tempos da peste

“Ai, meu Deus”

Parisi, um pequeno retrato de uma grande tragédia

Camille Lichotti
O cemitério de Parisi, onde os enterros são solitários: “Eu não imaginava que a doença ia ser assim. Para mim, ia ser só uma gripe”, diz a neta que perdeu o avô paterno e o avô materno
O cemitério de Parisi, onde os enterros são solitários: “Eu não imaginava que a doença ia ser assim. Para mim, ia ser só uma gripe”, diz a neta que perdeu o avô paterno e o avô materno CREDITO: PIERRE DUARTE_2021

A enfermeira Dirce Santos, de 48 anos, trabalha há quase uma década no posto de saúde de Parisi, uma cidadezinha de pouco mais de 2 mil habitantes no interior de São Paulo. Na manhã de 2 de março, dia em que o Brasil atingiu 257 mil mortos pela Covid-19, ela estava sentada à mesa de sua sala folheando uma pilha de papéis e contando, em voz alta, quantas notificações da doença havia registrado no dia anterior. Ao chegar na 14ª folha, percebeu que a porta lateral se abria devagar. A secretária de Saúde do município, Marli Donizeti, esticou o pescoço pelo vão de abertura da porta e varreu o local com os olhos. Quando finalmente entrou na sala, encostou-se contra a parede diante da enfermeira e levou a mão à testa, denunciando sua preocupação. Nenhuma palavra foi trocada entre as duas, até que Donizeti desabafou. “Nós não temos mais vaga”, disse. “Todos os hospitais estão lotados. Vamos ter que segurar todo mundo aqui, Dirce. Nossos pacientes vão morrer na porta do posto, e a gente não vai ter o que fazer.”

Dias depois, as irmãs Ana Paula e Karina Faria, de 36 e 33 anos, chegaram ao posto reclamando de dor de cabeça e dores pelo corpo. Passaram o dia tomando soro e analgésicos, mas o estado das irmãs se agravou e ambas precisavam ser internadas. Como previra a secretária, não havia leito vago nos hospitais da região. Elas tiveram que permanecer ali durante a noite. O posto é a única unidade de saúde de Parisi. Foi construído para ser a porta de entrada do sistema e não tem estrutura para atender casos graves, muito menos responder a uma pandemia. Tem apenas dois leitos e cinco poltronas. A equipe é formada por oito enfermeiras e auxiliares de enfermagem e quatro médicos, que se revezam para cobrir doze horas de atendimento, ao todo. Aos fins de semana e feriados, a unidade sequer abre as portas. O procedimento-padrão é recolher as informações dos doentes, preencher uma ficha e, quando possível, liberá-los. Pacientes que requerem maiores cuidados são encaminhados para hospitais de cidades vizinhas – a Santa Casa de Votuporanga, a 15 km de distância, e o Hospital de Base em São José do Rio Preto, a 95 km.

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Camille Lichotti

Estagiária de jornalismo na piauí

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