aumentaram conforme ganhou proeminência. Após ter sido premiada por uma reportagem, foi recebida na redação por repórteres que entoavam: “Esso, Esso, Esso/a negrinha é um sucesso.” O Esso da cantiga fazia referência ao então principal prêmio de jornalismo do país. Ela me disse também que foi chamada várias vezes por seus editores em reuniões de pauta de “nega”. “Eu perdi meu nome lá. Eu era a ‘nega’.”

“Muitas vezes, ouvi que, com o meu corpão, eu poderia ser mulata do Sargentelli, em vez de repórter”, contou-me Tania Regina Pinto. Oswaldo Sargentelli, um homem branco, foi um radialista, apresentador de televisão e empresário da noite. Era ele quem organizava espetáculos de samba para turistas com mulheres negras seminuas. “Mulatas do Sargentelli” é como essas dançarinas ficaram conhecidas nos anos 1970 e 1980. “Eu ficava indignada porque ouvia isso nas redações. Queria ser respeitada pela minha cabeça. Por conta disso, durante muito tempo, escondi meu corpão.”

Um jornalista carioca de 32 anos cometeu um erro na sua época de estagiário. Sua chefe, branca, revoltou-se: “Quantas chicotadas eu devo te dar?”

O racismo também está no não dito. Um jornalista carioca de 23 anos disse-me que se sentia invisível em seu ambiente de trabalho. “Ao ir embora, um funcionário em posição de chefia costuma dar boa-noite nominalmente para as duas pessoas brancas que sentam ao meu lado, mas me ignora solenemente. É um espaço que está me expulsando aos poucos, e sinto o tempo todo que preciso trabalhar dobrado para merecer ocupá-lo. O problema do racismo estrutural é que ele não te diz que você é indesejado. Ele te mostra o tempo todo que você não é bem-vindo.”

 

A solidão da qual eu tinha medo se materializou na minha vida profissional em dezembro de 2018, durante o Festival Piauí GloboNews de Jornalismo, que aconteceu em São Paulo. Foi a primeira vez que viajei de avião. Eu estava radiante. Guardo as experiências que tive nesse evento com muito carinho. Mas, olhando ao redor, eu era uma das pouquíssimas pessoas negras em todo o festival. Eu não me via no palco, cujos convidados e mediadores eram todos brancos, tampouco no público.

No intervalo do almoço, posamos para a tradicional foto da equipe. A imagem foi instantaneamente publicada nas redes sociais da revista – e foi nesse momento que enxerguei o contraste. Aquela imagem dizia muito sobre o orgulho de ter chegado a um ponto que há poucos anos era inimaginável na minha cabeça. Mas, nos minutos que se sucederam, eu só conseguia me sentir só. Perturbava-me ainda mais o fato de que isso era um incômodo quase que exclusivamente meu – a ausência de pessoas negras era imperceptível aos olhos dos demais.

Não demorou muito para que começassem a ironizar a composição da equipe nas redes sociais: “Bem branca essa foto, né, piauí?”, tuitou Guilherme Gonzalez. “Adoro a revista, mas tem algo estranho nessa foto. Não bate com a proposta da revista! Isso é diversidade?”, postou Wanda. “Somente white people, Brazil?”, comentou Rô Aued no Facebook. Finalmente eu não estava enxergando além do que os meus olhos podiam ver.

Não foi a única vez. Em julho de 2018, a revista escalou um time de nove colunistas para escrever no site durante a campanha presidencial, alguns da própria piauí, outros convidados. A ilustração de divulgação reunia sete homens e duas mulheres, todos brancos. Coloquei a imagem no site da revista numa sexta-feira à noite. De longe, disseram-me, nem parecia que havia mulheres, já que Ana Carolina Evangelista e Elvira Lobato tinham o cabelo curto. Irritada, respondi que o motivo não era o cabelo, mas a predominância de homens na foto. Havia mulheres na redação para concordar comigo, caso dissessem que eu estava exagerando. Não disseram. Voltei para casa com um nó na garganta. Queria ter gritado, mais uma vez, o óbvio: a curadoria desconsiderava pessoas negras?

Na manhã seguinte, pipocaram as notificações no Twitter e Facebook da revista. Foram centenas de comentários e compartilhamentos. Além de criticarem a falta de negros, os seguidores frisaram a disparidade quantitativa entre os gêneros e a pouca diversidade regional. Os colunistas se concentravam no velho eixo Rio-São Paulo. Respirei aliviada. Como era bom não se sentir só.

