esquina

Alô, iniludível!

Projeto editorial ousado aproxima o leitor do fim

Clarissa Barreto
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Dois velórios estavam em curso naquela manhã de terça-feira. No único crematório de Porto Alegre, sob a atmosfera de desalento, vozes baixas expressavam sentimentos contidos. Previsivelmente, a última coisa a passar pela cabeça dos presentes seria folhear uma revista – e no entanto, elas estavam ali, três exemplares na mesa da recepção, oferecendo-se gratuitamente a algum vivente que naquela hora sofresse também de tédio. Apropriados ao local e à ocasião, tratavam do assunto que arrastara todos àquele estabelecimento. Sim, exato: debatida, dissecada e exposta de ângulos variados, a Indesejada das gentes, no esplendor de seu triunfo lúgubre, ocupava todas as páginas do primeiro número da In Memoriam.

A revista jazia – era o caso de dizer – intocada à porta do crematório. Até o capelão, a quem os ossos do ofício impõem certa intimidade com a matéria, abriu mão de se atualizar, preferindo folhear a Bíblia enquanto esperava o momento de encomendar os mortos do dia. Pena, porque tanto ele como os entes queridos perderam uma preciosa dica de viagem: o roteiro de um passeio pelo Père Lachaise, o cemitério parisiense onde descansam, em meio a uma multidão de celebridades, Jim Morrison, Oscar Wilde, Proust, Balzac, Molière, Chopin, Edith Piaf e, para os que acreditam que ele não se encontra alhures, Allan Kardec.

Eles também não ficaram sabendo que a cremação “é um dos hábitos mais antigos da história da humanidade” (página 16), não aprenderam como se faz um inventário extrajudicial e não tiveram conhecimento do que respondeu o gaúcho Carlos Urbim – jornalista e autor de livros infantis nascido em 1948 –, ao ser confrontado com a seguinte questão: “O senhor simpatiza com o culto à memória das pessoas que já morreram?”

Apesar dos sinais em contrário daquela terça-feira, os 6 mil exemplares da In Memoriam, impressos em janeiro, estão se esgotando. Assim garante o idealizador e publisher da revista, o administrador e especialista em marketing José Elias Flores Jr., não por acaso diretor e herdeiro da Cortel, empresa que administra nove dos maiores cemitérios e crematórios do Rio Grande do Sul.

Flores Jr., que tem em seus arquivos 150 mil sepultados e 7 mil cremados, expõe alguns cálculos para demonstrar que a revista já nasceu sabendo o caminho: “Ela é distribuída nos saguões, na administração, na cafeteria e em alguns outros pontos do empreendimento. Se em cada sepultamento vão 50 pessoas, isso contando por baixo, com 70 cremações por mês já dá 7 mil pessoas” – na verdade, 3 500 – “se metade delas pegar um exemplar, vai faltar revista.”

 

Em seu escritório, que por essas coisas da vida fica na rua Natal, Flores Jr. conta que cogitou distribuir a In Memoriam além dos cemitérios, em cafés, lojas e “outros pontos culturais”, mas anteviu alguma resistência. “O nosso tema não é muito simpático”, lamenta. Ele não concebeu a revista por razões utilitárias ou mercantis. Seu desejo é provocar uma reflexão sobre a finitude. “Fizemos uma pesquisa e descobrimos que a pessoa está disposta a falar do assunto, por exemplo, quando morre o pai de um amigo. É aí que o assunto entra na vida das pessoas. Então, nessa hora em que elas vão ao empreendimento, pensamos em aproveitar para pensar sobre a coisa, mas não com uma abordagem publicitária.”

