chegada

As almas vão rolar

Novidade do empreendedorismo funerário – como carregar sua arma com o que resta de um ente querido e dar utilidade à urna que mora há anos em casa, esquecida

Dorrit Harazim
Partida em grande estilo foi a de Hunter Thompson, segundo os requisitos do jornalista gonzo
Partida em grande estilo foi a de Hunter Thompson, segundo os requisitos do jornalista gonzo FOTO: ED ANDRIESKI_AP_GLOWIMAGES

Convenhamos que não é fácil saber o que fazer com as cinzas de um parente que optou por ser cremado. Apenas quando o defunto já deixa escolhido o local onde gostaria de se evaporar, a dificuldade é pouca e se resume a uma questão de logística. Afinal, nem sempre cenários de natureza espetacular como as Cataratas do Iguaçu, o Pico do Jaraguá, a Chapada Diamantina, o Cristo Redentor ou os braços de Iemanjá em mar aberto são acessíveis aos encarregados do luto.

Chega agora dos Estados Unidos uma solução alternativa – embora essencialmente voltada para o mercado americano, visto que sua exportação mundo afora ainda é duvidosa. A empresa responsável pela inovação, cuja sede fica em Stockton, no estado do Alabama, traz no nome o marketing do negócio: Holy Smoke. Nada a ver com o sucesso homônimo da banda Iron Maiden, nem com o filme de Jane Campion (no Brasil, Fogo Sagrado, estrelado por Kate Winslet e Harvey Keitel.

Os dois fundadores de Holy Smoke parecem conhecer o consumidor que procuram. “O mais frequente é uma urna com as cinzas do ente querido ficar zelosamente guardada na casa do pranteado por um bom tempo. Com o passar dos anos, porém, a urna migra da sala para o sótão. E quando, anos mais tarde, a casa é vendida, não raro alguém lembra, penalizado, que as cinzas foram deixadas para trás”, explica Thad Holmes, que também é agente de proteção ambiental.

Junto com o colega Clem Parnell, Holmes criou a primeira firma dedicada a transformar cinzas mortais em munição viva. O marketing da Holy Smoke é dirigido a um segmento mais enraizado na história americana do que a torta de maçã: os defensores do direito ao porte de armas. “Continue a proteger seu lar e sua família mesmo depois de ter partido”, proclama uma das campanhas da empresa.

 

O serviço oferecido é prático e começa logo após a cremação. Basta a família optar pelo calibre da munição desejada e enviar 450 gramas de cinzas do ente querido à fábrica no Alabama. Estas serão divididas entre os cartuchos encomendados e em pouco tempo a família recebe uma caixa contendo até 250 balas. Como se lê no site da empresa, todo material não usado será devolvido numa caixa à parte.

Uma das vantagens alardeadas está no preço, considerado baixo se comparado ao de um enterro convencional: a partir de 850 dólares para uma caixa de 250 balas de pistola ou para 100 balas de espingarda. Além disso, a casa oferece descontos convidativos para membros das Forças Armadas e bombeiros aposentados ou na ativa.

Uma das primeiras compradoras de balas com alma, cuja identidade Holmes fez questão de resguardar ao ser entrevistado pela rede pública de rádio dos Estados Unidos, a NPR, parece ter ficado plenamente satisfeita. “A viúva acha que foi a melhor escolha para seu marido, ávido caçador de patos até falecer. E decidiu compartilhar a munição com os companheiros de caça dele, que o homenagearam com uma salva de 21 disparos na floresta.”

O próprio Holmes deseja ser transformado em munição. “Meu filho gosta tanto quanto eu de caçar aves”, conta ele. “Se eu mandar fazer dez caixas de cartuchos contendo 25 balas cada, durante uma década inteira ele vai poder iniciar a temporada de caça com minhas cinzas. Assim, a cada disparo de 270 metros por segundo, vai se lembrar do pai.”

“Levamos nosso trabalho muito a sério”, acrescenta o sócio Clem Parnell, “e o consideramos a celebração perfeita para alguém que foi um amante da natureza e da vida ao ar livre.”

 

Eterno visionário quando se trata de delírios, o escritor e jornalista americano Hunter S. Thompson desprezaria os modos circunspectos e comedidos da Holy Smoke. Afinal, já em 2005, celebrou o próprio suicídio com uma féerie jamais vista. Criador do chamado “jornalismo gonzo” que entortou a cabeça e o estilo de todos os que tentaram imitá-lo, Thompson deixou instruções precisas do que queria depois de se dar um tiro de espingarda na cabeça, aos 67 anos.

Foram precisos seis meses até que o cerimonial fúnebre por ele idealizado pudesse ser completado. Era tão complexo que teve de ser bancado pelo ator Johnny Depp, seu amigo e intérprete da versão para o cinema de Medo e Delírio em Las Vegas.

Foi num sábado de agosto de 2005 que as cinzas do escritor puderam ser, finalmente, cuspidas de um canhão colocado em uma torre de quase 50 metros de altura. Foi uma explosão de ficar surdo. A torre fora erguida num desfiladeiro entre sua casa de fazenda e uma muralha de árvores. Conforme as cinzas entraram em erupção, fogos de artifício multicolores iluminaram o céu, sob aplausos dos mais de 250 convidados. Tudo regado a muita bebida, drogas e rock’n’roll.

A Holy Smoke, em contrapartida, oferece garantias capazes de tranquilizar o mais exigente e cumpridor da lei dos consumidores. O folheto publicitário da firma anuncia, com a mão no peito:

“Não competimos com fabricantes de munição nem com atacadistas ou varejistas.”

“O dano ecológico causado por nosso serviço é praticamente nulo quando comparado aos métodos funerários mais tradicionais.”

“Só usamos material autorizado pelo ATF” (sigla em inglês do Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos, órgão subordinado ao Ministério da Justiça).

Decididamente, não se fazem mais cremações como nos tempos do gonzo.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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