esquina

Aleluia, Camará!

Capoeirista evangélico domina a Bíblia e a ginga

Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Eram oito da noite quando o segurança Rodrigo Teixeira, de 32 anos, chegou à Igreja Pentecostal Nova Vida, no subúrbio carioca de Rocha Miranda. Vestia calça branca e uma camisa de padrão camuflagem. Cumprimentou o pastor e, com a permissão dele, começou a mover as cadeiras para abrir um grande círculo na assembléia. Enquanto o coro feminino terminava de ensaiar, juntou cinco pessoas no centro da clareira e ordenou: “Vamos lá! Gingando!” Há três anos, uma vez por semana, ele e seus alunos se reúnem na igreja para os treinos da Associação de Capoeira Missionária. Até pouco tempo atrás, as palavras “capoeira” e “evangélico” só costumavam aparecer na mesma frase em boletins de ocorrência. Não mais.

Teixeira, ou contramestre Arrepiado, sua alcunha no mundo da capoeira, é um homem pequeno e atarracado, que carrega no braço esquerdo a tatuagem de um berimbau. “É da época em que eu não era protestante”, explica. “Hoje eu sei que o corpo é o templo do Espírito Santo. Não cometo mais esse tipo de violência.” Ele começou a jogar capoeira aos 9 anos. Aos 25, converteu-se ao protestantismo e abandonou a luta, porque capoeira era uma prática associada ao candomblé. O hiato duraria quatro anos. Um dia, um amigo lhe mostrou o CD Capoeira Missionária I, que numa das faixas trazia a (para ele) seminal O Mestre se Converteu. A letra se perguntava: Cadê o Mestre,/ que dizia, que cantava,/ que na rua ele batia,/ que na roda ele matava? E respondia: Se converteu,/ o Mestre se converteu. Olha aí, meu camará,/ quero ser amigo seu.

Era a sua estrada de Damasco: “Foi como se eu tivesse sido chamado para fazer aquele trabalho.” Tomado de entusiasmo, resolveu levar a gravação ao pastor. Este respondeu que na igreja dele podia haver judô, jiu-jítsu, caratê, sumô e até vale-tudo, mas capoeira, não. O apóstolo teimou e convenceu o guia espiritual a ouvir a obra em casa. Equânime, propôs: “Se Deus responder que sim, amém. Se responder que não, amém também.” Ao ouvir a passagem que dizia Deixei de ser mandingueiro,/ não carrego mais patuá./ Jesus Cristo é mais forte,/ pra livrar da morte, olelê,/ pra livrar da morte, olalá, o pastor concluiu que Deus emitira um sim.

Teixeira fundou então a Associação de Capoeira Missionária, cujo estatuto reza: “Dentre os ensinamentos que Cristo nos deixou, destacamos o domínio próprio, a solidariedade, a honestidade, o respeito e a amizade, além do exercício físico requerido pela capoeira.” Embora ainda não tenham encontrado a passagem exata do Novo Testamento em que Jesus alude ao exercício físico requerido pela capoeira, os pentecostais se deixaram convencer, de sorte que hoje, com três anos de vida, o grupo já se multiplicou em quatro núcleos. Para abrir uma filial, o capoeirista precisa dominar os códigos da luta e da Bíblia. “Não pode só ser evangélico”, Teixeira ensina. “Tem que saber transmitir a palavra de Deus. Nós somos missionários.”



Os pontos de capoeira foram adaptados. Teixeira mistura rimas religiosas com cantigas tradicionais, desde que não façam referência a orixás: “Uma que nós sempre cantamos é Paranauê“, que ele considera “só uma música sobre o estado do Paraná”. Seu estilo de lutar mudou depois da conversão, diz ele. “Antes a minha filosofia era: ‘Eu jogo a minha capoeira, você joga a sua. Mas se você tentar me dar um chute, eu te dou um soco primeiro.’ Agora, quando vejo que alguma coisa está para acontecer, paro a roda e pergunto: ‘O que é que você vai ganhar com isso? Vai valer a pena?'” Caso o oponente não seja lá muito cristão e Teixeira acabe tomando um chute no rim, simplesmente oferece o outro.

No palco, cerca de trinta mulheres gritam numa sessão de descarrego: “Jesus!”, “Senhor!”, “Satanás!”, “Aleluia!” Teixeira põe um CD no aparelho de som. Ouve-se um berimbau, iniciando a primeira música: A chuva cai, molhando o chão./ Sou capoeira cem por cento, meu irmão./ Cem por cento com Jesus./ Cem por cento é o Senhor./ O Senhor tem toda a glória,/ toda a glória e louvor. Com piruetas precisas, ele rasga o salão de ponta a ponta e pede aos alunos que o imitem. Eles obedecem diligentemente.

Às nove da noite, depois de uma breve roda de que só três dos dez alunos participam, Teixeira interrompe a música para se pronunciar. Parabeniza três meninas: “Estão assimilando rápido.” Lembra que o uniforme custa 30 reais e pede aos alunos que tragam mais fiéis. Põe a mão na cabeça de um garoto de 6 anos – “Esse é o Jônatas, nosso discípulo. Uma salva de palmas pro Jônatas.” – e, em seguida, com a autoridade de um pastor, comanda o último exercício do dia: “Vamos orar. Eu amo jogar capoeira, mas amo muito mais a presença de Deus.”

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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