Como todo visionário que descobre um nicho de mercado, Flores Jr. jura de pé junto que no vasto mundo editorial brasileiro há lugar para uma revista sobre a morte. Há muito o que dizer, e sem encher linguiça: “Só na primeira reunião, tivemos quarenta ideias de pauta.” Ele mesmo não escreve, só propõe. A In Memoriam é redigida por um jornalista da empresa que faz a assessoria de imprensa da Cortel. O editor se orgulha particularmente da seção de frases, na qual os falecidos Mário Quintana, Mahatma Ghandi e Mark Twain, ao lado de Woody Allen, desfiam seus epigramas sobre a defunção.

“A gente tenta mostrar que o cemitério é mais do que um local onde se sepultam ou cremam os mortos”, diz Flores Jr., herdeiro também de um sobrenome que reforça sua credibilidade. “É um lugar de respeito, de tributo à vida das pessoas, de saudade, de homenagem, de história, conforto, amor, carinho e paz.”

Logo, não se trata apenas de morte, mas também de vida. É o que explica a presença de Carlos Urbim na In Memorian, fato que muito espantou ao próprio. Foi uma escolha consciente do editor: “Colocamos o Urbim porque ele faz literatura infantil, e isso dava uma quebrada na coisa.” A matéria abordou a saudade, assunto em sintonia fina com a linha editorial da revista, só que meio ausente dos folguedos da infância. Talvez por isso a reportagem não tenha arrancado nada muito original de Urbim. Como meia humanidade, ele prefere pensar nos momentos de convívio com a pessoa partida, e param por aí as suas simpatias pelo culto às pessoas que já morreram. Aliás, em crítica involuntária a Flores Jr., o escritor deixa claríssimo que, de empreendimentos, o que ele quer é distância.

Vivo e com saúde até o fechamento desta edição, Urbim comentaria depois: “Achei tudo estranhíssimo. Nem imaginava o que seria uma revista sobre cemitérios.” Ninguém o censuraria pela ignorância, pois, até onde foi possível apurar, não existe outra publicação do gênero no país, quiçá nem nesta Terra. O ineditismo da In Memoriam de fato surpreende, visto pulularem nas bancas os periódicos especializados em unhas, cabelos, cães, bordados em ponto-cruz e 500 maneiras de enlouquecer um homem na cama, temas importantes, não se discute, mas tão menos pertinentes à condição humana.

Clarissa Barreto

Leia também

Últimas Mais Lidas

Sem máscara, no meio da fumaça

Entre o combate às queimadas e o resgate frustrado de um bicho-preguiça, a rotina de trabalho de um bombeiro na Amazônia em chamas

Foro de Teresina #69: O racha no bolsonarismo, as derrotas do Posto Ipiranga e a farra do fundo eleitoral

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

O patriotismo como negócio

Vendas da Semana do Brasil, criada para incentivar consumo apelando ao Sete de Setembro, ficam 40% abaixo do esperado pelo governo

Maria Vai Com as Outras #3: Quero ser mãe, não quero ser mãe

Uma editora e uma advogada e escritora falam sobre os desdobramentos na vida de uma mulher quando ela decide ter ou não ter filhos

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

Passarinho vira radar de poluição

Pesquisadores usam sangue de pardais para medir estrago de fumaça de carros e caminhões em seres vivos

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

Mais textos
1

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

2

Que falta faz uma boa direita

Bolsonaro e o liberalismo no Brasil

4

O patriotismo como negócio

Vendas da Semana do Brasil, criada para incentivar consumo apelando ao Sete de Setembro, ficam 40% abaixo do esperado pelo governo

5

A casa da memória

Mentir para tratar a demência

7

Sem máscara, no meio da fumaça

Entre o combate às queimadas e o resgate frustrado de um bicho-preguiça, a rotina de trabalho de um bombeiro na Amazônia em chamas

9

Bacurau – celebração da barbárie

Filme exalta de modo inquietante parceria entre povo desassistido e bandidos

10

Sem SUS, sem saída, sem vida

Sem dinheiro para pagar dívidas médicas nos Estados Unidos, idoso mata mulher e se suicida; tragédia amplia debate sobre acesso a sistema público de saúde