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    CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2023

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Anjos da redação

O projeto social que oferece ajuda no Enem

Pedro Tavares | Edição 207, Dezembro 2023

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Na tarde de 5 de novembro, domingo, Rebeca Mayra, de 16 anos, percorreu na garupa da moto de um tio os 20 km que separam sua casa da Uninta, uma universidade de Fortaleza. Era o local onde ela faria a primeira prova do Enem.

Ao longo do trajeto, as angústias da jovem concentravam-se na redação. Ela revisava mentalmente as citações de filósofos que memorizara para usar no texto, uma estratégia comum entre os estudantes para ganhar pontos em “repertório sociocultural”.

Na hora do exame, assim que abriu a prova, Mayra foi logo ver qual era o tema da redação. Quando leu “desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”, a primeira reação foi de susto com a dimensão do tema. Só depois de reler o enunciado duas vezes, ficou confiante. Lembrou-se de uma passagem da filósofa alemã Hannah Arendt que encontrara em um banco de citações e era perfeita para endossar sua reflexão.

Foi graças ao Salvaguarda, projeto social que auxilia alunos da rede pública no Enem, que Mayra teve acesso ao banco de citações e chegou ao pensamento da autora de Origens do totalitarismo. Mais importante, o programa ofereceu à jovem, desde abril, o auxílio de uma professora para ensinar a prática da escrita argumentativa exigida no exame. “Eu precisava de um suporte na redação”, diz. “No primeiro ano, a gente nem chega a ver dissertação argumentativa.” Ela está no segundo ano do ensino médio e fez o Enem como treino. Em 2024, o exame será decisivo para que conquiste uma vaga universitária.

Mayra soube do Salvaguarda em um informe da escola e decidiu se inscrever. Alunos que buscam ajuda para a redação são conectados a corretores voluntários, em geral graduandos de letras de diferentes partes do país. Eles acompanham esses alunos até o Enem, corrigindo as redações, dando orientações e tirando dúvidas.

Além desse acompanhamento, o Salvaguarda oferece plantões de dúvidas, grupos de monitoria, um tutor do mesmo estado do aluno – para compartilhar suas experiências da faculdade –, e acompanhamento psicológico, tudo online. Em 2023, sexto ano do programa, teve mais de 14 mil alunos inscritos, orientados por 1,2 mil corretores universitários. Aos voluntários, oferece cursos de capacitação que servem tanto para desempenharem a função de corretores como para qualificá-los profissionalmente.

Estudante de letras da Universidade Federal Fluminense (UFF), Ana Carolina Brantes, de 21 anos, atuou como corretora neste ano, acompanhando três alunas – inclusive a cearense Mayra. Todo mês, propunha um tema para elas, que tinham até doze dias para escrever a redação. Com o mesmo prazo, Brantes devolvia o texto corrigido e comentado. Também atribuía uma nota, conforme o modelo de pontuação do Enem. Brantes acredita que se tornou uma “corretora amiga” das estudantes: “Eu consegui entender que elas tinham demandas não só com a redação, mas também no lado sentimental, com inseguranças e angústias.”

 

O Salvaguarda foi criado em 2017 por Vinícius de Andrade, hoje com 28 anos, a partir de um projeto de pesquisa que realizou como aluno de economia empresarial e controladoria na USP de Ribeirão Preto. Ele montou um questionário para aferir o nível de motivação e interesse de alunos da rede pública no último ano do ensino médio. Visitou quatro escolas municipais de Adelino Simioni, bairro periférico de Ribeirão Preto. “O resultado me chocou. Era só aquela visão midiática do Enem, sinônimo de faculdade. Mas não tinham noção nenhuma de como funcionava”, lembra. Os alunos até confundiam Sisu (Sistema de Seleção Unificada, que permite disputar vagas em universidades com a nota do Enem) com SUS (Sistema Único de Saúde).

O que era um trabalho de faculdade se tornou o projeto da vida de Andrade. Ele passou a frequentar escolas públicas, oferecendo aos alunos visitas ao campus da usp em Ribeirão Preto. E começou a criar sua rede de voluntários. “Era ainda muito artesanal. Lembro de mandar um mototáxi nos colégios para recolher as redações. Depois eu escaneava cada uma e mandava por Whats­App para os corretores.”

Como o Salvaguarda oferece serviços gratuitos e vive de colaborações, levantar recursos é sempre um desafio. Para contratar as aulas de capacitação que os corretores voluntários precisavam fazer no início do programa eram necessários 15 mil reais. Uma voluntária que cursava direito no Maranhão sugeriu a Andrade que tentasse pedir uma colaboração para promotores, dada a facilidade de encontrar os seus e-mails no site do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Ele enviou três mil e-mails para promotores de todo o país. Apenas um de São Paulo respondeu – e doou todo o montante. “Eu noto que as pessoas botam todas as ações sociais na mesma caixa. Ao fazer isso, justificam o ‘não posso ajudar’”, diz Andrade à piauí, em um café do Leblon. Ele está no Rio desde julho para concorrer a uma vaga na pós-graduação em políticas públicas da UFRJ.

 

No começo deste ano o programa lançou seu site e agora dispõe, segundo Andrade, de pelo menos um voluntário de cada uma das 115 universidades públicas estaduais ou federais. Ele não tem um registro exato do número de alunos que passaram pelo Salvaguarda e foram aprovados nas universidades, nem a nota média que tiraram, porém diz que ao menos 1,2 mil alunos o procuraram para informar seu êxito no Enem.

Em uma mensagem de WhatsApp que Andrade mostra, orgulhoso, uma aluna escreveu: “Antes do Salvaguarda minha nota era extremamente mediana. Esse ano [2022] me surpreendi com o 940 na redação” (a nota máxima do Enem é 1 000). Até agora, toda a atenção de Andrade foi dirigida para a construção do Salvaguarda, mas está entre seus planos para o ano que vem criar métricas mais precisas para avaliar os resultados do programa.

“Se eu pudesse resumir minha experiência no Salvaguarda em uma expressão, escolheria ‘educação com afeto’”, diz a corretora Ana Carolina Brantes. Ela planejava deixar o Salvaguarda no ano que vem para se dedicar à monografia de fim de curso. Mas Rebeca Mayra a fez mudar de ideia: pediu para ser acompanhada no último ano do ensino médio. “Como eu não consigo dizer não pra esse pedido, vou ficar”, diz a corretora.