Duas semanas após o ocorrido, a revista completou seu time de colunistas com duas mulheres negras: Suellen Guariento, do Rio, e Fabiana Moraes, do Recife.

 

“Acho que a falta de profissionais negros, por virmos, a maioria dos negros, de contextos pobres ou de periferia, deixa o jornalismo burguês demais”, disse-me a jornalista Denise Mota, que começou a trabalhar na redação da Folha de S.Paulo em 1996 e hoje mora em Montevidéu, no Uruguai, de onde mantém o blog Preta, Preto, Pretinhos no site do jornal. “Quando comecei no jornalismo, me sentia uma estranha no ninho. Vários colegas vinham da elite do ensino e do pensamento paulista, e a impressão que tinha (verdadeira, em alguns casos) é que todos se conheciam de antes, da infância, de colégios. Então às vezes havia conversas nas quais eu simplesmente não conseguia entrar porque não tinha as mesmas referências para compartilhar, apesar de sermos de gerações semelhantes e de vivermos e termos nascido na mesma cidade.”

De certa forma, condicionei os jornalistas que entrevistei a falar sobre solidão no ambiente de trabalho. Esse é nitidamente um assunto que me é muito caro. Fiz perguntas pautadas numa perspectiva de ausência, de falta. Questionei os jornalistas quanto aos impactos psicológicos negativos causados por serem um dos poucos profissionais negros na redação. Em nenhum momento eu pensei que a experiência também os poderia ter impactado positivamente. Talvez um dos maiores defeitos do meu trabalho seja que eu o tenha impregnado com meu pessimismo. Por mais que não evoque a primeira pessoa do singular para manifestar a minha opinião, estou presente em cada página.

Assim como eu, cerca de 63% dos profissionais que entrevistei disseram ter experimentado algum tipo de sofrimento psicológico dentro da redação. A sensação de não pertencimento é uma constante e colabora para a intensificação da insegurança. “É complicado ser o único preto sempre”, contou-me um colega de 23 anos. “Enquanto os brancos estão lá se apoiando e dando tapinhas nas costas um do outro, você está lutando para não adoecer e pedir as contas.” Às vésperas da apresentação da minha monografia, encontrei este jornalista pelos corredores da faculdade. Depois de um longo episódio depressivo, ele decidiu pedir demissão do veículo no qual trabalhou por pouco mais de um ano.

É muito comum ver entrevistas em que publishers, diretores de redação e editores assumem a falta de diversidade nas redações. Mas, logo que reconhecem certa dificuldade, buscam refúgio no cenário brasileiro. Como se quisessem dizer: nós não juntamos esforços para enfrentar a questão da falta de diversidade, mas também não há veículos no Brasil que façam isso. Se ninguém faz, nós também não precisamos. Cheguei a ouvir, certa vez, que não havia jornalistas negros nas redações brasileiras porque não havia jornalistas negros no Brasil. Muito se assemelha ao discurso do reitor da UFF se referindo aos povos indígenas: “Teremos que importar jornalistas negros.”

Pouco mais de um terço dos profissionais com quem falei afirmou se sentir mais cobrado do que seus colegas brancos no trabalho. Quando não se sentem cobrados pelos outros, afundam-se em autocobrança. Esse rigor não nasce necessariamente na redação. Durante a infância, crianças negras ouvem de seus próprios pais que elas vão precisar ser no mínimo duas vezes melhores para vencer na vida. Em entrevista ao podcast Negra Voz, do jornal O Globo, a atriz Ruth de Souza contou que se esforçava para sempre tirar 10 na escola. Culpava-se quando não conseguia a nota máxima. Como seus colegas brancos lhe diziam que o negro nascia com o cérebro atrofiado, ser apenas inteligente era pouco. Ruth tinha que ser impecável.

“A clara falta de equidade numérica e de gênero faz com que todo jornalista preto se sinta extremamente cobrado para ser genial”, disse-me o jornalista Felipe Barcellos, que passou pelas redações da Editora Abril, de O Globo e da Folha de S.Paulo. “Não temos o direito de sermos medíocres, na acepção da palavra.” Tania Regina Pinto, por outro lado, consegue enxergar um ponto positivo na sua autocobrança: “De um lado, foi péssimo – muitas vezes travei por perceber que não era a melhor. De outro, garantiu minha carreira, porque nunca me acomodei na dor.”

