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Agruras de uma deputada

As polêmicas de Joacine Katar

Gian Amato
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Em seu pequeno gabinete no Parlamento português, em meados de novembro último, a deputada recém-eleita Joacine Katar Moreira, 37 anos, debatia com assessores o texto do seu primeiro projeto de lei. Nele, a parlamentar sugere a transferência dos restos mortais do cônsul Aristides de Sousa Mendes do cemitério de Cabanas de Viriato, município no Norte de Portugal, para o Panteão Nacional, em Lisboa, onde estão sepultados portugueses ilustres, como o escritor Almeida Garrett, a cantora Amália Rodrigues e a poeta Sophia de Mello Breyner.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Sousa Mendes desafiou as ordens do ditador António de Oliveira Salazar e concedeu centenas de vistos portugueses a refugiados do nazismo, em Bordeaux, na França, cidade onde servia como cônsul. “Ele não teve o reconhecimento merecido, e essa é uma história que pertence à sociedade”, justificou a deputada à sua equipe.

Chefe de gabinete, Rafael Esteves Martins ponderou que seria prudente pesar cada palavra, uma vez que o traslado de restos mortais é um tema muito sensível. Esteves Martins, 32 anos, talvez quisesse evitar novos mal-entendidos no Parlamento depois de ter aparecido ali vestido com uma longa saia preta, o que provocou um agitado debate no país.

Uma pessoa interrompeu a discussão no gabinete. Katar Moreira tinha que se preparar para a sessão de fotos de uma revista semanal. “Estou farta de receber ordens desses meus assessores”, brincou.



A deputada ostenta um penteado com longos dreadlocks. Madeixas emolduram o seu rosto, mas não escondem dois grandes brincos de argolas. Uma echarpe azul e florida sobressai do vestido preto, cuja barra termina rente às botas. É um figurino que foge ao padrão das demais parlamentares, que costumam preferir terninhos de cores sóbrias.

Katar Moreira foi uma das três deputadas negras eleitas em outubro do ano passado para a Assembleia da República, formada por 230 parlamentares. É o rosto mais conhecido e a primeira e única deputada do Livre, pequeno partido de esquerda criado há seis anos. No pleito que reconduziu o socialista António Costa ao cargo de primeiro-ministro do país, Katar Moreira obteve 57 172 votos, com uma plataforma política centrada na defesa das causas das mulheres negras, dos afrodescendentes em geral e dos imigrantes. “As mulheres negras ocupam áreas de invisibilidade até na esquerda. A imagem política em Portugal é masculina e branca”, ela disse.

 

Joacine Katar Moreira nasceu na Guiné-Bissau, ex-colônia portuguesa na costa ocidental da África. É a primogênita de onze irmãos. Sua avó paterna era enfermeira e teve a ideia de enviar a menina de 8 anos para Portugal, sem os pais, para que tivesse melhores estudos. “Minha história é de migração e dificuldade”, afirmou a deputada, que contou ter sido “moldada” pelo colégio interno das Irmãs Dominicanas da Anunciata, nos arredores de Lisboa, onde estudou até os 15 anos. Tida como insolente, ouviu de uma das freiras a frase definidora da sua personalidade: “A sociedade não te aguentará.”

Na juventude, Katar Moreira trabalhou em colheitas de tomate e uva. Quando decidiu fazer faculdade, tios e amigos pagaram os 25 euros (em torno de 115 reais) da matrícula no Instituto Universitário de Lisboa, escola pública de ensino superior. Para manter-se no curso, foi demonstradora de produtos em supermercados e camareira de hotel. Fez história e doutorou-se em estudos africanos.

Logo após as eleições, houve um grande interesse por Katar Moreira da parte dos meios de comunicação. Semanas depois, muitos começaram a criticá-la e taxá-la de arrogante. “Com a posse, veio a euforia. Depois, a esquizofrenia nacional”, disse ela, no gabinete. “Utilizam o fato de eu gaguejar para dizer que não sou apta ao Parlamento. Sim, parte de Portugal é institucional e historicamente racista. E eu sou a primeira negra a ser eleita que é também mãe, recém-divorciada e gaga. É revolucionário.” Desde a infância, a deputada sofre de uma disfunção da fala.

Seu primeiro pronunciamento na Assembleia da República aconteceu no fim de outubro. No dia da posse, a duração do discurso de cada deputado no plenário não deveria ultrapassar dois minutos e trinta segundos. Devido à sua gagueira, a deputada obteve do Parlamento o dobro de tempo – cinco minutos. Depois do discurso, seus inimigos políticos, já bastante atiçados com a vitória eleitoral dela, multiplicaram ataques e deboches agressivos nas redes sociais.

 

Nas semanas seguintes, os problemas de Katar Moreira foram se ampliando, numa sequência de polêmicas. Quando o Parlamento votou uma proposta do Partido Comunista Português (PCP) que visava à condenação da violência de Israel em Gaza, ela se absteve, contrariando a posição do seu próprio partido. Dias mais tarde, sem avisá-la, o Livre reiterou em comunicado seu posicionamento a favor dos palestinos, e Katar Moreira julgou-se vítima de um golpe do partido.

Sua equipe também foi classificada de amadora em razão de alguns episódios. Em novembro, por exemplo, ela e o assessor Rafael Esteves Martins chamaram um segurança para tentar impedir o trabalho de um jornalista, alegando que o assédio dos repórteres estava perturbando o seu trabalho – o que foi visto como um atentado à liberdade de imprensa. “A forma como [Katar Moreira] deslizou no Parlamento quase fazia crer que a democracia começou quando ela passou a porta da Assembleia”, ironizou o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares, na emissora televisiva TVI.

No início de janeiro, o Livre elegeu uma nova diretoria, e a deputada ficou de fora da lista de candidatos. Num congresso, ao se defender das acusações de que teria desistido de representar o partido, ela reagiu sem meias palavras. “Isto é inadmissível, isto é mentira, mentira, tenham vergonha, vergonha, mentira absoluta”, gritou. A atitude – considerada violenta – indignou a direção do Livre, que pretendia votar o afastamento de Katar Moreira da legenda.

“Há um ano eu não imaginava estar aqui, no Parlamento. Meu maior desejo era dar aulas, editar obras e escrever. Nem sou ambiciosa”, me disse ela, em seu gabinete. E seguiu para a sessão de fotos da revista.

Gian Amato

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