esquina

Amizade com o Vampiro

O homem que leva Trevisan ao teatro

Junior Bellé
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Há quem não acredite em vampiros. E há quem seja amigo deles. É o caso de João Luiz Fiani, nascido há 51 anos no município de Palmeira, no interior do Paraná. Ainda na adolescência, a mudança da família o levou a criar raízes em Curitiba, onde se casou e teve um filho. Como é notório, nenhum morador da capital mais fria do país jamais duvidou da existência de vampiros: há 89 anos eles convivem com um, embora sejam raros aqueles que, como Fiani, tenham conseguido penetrar na invisibilidade cultivada por certos representantes dessa estirpe.

A invisibilidade do escritor curitibano Dalton Trevisan ficou provada em meados de março, quando passou a tarde na livraria anexa à pequena editora Arte & Letra. Trevisan, que criou a própria alcunha em 1965 quando lançou o livro de contos O Vampiro de Curitiba, não foi reconhecido pelos clientes que entravam e saíam. Compartilhava uma mesa com os editores de seu novo livro, A Mão na Pena, um retorno às edições artesanais de seis décadas atrás, quando ele produzia manualmente livretos que distribuía entre os amigos. A obra reúne dezoito contos inéditos impressos em tipografia, com encadernação manual e tiragem única, numerada, de 250 exemplares. Desde o lançamento em 9 de agosto – ao qual, ça va sans dire, Trevisan não compareceu – foram vendidos 125 deles.

Fiani não estava na livraria naquela ocasião, do contrário se juntaria à mesa do escritor. Ator, diretor e cenógrafo, ele é dos poucos frequentadores da caverna do Vampiro de Curitiba, localizada nas redondezas do estádio Couto Pereira e colada a um prédio baixo, com o qual compartilha um muro e uma infiltração. Há quase uma década a síndica vizinha tenta, em vão, dar cabo do problema, que garante ter origem nos velhos rejuntes da fronteira entre as propriedades. Jamais recebeu autorização para deitar abaixo os tijolos. Para Trevisan existem outras prioridades, entre elas a de levar seus contos ao palco.

Fiani é o único mortal que detém hoje a autorização do escritor para adaptar suas obras para o teatro. “Adaptar não é o termo correto, a gente não pode adaptar o Dalton. Tem que manter na íntegra, do jeito que ele escreve. Você não pode mudar uma vírgula, não pode ocultar uma palavra, essa é a exigência que ele faz”, diz. O ator e diretor acrescenta que o fato de respeitar a obra de Trevisan, que leu até decifrar as entrelinhas, lhe rendeu a confiança do Vampiro. “Não sei se confiar é a palavra certa; acho que ele gosta que eu dirija os espetáculos dele – na minha opinião, o maior contista brasileiro”, diz, enquanto ajeita o boné preto, numa entrevista em meados de agosto em sua sala no Teatro Lala Schneider.



 

Ainda quando as espinhas proliferavam em seu rosto, que hoje ostenta uma barba farta e quase branca, Fiani foi seduzido para o teatro pela professora Márcia, dublê de professora de português e atriz. “Eu achava ela linda, uma tremenda gata.” A musa fundou um grupo de teatro no Instituto São Sebastião, onde ele estudava. “Quis fazer teatro pra ficar perto dela. Eu tinha 13 anos, ela 30, e nunca me deu bola, mas desde então jamais deixei os palcos.”

Ao completar 30 anos, Fiani caminhava ladeira abaixo pela rua XIII de Maio quando teve uma epifania: “Vi este barracão para alugar, ele sempre esteve para alugar, mas daquela vez eu decidi parar e olhar.” Foi até a imobiliária, pegou as chaves e nunca mais as devolveu. Estava criado o primeiro teatro privado de Curitiba.

No início, nove sócios sustentavam a empreitada. “Já no terceiro ano eu estava sozinho, sem sócio algum. Ser dono de teatro é uma roubada e todos perceberam. Mas eu não podia deixar essa história acabar.” O Lala Schneider completou vinte anos no dia 23 de abril, data em que a atriz homenageada no nome do teatro faria 88 anos, se não tivesse morrido em 2007. “Ela foi minha professora de teatro, minha companheira de palco, uma mulher muito batalhadora”, elogia Fiani.

Autor de 98 peças, ele considera As Mocinhas da Cidade sua melhor obra. Atualmente em cartaz, conta a história de Nhô Belarmino & Nhá Gabriela, dupla sertaneja de Curitiba cujo maior sucesso foi a canção que dá título ao espetáculo, gravada nos anos 50. Sua aproximação de Dalton Trevisan começou no final da década de 80, quando trabalhou como ator em montagens de textos do escritor, feitas pelo diretor Ademar Guerra, morto em 1993. Fez parte do elenco de Mistérios de Curitiba, que caiu nas graças dos cariocas e ocupou durante um ano o teatro do Copacabana Palace. Nos anos 90, atuou em O Vampiro e a Polaquinha, outra parceria entre Trevisan e Guerra, que ficou em cartaz por sete anos.

Fiani e o escritor passaram a se encontrar para tomar um café nas livrarias de sempre, conversar sobre cinema e imaginar parcerias, que demoravam a virar realidade. Um dia o ator e diretor resolveu pôr sua proposta no papel. “Escrevi uma carta para o Dalton explicando a concepção completa da peça. Era quase um dossiê. Ele me respondeu com outra carta, já assinando a autorização, e foi assim que tudo começou, em 2006, com O Vampiro Contra Curitiba.”

Depois dela, foram montadas no Lala Schneider Macho não Ganha Flor (2008), Virgem Louca, Loucos Beijos (2009) e, neste ano, Receita de Curitibana. Como de costume, a peça apresentava esquetes baseadas nos contos cheios de crueldade e erotismo do Vampiro, que exploram o lado B da sociedade de Curitiba. “Ele assistiu a todas, sempre sentado nas últimas fileiras”, contou Fiani. “As pessoas falam que ele faz gênero, mas não é. Ele se oculta simplesmente porque não quer aparecer. Ele quer escrever, quer que a obra esteja à frente dele. É uma recusa à vaidade. A vaidade dele é ter o texto lido – e assim meio escondido, como um vampiro, Dalton pode ir sugando as histórias ao seu redor.”

Junior Bellé

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