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    Em "Confidências à Meia-Noite", Doris Day e Rock Hudson descobriram na prática que, ajoelhou, tem que rezar IMAGEM: BOB WILLOUGHBY_MPTV IMAGES

chegada

Antes de copular, orai

Nunca é tarde demais para aprender como fazer as coisas com fé

Dorrit Harazim | Edição 39, Dezembro 2009

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O livrinho de 64 páginas chegou às livrarias da Inglaterra, oportunamente, antes do bimbalhar dos sinos natalinos. Ele também pode ser comprado através da Amazon.co.uk e nada impede que logo mais irrompa em versão Kindle. Contudo, aquele que a ele recorrer com a esperança de encontrar um bom manual de autoajuda dificilmente encontrará satisfação plena. O propósito do Prayer Book for Spouses (ou Livro de Orações para Casais), publicado pelo braço editorial da Santa Sé na Grã Bretanha, a Catholic Truth Society, é oferecer orações específicas a cada estágio da vida a dois – do noivado ao casamento, da gravidez aos cuidados com a prole – daqueles fiéis que decidiram ser fiéis até que a morte os separe.

As orações, que foram criadas por vários autores, vêm intercaladas de ensinamentos da fé católica sobre o significado do matrimônio. O manual é descrito como “companheiro espiritual essencial” para quem planeja constituir família. Suas preces e meditações estão divididas em sete capítulos e abordam sessenta tópicos. A publicação tinha tudo para ter sua repercussão restrita exclusivamente aos devotos – não fosse o inesperado tópico tratado na página dezenove. Seu título, “Prece antes de fazer amor”, atraiu, inevitavelmente, a atenção também de leitores ímpios, hereges ou simples curiosos de todos os credos.

A ideia seria rezar com ou sem roupa? Ajoelhado, de pé ou já deitado? Cada um por si ou de mãos dadas? Em uníssono ou jogral? Enfim, todo um leque de possibilidades que se abria ao imaginário. Mas o texto, como era mais realista de se esperar de uma obra pia contemporânea, não contempla maiores aberturas. Destina-se, ao contrário, a purificar as intenções e delas erradicar qualquer conotação hedonista. Uma das preces é assim:

Pai Nosso, enviai o Espírito Santo a nossos corações. Contemplai-nos com um amor verdadeiramente generoso, uma ternura capaz de unir, uma auto-oferenda sem falsidade, uma união física acolhedora… Cubra nossa necessidade com a riqueza de Vossa misericórdia e perdão. Vista-nos com nossa verdadeira dignidade e receba nossas aspirações conjuntas para Vossa glória eterna, para sempre. Maria, mãe de todos, intercedei por nós. Amém.

Como ponderou a americana Frances Kissling, presidente do Católicas pelo Direito de Decidir desde sua fundação, em 1982, até dois anos atrás, seria injusto submeter orações ao crivo de uma crítica literária. Mesmo assim, ela considerou a prece pré-cópula “um amontoado de bobagens composto por uma sucessão de clichês”, cuja finalidade parece ser a de “evitar o sexo a todo custo”. Em se tratando de Kissling, veterana militante dos direitos da mulher católica, e agora docente no Centro de Bioética da Universidade da Pensilvânia, a reação não surpreende. Em momento algum os autores do livro pretenderam falar à parte do rebanho menos dogmática.

O Prayer Book for Spouses só faz nexo quando se leva em conta que, pela primeira vez desde a Reforma de 1534, a Igreja Católica Apostólica Romana está em fase de expansão galopante no Reino Unido. A ampliação de fiéis se deve à enxurrada de imigrantes legais e ilegais vindos de países católicos, sobretudo da Polônia.

Inversamente, a Igreja da Inglaterra e os anglicanos da Escócia, do País de Gales e da Irlanda passam por um lento mas consistente declínio. Segundo dados citados pelo jornal The Times, 95% dos imigrantes aportados em terras britânicas nos últimos anos são católicos tradicionalistas. Eles fazem da Igreja um elemento de identidade pessoal, uma referência cultural e, no caso da Polônia, o fator maior da identificação nacional. Em sua grande maioria, trata-se das ovelhas mais conservadoras do catolicismo, para quem a eterna súplica do perdão – mesmo numa prece pré-coito – pode ser bem-vinda.

 

O devoto que busca conforto num linguajar pulsante de alegria e prazer sempre poderá encontrar refúgio no bom e eterno Velho Testamento. Mais precisamente, no Livro de Cantares ou Cântico dos Cânticos, de Salomão, certamente a mais memorável prece amorosa de todos os tempos. Em seus oito capítulos e 117 versículos, o rei Salomão, filho de Davi, e sua amada Sulamita compõem um dueto de intimidades que qualquer cristão é capaz de entender. Uma pequena seleta, a título de lembrete:

Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o seu amor do que o vinho.

Os teus lábios são como um fio de escarlata, e o teu falar é doce.

O meu amado é meu, e eu sou dele…

Os teus dois peitos são como dois filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios.

Favos de mel manam dos teus lábios. Mel e leite estão debaixo da tua língua, e o cheiro das tuas vestes é como o cheiro do Líbano.

O meu amado meteu a sua mão pela fresta da porta, e o meu coração estremeceu por amor dele.

As voltas de tuas coxas são como joias, trabalhadas por mãos de artista.

O teu umbigo, como uma taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre, como monte de trigo, cercado de lírios.

Dois meses atrás, falando para uma delegação de bispos brasileiros em visita ao Vaticano, o papa Bento XVI lançou-se numa diatribe contra a televisão e o cinema. Segundo o pontífice alemão, os meios de comunicação de massa incentivam estilos de vida seculares, que minam a família e aumentam os índices de divórcio. “Filhos de um casamento desfeito são como órfãos, não por não terem pais, mas por terem um número excessivo de pais. A família deveria procurar viver como a Sagrada Família”, resumiu o pontífice.

É dessa conjuntura que brota o atual manual de orações para cônjuges. Cinquenta anos atrás, quando Doris Day e Rock Hudson  trocavam confidências à meia-noite na comédia romântica Confidências à Meia-Noite, uma prece antes de fazer amor talvez devesse ter sido encaixada.