esquina

Altar pagão

Os talismãs de Lourenço Mutarelli

Nina Rahe
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Eram nove da manhã de uma segunda-feira quando Lourenço Mutarelli se recostou numa cadeira de estofado listrado e retomou, a partir da página 71, o romance que vem escrevendo. Naquele ponto da trama, Charles Noel Brown, o protagonista, sai do banho enrolado numa toalha, sem saber se avisa ou não à companheira que irá fumar no parque. “Estou num momento importante, não sei como me decidir”, disse o escritor, sentado à cabeceira da mesa de jantar. “Ele está com essa mulher que estuda civilizações antigas, mas talvez ela seja um reptiliano, um lagarto, não sei.”
Quando o escritor levou a palma da mão direita à boca ao reler uma frase, deixou à mostra um anel redondo e chamativo com a imagem de um monstro alado mitológico, um grifo. Era a réplica de uma moeda grega do ano 411 a.C., com o desenho do grifo de Abdera. A outra face da moeda, que mostra Hércules sentado sobre um leão, está reproduzida em outro anel, que ele usa na mão esquerda.

Mutarelli também é dono da moeda original que serviu de inspiração para os anéis. Comprou-a numa feira de antiguidades e, por medo de perdê-la, mandou fazer as reproduções que enfeitam seus dedos. O escritor se disse espantado que aquele objeto tivesse rodado mais de 2 mil anos até chegar, em mais de um sentido, a suas mãos. “A Lu não acredita”, ponderou, referindo-se à mulher. Ao lado do marido, Lucimar Mutarelli fez cara de quem estranhava que uma relíquia milenar pudesse ter custado apenas 100 reais. “Se é verdadeira, não sei, mas com ela acesso algo ancestral em mim”, disse o autor.

A moeda é guardada com zelo num móvel de madeira com porta de vidro, uma peça antiga que o escritor chama de seu “altar pagão”. É lá que estão seus objetos mais estimados: uma caixinha rococó para armazenar remédios (vazia), duas miniaturas de índios apaches e a escultura de uma cabeça preta calva e barbada que ele julga parecida com a sua própria. Os talismãs lhe servem de muleta para os momentos de pouca inspiração. “Às vezes eu coloco a moeda no bolso, seguro a cabeça na mão e mentalizo”, disse, encarando o armário. “É muito bom tê-los por perto.”

 

O escritor de 51 anos, calvo, de tez clara e rosto magro, quase some entre os objetos que povoam sua casa na Vila Mariana, na capital paulista. As paredes da sala onde trabalha estão cobertas de desenhos de sua autoria, flyers emoldurados e uma comanda roubada da padaria.



Lourenço Mutarelli despontou na cena literária como quadrinista: já havia lançado nove títulos de HQS antes de estrear na ficção em 2002, com O Cheiro do Ralo. A obra chamou a atenção do diretor Heitor Dhalia, que comprou os direitos de adaptação para o cinema. Desde então o autor passou a dar prioridade aos romances. Num intervalo de oito anos, publicou outros cinco livros (dois dos quais também ganharam versões cinematográficas: O Natimorto e A Arte de Produzir Efeito sem Causa).

Há cinco anos, porém, não finalizava nenhuma narrativa longa. O jejum teve início depois de uma avaliação negativa de seus editores para um manuscrito seu. O texto era para a série Amores Expressos, projeto literário que enviou autores brasileiros a cidades estrangeiras. A estadia de um mês serviria de inspiração para histórias de amor. Mutarelli foi designado para ir a Nova York, em 2007, mas o romance empacou. À primeira versão do texto, seguiram-se duas tentativas malogradas. “É um ruído que não sai da minha cabeça há oito anos”, disse.

O desbloqueio aconteceu dois anos atrás, quando o autor voltava para casa, ao som do Current 93, banda britânica pela qual anda obcecado. Uma letra do grupo inspirou o título do romance nova-iorquino, O Livro IV e/ou O Filho Mais Velho de Deus. O manuscrito no qual está trabalhando – a história do affair entre Charles Noel Brown e a mulher que talvez seja um lagarto – já tem cerca de 100 páginas, dois terços do que ele espera produzir até o final do ano. “A Lu não gosta que eu ouça Current 93, acha que são satânicos”, disse. “Mas o vocalista declarou que é cristão, li numa entrevista”, protestou. Os CDs da banda são os únicos que ele mantém no altar pagão. “As letras falam muito da Grécia, do Egito, tudo tem uma conexão.”

Após retomar o livro empacado, porém,o autor aceitou a encomenda de escrever um novo texto a ser adaptado para o cinema. Deixou momentaneamente de lado o projeto Amores Expressos e concluiu em três meses O Grifo de Abdera, lançado em setembro. Inspirada na moeda responsável pelo desbloqueio literário de seu autor, a história é sobre um homem que recebe a relíquia grega de um desconhecido, a título de pagamento de uma dívida.

 

Mutarelli tem um caderno pardo em cuja capa se lê “A igreja de um homem só – apêndice I.V (portátil).” Está enchendo as páginas com desenhos de amuletos e outros elementos recorrentes em sua obra. Não há dogmas ou escrituras em seu credo pessoal, mas ele não abre mão de pequenos rituais e preces, como repetir os números “1, 2, 3” enquanto fricciona a ponta do dedão e do indicador em um movimento de pinça. “Mentalizo coisas boas e me acalmo”, justificou-se.

Os talismãs são fundamentais na liturgia do escritor, a começar pela moeda. “Ela me inspirou muito, fiquei completamente fascinado quando a adquiri”, contou, mostrando como a deixava posicionada enquanto trabalhava, bem a seu lado, de frente para a escultura da cabeça. “Só de ter os amuletos por perto já consigo foco para escrever.”

Às 11 horas, Mutarelli saiu de casa para um café, pausa ritual que repete a cada dia para organizar as ideias. Antes de ir para a rua, tomou o cuidado de esconder sob a camiseta a corrente que leva no pescoço com uma imagem do deus egípcio Osíris. “Ele me protege, mas não gosto que o vejam”, explicou. Feliz com a perspectiva de concluir o livro, o escritor antecipava o alívio do ponto final. “Seria bom viajar com a Lu para Nova York e andar por ali com tudo resolvido”, imaginou. Naquela manhã, escreveu dois parágrafos antes do café.

Nina Rahe

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