Daniel Vorcaro, que refuta as suspeitas de que o empresário Nelson Tanure seja sócio do Banco Master: “Uma hora um faz aumento de capital, outra hora outro. Nada de diferente” Credito: RODRIGO KORAICHO_2023
Alta tensão
Em cinco anos, Daniel Vorcaro multiplicou o tamanho do Banco Master, com negócios de risco e parceiros explosivos. Até onde ele vai?
Consuelo Dieguez | Edição 217, Outubro 2024
A copeira coloca uma travessa com pães de queijo e uma garrafa térmica com café sobre a grande mesa de vidro, em uma sala de reuniões do Banco Master, no quinto andar do Pátio Victor Malzoni, o mais badalado prédio da Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. O edifício com duas torres interligadas tem inquilinos famosos, como o Google e o BTG Pactual. O aluguel mensal de um andar de 2 mil m² está na casa dos 560 mil reais. O Master ocupa quatro deles, em torres diferentes. Nada mal para uma instituição que entrou no jogo financeiro em 2019, depois de esperar dois anos para que o Banco Central autorizasse suas operações.
Sentado à mesa, Daniel Bueno Vorcaro, dono e presidente do banco, me pergunta, com seu simpático sotaque mineiro: “Aceita um cafezinho? Um pão de queijo? Tem café expresso, mas eu gosto mesmo é do coado. Só esqueceram de trazer uma xícara maior para mim, porque eu bebo muito café.” Depois, brinca: “Vamos fazer uma mini-Minas Gerais aqui.”
Da sala de reuniões tem-se uma vista panorâmica de parte de São Paulo, que parecia uma cidade ainda maior naquela manhã ensolarada de agosto passado. Ao comentar sobre o vasto espaço ocupado pelo Master no prédio, o jornalista Guilherme Barros, assessor de imprensa de Vorcaro, informa que, num ranking recente sobre as dez empresas que ocupam mais imóveis da Faria Lima – o centro financeiro do Brasil –, o Master aparece em décimo lugar, numa lista em que também comparecem o Itaú,[1] o BTG Pactual e o J.P. Morgan.
Vorcaro, contudo, intervém: “Mas vamos sair desse ranking, porque estamos deixando a Faria Lima. Vamos para outro prédio, numa travessa próxima daqui.” Comento que ele então deixará de ser um “Faria Limer”, como o próprio mercado apelidou a turma das finanças que trabalha na avenida. Vorcaro abaixa o tom da voz e dá uma resposta em que transparece certo sentimento de exclusão. “Nunca fui um Faria Limer”, diz. “Sempre fui um estrangeiro aqui.”
Pelo menos no estilo, Vorcaro não aparenta mesmo ser um deles. Embora esteja usando a tradicional camisa azul-clara da turma, por baixo do tradicional blazer azul-marinho, além da tradicional calça esportiva também azul-marinho e dos tradicionais sapatos italianos, sua estampa não se encaixa no figurino do “Condado” – outro apelido da afamada avenida. O banqueiro parece muito mais um yuppie dos anos 1980, com seus cabelos penteados para trás, fixados com gel, e um enorme relógio de grife no pulso.
Mas não é por se sentir um “estrangeiro” que ele está trocando os quatro andares na Faria Lima por um prédio inteiro, de treze andares, na Rua Elvira Ferraz, 440 – a dez quarteirões do Pátio Victor Malzoni. O motivo, segundo ele, é “concentrar todas as operações do banco em um lugar só”.
Vorcaro não disfarça suas origens. “Minha família era de classe média. Meu avô paterno era protético, e meus avós maternos, funcionários públicos”, conta. “Eu não pertenço à alta sociedade paulistana.” O que é óbvio. “E nem à sociedade mineira tradicional.” O que também é verdade, embora ele agora compareça sempre nas colunas sociais de Belo Horizonte, fotografado ao lado de empresários, políticos e socialites.
O jovem de classe média alta subiu como um bólido na vida, desde que iniciou seus negócios em Belo Horizonte, no ramo imobiliário, junto com o pai, Henrique Vorcaro. Hoje, é um bilionário do ramo financeiro. Voa num jato próprio de 80 milhões de reais, comprou uma das casas mais caras do país, em Trancoso, no Litoral da Bahia, por 280 milhões – os dois bens pertencem a uma empresa do grupo, diz ele – e colocou 200 milhões no seu time de futebol, o Clube Atlético Mineiro.
Seu banco, pouco a pouco, vai estendendo os tentáculos por todo o país – e mesmo fora: alugou um escritório na avenida mais valorizada de Miami, a Brickell. De 2019 a 2024 – meros cinco anos –, o patrimônio líquido do Master passou de 219 milhões de reais para 5 bilhões de reais, de acordo com o balanço do banco, divulgado em setembro. Um crescimento calcado em operações de risco que muita gente do mercado considera fora dos padrões do sistema financeiro.
Quando pergunto ao gestor de um grande e tradicional fundo de investimento sobre o banqueiro, a resposta é a seguinte: “Daniel Vorcaro? Eu não o conheço muito, mas todo mundo gosta de falar dele. Já o banco, bom, a gente não entende muito bem a estratégia dele.” E continua: “O Master não é um banco que empresta dinheiro. Ele capta recursos via depósitos a prazo, os CDBs, pagando uma taxa altíssima para os compradores de seus papéis. Com esse dinheiro que arrecada, investe em seus fundos recheados com um monte de ativos esquisitos: Light, Ambipar, CVC, Oi, Gafisa. Todas meio quebradas, né? Isso, para mim, é meio fora do comum.” A mesma dúvida povoa a cabeça de analistas financeiros, Faria Limers ou não. Para muitos, a forma como Vorcaro opera é mais do que ousada: é excessivamente ousada.
A regulação do Banco Central permite que os bancos operem com certo risco. Para cada 1 real que o controlador coloca em sua instituição financeira, ele pode comprar até dez vezes mais em ativos. Ou seja, para cada 1 real de capital, o banco pode ter até dez vezes mais em empréstimos de cartão de crédito, crédito consignado, crédito imobiliário e por aí vai. Para não se expor excessivamente, a maioria dos bancos brasileiros opera – ou se alavanca, no jargão do mercado – seis vezes, no máximo, para cada 1 real de capital. O Master opera no limite permitido pelo Banco Central: dez vezes, com ativos que são investimentos em empresas problemáticas, e não empréstimos seguros.
A discrepância com as práticas tradicionais das instituições financeiras não acaba aí. A maioria dos bancos, para captar o dinheiro com o qual toca suas operações, como empréstimos e outros produtos, emite CDBs a taxas de juros que não ultrapassam 98% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), cujo valor se aproxima da famosa taxa Selic – que levou a muitas quedas de braço entre o presidente Lula e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. O Master, porém, oferece o seu CDB a uma taxa de até 130% do CDI, muito acima da praticada no mercado.
“A operação poderia até ser compreendida como uma ação mais agressiva para atrair mais dinheiro para o banco, caso ele aplicasse esses recursos que arrecada em negócios de alto retorno”, diz um gestor. “Mas o que ele faz é justamente o contrário: capta dinheiro a um custo muito alto e investe em empresas em dificuldade. Sua aposta é que, lá na frente, essas empresas se tornarão rentáveis, e ele poderá ter um imenso lucro. É uma jogada arriscada, claro. Se as empresas não tiverem bons resultados, o Master pode vir a ter um problemão.”
O que mais chama a atenção, e preocupa, é o fato de o banco ter colocado na praça 40 bilhões de reais em CDBs, também segundo o seu balanço. É um valor assombroso para uma instituição classificada pelo Banco Central como S3, ou seja, um banco pequeno. Em 2019, o Master tinha 2,5 bilhões de reais em CDBs emitidos. Em 2022, já eram 17,4 bilhões de reais. Em 2024, alcançou os 40 bilhões de reais.
“Há uns três anos, o mercado nem dava bola para o Master. Agora, com essa quantidade boçal de CDBs que está colocando no sistema, não tem como ignorá-lo”, diz o diretor de um fundo de investimento médio, que preferiu não se identificar “para não criar cizânia”. O mesmo diretor explica que “esses 40 bilhões representam um terço do total do Fundo Garantidor de Créditos”.
