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Água nas galerias

Um museu tenta sobreviver

Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Quando a equipe de manutenção do turno matinal chegou ao Museu Casa do Pontal, às seis da manhã do dia 9 de abril, percebeu que o alagamento do local era iminente. Uma tempestade muito forte tinha atingido o Rio de Janeiro na noite anterior, e o sítio de 5 mil metros quadrados no Recreio dos Bandeirantes estava encharcado.

A equipe tomou a primeira medida prevista no protocolo antialagamento da instituição: ligar para a gerente administrativa Tida Ortigão, de 58 anos. Assim como a turma da manutenção, Ortigão mora nas cercanias do museu e chegou em poucos minutos. O sítio tinha virado uma grande piscina, pondo em risco obras de artistas como os mestres Vitalino, Galdino e Didi.

Passo número 2 do protocolo: a gerente ligou para Lucas Van de Beuque, diretor executivo da instituição. Mas ele não conseguiu chegar ao local, pois as vias que ligam a Zona Sul, onde ele mora, à Zona Oeste, onde fica o museu, estavam obstruídas por causa das enchentes.

Ortigão seguiu com a equipe para as amplas galerias que abrigam o maior acervo de arte popular brasileira. Com água nos tornozelos, os funcionários puseram em prática o terceiro tópico do protocolo: salvaguardar as obras que ficam nas prateleiras mais baixas e as esculturas instaladas em plataformas de madeira no chão. Cerca de trezentas obras foram retiradas e dispostas no alto das prateleiras ou levadas para as galerias do segundo pavimento.

Depois, tudo aconteceu de maneira muito rápida. Como a chuva continuava a cair, por volta de oito da manhã a água começou a subir velozmente e atingiu 1 metro de altura do lado de fora do museu e 60 centímetros dentro. As galerias do térreo viraram verdadeiros canais.

As atenções se voltaram para a escultura Torre de Babel, a mais pesada do acervo, feita em barro por Antônio Poteiro, português radicado em Goiás. “Ficamos desesperados”, contou Ortigão. “A escultura parecia pesar uma tonelada. Não conseguíamos movê-la para um local mais alto.” Os funcionários controlaram o nervosismo e encontraram a solução mais fácil: mover a escultura junto com a plataforma sobre a qual está instalada. “Arrastamos tudo na mesma direção da forte correnteza que se formou dentro das galerias”, disse a gerente administrativa.

Entre 1976 – quando o acervo foi transferido para o sítio – e o início desta década, nenhum alagamento ocorreu no local, mesmo quando as chuvas foram mais intensas. Nos últimos oito anos, entretanto, já houve seis alagamentos, o primeiro deles em 2010 – causados, sobretudo, pela construção de vários condomínios na região, antes ocupada apenas por sítios e casas.

A partir de 2009, um novo projeto de urbanização – o Plano de Estruturação Urbana da Região das Vargens – autorizou a construção de prédios e a reestruturação de infraestrutura na área. Algumas dessas novas obras seriam usadas como habitações para equipes que participaram das Olimpíadas de 2016.

Em 2013, por causa dos alagamentos, a administração do museu procurou a Coppe/UFRJ, um instituto de pesquisas em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para pedir uma avaliação do impacto das mudanças sobre o sítio. Segundo Van de Beuque, a Coppe constatou que os prédios no entorno, com até nove andares, haviam sido erguidos em terrenos aterrados cerca de 1,5 metro acima do nível do museu. A água que cai nesses lugares elevados desemboca diretamente na instituição.

Em 2016, a prefeitura ofereceu como alternativa a mudança do museu para um terreno do município na Barra da Tijuca, próximo ao Bosque da Barra e de fácil acesso para o público – com o que o museu concordou. A construção da nova sede seria bancada principalmente pela construtora Calper, responsável pelos prédios erguidos no entorno do museu. A empresa entraria com 7,5 milhões de reais – o valor de uma dívida de licenciamento que tinha com a prefeitura – e o museu, com 3,5 milhões de reais.

A construção foi iniciada. Em julho de 2017, porém, a Calper deixou de repassar o dinheiro e a obra foi interrompida. A prefeitura disse, em nota, que notificou a construtora para que finalizasse os trabalhos, mas a Calper alegou “incapacidade financeira”. Também afirmou que “agendará uma reunião com representantes da Rio-Urbe, da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Habitação e do museu para avaliar as demandas necessárias e buscar uma solução para o problema.”

“Antigamente era tudo vegetação”, disse Lucas Van de Beuque, 42 anos, enquanto, de uma das janelas do museu, olhava os prédios em volta. Em 16 de abril, oito dias após a tempestade, a equipe de manutenção ainda limpava os vestígios de lama no chão. Era possível ver as marcas do alagamento nas paredes.

Criado pelo francês Jacques Van de Beuque (1922-2000), avô de Lucas e colecionador de arte popular, o museu foi aberto ao público em 1992. Mais de 8 500 obras de 300 artistas compõem atualmente o acervo, que costuma receber a visita de cerca de 2 500 pessoas por mês, em média.

Desde que a crise econômica se acentuou no Brasil, o museu vem encontrando dificuldades para sobreviver. No ano passado, por exemplo, não teve qualquer patrocínio governamental ou de empresas; este ano, até agora, também não. A instituição vem se mantendo graças à exposição do acervo em outros locais – levou uma mostra de presépios a Petrópolis (RJ) – e ao seu fundo de reserva.

Antes da crise, o museu operava a um custo anual de 2,5 milhões de reais por ano, mas esse valor foi reduzido para 1,5 milhão de reais. “Nosso fundo de reserva, que era de mais de 1 milhão de reais em 2017, está em 200 mil reais. Já chegamos a ter uma equipe de 38 pessoas; hoje estamos com quinze”, resumiu Van de Beuque.

Na lista de cortes de funcionários, acabou entrando a gerente administrativa Tida Ortigão, que trabalhava no Museu Casa do Pontal há nove anos. Ela recebeu aviso prévio poucos dias antes da enchente. “Teria ido até lá ajudar mesmo que já estivesse afastada do museu. É a maior coleção de arte do nosso povo. Alguém tem que proteger”, disse.

Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista

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