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Aniversérie

No seu primeiro ano de vida, Augusto ganha temporada de doze festas

Marcos Amorozo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Até que as plataformas de streaming tomassem conta do entretenimento, os fanáticos por séries tinham que segurar a ansiedade durante uma semana para assistir ao próximo capítulo. Agora, temporadas que demoravam meses para serem vistas podem ser devoradas em algumas horas, conforme a disposição do espectador. Assim como a produção, exibição e visão das séries ficaram mais aceleradas, os aniversários de crianças também estão ganhando outro ritmo. Muitas famílias já não esperam um ano para comemorar o nascimento de seus pequenos e passaram a festejá-lo todo mês. São os “mesversários”, que começaram a se difundir antes da pandemia, mas com a quarentena ganharam ânimo novo e significado adicional: viraram o pretexto para mostrar as crianças aos que não podem sair de casa para uma visita.

O casal de publicitários Ana Beatriz Marinho, de 28 anos, e Lucius Lima, de 30, são entusiastas do mesversário. A série que eles maratonaram recentemente se chama Augusto Marinho Lima e chegou ao 12º e último episódio da temporada há quase três meses. O menino nasceu em abril de 2020 e, desde então, os pais não deixaram de comemorar, todo dia 20, mais um mês de vida do filho, com festinhas temáticas transmitidas via WhatsApp. “Eu não estou conseguindo assistir a séries. A minha série ultimamente é o Augusto mesmo. É igual Grey’s Anatomy: nunca acaba”, conta Marinho, que mora em Samambaia Norte, no Distrito Federal. “É louça pra lavar, roupa que estava suja. Ele acorda durante a noite para mamar, é um bebezinho ainda.”

Lima e Marinho ficaram conhecidos depois que uma foto do nono mesversário de Augusto viralizou no Twitter. Para o tema da festa, eles se inspiraram nas transmissões de futebol da tevê e fantasiaram o filho e a si mesmos com uniformes usados por jornalistas da Rede Globo. Na parede, afixaram um painel que simulava uma tela transmitindo uma partida. A repercussão foi tão grande que o Sporttv os convidou para participar da transmissão de um jogo do Brasileirão. “A gente sempre achou brega essa coisa de mesversário. E é brega mesmo. Não deixa de ser só porque nós fazemos”, diz Marinho. “Mas, depois que o nosso filho nasceu, senti necessidade de fazer, principalmente por causa da pandemia. A gente precisava se alegrar e se encontrar com a família de alguma forma.”

 

O casal se esmerou. Como a Covid-19 começava a se alastrar pelo Brasil, no primeiro mesversário o tema foi… a pandemia. “O Brasil estava passando pela crise no Ministério da Saúde e a gente resolveu fazer do Augusto o novo ministro”, conta Lima. O dono da festa foi vestido com um colete azul-marinho do SUS e ganhou uma placa identificando-o como o novo titular da pasta da Saúde. A decoração incluiu várias réplicas de caixas de cloroquina. “A gente nunca acreditou na cloroquina, o que fizemos foi uma piada com essa porcaria”, explica Lima. “Daí pra frente decidimos que os temas seriam relacionados ao dia a dia do brasileiro e sempre bem-humorados.”

No 10º mesversário, em fevereiro passado, os pais de Augusto simularam um ônibus na sala de estar, com barras amarelas feitas com rolos de papel, para-choques desenhados na cartolina preta e o letreiro da linha: 0.10 – Augustinho. No bolo azul brilhante escreveram a frase: “A que ponto chegamos.” O garoto fazia o cobrador do ônibus, do alto de seu cadeirão. O pai, um vendedor de doces. A mãe, uma flautista. Além de ministro e cobrador, Augusto já foi o papa Francisco, Roberto Carlos e o guitarrista Slash. No 12º mês de vida, encarnou o fundador da Apple, Steve Jobs.

Para não gastar muito, o casal improvisou, gastando em média 180 reais por festa. A parte gráfica ficou sob o encargo de Marinho. Os docinhos e bolos foram encomendados de uma prima, com preço camarada. Lima cuidava da logística das compras e dava suporte na construção dos cenários. Tudo era feito na véspera, enquanto o menino dormia. “Não dava para fazer antes, senão ele ia querer brincar e acabaria estragando”, conta Lima.

Não bastava, entretanto, caprichar no cenário: o mesversário tinha que ficar “instagramável”, ou seja, colorida e bem iluminada, para que as imagens saíssem impecáveis nas redes sociais e nas chamadas de vídeos com familiares. “Sempre pensamos no ângulo das fotos para abrir ou fechar em algum detalhe que ficasse mais bonito”, diz Marinho. Para isso o casal não economizou, recorrendo a uma boa câmera, tripé, ring lights – instrumentos circulares com lâmpadas de LED –, entre outros apetrechos. “Até o tipo do papel e os enfeites do bolo a gente pensava para que saíssem melhor nas imagens.”

Passou pela cabeça de Marinho e Lima a ideia de vender decorações personalizadas para festas de crianças e adultos, valendo-se da criatividade com que produziram as do filho. Eles chegaram até a cogitar a criação de uma plataforma na internet na qual os clientes apresentariam seus gostos, a partir dos quais seria desenvolvido o tema da festa encomendada. “É uma ideia que eu tenho, mas, por enquanto, não é minha pretensão seguir com isso”, afirma Marinho.

Uma segunda temporada de mesversários deve acontecer quando o casal tiver outro filho – mas ainda não há previsão de lançamento. “Nossos próximos filhos também terão suas festas, e eu até já sei que linha seguir, para não fazer de modo tão aleatório como agora. Quero que eles também tenham suas recordações”, diz Marinho. Segundo ela, Augusto deixará de ser o protagonista dos mesversários, mas terá papel importante como coprodutor das festinhas das futuras estrelas.

Marcos Amorozo

Estagiário de jornalismo na piauí, é estudante da Universidade de Brasília (UnB)

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