Criado em 1995 e bancado por todas as instituições financeiras, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é uma proteção para evitar uma crise sistêmica no mercado, em caso de quebra de alguma delas. O FGC hoje tem 132 bilhões de reais. A montanha de dinheiro é uma garantia de que os investidores não perderão suas aplicações e serão ressarcidos, caso o banco onde têm conta entre em colapso. É uma segurança para quem tem investimentos. Mas há um limite: o ressarcimento é até 250 mil reais por CPF ou CNPJ.
Daniel Vorcaro tem 41 anos (completados em 6 de outubro). É gentil e de fala mansa. Não costuma gesticular as mãos – no máximo, aperta e puxa os dedos, num gesto que denota certa ansiedade. “É uma figura tão adorável no trato que você tem vontade de colocá-lo no colo”, me diz um jornalista que teve contato com Vorcaro no passado. “É um sedutor. Mas, não se engane, é esperto. É frio. E sabe reagir.”
Esse outro lado do banqueiro emerge na minha conversa com ele quando lhe conto o que me disseram a respeito da emissão desmedida de CDBs. “Não tenho medo de crítica”, rebate, demonstrando incômodo, mas sem ênfase na voz. “A gente não acerta sempre. Porém, a crítica tem que ser embasada. Quando alguém fala, eu quero saber quem falou e por que falou. Agora, boatos? Dizer que o banco está alavancado porque emite muito CDB? Isso é gente sem informação. É só o cara ligar para o Banco Central e perguntar. Eu não tenho nada a temer.”
Pergunto se ele acha que os comentários do mercado decorrem de preconceito. “Tenho certeza absoluta”, diz. “Isso acontece por eu ser um outsider. E não é só preconceito. São pessoas que querem nos frear e ficam usando coisas ruins contra nós. É um ataque desnecessário.” Por fim, acrescenta: “A grande questão é se você está captando para fazer boas coisas. E nós estamos.”
Até o momento, um negócio que deu certo foi a reestruturação da Restoque (que em 2022 mudou de nome para Veste), empresa varejista de moda, dona de grifes como Le Lis Blanc e John John. Outros negócios estão em andamento. Entre as empresas nas quais o banco tem participação com objetivo de reestruturação estão a Light, a construtora Gafisa, a telefônica Oi, a rede de lojas de decoração Westwing, a empresa de saúde Aliança, a companhia de serviços ambientais Ambipar e a rede Oncoclínicas. Todas são classificadas pelo mercado na categoria das empresas problemáticas que Vorcaro espera recuperar. “Eu construí minha vida fazendo reestruturação”, diz ele. “Acho que, hoje, um pouco do que a gente faz no banco vem lá de trás. Gosto de entrar em empresas. Sejam startups, sejam companhias que precisam estruturar a dívida ou a gestão.”
A rejeição ao Master e a Vorcaro não é um sentimento geral. Parte do mercado faz negócios com ele e ganha muito, mas muito dinheiro. É o caso da XP Investimentos, uma das maiores distribuidoras de CDBs do Master. Como o banco de Vorcaro não tem agências nem clientes em volume suficiente que possam comprar os seus papéis, ele os repassa para algumas plataformas de investimento, que vendem os títulos para os clientes delas. O mercado estima que a maior parte dos papéis do Master seja, hoje, distribuída pela XP, que já deve tê-los repassado para cerca de 200 mil investidores.
Outra instituição que também faz operações expressivas com o Master é o BTG Pactual, o banco de André Esteves. O BTG, inclusive, é parceiro, em Goiânia, do Voga, um escritório de investimentos que tem entre seus sócios Felipe Vorcaro, primo de Daniel. Esses escritórios são empresas terceirizadas que captam recursos junto a seus clientes e os aplicam em plataformas de investimento, como o BTG e a XP. Existem atualmente no Brasil cerca de 20 mil assessores de investimento terceirizados, dos quais 15 mil trabalham para a XP. Felipe Vorcaro é sócio de um escritório grande, com 2 bilhões de reais em custódia. Mas, em Belo Horizonte, até pouco tempo, ele era mais conhecido por sua intensa vida social e seu gosto por carros importados.
Os CDBs do Master são muito lucrativos tanto para quem tem dinheiro aplicado nesses papéis, como para as instituições que os negociam. Isso porque o Master paga uma comissão muitíssimo acima da média do mercado para os bancos, corretoras e agentes que distribuem os seus certificados – 4% para cada CDB distribuído. As outras instituições pagam, no máximo, 0,5% de comissão. Por isso, tantos operadores querem fazer negócio com o Master. “Não vejo nada demais nisso. Muitas vezes é melhor a gente pagar um prêmio um pouquinho maior e ter acesso a esses investidores, assim como o que pagamos a mais pelos nossos CDBs nem é tão acima do mercado”, diz Vorcaro, enquanto toma mais um gole de café. “Precisamos crescer nessas captações para ter fundo para nossos outros negócios. Mas o que pagamos a mais é muito marginal.”
Nem tanto. Na sua propaganda diária, a XP anuncia esta oportunidade de investimento: “CDB do Master a 121% do CDI. Com garantia do FGC.” No mesmo anúncio, o CDB da Caixa Econômica Federal, é oferecido a 95% do CDI. O BTG também oferece os papéis do Master aos seus clientes, com a mesma isca: de que podem ter ganhos muito atrativos, garantidos pelo FGC. “Não há como o cliente ter prejuízo. O fundo cobre a carteira até 250 mil reais. É um negócio seguro”, diz um analista.
Não é o que pensa o diretor de uma gestora de fundos. “É muito fácil você vender um papel de risco afirmando que tem a garantia do FGC. Mas o FGC não foi criado para que as pessoas especulem com ele e façam operações irresponsáveis, sabendo que o fundo banca”, diz. “O FGC não foi criado para bancar risco, e sim para evitar que problemas com alguma instituição abalem todo o sistema.” Vorcaro reage a observações desse tipo: “Como foi que os pequenos puderam ter um lugar ao Sol nos últimos anos e ter a possibilidade de crescer? Foi com o advento do FGC e das plataformas de investimento.”
Perguntei à XP por que recomendava os papéis do Master aos clientes. Por meio de sua assessoria, a instituição disse que não falaria do assunto, porque o volume de negócios com os papéis do Master “é tão pequeno perto de sua carteira total de 1 trilhão de reais” que não se ateria “àquele papel específico”. Também afirmou que possui 4,6 milhões de clientes – um número infinitamente superior aos cerca de 200 mil que o mercado estima possuírem o CDB do Master distribuído pela XP.
O BTG não respondeu às perguntas da piauí. Mas seus operadores garantem que fazem negócios não só com os papéis do Master, mas com os de todos os bancos menores, e sempre até o limite de 250 mil reais. De modo que os investidores estão salvaguardados contra problemas que qualquer um desses bancos pequenos possa vir a ter. Operadores dizem que o Banco Central faz uma fiscalização rigorosa sobre todas as instituições, inclusive o Master, para evitar que o sistema venha a ter problemas.
Daniel Vorcaro se indigna com os comentários “maldosos” do mercado e diz que isso vem de gente que teme a concorrência. “Acontece que o setor financeiro é muito concentrado e não quer novos entrantes. Então, ficam atacando não só o Master, mas vários outros bancos pequenos e médios.” Ele tem razão quando fala da concentração bancária no Brasil. Cerca de 55% do mercado estão nas mãos de apenas quatro bancos: dois públicos (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) e dois privados (Bradesco e Itaú).
Para atrair novas instituições para o sistema e aumentar a competição, o Banco Central autorizou, há alguns anos, a criação das plataformas de investimento, como a XP. A tecnologia, aliada à garantia do FGC, abriu o mercado para pequenos investidores que não tinham acesso aos grandes bancos, que cobravam caro para aceitá-los como clientes. Foi um sucesso e também uma revolução no sistema, porque viabilizou o surgimento de pequenas instituições, que, graças ao apoio das plataformas, não precisam de agências para vender seus produtos, o que seria muito oneroso para elas. Impraticável, até.
