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A árvore de ferro

Ai Weiwei conclui réplica de pequi-vinagreiro milenar

Lia Hama
O artista levou onze chineses ao vilarejo baiano de Trancoso somente para moldar a árvore em silicone. O espécime tem 31 metros de altura
O artista levou onze chineses ao vilarejo baiano de Trancoso somente para moldar a árvore em silicone. O espécime tem 31 metros de altura CREDITO: TOMÁS VIANNA

Numa reserva florestal de Trancoso, vilarejo turístico no Sul da Bahia, o artista chinês Ai Weiwei observa um monumental exemplar de pequi-vinagreiro, espécie em vias de extinção da Mata Atlântica. A árvore oca de 1 200 anos está coberta por parasitas e quase inteiramente seca – apenas o topo exibe alguns ramos vivos. Além de ser a mais antiga da região, é a mais alta, com 31 metros, o equivalente a um prédio de dez andares. Weiwei caminha ao redor do pequi, entra em seu interior e observa a luz que penetra do alto. Fotografa todos os detalhes com o celular e, satisfeito, anuncia ao curador carioca Marcello Dantas: “Quero fazer uma réplica perfeita desta árvore.” “Claro, Weiwei, sem problemas”, responde Dantas. Naquela manhã de 18 de outubro de 2017, nem o curador nem o artista foram capazes de prever a epopeia que viria pela frente.

Dantas é o idealizador de Raiz, a maior exposição já realizada pelo chinês, que percorreu o Brasil entre outubro de 2018 e o mês passado. A viagem à Bahia fez parte de um tour pelo país em busca de inspiração para os trabalhos da mostra que Weiwei confeccionaria in loco. O curador propôs que o artista entrasse em contato com a cultura local e a digerisse a seu modo. O país também experimentaria o processo criativo de Weiwei, numa espécie de “banquete mutuofágico”, em que se come e se é comido. Ao tentarem clonar o pequi, no entanto, o chinês e sua equipe se depararam com abelhas, cobras, escorpiões, problemas legais, escassez de matéria-prima e até uma greve.

“Foi uma loucura!”, admitiu Weiwei. “É como o amor: você não sabe por que está fazendo aquilo, mas se sente preso numa armadilha e continua a fazer.” O roteiro não parecia tão complicado: primeiro, o artista moldaria em silicone as diferentes partes do pequi; depois, enviaria os moldes à China, onde iriam se transformar numa gigantesca árvore de ferro fundido. “Adivinha quanto a brincadeira acabou custando: quase 1 milhão de dólares! O próprio Weiwei a bancou. É uma obra de dimensão épica, digna de Fitzcarraldo”, comparou Dantas, referindo-se ao filme do diretor alemão Werner Herzog em que o protagonista deseja construir uma casa de ópera na selva amazônica.

 

Weiwei trouxe 25 chineses a Trancoso – onze somente para moldar a árvore. “Eu nunca tinha visto tanto chinês junto. Eles andavam para cima e para baixo, sem falar uma palavra em português”, relembrou o artesão baiano Eronaldo Pinto Dantas, o Nal, braço direito do designer gaúcho Hugo França. Celebrado pelas esculturas mobiliárias que faz com resíduos florestais, França foi quem apresentou o pequi-vinagreiro a Weiwei e obteve a licença para que o artista pudesse atuar naquela área de proteção ambiental. “Conheço a árvore há mais de vinte anos. Restam pouquíssimos exemplares dessa espécie. Eles demoram uns dois séculos até atingir a idade adulta e não se prestam à marcenaria comum ou à construção civil. Antigamente os pataxós os usavam para fazer canoas”, explicou o designer.



Nal coordenou a montagem da estrutura de apoio aos chineses em plena mata, com refeitório e banheiro químico. Também acompanhou de perto a modelagem da árvore, que durou 137 dias. “Eu ficava impressionado com o trabalho minucioso dos caras.”

Para reproduzir cada detalhe do pequi, foram importadas da China 6 toneladas de silicone. “Não podia ser qualquer silicone. Weiwei queria um tipo especial, ‘capaz de captar as marcas do vento e dos animais que passaram por aquela árvore’, nas palavras dele mesmo”, contou a designer paulistana Paula Dib, encarregada de apresentar ao artista algumas comunidades de artesãos, técnicas e matérias-primas de diferentes biomas brasileiros.

Como o transporte de navio levaria meses, o silicone veio de avião. Mas, ao desembarcar na alfândega, a carga foi barrada pela Polícia Federal. “Os agentes suspeitaram que tinha droga ali dentro, porque ninguém importa uma quantidade tão grande de silicone por via aérea. Sai muito caro. O material precisou passar por análise em laboratório”, relatou Dantas. Quando os policiais finalmente liberaram a carga, estourou a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, jogando para os ares o já atrasado cronograma de trabalho.

 

“Sinto que a América Latina ainda é como Cem Anos de Solidão, o romance de Gabriel García Márquez. É puro realismo mágico. As coisas parecem reais, mas há algo fantástico no ar. A natureza, as pessoas e a maneira como todos entendem o tempo e o espaço são muito diferentes do que costumo ver em sociedades industrializadas”, afirmou Weiwei numa entrevista a Marcello Dantas em agosto de 2017, concedida logo após pisar no continente pela primeira vez. Em meados da década de 1950, o poeta Ai Qing, pai do artista, já havia conhecido o Chile, onde se tornou amigo do também poeta Pablo Neruda. Os relatos paternos sobre a região ficaram guardados na memória do filho.

Um episódio digno de realismo mágico se deu na floresta de Trancoso depois que dois operários chineses, apoiados em andaimes, decidiram mexer numa bromélia que se encontrava no topo do pequi-vinagreiro. Por causa do calor, eles haviam retirado do rosto as máscaras de proteção. A dupla acabou atacada por um enxame de abelhas depois que um dos trabalhadores atingiu, sem querer, uma colmeia com o facão. “Os insetos desceram pelo interior oco da árvore e voaram na direção de quem estava no solo. Foi um deus nos acuda”, recordou Nal. Em virtude do incidente, Weiwei mandou colocar uma estátua de Buda dentro do pequi. “Ele sentiu que estava lidando com algo sagrado e recorreu a Buda como forma de proteção”, disse Dantas.

A expectativa inicial era de que a réplica em ferro ficasse pronta a tempo de ser exibida na abertura de Raiz em São Paulo, no dia 20 outubro de 2018. Como a tarefa se revelou impossível, a exposição limitou-se a mostrar o vídeo Uma Árvore, que intercala cenas da moldagem do pequi com outras de Weiwei nu, sendo moldado para uma escultura de si próprio.

Os 768 moldes de silicone seguiram para a China de navio, em três contêineres. Lá a árvore de ferro foi, enfim, construída. O peso da réplica (250 toneladas) supera o de um Boeing 747-400 com tripulação e combustível, mas sem passageiros nem carga. A previsão, agora, é de que o pequi metálico seja exibido na Europa, em junho de 2020. “Estamos negociando o local. Vai ser num lugar de muita visibilidade, para fazer jus à grandiosidade da empreitada”, promete Dantas.

Lia Hama

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