Quando as redações assumem para esse jornalista contornos de um campo de batalha, muito provavelmente isso significa que a vivência entre os colegas já o impactou psicologicamente de forma negativa. A criação de redes de apoio pode ser um ótimo alicerce para a permanência do profissional na redação. Durante a minha pesquisa, descobri que há no jornal O Globo um grupo de WhatsApp só para jornalistas negros, criado por eles próprios. Lá, repórteres de diferentes editorias trocam pautas, compartilham experiências e se apoiam. É onde podem se sentir seguros.

 

Convidei para a banca de avaliação da minha monografia a professora norte-americana Liv Sovik, autora do livro Aqui Ninguém É Branco, e a jornalista Flávia Oliveira. Em alguns de seus comentários, Oliveira destacou que até bem pouco tempo ela era a única colunista negra do jornal O Globo. Por mais que quisesse escrever sobre sapatos, moda ou qualquer assunto que pudesse lhe interessar, ela se sentia cobrada a comentar os constantes casos de racismo que continuam a estampar as páginas da imprensa. Essa limitação também é um tipo de silenciamento.

A cobrança interna e externa a que a colunista se vê submetida também surgiu nas respostas dos profissionais que entrevistei. Quando não são escalados para cobrir assuntos relacionados à negritude, os jornalistas negros funcionam para os outros repórteres como uma espécie de Wikipédia da população negra. A prática é tão comum, nos mais diferentes ambientes de trabalho, que se criou até uma expressão para se referir a ela: wikipreto ou wikipreta. O jornalista se torna, então, o que poderíamos chamar de “setorista de negritude”.

Como o enquadramento acontece muitas vezes de cima para baixo, há aqueles que almejam outros caminhos para a própria carreira, mas são obrigados a abdicar de suas vontades. E há ainda aqueles que não só sentem afinidade com esse tipo de cobertura, como gostariam de construir uma carreira em cima disso. Sentem-se realizados em poder retratar, também de forma positiva, a população negra.

Recebi relatos de jornalistas que, após conversarem com seus editores, conseguiram se desvencilhar dessas amarras. Não foram poucos, no entanto, os que afirmaram haver uma certa dificuldade por parte da chefia em entender que jornalistas negros também podem falar sobre economia, política, auto-mobilismo ou esportes. Com frequência eles voltam a ser enquadrados como setoristas de negritude. Alguns entrevistados afirmaram que conseguem mais apoio para realizar pautas sobre questões raciais. Quando pretendem falar de outros assuntos, a redação recebe sua proposta com certa desconfiança.

Uma resposta que muito me emocionou foi de Tiago Coelho, meu companheiro de baia na redação. “Eu adoro contar histórias legais sobre pessoas pobres, pretas e periféricas”, ele me escreveu. “Adoro imaginar que suas vidas possam ser contadas com a mesma complexidade, com o mesmo esmero estilístico com que histórias de brancos são contadas na piauí. Eu gostei muito de escrever a história de um casal pobre que participa de um divórcio coletivo – o rapaz era negro, a moça, descendente de indígenas. Conto essas histórias com sensibilidade e responsabilidade. E sei da importância de contá-las num país racista. Mas detesto ser visto como entendedor de uma classe, de um grupo racial. Acho que tudo é muito complexo e diverso para me considerar especialista em algo. E sinto que essa pressão vem tanto da chefia branca quanto de alguns pares negros. Detesto ter que ser testado, principalmente por brancos, mas também por outros negros. Eu sou o negro que consigo ser, com minhas contradições e limitações.”

Acho que escrevo sobre pessoas negras e assuntos referentes à negritude como se eu tivesse a responsabilidade de preencher, de fato, uma lacuna. Não do veículo que hoje integro, mas a lacuna que me seguiu durante a vida. Muitos dos profissionais com quem falei compartilham desse mesmo sentimento, como se nós quiséssemos devolver aos leitores aquilo que não tivemos antes de chegar à profissão. Representar em sua complexidade personagens negros de quem podemos discordar brutalmente, com quem podemos nos identificar ou ainda odiar. Mas, sobretudo, contar a história de pessoas negras, com empatia e dignidade. É definitivamente um jornalismo que delimita o seu lado na história. Poderíamos dizer que esses repórteres usam da profissão para advogar em causa própria? Só se reduzirmos o racismo a um problema individual.