Tudo nesses novos bancos é feito de forma virtual, e o custo para os clientes é muito baixo, o que permite que pessoas com menos recursos tenham conta bancária e consigam fazer, com a ajuda das plataformas, investimentos mais atrativos do que a caderneta de poupança. Na XP, por exemplo, é possível aplicar em qualquer CDB, seja de um banco pequeno ou de um grande, como a Caixa, um valor mínimo de 1 mil reais. “Não fomos só nós que nos beneficiamos dessa nova era de investimentos”, diz Vorcaro, citando o Nubank, o SoftBank, o Inter, o C6. Mesmo assim, segundo ele, o mercado continua concentrado nas mãos dos grandes. “O esforço do Banco Central não mexeu muito no ponteiro da concentração. No fim das contas, quem apareceu mais? Nós e esses poucos que citei. É um jogo muito difícil.”
Sem se exaltar, ele prossegue com sua crítica. “Eu tive muita resiliência, porque precisei esperar dois anos para ter autorização do BC para operar. Nesse mercado, a barreira é muito grande. Nos últimos anos, vários bancos médios saíram do circuito, incorporados por bancos estrangeiros. E os estrangeiros, por sua vez, saíram do Brasil. Nos Estados Unidos existem quase 5 mil bancos. Aqui, temos poucos operantes, sendo que quatro – os grandes – ficam com mais da metade do mercado.”
Os ataques ao Master, evidentemente, o desgastam. “São desmedidos. Eu nem tenho tamanho para incomodar, mas a gente está sentindo isso na pele.” E diz que essas pressões acontecem porque o setor está mudando. “O fato é que nós estamos saindo de uma era em que o setor bancário ficava nas mãos de grandes famílias. Agora, aparece um sujeito, como o colombiano David Vélez, faz o Nubank e o transforma em uma das grandes instituições da América Latina. Isso é uma quebra de paradigma, e nós estamos no meio dela.”
E por que ele insiste num negócio que considera tão espinhoso?
Na sala de reuniões do Master na Faria Lima, Daniel Vorcaro, estático em sua cadeira – ele praticamente não se movimenta enquanto fala –, conta que, desde a adolescência, teve vontade de empreender. Aos 15 anos, numa viagem com colegas à Disney, em Orlando, chamou a atenção dos organizadores por sua capacidade de liderança. Acabou sendo convidado para ajudar na organização das viagens. Ganhava dinheiro e se divertia, ao mesmo tempo.
Ele credita seu interesse por negócios a dois fatores. Primeiro, ao espírito empreendedor de seu pai, Henrique Vorcaro. Segundo, à escola onde estudou, a Fundação Torino, um colégio de elite na capital mineira. “Eles ensinavam a empreender. Eu me saí tão bem que ganhei uma bolsa para estudar em Turim, na Itália, numa escola de negócios, com a perspectiva de ficar por lá. Mas qual seria meu futuro? Trabalhar para os outros, e eu queria ter a minha empresa.” Preferiu cursar economia na filial do Ibmec em Belo Horizonte, onde fez também um MBA em finanças.
Daniel Vorcaro conta que foi um adolescente pacato. Gostava de ficar em casa, tocando violão, e de praticar esporte, o que, na sua visão, lhe deu foco e senso de responsabilidade. Parte da introversão tem a ver, de novo, com Henrique Vorcaro. Seus pais se casaram muito cedo, o pai tinha 20 anos, e a mãe, 16. Quando Daniel nasceu, alguns de seus tios mais novos eram quase da sua idade. O problema é que, por ser muito jovem, o pai levava uma vida mais boêmia, gostava de festas e de farrear com os amigos pelos bares.
A história da família – composta também por Natalia, a irmã três anos mais nova – começou a mudar quando o avô, Serafim Vorcaro, um imigrante italiano, resolveu dar um basta nas esbórnias do filho. Serafim deixara o catolicismo e se convertera ao protestantismo. Tornou-se pastor e chegou a ter uma igreja. Achou que Henrique precisava de uma liderança espiritual mais rígida que a dele próprio para dar um rumo novo na vida. Então, levou-o para a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, à época comandada pelo pastor Márcio Valadão.
A conversão funcionou, e Henrique se aquietou. Passou a se dedicar ao ramo de corretagem de imóveis, no que foi bem-
sucedido. Grato ao pastor Valadão pela virada em sua vida, Henrique passou a fazer significativas doações à Lagoinha. Esse suporte viabilizou a compra para a igreja, em 1997, de uma emissora de tevê, a Rede Super, que pertencia a um ex-executivo da Rede Globo.
Daniel Vorcaro, que gosta de música, ganhou então um programa musical na tevê comprada com a ajuda do seu pai. Durante um tempo, ele apresentou uma atração chamada Supersônica. “Nossa, de onde você foi desenterrar isso?”, ele me pergunta, um tanto embaraçado, quando abordo sua antiga atividade de apresentador na tevê evangélica. Seu gosto musical é eclético: gosta de rock a ópera. Peço que cite algumas das suas preferências. Ele pensa um pouco e menciona Rolling Stones, Led Zeppelin e The Who. Quanto às operas, diz apenas: “Gosto de todas.”
Os laços dos Vorcaro com a Igreja Batista da Lagoinha se estreitaram. Certa vez, o filho do pastor Márcio, André Valadão, hoje o novo líder da igreja, confessou para os amigos que gostaria de ter uma BMW. O desejo era tamanho que ele comprou o carro à prestação. Logo, passou a ter dificuldades para quitar a dívida. Ao saber do aperto, Henrique Vorcaro rasgou as promissórias e bancou o sonho do rapaz. A felicidade foi tamanha que André Valadão anunciou, na igreja, para todos os fiéis, que “Deus fez um milagre”. Até hoje as famílias Vorcaro e Valadão são amigas. Ambas progrediram na vida.
A Igreja Batista da Lagoinha é uma das mais relevantes da comunidade evangélica. Neste ano, comprou em Itu, no interior paulista, a antiga sede do programa A Fazenda, da Record, por 6,5 milhões de reais. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o deputado federal André Janones (Avante-MG), embora antípodas ideológicos, são ambos ligados a essa igreja, que é muito cortejada por políticos e já apoiou as candidaturas de Marina Silva e Dilma Rousseff. Hoje, André Valadão, que se mudou para Miami, diz que jamais apoiou Marina, a quem chamou de “bandida, louca”, por estar ao lado do PT. Na última eleição, a igreja apoiou Jair Bolsonaro, que costumava frequentá-
la com a mulher, Michelle.
Embora não vá aos cultos religiosos com frequência, Daniel Vorcaro diz ter uma espiritualidade acentuada. Não só ele, mas toda a sua família, inclusive os filhos Stella e Tiziano, de 16 e 13 anos. O banqueiro acha, inclusive, que a fé é responsável por sua resiliência. “Não sou de frequentar cultos. Mas gosto de ficar no templo, orando e conversando com Deus”, conta. “Eu sou uma pessoa muito ligada aos valores da família. Me casei muito cedo, aos 23 anos, e sou muito próximo dos meus filhos, que são pessoas maravilhosas.” Pergunto se isso tem a ver com a Lagoinha e a proximidade com os Valadão. Ele responde que não tem tanta proximidade assim. Lembro então que a filha dele, Stella, em sua festa de aniversário de 15 anos, dançou a valsa com o filho de André Valadão, Lorenzo. “Os dois são amigos de colégio”, responde Vorcaro.
A festa jogou sobre o banqueiro os holofotes da mídia em razão do exagero de gastos: cerca de 15 milhões de reais, segundo a imprensa de Belo Horizonte. O assunto provoca nele um incômodo visível. “Isso é mais uma forma de preconceito. Fiz o aniversário da minha filha, na minha casa, com o meu dinheiro. E vou fazer uma festa também grande de casamento para ela. É minha filha”, diz Vorcaro. “Não sei por que ficaram falando tanto dessa festa. Só porque chamei o DJ Alok [também chamou o Chainsmokers, um duo de DJs famosos]. Teve gente do mercado de São Paulo que gastou muito mais do que eu, que fez festa em Israel e ninguém fala nada.”
De seus familiares, os mais envolvidos com a religião são sua irmã Natalia Vorcaro Zettel e o marido, Fabiano Zettel, advogado e filho de uma desembargadora de Minas Gerais. O casal Zettel fazia parte da Igreja Bola de Neve, onde o próprio Fabiano era pastor. Depois do escândalo envolvendo o líder da Bola de Neve, o apóstolo Rina (Rinaldo Luiz de Seixas Pereira), acusado pela mulher de violência doméstica, o casal se transferiu para a Igreja Batista da Lagoinha, onde Fabiano continuou como pastor.
