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Ajuricaba, o insolente

Um herói manao e a resistência dos indígenas na Amazônia

Camille Lichotti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Ajuricaba se agacha, e um grande colar é colocado sobre seu colo nu. Em volta de seus olhos e na sua testa, um pigmento negro é espalhado delicadamente. Por fim, um cocar é ajustado em sua cabeça. “Mauari escolheu”, anuncia uma voz, após o ritual. “E, sob as bênçãos de Gamainha e Gamainha Pichene, conheçam o nosso novo cacique: Ajuricaba!” Empunhando adaga e lança, o líder recém-escolhido levanta a cabeça e revela o semblante triunfal. “Huena, manaos!”, ele brada, erguendo os braços. À sua frente, uma multidão de guerreiros responde, em êxtase: Huena! Huena! Huena!

A coroação é o clímax de Ajuricaba, uma graphic novel lançada em dezembro passado, com roteiro de Ademar Vieira, desenhos de Jucylande Júnior e finalização de Tieê Santos. É uma história já contada na literatura, no teatro e até em quadrinhos – muitas vezes de forma romantizada –, e que todos os moradores de Manaus conhecem. Afinal, o nome da capital do Amazonas é uma homenagem ao povo manao, que habitava originalmente o lugar onde surgiu a cidade. “Mas muitas pessoas aqui ainda acham que Ajuricaba é uma lenda”, ressalta Vieira.

Em 2018, depois de ler o capítulo de um livro de história que resumia a trajetória de Ajuricaba, Vieira resolveu fazer o roteiro apoiado no que havia de fatos históricos comprovados. Também quis criar um perfil diferente para o herói manao. “Os indígenas geralmente são retratados de forma infantilizada e ingênua. O fascinante é que Ajuricaba quebra todos esses lugares-comuns”, diz. Ele se inscreveu num edital para projetos artísticos da Prefeitura de Manaus e iniciou o trabalho.

Era para a graphic novel ter sido lançada tempos atrás, mas a pandemia atingiu Manaus com terrível voracidade no início de 2020. A tragédia se espalhou pela capital e por todo o Amazonas. Ajuricaba só conseguiu ir para a gráfica no final do ano. E, quando ficou pronta, a Covid-19 já atacava novamente a cidade, numa segunda onda devastadora, que mergulharia Manaus no caos, agravado pela falta de oxigênio nos hospitais.

 

Ademar Vieira tem 39 anos e trabalha há cinco como roteirista profissional. Antes, atuou como jornalista na imprensa e na televisão. Em 2018, fundou o estúdio Black Eye, por meio do qual está lançando Ajuricaba e publicou outras duas HQs: Sete Cores da Amazônia, em que uma criança descobre suas raízes indígenas, e A Maldição do Governador, sobre um político que literalmente apodrece após a maldição de uma eleitora. Em setembro do ano passado, um seriado de animação para crianças de cujo roteiro participou, Lupita pelo Mundo, ganhou o prêmio de Melhor Série Brasileira na mostra paralela Conexões Gramado Film Market, do Festival de Gramado.

Para fazer Ajuricaba, o roteirista dedicou cerca de seis meses à pesquisa histórica e antropológica, com o apoio do professor Davi Avelino, especialista em história indígena da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Empolgado com o desafio de colaborar na graphic novel, Avelino fez uma extensa pesquisa em documentos e teses para que Vieira escrevesse a história do herói manao com toda a precisão necessária.

 

No início da colonização do Amazonas, os manaos foram aliados dos portugueses e ajudaram na captura de indígenas que eram seus inimigos. Quando Ajuricaba se tornou líder, após a morte de seu pai, ele rompeu o acordo com os colonizadores. Deu início em 1722 a uma guerra contra os portugueses que duraria cinco anos sob seu comando e mobilizaria mais de trinta nações indígenas – é considerada a maior campanha anticolonialista do século XVIII na região do Amazonas. “Durante esse período, os manaos e seus aliados conseguiram impedir a expansão do projeto colonial em toda a calha do Rio Negro”, afirma Vieira. “Eu precisava mostrar que houve resistência dos indígenas.”

Ajuricaba morreu em 1727. Capturado pelos portugueses, foi levado a Belém para receber sua pena. Na embarcação que o transportava, tentou uma insurreição – sem sucesso. Encurralado, atirou-se no Rio Amazonas. “Ele era dono do seu próprio destino e não abriu mão disso”, comenta o roteirista.

Após a morte do líder, os manaos continuaram resistindo à dominação portuguesa, mas acabaram dizimados em 1730. Mesmo de sua língua, hoje extinta, não restou muita coisa: apenas 140 vocábulos, traduzidos para o latim em Glossaria Linguarum Brasiliensium (Glossários das línguas brasileiras), livro do naturalista alemão Carl Friedrich Philipp von Martius, publicado em 1867. Vieira incorporou alguns dos termos sobreviventes no roteiro, como huena (vamos), que na HQ serve de grito de união aos guerreiros manaos.

As lacunas da história foram preenchidas pela imaginação do roteirista. No fim da publicação, ele explica o que é realidade e o que é ficção. É verdade, por exemplo, que Ajuricaba desafiou os europeus, como consta de uma carta enviada por colonizadores a dom João v, rei de Portugal, em que o indígena é descrito como “infiel”, “soberbo e insolente”. Na HQ, ele é também impiedoso quando necessário, mas Vieira acrescentou uma dimensão emotiva à personalidade de Ajuricaba para cultivar a empatia do leitor. “A gente sempre se identificou mais com os portugueses. Tive que fazer o caminho contrário para que o leitor se importasse com os indígenas, não com os colonizadores”, diz.

Apesar da pandemia, foi possível distribuir a HQ impressa em todas as bibliotecas de Manaus e em algumas escolas públicas. Vieira quer conquistar principalmente os leitores mais jovens, que insistem em se mirar na imagem de personagens estrangeiros. Agora eles terão um herói brasileiro pelo qual torcer – ou, melhor, “um herói genuinamente manauara”, como prefere o roteirista.



Camille Lichotti

Estagiária de jornalismo na piauí