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Antitraço

TV Câmara vai à luta pelo ibope

Luiz Maklouf Carvalho | Edição 46, Julho 2010

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“Aqui nem o veado morre, nem a onça passa fome.” Para tristeza dos ambientalistas, “aqui” não é uma floresta controlada por eficientíssimos agentes do Ibama. “Aqui” é a TV Câmara, tal como apresentada pelo jornalista Sergio Chacon. Desde fevereiro de 2009, quando Michel Temer assumiu a gestão da casa, ele é o diretor de comunicação social da Câmara dos Deputados, cargo no qual comanda uma máquina de imprensa e divulgação que custa 35 milhões de reais por ano e movimenta um batalhão de 400 profissionais.

Chacon tem 33 anos de serviços prestados à instituição e em outros carnavais já dirigiu o canal – a joia da coroa, justamente. Hoje a produção está a cargo de uma equipe de 241 pessoas, 56 delas concursadas. As outras 185 são responsabilidade de uma empresa de Santa Catarina, a Plansul, vencedora de uma licitação pública que, por um ano de contrato, lhe deu direito a 15 milhões de reais.

A imagem da vida selvagem serviu para ilustrar a linha editorial da emissora, não faltando à explicação encômios à independência jornalística: “O Temer mal interfere”, diz Chacon. “Às vezes eu preciso ligar para lembrar a ele que estamos aqui.” Ao perceber que não foi inteiramente convincente, traz à baila um dos hits da televisão brasileira nos últimos anos: “Quem foi afinal que divulgou, ao vivo, a deputada Ângela Guadagnin dançando no plenário nos tempos do mensalão?”

Como o homem põe e Deus dispõe, foi justamente na gestão do deputado João Paulo Cunha (PT), um dos réus no esquema, que a tevê cresceu, ganhando equipamentos modernos e 800 metros quadrados de instalações confortáveis, no primeiro andar do prédio. Ali, num aquário de vidros escuros e iluminação de boate, quem dá as cartas é o diretor de conteúdo, o jornalista Get (pronuncia-se o gê com som de jota mesmo), uma redução de Getsêmani, seu nome de batismo. (A irmã se chama Dalmácia.) Ao seu gabinete vão em romaria os deputados que queiram negociar uma exposição midiática mais generosa.

É o caso do ex-deputado e hoje suplente Edigar Mão Branca (PV-BA), notório forrozeiro (é aquele do chapéu de couro). Mão Branca sugeriu a Get um documentário sobre o cantor e compositor Elomar, expoente do ramo mais bem-pensante da música sertaneja. O programa, de grande alcance cultural, levaria a todo o país o cancioneiro e as reflexões de Elomar, num ilustrado embate de ideias com o deputado, seu eventual parceiro musical. A ideia vingou. Segundo as previsões, o programa estreará em algum momento deste semestre.

Get tem do bom e do melhor à sua disposição. “Nosso equipamento é top de linha”, ele diz. Porém ressalva: “Talvez o da TV Globo seja um pouquinho melhor.” Com meios de produção tinindo de novos e dez equipes de repórter e cinegrafista para despachar de lá para cá (ou para onde quer que esteja a notícia), o canal cobre com detalhe todas as sessões plenárias e boa parte das comissões parlamentares. Solenidades, visitas e votações também não escapam aos olhos atentos da TV Câmara. “Só de eventos são 400 por ano”, informa Chacon.

“A interface da Câmara com a sociedade é muito grande, e essa máquina procura dar transparência a tudo isso.” É uma missão que exige soldados, e por isso ele discorda dos críticos que apontam reiteradamente um inchaço no quadro de funcionários, maior, por exemplo, do que o das sucursais das tevês abertas. “Dizem que temos mais gente do que a Globo. Só que aqui em Brasília eles são apenas uma sucursal e nós somos uma tevê inteira, de cabo a rabo.”

 

De 50 a 80 deputados aparecem diariamente na tela da TV Câmara. Censura não é uma preocupação. “Embora a nossa tarefa seja mostrar a melhor face da casa, isso não significa que a programação seja chapa-branca”, diz Chacon. À cena da deputada rebolativa, ele aduz outro exemplo de destemor editorial: o deputado Fernando Gabeira enquadrando o presidente Severino Cavalcanti (“A sua presença na presidência da Câmara é um desastre para o Brasil!”). Isso posto, Chacon deixa claro que sua missão não é ficar “dando close em deputado com o dedo no nariz, dormindo ou babando na gravata. A tevê é feita para atender aos deputados.”

Assim sendo, por mais que muitos repórteres sejam concursados e tenham estabilidade, deputados não atendidos podem mandá-los para algum correlato da Sibéria, como cobrir com minúcia as homenagens a algum representante do parlamento afegão. A sina atingiu o repórter e hoje apresentador Fabrício Rocha. Tempos atrás, ele entrevistou ao vivo o presidente Severino Cavalcanti, que, diante das câmeras, não conseguiu se lembrar das grandes reformas da pauta legislativa. Rocha foi para a geladeira. “A política é a pior coisa que tem aqui”, resume.

De cabelos quase tão brancos quanto sua camisa social, Chacon observa o deputado Mauro Benevides (PMDB-CE) alongar-se no discurso. “Esse é dos que mais aparecem”, comenta. Naquela manhã, Benevides já presenteara os telespectadores com uma sentida homenagem póstuma: “Constata-se o proficiente desempenho da homenageada desta sessão, a assistente social Neide Castanha, que se dedicou, de corpo e alma, à tarefa de assistir crianças e adolescentes, e soube fazê-lo com incomparável devotamento…”

Benevides foi o campeão do microfone em 2009, com 175 discursos e 61 apartes. José Genoíno (PT-SP), Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) e Michel Temer (PMDB-SP) correm atrás. Alguns reclamam da baixa exposição, como fez o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA), bastião do conservadorismo. “A tevê não me dá espaço”, chiou recentemente, “só ouvem os deputados de esquerda.”

Entre 150 mil e 300 mil telespectadores passam a cada dia pelo canal, conjectura Chacon elasticamente. Como nem todo parlamentar tem o senso de espetáculo de uma Guadagnin ou de um Severino e considerando que, por melhor que seja a oratória de Benevides, nem Churchill foi capaz de inventar 175 discursos eletrizantes, o jeito é tentar seduzir o telespectador, no melhor sentido da palavra.

Assim sendo, naquela bela tarde de maio, gravava-se, no confortável estúdio-auditório de 100 lugares, uma apresentação da cantora Renata Jambeiro. Quando o programa for exibido, entre um aparte aqui e uma proposição acolá, o espectador certamente se desarmará de suas paixões partidárias em nome de mais altos prazeres. Dos estúdios da TV Câmara, a sestrosa Jambeiro iluminou de lirismo os corredores graves do nosso Poder Legislativo:

Ainda bem que vovó saravou!

Minha avó é show de bola,

Aprendeu lá em Angola,

Encontrou meu corpo aberto e fechou!

Bate essa, Benevides.