Fabiano Zettel trabalhou com Vorcaro no passado. Hoje, tem seu próprio negócio, que também cresceu rápido. Ele é dono do fundo de investimento Moriah, que opera com empresas focadas em “saúde e bem-estar”, e tem investimentos com o BTG Pactual. Nas eleições de 2022, Zettel foi o maior financiador individual de duas candidaturas: a de Bolsonaro à Presidência (doou 3 milhões de reais) e de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo (2 milhões).
Pergunto a Vorcaro se a relação de Zettel com os dois políticos opositores do atual governo o atrapalha. Ele diz que não tem nada a ver com os negócios nem com as inclinações políticas do cunhado. “Eu não me envolvo nessa questão política. Fiz zero doação de campanha. Até porque, pela minha posição, não posso ter definição política”, afirma. “Meu cunhado é advogado e, no passado, prestou serviços para mim. Mas ele tem a vida dele. Tem uma empresa de mineração. Tem um fundo de nutrição saudável. A inclinação política dele não me afetou em nada. Sou totalmente diferente dele.”
A posição ocupada hoje por Vorcaro o leva frequentemente a Brasília, para conversas com várias instâncias do poder. Esses contatos mudaram sua forma de encarar a política. Ficou “menos preconceituosa”, diz. Sua opinião é que, apesar do Oito de Janeiro – quando os bolsonaristas promoveram a intentona golpista invadindo e vandalizando os prédios dos três poderes da República –, “a gente continua com um Congresso forte, um Judiciário forte e um Executivo funcionando”.
Habilidoso, ele prefere se salvaguardar de opiniões extremas. “Hoje vejo virtudes em políticos de várias vertentes. A gente passou por um período de hostilização da política. E tem muita gente boa ali em Brasília.” Ao ser instado a citar nomes de políticos que admira, ele desconversa. “Não tem ninguém específico. Acho até ruim eu citar, né? Tenho um trânsito bem eclético em Brasília, o que acabou sendo necessário para as discussões que envolvem meu setor.”
Embora não queira citar, um dos políticos com quem tem contato é o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro e que vive em embates com o governo Lula. Foi Nogueira que, em agosto, propôs o aumento da indenização do FGC de 250 mil para 1 milhão de reais, além de o fundo ter gestão pública. A proposta foi imediatamente rechaçada pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e engavetada. Vorcaro diz que, pensando em crises financeiras globais, como a de 2008, seria importante que o governo criasse salvaguardas para evitar riscos sistêmicos, e não contasse apenas com o FGC. “O sistema financeiro é o motor da economia. Se houver alguma crise macro que abale o sistema de forma generalizada, o governo tem que intervir. Então, existe um ajuste a ser feito. Mas não acho que será agora. A proposta não foi bem-aceita.”
Outro de quem ele se aproximou foi do mineiro Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro do governo Lula e amigo do presidente. O político licenciado e empresário tornou-se parceiro de Vorcaro e do Master na Biomm, uma farmacêutica que produzirá insulina e uma droga similar ao Ozempic, receitado para diabetes, mas que também se tornou popular em programas de emagrecimento. Por causa do novo medicamento, as ações da Biomm na Bolsa de Valores subiram 30% quando o negócio foi anunciado. A estimativa é que o medicamento comece a ser produzido em 2026.
Vorcaro é o maior acionista da Biomm, cuja fábrica foi inaugurada em 26 de abril passado, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, com a presença de Lula. O presidente chegou a chorar durante seu discurso, no qual agradeceu a Mares Guia – que chamou de “grande amigo” – pelo empreendimento que irá produzir remédio “acessível para que a gente possa distribuir de graça aos brasileiros que sofrem de diabetes”. O BNDES entrou como parceiro da nova farmacêutica, com 5,52% de participação.
A Biomm ganhou outros sócios, que o Master ajudou a financiar, como a wnt Capital, uma gestora de recursos controlada por Valério Marega Júnior, um ex-produtor rural de Uberaba, “com muitas conexões com o agronegócio”, como ele próprio afirma. Em seu site, a WNT informa ter 11,8 bilhões de reais em operações, o que é espantoso para uma empresa criada em 2017 e praticamente desconhecida do mercado. A WNT é parceira do Master na gestão de diversos fundos do banco, o que contraria um pouco a prática bancária de operar com gestor próprio. “Nós temos nossas gestoras, a Aman e a Macam, mas às vezes é bom usar uma que não seja nossa, para ficar abaixo do radar estratégico comercial”, diz Vorcaro. “Então, eu faço muito negócio com ele. É bom porque a gente divide responsabilidades.” Pelo crescimento meteórico da gestora, especula-se no mercado que haveria outros investidores por trás de Marega Júnior, cujo fundo está instalado em um dos andares do Master na Faria Lima. “Isso não é verdade. O Marega é o dono da WNT. Ele próprio ri das insinuações de que seria um laranja”, diz Vorcaro.
O primeiro negócio tocado por Daniel Vorcaro foi na área de educação, quando ele tinha cerca de 19 anos. A transação foi viabilizada pelo pai, que comprou um curso de segundo grau, chamado PQS Emprendimentos Educacionais LTDA, e uma empresa de livros didáticos, e entregou para que o filho administrasse. Daniel Vorcaro me diz que o negócio foi um grande sucesso. “Todo mundo falava que eu era muito jovem para ter esse curso. Sempre foi assim. Sempre tentaram dizer que eu não estava preparado para as coisas, e sempre deu certo. Sempre enfrentei preconceitos e as dúvidas das pessoas. Eu fiz a reestruturação dessa empresa e, em dois anos, a vendi.”
Há uma versão diferente. Ex-funcionários do PQS contam que a experiência, na verdade, naufragou. A gestão era confusa. Juntaram pessoas de áreas diferentes – do curso e do livro didático –, que não se entediam na forma de operar, e a experiência fracassou. O curso foi vendido para uma rede de educação de Belo Horizonte.
Em 2004, aos 21 anos, Vorcaro passou a trabalhar nos negócios do pai, que incluíam duas incorporadoras imobiliárias, a Multipar Empreendimentos e Participações e a Mercatto Corporações Imobiliárias, além da Pacific Realty, para aluguel de imóveis. Em 2011, aproximou-se dos irmãos Antonio Augusto Conte e Vicente Conte Neto, de São Paulo, herdeiros de uma administradora de cemitérios e sócios, na época, da gestora de recursos Blackwood. Essa gestora envolveu-se, junto com Henrique e Daniel Vorcaro, em um negócio ousado. Às vésperas da Copa do Mundo de 2014 a Prefeitura de Belo Horizonte decidiu dar incentivos aos empreendedores que construíssem hotéis na cidade. O grupo resolveu participar da construção do hotel Golden Tulip, em uma área decadente da cidade. A Multipar dos Vorcaro adquiriu um prédio abandonado na região e assumiu a reforma com os irmãos Conte e a RFM Construtora. A previsão era que a velha estrutura se transformasse em uma torre de vidro de 37 andares, com heliponto, restaurantes, SPA e um centro de convenções de 7 mil m².
Pelo contrato com o município, o Golden Tulip teria que estar pronto até 30 de março de 2014 para abrigar os turistas que começariam a chegar em julho. Apesar de um investimento de mais de 200 milhões de reais, com a participação da prefeitura, a obra foi paralisada, porque o dinheiro acabou. Hoje, o ex-hotel está abandonado – e a Prefeitura de Belo Horizonte cobra uma multa dos vários empreendedores, entre eles os Vorcaro, que pegaram o dinheiro público e não entregaram as obras. De acordo com a imprensa local, o prédio pode se transformar em um hospital da Rede D’Or, com participação do BTG.
Com o fracasso do projeto hoteleiro, os irmãos Conte deixaram a Blackwood. Antonio Augusto Conte montou uma empresa de investimentos chamada H11 e Vicente Conte Neto criou um fundo de investimento em cemitérios, chamado Zion, do qual Daniel Vorcaro virou sócio direto, embora tenha continuado a trabalhar com o pai. O trio voltaria a se reunir, dois anos depois, quando Daniel deu a grande virada na sua vida: tornou-se um banqueiro.