Fazer com que jornalistas negros se vejam presos a uma pseudoeditoria de negritude pode ser muito confortável para um veículo de comunicação. O profissional pode ser muito bem usado para reiterar o discurso de uma pretensa diversidade. “Fazer parte da exceção em um ofício dominado por brancos me causa constrangimento permanente”, afirmou um jornalista mineiro de 33 anos. “Sempre que trato de temas raciais ou relacionados à população negra, sou questionado por leitores e espectadores sobre a ausência de negros nos lugares onde trabalho. Entendem como uma contradição, como se meus comentários ou as matérias que eu faço fossem fruto de orientação das empresas, e não do meu empenho pessoal em abordar essas questões.”

“A nova moda é menosprezar o discurso dos negros, principalmente dos comunicadores, falando que tudo é ‘lacre’ ou ‘lacração’”, contou-me Gilberto Porcidonio, repórter do jornal O Globo. O mesmo não costuma acontecer quando jornalistas brancos escrevem sobre pessoas negras. A importância de seu trabalho é reconhecida, e a sensibilidade do repórter, exaltada. Parafraseando Grada Kilomba, intelectual e artista multidisciplinar portuguesa, quando eles falam, é jornalismo, quando nós falamos, não é jornalismo.

A discussão lembra o mal-entendido que o conceito de lugar de fala costuma provocar, especialmente agora. O lugar de fala, como a própria expressão indica, refere-se a um locus social. Nada tem a ver com quem pode ou não falar sobre determinado assunto. Pessoas brancas podem falar ou opinar sobre racismo e até se revoltar contra ele. Mas falam, opinam e se revoltam a partir de um ponto de vista privilegiado, de quem nunca viveu o racismo na pele. Isso não significa que a manifestação de uma pessoa branca sobre questões raciais não possa ser legítima. Mas aqui é preciso apelar para o bom senso. Brancos, ainda mais aqueles que nem sequer estudam relações raciais, não devem ser protagonistas nesse tipo de debate.

Quando grupos minorizados reivindicam a importância de seus lugares de fala, não estão impedindo que outros possam falar, mas questionando quem são os sujeitos historicamente autorizados a falar. Existe espaço e legitimidade para todos os grupos sociais? E, quando falam, podem falar sobre tudo ou apenas sobre o que lhes é permitido falar? Eis o meu ponto: reduzir jornalistas negros ao que chamo de “setoristas de negritude” ou a wikipretos equivale a silenciá-los. Significa impor uma “máscara de silenciamento” – conceito de Grada Kilomba – às vontades e ambições profissionais desses jornalistas. Significa decidir o lugar e a hora de se debater questões raciais, como se elas estivessem à margem e não no centro de qualquer discussão sobre a sociedade brasileira.

 

Perguntei aos meus colegas se eles tinham conhecimento de alguma política de diversidade adotada pelos veículos em que trabalharam. A resposta negativa foi unânime. Na maioria dos casos, a preocupação com a inserção de jornalistas negros parte dos próprios jornalistas negros que conseguiram driblar as formas ainda muito elitistas de acesso a esses veículos. Os chefes e colegas brancos ou passam a se importar com a questão quando em contato com esses profissionais ou continuam a menosprezá-la.

“Não há uma política de diversidade, há um desejo de diversidade”, contou-me uma jovem jornalista carioca. “Ou pelo menos um discurso do desejo de diversidade. No fim, a diversidade (se ela existe, em maior ou menor medida) acaba dependendo da ação de indivíduos (pessoas que indicam negros para vagas e gestores que visam contratar pessoas ‘diversas’), e não da empresa como um todo.”

Há, de fato, uma inclinação da piauí por diversidade. Mas não há uma política. Não se verbaliza como tal, não se impõe ou é apresentada como tal. Não há, em nossas edições, artigos de opinião escritos por cientistas políticos, sociólogos ou filósofos afro-brasileiros. Desde a eleição de Jair Bolsonaro, publicamos em quase todas as edições textos analisando e comentando os rumos do governo e do país. Todos assinados por homens brancos de meia-idade. Até hoje não houve nem sequer uma mulher neste seleto grupo. Entendo que a revista enxergue a importância de novas vozes e se mostre aberta ao diálogo, mas a implementação de uma política de diversidade prevê algo maior do que a contratação de estagiárias, que foi o que fizemos nos últimos dois anos. Depois de mim, passaram a integrar o time de estagiárias Ana Carolina Santos e Emily Almeida, que são duas estudantes negras, e Julia Sena, que é, como gosta sempre de ressaltar, cria de Campo Grande, o bairro carioca.

