esquina

Apaga o fogo

Uma ecovila hare krishna aberta ao público no interior de Minas

Bruno Cirillo
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Uma alegre cantoria anunciou a aurora nas serras de Baependi (MG). O sol ainda não havia dissipado a garoa da madrugada, mas na fazenda os devotos de Krishna já estavam de pé. Cantavam e dançavam no interior do trullo, uma construção de barro com a cúpula em forma de cone. No meio do templo, havia um vaso com uma tulasi, planta sagrada na religião hinduísta. “Limpa o espelho do coração e apaga o fogo desse bosque em chamas”, proclamavam todos.

A fazenda dos hare krishnas, chamada Vrinda Bhumi Eco Yoga Village, também funciona como espaço de repouso, meditação e ioga aberto ao público. Por ano, hospedam-se ali sessenta pessoas, em média. Os devotos sugerem aos visitantes o pagamento de 30 reais pela diária, valor que inclui as refeições.

O refúgio é constituído por uma construção principal de alvenaria e cerca de dez casebres de adobe que servem de moradia, oficina, armazém e lojinha (onde se vende incensos, livros, chás, mel e chocolate). Os banheiros têm privadas para urinar, mas as outras necessidades devem ser feitas em baldes com serragem – e os dejetos precisam ser descartados numa fossa. Duas grandes estátuas se destacam na paisagem: uma de Krishna tocando flauta sobre três cobras e outra de um macaco com uma coroa.

Os quartos ficam no térreo da construção principal, de formato circular. Subindo um lance de escadas, chega-se à cobertura, sem paredes, mas com telhado. É ali que os moradores e visitantes reúnem-se duas vezes ao dia, às 10 e às 17 horas, para as refeições (prasāda). Antes, fazem orações, sentados no chão de pernas cruzadas. O cardápio inclui fartas porções de grãos, verduras e mingaus, temperados com uma pimenta assaz picante. Para acompanhar, chá quente.

A rotina dos hare krishnas e hóspedes inicia-se antes das 5 horas, quando um sino desperta a todos. “Alguns vão cantar o Gāyatrī e o Maha Mantra até 7 horas, quando começam os trabalhos na cozinha”, contou Hari Dev Das, nome que Renan Trindade, 29 anos, mineiro de Sete Lagoas, adotou após se converter. Além das tarefas domésticas, os devotos cuidam do trabalho na fazenda, onde criam abelhas e cultivam duas hortas de orgânicos e plantas não convencionais. Em meados de janeiro, estavam construindo um compartimento para produzir kombucha, um fermentado para fazer certo tipo de chá, e a casa de um monge. Os visitantes ajudam em algumas atividades e fazem aulas de ioga. Mas ninguém se opõe se o hóspede preferir apenas repousar ou banhar-se em algum rio da região.

Os devotos passam boa parte do dia a rezar o mantra e debulhar um rosário com 108 bolinhas, o japamālā. Para cada bolinha, cantam uma vez. A volta completa é feita, no mínimo, 16 vezes ao dia, mas há quem a repita 32 ou até 64 vezes, o que toma entre quatro ou cinco horas diárias. A intenção da prece é purificar-se e religar-se a Krishna – uma das divindades principais do hinduísmo.

 

O líder do grupo em Baependi é Bhakti Vedhanta Puri Maharaj, de 54 anos, cujo nome quer dizer, segundo ele mesmo (e na ordem das palavras), “escola do amor”, “conhecimento”, “plenitude” e “rei dos sentidos”. Carioca e ex-professor de educação física, chamava-se Marcelo Isaac Chebar. Aos 34 anos, decidiu abandonar tudo: a mulher, o trabalho e a vida que levava entre Brasília e Goiânia, onde morava. Mudou de nome – num processo que chama de “suicídio civil” –, fez voto de castidade e viajou para a Índia, onde realizou sua iniciação junto a um mestre religioso.

Em 2001, fundou com um sócio a Vrinda Bhumi. “Não tinha nenhuma construção nem estrada aqui. Era bem selvagem. Muita mata. E a gente foi limpando para poder caminhar. Começamos a fazer casas de bioconstrução. Não entendíamos nada disso, mas era mais fácil aceitar essa linha de pensamento”, disse o mestre de voz serena, que evita o tempo todo olhar para o interlocutor.

Maharaj tem cinquenta discípulos, inclusive fora do país. Apenas quinze moram na fazenda. De tempos em tempos, uma parte deles viaja para outras cidades, a fim de arrecadar nas ruas dinheiro para o sustento do grupo e a manutenção do local. O guru coordena o estudo das escrituras hinduístas pelos discípulos, num processo que define como “didático e interativo”. As aulas são durante o dia. À noite, o grupo revisa o conteúdo no trullo.

Uma das lições foi sobre a principal obra dos védicos, o Bhagavad-Gita, trecho do Mahabharata, épico com 200 mil versos que conta a história de um guerreiro que decide enfrentar sozinho todos os exércitos indianos, contando apenas com a ajuda de Krishna, encarnado como cocheiro. Na véspera da batalha, o protagonista hesita em lutar. “Mas Krishna convence Arjuna de que tudo aquilo é um cenário e que aquelas pessoas não morrem de verdade, explicando assim ao guerreiro o conceito de alma imortal”, disse Maharaj.

Na tardinha de 16 de janeiro, um hare krishna contou aos hóspedes que havia se convertido depois de ler O Alquimista, de Paulo Coelho, e tomar o chá do Santo Daime. Enquanto ele falava na cobertura da casa principal, um morcego se enroscou numa teia de aranha que se espalhava pelo teto. O hare krishna interrompeu a narrativa e foi socorrer o mamífero voador. Com a ajuda de uma vassoura, tentou desvencilhar o bicho da teia.

Foi bem-sucedido. O morcego soltou-se e caiu ao chão, mas não pôde voar, porque permanecia emaranhado em alguns fios pegajosos. Quando ainda tentava se livrar deles, foi abocanhado por um gato da fazenda. O devoto olhou para os hóspedes consternado e deixou em silêncio o refúgio de Krishna, enquanto o felino devorava o seu jantar numa mastigação barulhenta: “Croc-croc-croc-croc.”



Bruno Cirillo

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