A chance apareceu depois que o Banco Máxima, do paulistano Saul Sabbá, foi inabilitado pelo Banco Central em 2016 por gestão fraudulenta e rombo de caixa. Sabbá ofereceu o Máxima a Daniel Vorcaro. Era uma ação entre amigos. Daniel me disse que conheceu Sabbá somente em 2016, mas que fazia negócios com o banco desde antes, quando o Máxima lidava com os fundos imobiliários, as incorporadoras e as imobiliárias dos Vorcaro.
De posse da opção de compra do Máxima, Daniel Vorcaro procurou os irmãos Conte e propôs sociedade. Como o banco estava praticamente quebrado, eles precisariam desembolsar apenas o suficiente para a instituição voltar a funcionar. Os irmãos toparam. Mas, antes, precisavam da autorização do Banco Central. O pedido foi feito em 2017. A autorização só saiu em 2019. Em 2021, Vorcaro trocou o nome do banco para Master.
Conseguir o banco foi “um ato de obstinação”, diz Vorcaro. “Não é qualquer coisa que me abala ou me faz desistir, o que, de certa forma, atribuo à minha fé.” Ele conta a sua via-crúcis até obter a liberação do BC: “Tive que trabalhar muito com o Banco Central. Apresentar projeto. Apresentar equipe. Passei um período de quase dois anos indo umas três vezes por semana a Brasília, para conversar com o pessoal do banco. Passei até por uma diligência pessoal. Mas eu tinha uma equipe, tinha projeto. A minha proposta não era só capitalizar o banco, era criar uma instituição em outros moldes.”
Aprovado o negócio, veio o primeiro solavanco. Os futuros sócios romperam. Antonio Conte se encrespou com o próprio irmão e com Daniel, discordando da forma de operar o banco. O desentendimento foi tal que se enfrentaram fisicamente. Antonio Conte então deixou a sociedade e Vicente Conte Neto preferiu ficar na Zion Invest, tocando seus negócios com cemitérios. Mas manteve a amizade com o banqueiro.
Daniel Vorcaro começou a tocar o banco com 65 funcionários. Na época, a sede ficava na Avenida Paulista. Logo, encontrou novos parceiros. O primeiro a entrar na parada foi o baiano Augusto Lima. O encontro dos dois tem ares rocambolescos. Vorcaro conta que já tinha mudado a sede do banco para o Pátio Victor Malzoni, onde ocupava apenas o segundo andar. Em meados de 2019, Augusto Lima, que tinha “uns dois fundos na Bahia” e conseguira um “negócio interessante na área de crédito consignado”, esteve no Pátio Victor Malzoni para negociar com um banco, mas a proposta foi recusada. “Por coincidência, uma das pessoas que o acompanhava disse que tinha um banco novo operando no prédio. E eles vieram me procurar. Topei de cara o negócio e deu muito certo”, recorda Vorcaro.
O produto se chama Credcesta e é hoje uma operação rentável para o Master. Começou em 2018, quando Lima participou do leilão da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), dona da Cesta do Povo, uma rede estatal de supermercado popular que vendia produtos subsidiados pelo estado. Como o negócio dava prejuízo, o governo da Bahia, na época sob o comando de Rui Costa (PT), atual ministro da Casa Civil, resolveu privatizá-la. Os dois primeiros leilões não tiveram procura. No terceiro, Lima arrematou o Credcesta*.
Uma rede de supermercados falida não chega a ser um negócio atraente, sobretudo para quem não é do ramo. No entanto, inesperadamente, em 27 de abril de 2018, apenas dezesseis dias depois de Lima arrematar o negócio, o governador Rui Costa assinou um decreto que transformou o Cesta do Povo em uma mina de ouro. Autorizou que “os servidores e empregados públicos, ativos ou aposentados, e pensionistas da administração direta e indireta do estado, nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário” pudessem fazer compras por meio do Credcesta, um programa de crédito consignado, que desconta o pagamento em folha. Os servidores teriam agora um cartão de crédito pré-aprovado – com limite de até 30% de sua renda – para gastar no Cesta do Povo.
Rui Costa foi além. Autorizou o detentor dos direitos de exploração comercial do cartão do programa Credcesta, ou seja, Augusto Lima, a “modificar, ampliar, aperfeiçoar e diversificar a funcionalidade do cartão referido, a este podendo associar a ampliação de rede de compras e a contratação de serviços, inclusive comerciais, creditícios, financeiros, securitários e congêneres”. De uma só penada, Lima poderia fazer negócios com todos os servidores da Bahia sem correr qualquer risco de inadimplência. Clientela garantida, com pagamento garantido. Hoje, o banco faz esse tipo de operação consignada com 24 estados da federação.
Foi um empurrão gigantesco para o Master, que mal começava a andar. “Como eu queria um negócio de varejo que fosse seguro, falei para o Augusto: ‘Olha, se for dessa maneira que você está falando, vamos fazer o negócio.’ No dia seguinte a gente começou a operar o Credcesta.” Para tornar o cartão mais atraente, o banco criou uma cesta de benefícios para o servidor: além do crédito consignado, ele leva junto um pacote que inclui financiamento de gastos com saúde e funeral. “Nós tiramos as pessoas das linhas de crédito mais caras dos bancos e as trouxemos para cá. É uma linha de crédito consignado mais barata. Você usa como cartão de crédito consignado ou para empréstimo e tem um apelo social.” No site Reclame Aqui, no entanto, é possível ver funcionários públicos reclamando das altas taxas de juros cobradas pelo programa.
Depois da chegada de Augusto Lima, Vorcaro buscou outro sócio: o carioca Maurício Quadrado. Com experiência no mercado, ele já havia trabalhado no Bradesco, do qual saiu para se tornar sócio da Planner, uma corretora de valores mobiliários. Quadrado se entusiasmou com a oferta e se propôs a trazer negócios – ou sócios. Cumpriu sua promessa à risca.
Maurício Quadrado, de 64 anos, entrou na sociedade com o Master por meio da Banvox Holding Financeira, cuja sede fica no 11º piso do Pátio Victor Malzoni – o andar do Master. Durante nossa conversa, Vorcaro disse que naquele andar ficava o banco de investimento. Mais tarde, quando mencionei a notável coincidência de a Banvox operar dentro da sede do Master, um assessor, surpreso com a informação, negou. Depois, me disse que Vorcaro havia mandado um recado, afirmando que se tratava de “negócios do Maurício”.
Focado em transações ousadas, Quadrado apresentou a Vorcaro o seu parceiro mais explosivo e o que mais negócios extravagantes faz com o Master. Trata-se do baiano Nelson Tanure, um empresário agressivo que se especializou em comprar empresas em situação falimentar para conseguir o máximo de ganhos e o mínimo de perdas, valendo-se, para isso, da via judicial. A maioria dos acionistas das empresas em que Tanure tem participação considera-o um sujeito ardiloso, ousado e que suga o caixa das companhias, provocando um rastro de destruição.
É claro que Vorcaro não vê o parceiro dessa forma. Quando lhe pergunto sobre os empresários que admira, ele cita, sem pestanejar: Amador Aguiar, fundador do Bradesco, e Pedro Conde, que era dono do BCN, ambos já falecidos, e André Esteves, do BTG. “Atualmente tem o André Esteves, que é um grande banqueiro, uma pessoa acima da média.” Depois de pensar por um instante, prossegue: “No setor produtivo tem vários empresários que admiro, que são empresários desbravadores, como o próprio Nelson Tanure, que é um parceiro nosso. O outro é Junior, da Amil [refere-se a José Serepieri Filho, dono do avião que levou Lula, recém-eleito, a uma viagem ao Egito]. São pessoas que eu admiro pela coragem.”
Tanure teve desacertos desde o início de sua trajetória profissional na Bahia. Foi acusado de fazer a incorporação de casas populares e não entregá-las, deixando os compradores sem dinheiro e sem moradia. Mudou-se para o Rio de Janeiro. Durante o governo de Fernando Collor, a então ministra Zélia Cardoso de Mello, amiga de Tanure, deu ordens para que os fundos de pensão das estatais comprassem ações da Sade – Sul Americana de Engenharia, uma empresa de Tanure que estava praticamente quebrada. Os fundos de pensão amargaram sérios prejuízos.