Ainda sobre diversidade, eis um causo fictício. Marlon, um homem negro, vai à empresa Game Swag reclamar sobre uma peça publicitária. Seu filho havia participado de um ensaio fotográfico em que usava um casaco de moletom vinho. Quando editaram as imagens, acrescentaram a frase Funky monkey – algo como “macaquinho engraçadinho” – à roupa. Para Marlon, era nítido que se tratava de uma propaganda racista, mas Hank, o CEO da empresa, responde imediatamente, na defensiva: “Racista? Não, espere aí. A Game Swag se compromete com a diversidade. Respeitamos todas as culturas, etnias e raças.” A justificativa para o uso da palavra “macaco”, alertou Hank, vinha de um algoritmo. Marlon, pressionado por sua ex-mulher Ashley, confronta o CEO: “Me explique como um conselho cheio de…” Antes de completar a frase ele se volta para as pessoas sentadas à mesa, que o observam em silêncio. Ele arregala os olhos: “Gente branca!”, grita. “Agora tudo faz sentido. Vocês não têm diversidade! Quer dizer, vocês têm diversidade na sua brancura. Olha, tem branco velho, branco jovem, branco pálido, branco, branco. Esse aqui é tão branco que é quase transparente. Mas não tem gente negra aqui! Tem que ter uma mulher negra aqui nessa mesa!” A cena faz parte de um dos episódios de Marlon, série humorística da Netflix, lançada em 2018.

Revejo esse episódio toda vez que quero rir muito. Já estive muitas vezes no lugar do Marlon. E recorro a ele para me fazer entender: política de diversidade é sobre quem se senta à mesa, sobre quem toma as decisões e pode opinar. Contratar pessoas negras como estagiários, trainees e repórteres é maravilhoso, mas insuficiente. Se as pessoas “diversas” da redação estão concentradas no chão da fábrica, sem autonomia, não se modificou nada estruturalmente. Não ignoro que isso leva tempo e custa caro, ainda mais num contexto de precarização da profissão. Mas é algo que as empresas devem ter em mente. É preciso quebrar a barreira do olhar, que nos prende ao nosso círculo mais próximo de convívio. Alguns veículos preferem se proteger com a velha desculpa de que são “progressistas”, “de esquerda”. Isso pouco me interessa. Há racismo. E é preciso encará-lo de frente.

 

Não é exagero afirmar que, em pouco tempo, o jornalismo dependerá da diversidade para se manter sustentável. Faço parte de uma geração altamente politizada e que anseia por representatividade, tanto no espectro político de esquerda como no de direita. Por um bom tempo pensei ser esse um privilégio meu, por ter aprendido a enxergar o mundo de forma crítica dentro de uma universidade. Ledo engano.

As próprias publicações destinadas a adolescentes demoraram a entender o tipo de público com que estavam lidando. A Teen Vogue norte-americana foi um grande caso de sucesso nesse sentido. Em 2016, Elaine Welteroth se tornou a pessoa mais jovem e a segunda mulher negra a ocupar um cargo de editora-chefe, em 107 anos do grupo editorial Condé Nast. Ela tinha 29 anos. Sob seu comando, o projeto editorial da revista sofreu mudanças estruturais, e questões sociais e políticas passaram a entrar em debate. Seria impensável ler um artigo sobre violência policial ou a corrida eleitoral nas revistas que consumi durante a minha adolescência. Eu nem sequer me lembro de modelos negras nas páginas que folheava.

O resultado do trabalho de Welteroth foi surpreendente: o site da Teen Vogue pulou de 2,9 milhões de visitantes, em janeiro de 2016, para 7,9 milhões, no início de 2017. E a seção de política agora ultrapassa a seção de entretenimento em número de visualizações.