Tanure também arrematou um monte de estaleiros falidos no Rio, com a intenção de recuperá-los. Só deixou as carcaças e uma dívida com o BNDES, nunca paga. Anos depois, tentou reativá-los, mas acabou passando todos adiante com lucro da venda dos terrenos. Além disso, comprou ações da Oi, da qual tem 5% de participação. Conta-se que vivia às turras com os acionistas da empresa telefônica, que o acusavam de querer deteriorar o patrimônio.
O Master e Tanure são parceiros na Light, Ambipar, Westwing, Ligga Telecom, Oncoclínicas, Aliança e Gafisa, entre outras empresas. Na Gafisa, o empresário comprou uma briga pesada com um investidor que o acusa de lesar a empresa em benefício próprio – o que Tanure nega. Numa jogada audaz, também levou neste ano a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), de São Paulo, a sucessora da Eletropaulo, vendida pelo governador Tarcísio de Freitas. No balanço da empresa, porém, ainda não consta que Tanure tenha feito o pagamento.
A estreita relação do empresário com o Master levou o mercado e a imprensa a especularem se Tanure não seria sócio do banco. Vorcaro nega. “Eu sou o sócio majoritário, com 60% do banco. Meus dois outros parceiros são o Augusto Lima e o Quadrado, que têm 20% de participação cada um.”
A suspeita de uma sociedade oculta entre Tanure e o banco se deve ao fato de que Quadrado não é sócio do Master como pessoa física, mas por meio da Banvox. Ocorre que, em 2022, o Banco Central obrigou os sócios do Master a fazerem quatro aumentos de capital, no total de 700 milhões de reais, para enquadrar a instituição nos limites de risco. Todos foram feitos pela Banvox. Na ata da assembleia do banco de 30 de dezembro de 2022, quando foi feito o último aumento de capital do ano, no valor de 300 milhões, Vorcaro e Augusto Lima renunciaram “expressamente, de forma irrevogável e irretratável o direito de preferência em participar no aumento de capital […] em favor da acionista Banvox Holding Financeira”.
E aqui surge o nó da suspeita. O acionista majoritário da Banvox Holding Financeira não é Maurício Quadrado, como seria de esperar, mas um fundo chamado Estocolmo. E o fundo Estocolmo pertence a Nelson Tanure, como já foi amplamente noticiado. Essa participação tem uma sutileza: ela acontece por meio de uma debênture conversível. Isso significa que o fundo Estocolmo pode converter a debênture em ação da Banvox no momento que achar conveniente. Se essa opção for executada, o Estocolmo torna-se dono da Banvox e, por consequência, do Master.
Vorcaro não comenta sobre essa engenharia acionária, mas garante que sua participação no Master não foi diluída. Ele confirma que, de fato, a Banvox bancou o aumento de capital de 2022, mas afirma que, nos outros anos, ele e outros dois sócios aumentaram sua participação. “Eu participei dos quatro aumentos de capital do Master. Portanto, não fui diluído”, diz ele, sem explicar por que a ata da assembleia de dezembro de 2022 informa o contrário – que ele e Augusto Lima abriram mão do aporte de capital. “Uma hora um sócio faz aumento de capital, outra hora outro”, diz. “Não há nada de diferente na sociedade.”
Recentemente, uma casualidade gerou novas especulações. A agenda do BNDES informou no dia 4 de junho passado que, às 14 horas, um diretor da instituição, Alexandre Abreu, teria uma reunião com o Banco Master, cujos participantes, listados, eram: “Reinaldo Hossepian, Nelson Tanure, Karla Maciel e equipe do BNDES.” Hossepian é diretor do Banco Master de Investimento e sócio numa distribuidora de títulos e valores mobiliários que pertence a Maurício Quadrado, a Trustee. Karla Maciel é do banco de investimentos do Master. Já o nome de Tanure não é citado no site do banco. Por que estaria lá?
Os laços de Daniel Vorcaro com Nelson Tanure talvez sejam menos ruidosos do que as relações perigosas com Saul Sabbá, o ex-dono do Banco Máxima. Em 2020, os dois, Vorcaro e o Banco Máxima, foram investigados na Operação Fundo Fake, deflagrada pela Polícia Federal e o Ministério Público em cinco estados. Eles eram acusados, junto com outros investidores e gestores parceiros, de participar de um esquema que aplicou golpes em institutos de pensão públicos entre 2010 a 2017.
Um dos lesados foi o fundo de pensão dos funcionários da Prefeitura de Rolim de Moura, em Rondônia. A fraude, feita com a participação do gestor do instituto, Marcelo Dias Franskoviak, gerou um prejuízo de 17,4 milhões de reais para os aposentados e pensionistas do município. O esquema, de acordo com a PF e os procuradores, era comandado pelo Banco Máxima (ainda pertencente a Saul Sabbá), em conjunto com outros parceiros: o Reag Investimentos (de João Carlos Mansur), a corretora Foco (de Benjamin Botelho de Almeida, sócio do Máxima), o fundo Brasil Realty (também de Botelho), a RFM Construtora (de José Romeu, Marcio Botana e Joaquim Ferraz) e por empresas e fundos de Daniel Vorcaro, que ainda não havia se tornado banqueiro.
A transação se dava da seguinte forma: Benjamin Botelho, através da Maxx Consultoria, que pertencia a ele e ao Banco Máxima, convencia os institutos de pensão das prefeituras (muitas vezes com pagamento de propina aos gestores) a investirem em fundos imobiliários que diziam ser rentáveis. Esses fundos, por sua vez, investiam nas empresas dos Vorcaro e outros empresários do esquema. Como as empresas não geravam lucro, os fundos tampouco. De acordo com as investigações, o modo de operar do grupo era o mesmo em todos os estados. Os pensionistas não percebiam o golpe porque os balanços contábeis dos fundos eram maquiados, mostrando resultados positivos. Ao final, as corretoras fechavam os fundos para resgate e os pensionistas não tinham como reaver o dinheiro.
No processo, ao qual a piauí teve acesso, o Ministério Público e a Polícia Federal de Vilhena, também em Rondônia, foram duros. “Centenas de milhares de servidores públicos foram […] lesados. E, mais, os maiores atingidos são exatamente aqueles que mais necessitam: os aposentados”, diz o relatório. Vorcaro, Botelho e demais envolvidos receberam ordem de prisão e apreensão de bens. Com um habeas corpus, se livraram das duas medidas. O processo aguarda julgamento.
Daniel Vorcaro diz ser vítima de um grande erro jurídico. Mesmo porque na época em que ocorreu a fraude ele não estava no banco. Portanto, diz Vorcaro, é impossível que tivesse participado da trapaça. Em sua defesa, ele mostra a cópia de uma decisão da Terceira Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, assinada pela desembargadora Maria do Carmo Cardoso, onde ela justifica a concessão do habeas corpus por “ausência de demonstração de indícios de autoria e por impossibilidade temporal da prática delitiva imputada ao paciente”.
Expliquei a Vorcaro, numa conversa por telefone, que minha pergunta não se referia à fraude cometida pelo Banco Máxima entre 2010 e 2017 – do qual ele, claramente, ainda não era dono. Referia-se, isso sim, à participação de suas empresas na fraude, em parceira com o banco. O que a investigação da PF e do Ministério Público apurou foi que o dinheiro do Máxima, naquela época ainda de propriedade de Saul Sabbá, era aplicado em empresas e fundos de Vorcaro, entre eles, o Milo, a Mercatto e a Pacific Realty. Por essa razão, ele também foi envolvido.
Vorcaro argumentou que a inclusão de seu nome, de seus fundos e suas empresas aconteceu porque os investigadores “fizeram confusão”. Acharam que o dinheiro do instituto de pensão de Rolim de Moura estava nos seus fundos e nas suas empresas porque ele passou a ser dono do banco. Pedi então que me mandasse uma cópia do processo que resultou no habeas corpus – o que poderia efetivamente comprovar a sua versão da história. Até o fechamento desta edição, ele não havia providenciado a documentação.
Os parceiros nessa fraude poderiam imaginar que seria insensato voltar a fazer negócios juntos, mas não foi o que aconteceu. O Master continua até hoje operando com a Reag Investimentos, cuja sede, em Belo Horizonte, funciona no mesmo endereço das empresas dos Vorcaro, na Avenida do Contorno, 6.594. A Reag é uma das gestoras dos fundos do Master. Escolhe os papéis das empresas que devem constar do fundo do banco. A Foco também continua uma parceira ativa do Master. Só que trocou de nome. Primeiro para Indigo, depois para Sefer. Perguntei a Vorcaro o porquê de estar ainda atuando com estas pessoas. Novamente me disse que os conheceu quando comprou o banco, mas não fez mais negócios com eles. “Eles faziam negócios com o Máxima quando ainda era de Sabbá. Não comigo”, afirmou, embora seja clara a relação atual entre todos.
Um ano depois do escândalo do Fundo Fake, Daniel Vorcaro e o Master se meteram em outra complicação das grossas. Em 2021, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia encarregada de julgar práticas irregulares cometidas pelo mercado, abriu processo contra Vorcaro e seu banco. Não fosse a legislação brasileira tão complacente com os crimes do mercado financeiro, o banco poderia estar em apuros. No fim do processo, Vorcaro e o Master – que na época ainda se chamava Máxima – foram condenados por manipulação de preços na Bolsa de Valores nas negociações de ações do fundo Care11.
O caso fica mais espetaculoso pelo fato de o fundo Care11 pertencer a Vicente Conte Neto, sócio de Vorcarona Zion. O fundo, com o pomposo nome de Brazilian Graveyard and Death Care Fundo de Investimento Imobiliário, ou Care11, na denominação da Bolsa, foi criado para negociar cotas de cemitérios. O Master avaliava na época que era um negócio muito promissor, ainda mais em tempos de Covid. Ocorre que, entre 3 de setembro de 2018 e 31 de dezembro de 2019, o Banco Máxima, já de propriedade de Vorcaro, realizou, de acordo com a denúncia da CVM, 455 operações com o Care11, puxando o valor das suas ações para cima e, dessa forma, enganando os investidores. No jargão do mercado, isso se chama manipulação de preço – e é definida pela CVM como “infração grave”.
A denúncia chegou à CVM por meio da BSM Supervisão de Mercados, uma entidade civil que acompanha os movimentos na Bolsa para evitar danos aos investidores. Na denúncia, foram incluídas as transcrições de alguns diálogos ocorridos durante as ordens de compra do papel em alguns pregões. Os diálogos são entre dois operadores – José Costa, da Codepe Corretora de Valores, e o contador do Master, Angelo Ribeiro da Silva, responsável por emitir ordens em nome do banco. Nas conversas, fica clara a combinação entre eles para elevar o preço da Care11:
– Então, o Care, posso ir lá e ir comprando – pergunta o operador José Costa.
– É, pode, né? Mas vai devagarzinho – orienta Silva, do Master.
– É, eu vou comprando devagarzinho até o final da semana. Hoje a cm Capital andou vendendo e derrubou 8%.
– Caralho, filho da puta, quem será que é [o operador da cm Capital]? – indaga o contador do Master.
– Quem será que é a Capital?
– Esses caras são foda também, hein? Vou falar com o Daniel amanhã cedo pra ver se ele tem alguém que pode ajudar – diz Silva.
– Pra ajudar a comprar, tá? – esclarece Costa.
– É, Costa, mas nessa faixa eu vou comprando lá, nessa faixa de 1,70.
Em um novo pregão, dias depois, a combinação continua:
– Hoje é dia de começar o processo de compras, né? – pergunta Costa.
– Hahaha, tá quanto? – diz Silva, do Master.
– 1,80. Eu quero ver se fecho em 1,85/90 hoje, tá?
– É importante chegar pelo menos nuns 2 – orienta Silva.
A CVM, desde o início do processo, estava determinada a aplicar uma alta multa tanto ao banco quanto ao seu contador, por manipulação explícita. O escritório do advogado Walfrido Warde, que defende o Master, entrou em ação, tentando reduzir o valor da multa. Não obteve sucesso. O banco assinou um termo de compromisso, nome dado ao acordo entre as partes, e teve que desembolsar 2,2 milhões de reais. O contador Angelo Ribeiro da Silva pagou 736 mil reais. Daniel Vorcaro me disse que acabou fechando acordo com a CVM para que o caso não se estendesse por anos na Justiça. “Às vezes sai mais em conta fazer um acordo do que ficar brigando com a CVM. Muitos bancos fazem isso. Não só sou eu”, disse. E afirmou: “Eu jamais vou assumir a culpa desse processo porque não houve manipulação de preços.” Novamente, segundo ele, houve um erro de investigação.
Os desarranjos não terminaram aí. Em 2022, a CVM entrou novamente em ação contra os negócios de Vorcaro. Dessa vez, a confusão se deu no fundo Brazil Realty, cujo capital era integralizado por velhos conhecidos: a Milo Investimentos (que pertence ao pai de Daniel Vorcaro), o MGI Desenvolvimento (do primo Felipe Vorcaro), a Viking Participações (do próprio Daniel Vorcaro) e o Master, cujas captações para o fundo eram feitas pela Índigo (hoje Sefer, de Joaquim Botelho).
O problema, agora, era com a cota de integralização do fundo, que dá robustez ao negócio atraindo investidores: tratava-se de um terreno dos Vorcaro cujo valor fora superfaturado em 56 milhões de reais. A CVM também condenou os envolvidos por gestão fraudulenta – Daniel Vorcaro, a Viking e o Master – a pagar uma multa total de 1 milhão de reais. Os fundos de seu pai e do primo desembolsaram 1,5 milhão. Os demais envolvidos, 500 mil reais.
Vorcaro diz que o caso segue em andamento, pois estão negociando um termo de compromisso. “Se nós fôssemos culpados, a CVM não aceitaria fazer um termo de compromisso”, argumenta. O fato é que a Procuradoria Federal Especializada da CVM se opôs ao acordo com os envolvidos, “diante da existência de práticas similares constantes de outros processos”. Alegou, ainda, que houve prejuízo de quase 6 milhões de reais a terceiros e que as propostas dos acusados não cobriam estes valores. Portanto, “há óbice jurídico para a celebração de termo com os interessados.” O caso ainda será decidido pelo colegiado da CVM.
Mesmo diante desse histórico, em agosto do ano passado o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski aceitou assumir uma cadeira no Comitê Consultivo do Master, que pretende “melhorar a governança”. Lewandowski deixou o cargo, depois de ser chamado por Lula para ocupar o Ministério da Justiça. Em seu lugar, assumiu Henrique Meirelles, ministro da Fazenda no governo Michel Temer. Gustavo Loyola, presidente do BC no governo de Fernando Henrique Cardoso, também tem assento no comitê, além de Vorcaro.
Os contatos do banqueiro com ministros do Supremo são mais amplos. Em novembro de 2022, Vorcaro organizou e bancou um jantar que colocou quatro ministros do STF à mesa: além de Lewandowski, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes. O quarteto estava em Nova York, participando de um evento promovido pelo ex-governador de São Paulo João Doria. O jantar ocorreu no hotel Fasano, que fica na Quinta Avenida. Recentemente, o Master comprou os hotéis Fasano em São Paulo e Belo Horizonte, em parceria com Nelson Tanure.
Paulo Gala é um economista de 48 anos, respeitado por seus pares, especialmente aqueles com ideias mais à esquerda. Há três anos, ele saiu do Banco Fator e assumiu o posto de economista-chefe do Master, fazendo análises sobre a economia do Brasil e do mundo. No fim de agosto, conversei com ele por telefone. Gala estava com a agenda sobrecarregada. Ele seria um dos principais palestrantes do Expert XP 2024, o maior evento do país para investidores e gestores, organizado pela XP Investimentos.
Em dois dias do encontro, cerca de 50 mil pessoas passaram por lá. O negócio é tão badalado que o estande mais simples não sai por menos de 150 mil reais. O mais caro, de dois andares, custa 1 milhão. Apenas quatro deste tipo são colocados à disposição dos expositores. O Master tinha dois. Os outros dois eram da própria XP, a anfitriã. No segundo andar do estande do Master foi montado um estúdio de tevê do Brazil Journal, um respeitado site de notícias econômicas, no qual o Master agora faz publicidade. Entre os vários convidados, estava Scott Galloway, professor de marketing na Escola de Negócios Stern da Universidade de Nova York, o queridinho da nova geração do mercado financeiro cujo cachê não sai por menos de 200 mil dólares. No Brasil, o cachê foi bancado por Vorcaro.