Redações norte-americanas já se debruçam sobre o assunto há pelo menos uma década. Quando esteve no Brasil, em maio de 2003, Eugene Robinson, então editor do caderno de variedades do Washington Post, disse que a representação dos grupos minorizados era uma de suas preocupações, tanto em relação à equipe quanto em relação às coberturas. Robinson ressaltou a importância de que a diversidade esteja presente nos cargos decisórios. “Não adiantaria nada se todas as decisões estivessem concentradas nas mãos de homens brancos, por exemplo”, contou à Revista Imprensa. “A diversidade se estrutura assim.”

A Folha anunciou, em abril deste ano, a criação de uma editoria de diversidade. A proposta é audaciosa: concentrar na figura de uma editora a responsabilidade de repensar um veículo com mais de trezentas pessoas. Paula Cesarino Costa, ex-ombudsman escalada para o cargo, participaria de processos de contratação, faria o recenseamento da redação, participaria de reuniões de pauta, ajudaria na diversificação de fontes, além de alimentar uma coluna quinzenal sobre o tema. Quando me encontrei com Cesarino, em meados de junho, ela me contou que pensava também em elaborar um manual de redação voltado para a diversidade. Veremos melhor daqui a alguns meses como se traduzirão, na prática, todas essas promessas.

O problema não se limita ao jornalismo. Quando veio ao Brasil, em agosto deste ano, o estilista francês Olivier Rousteing disse à Veja que via a falta de diversidade no mercado da moda com muita tristeza. “Muitos analistas apontam que a revolução da moda virá com a tecnologia, com tecidos que carregam o celular ou feitos de materiais biodegradáveis”, disse Rousteing. “Tudo isso é importante, claro, mas antes há algo muito mais urgente para resolver: a moda precisa deixar de ser arcaica e racista […] Não adianta uma marca colocar três modelos negras na passarela, em um total de oitenta meninas, para mostrar diversidade. Há diversidade no time de criação ou vendas? Não? Então não passa de marketing.” Sua fala se aplica perfeitamente ao jornalismo. Olivier Rousteing, único negro à frente de uma grife de luxo, foi responsável por fazer o lucro da Balmain saltar de 24 para 150 milhões de euros.

Na faculdade, aprendi muito da escrita jornalística lendo manuais de redação. No entanto, os manuais publicados pelos veículos mais tradicionais do país refletem muito pouco sobre diversidade. Qual é a abordagem e qual é o uso responsável da linguagem em relação aos grupos minorizados? Quando a Organização Mundial da Saúde retirou a orientação sexual da sua lista internacional de doenças, em 1990, ativistas LGBT passaram a reivindicar, com ainda mais força, o uso da palavra “homossexualidade”, em vez de “homossexualismo”. Da mesma forma, ninguém deve se referir a uma travesti no masculino. Na maioria dos casos, porém, o repórter precisa aprender isso sozinho, quando o mais correto seria que os veículos tivessem posições institucionais a respeito.

Há ainda casos graves de interpretação. Quando um presidenciável compara populações quilombolas a gado, ele não está fazendo uma “crítica”, tampouco está emitindo uma “opinião”. Ele está sendo racista. A grande imprensa, porém, só associou o episódio a racismo depois que o Ministério Público decidiu abrir uma ação contra Jair Bolsonaro. Muitas reportagens durante a corrida presidencial inseriram trechos em que Bolsonaro menosprezava os direitos humanos, mas raramente assumiram uma postura crítica às suas declarações.

O Código de Ética da profissão prevê que é dever do jornalista “opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos”. Falhamos.

 

Colei grau, oficialmente, no dia 4 de setembro. Passei no banheiro enquanto esperava o início da cerimônia. Eu, que sempre tive vergonha de me olhar no espelho na presença dos outros, observei o meu próprio reflexo por longos minutos. Enquanto arrumava o meu cabelo, uma menina negra ao meu lado, talvez dois anos mais nova que eu, fazia o mesmo. Atrás de mim, havia ainda outra, na fila para o banheiro. Sorrimos. Passei a graduação inteira conhecendo o rosto de todos os estudantes negros da faculdade. Eu já não os conhecia, não cabiam mais em minha mão. Empurrei a porta do banheiro e caminhei até o auditório. Senti como se tivesse feito as pazes com a ECO, comigo.

Espero ainda o dia em que farei as pazes com o jornalismo e voltarei a olhá-lo com encantamento. Tenho pressa.

Yasmin Santos

Repórter da piauí

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