Gala fez palestras todos os dias. A mais disputada seria às 15h20 do dia 30, sexta, quando ele participou de uma mesa com o presidente do FGC, Daniel Lima, entre outros. O tema: “O papel dos investidores pessoa física e do FGC no crescimento do mercado de crédito e dos bancos médios.”
Na minha conversa com Gala, peço que ele fale sobre sua visão do FGC. “O que o FGC tem feito no caso brasileiro é ajudar a turbinar a concorrência no sistema financeiro”, diz. “Tem fundos desse tipo no mundo inteiro. Mas no caso do Brasil é diferente, porque o mercado é muito concentrado. Então, as plataformas, como a XP, a Genial e o BTG passaram a dar acesso aos investidores de menor renda porque os grandes bancos só ofereciam seus próprios produtos em suas plataformas.” E quanto aos CDBs de 40 bilhões do Master que o mercado tanto critica? “Precisaria analisar o balanço do banco para responder melhor”, diz. “A verdade é que os grandes bancos estavam meio incontestes naquele mundo deles. E agora terão que enfrentar uma concorrência maior. Houve uma democratização do sistema. E claro que haverá briga.”
Gala tem boa impressão de Daniel Vorcaro. “Não tenho muito contato com ele, porque o Master é um negócio gigante, com cerca de 2 mil funcionários. Mas me parece um cara brilhante. Tem uma visão de negócio incrível. O que está fazendo agora na parte de ESG [conceito de gestão de empresa com foco em três pontos: ambiental, social e governança] é muito inovador.” Gala diz que Vorcaro tem “um monte de iniciativas na área ambiental e fez uma parceria com um hub de negócios de sustentabilidade, a AYA. São negócios ligados à economia verde. Muito atuais”.
Bem antes de ir para o Master, Gala se tornou amigo de Fernando Haddad, então prefeito de São Paulo e hoje ministro da Fazenda. Naquela época, Haddad, pensando em fazer campanha para o governo paulista, pediu que Gala sugerisse alguns nomes de jovens economistas com quem pudesse trocar ideias. Ele sugeriu Gabriel Galípolo, André Roncaglia e Elias Jabbour. Por afinidades eletivas, o grupo ficou muito próximo de Haddad. Hoje, Jabbour está no Brics. Roncaglia, no Fundo Monetário Internacional. Galípolo será o novo presidente do Banco Central. Com certeza, é bom para Vorcaro saber que o analista econômico do seu banco é amigo da cúpula econômica do governo.
Por coincidência, empenho ou sorte, o Master está próximo do poder. Seja à esquerda ou à direita. Em meados de julho, o banco esteve no centro de uma polêmica. Três gerentes da Caixa que se recusaram a comprar títulos de 500 milhões de reais do Master, por considerarem o negócio arriscado, foram demitidos. Como a diretoria que faria o negócio é comandada por Tarso Tassis, ex-assessor de Vorcaro, as demissões foram atribuídas à recusa dos funcionários em aprovar a operação de interesse do Master.
O banqueiro não se conforma com o que considera uma intriga. “Essa confusão é a prova do quão difícil é a gente, como banco médio, entrar neste jogo”, diz, culpando novamente o sistema. “Veja, a gente oferece nossos papéis para vários clientes. Um desses clientes é a Caixa, que tem 500 bilhões de reais sob gestão. Nós oferecemos 500 milhões. Um negócio mais do que normal no dia a dia deles. Aí vem uma briga interna deles e colocam o Master no meio da confusão”, reclama. “A Caixa tem letra financeira de todos os bancos grandes, por que eu não posso ter também? Eu só ofereci um produto lá e entrei no meio de um rolo que não tem nada a ver comigo. Isso foi uma grande injustiça.” E conclui: “Foi uma bala perdida na gente. Uma infelicidade. Até a gente se tornar um banco grande, será um caminho muito tortuoso.”
Vorcaro tem pressa de crescer. No ano passado, junto com a Reag, de João Carlos Mansur, comprou o Will Bank, que estava em dificuldades financeiras. O Master ficou com parte da instituição e se associou à XP, que ficou com 25% do negócio. Na negociação, levou ainda dois Fundos de Investimento de Direitos Creditórios (FIDCs), avaliados em 510 milhões de reais, segundo reportagem da revista Exame. O único ativo do fundo, de acordo com a mesma reportagem, são os direitos de uma ação judicial impetrada pela Construtora Industrial Brasileira (CIB) contra o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) de cerca de 30 bilhões de reais. A ação tramita em segunda instância.
Se o banco ganhar a ação, levará uma bolada. O Master, aliás, tem uma carteira importante em FIDCs, avaliada em 7,5 bilhões de reais. É comum no mercado a prática de comprar dívidas de terceiros contra o governo, vendidas por um preço muito abaixo do que valem devido ao risco de calote. De posse dos créditos, as instituições jogam pesado na Justiça para ganhar as causas. O Master é particularmente agressivo nesse jogo.
Além da compra do Will Bank (que já colocou 5,7 bilhões de reais de CDBs no mercado a taxas tão atraentes quanto as do seu controlador), o Master entrou em outro grande negócio no começo deste ano. Comprou outro banco, o Voiter. Agora, o Master está passando por uma reestruturação societária. Criou-se a holding Master Participações (Masterpar), onde ficarão os três sócios: Vorcaro, Quadrado e Lima. Sob o guarda-chuva da holding, estarão as gestoras Macam e Aman, e as distribuidoras Trustee e cm Capital, a mesma que apareceu naquele diálogo dos operadores derrubando o preço da Care11. Mas Quadrado deixará o banco e ficará com o Voiter, cuja sede já está pronta na Faria Lima. “O objetivo é deixar mais transparente as empresas nas quais o Master investe ou tem participação”, me disse Vorcaro.
O FGC também funciona na Faria Lima. “Mas fica na área hipster”, brinca o diretor-presidente do fundo, Daniel Lima. “Não é no burburinho do Itaim, é na outra ponta, onde tem várias inciativas culturais.” Ele fala sobre o papel do fundo. “O FGC é uma instituição robusta, com liquidez de 132 bilhões de reais. É uma empresa que vai fazer trinta anos em 2025. Já lidou com quarenta processos de quebras bancárias e nunca deixou de pagar 1 real do que era devido em termos de garantia. E os recursos são pagos imediatamente. O fundo também salvou muita instituição de quebrar.”
Lima faz uma ressalva: “A turma do mercado precisa entrar no modo de reflexão de como manter a saúde do sistema. Porque esse mecanismo de proteção ajuda a perpetuar o desenvolvimento econômico. Se alguém acha que determinada instituição está investindo em coisas com risco demais, então é preciso rever as regras do jogo.” O FGC acompanha 230 instituições associadas para evitar abusos. Atua com uma equipe de monitoramento de risco e faz análises do mercado, enviando relatórios para o BC. “Mas o agente de supervisão do mercado bancário é o Banco Central”, diz Lima.
Por volta das 13 horas, Daniel Vorcaro deixou a sala de reuniões no Pátio Victor Malzoni e caminhou comigo pelos quatro andares do Banco Master. Todos os pisos têm uma decoração elegante e despojada, com móveis de madeira clara. Era o horário de almoço, e os andares estavam praticamente vazios.
Vorcaro falou com orgulho de tudo que construiu. Perguntei se tinha medo que os “ataques maldosos” – na expressão dele – prejudicassem o crescimento do banco. “Acho que medo é algo que faz parte do ser humano”, disse. “O medo é saudável para mensurarmos os riscos. Mas sou uma pessoa que gosta de viver a jornada.”
Sua autoanálise continuou assim: “Você sabe quando está sólido. Fico muito tranquilo, tentando não viver uma montanha-russa de emoções. Por isso, num dia que estou muito bem, tento me puxar um pouco para baixo. E, quando estou muito mal, tento me puxar para cima. Tento viver uma jornada equilibrada. Mesmo sendo difícil, mesmo com obstáculos, tento ser feliz.”
[1] A família do fundador da piauí é acionista integrante do bloco de controle do Itaú Unibanco.
* A frase anterior informava equivocadamente que Augusto Lima havia comprado as 49 lojas da rede de supermercados Cesta do Povo. Na realidade, Lima comprou apenas o Credcesta, o programa de crédito consignado.
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