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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2011

esquina

As aves que aqui não gorjeiam

Um ornitólogo holandês busca algo que cante em São Paulo

Tomás Chiaverini | Edição 57, Junho 2011

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O sábado amanheceu nublado como num conto de Edgar Alan Poe. No Parque Villa-Lobos, às margens da Marginal Pinheiros, apenas dois ou três valentes paulistanos desafiavam o frio e trotavam, orgulhosos, com o peito estufado de saúde. Às sete da manhã, o silêncio só é cortado pelo ronco distante dos aviões, que a cada dez ou quinze minutos cruzam o céu a caminho do Aeroporto de Congonhas.

Como nenhum pássaro se dá ao trabalho de cantar em homenagem ao dia cinzento, o desânimo abate o grupo de aficionados por aves que perambula pelo parque. Metidos em calças cáqui e botas de trilha, os catorze caminham devagar, em silêncio, olhos e ouvidos atentos. Alguns levam pequenos binóculos pendurados no pescoço, outros carregam gravadores de última linha, como os usados nos filmes de espionagem.

O grupo, em sua maioria composto por biólogos, levantou cedo para acompanhar um workshop de gravação de cantos de pássaros com ninguém menos do que Bob Planqué. Os versados nos mistérios da ornitologia sabem que o esforço se justifica. Planqué, um holandês de 34 anos, está para o estudo das aves como, digamos, Julian Assange está para a política internacional. Professor de matemática com amplos conhecimentos em biologia, Planqué fundou, em 2005, o Xeno-Canto, uma espécie de WikiLeaks dos passarinhos.

O site do holandês conta com nada menos que 74 mil gravações de cantos de pássaros, enviadas por entusiastas de todo o planeta. Acumula piados de 7,4 mil espécies, o equivalente a três quartos de todos os tipos de canto conhecidos. Há ainda cerca de dez cantos de aves desconhecidas, além de um raro assovio da ararinha azul (Cyanopsittas spixii) em liberdade – uma espécie brasileira que sobrevive sessenta anos em cativeiro – a estrela do filme Rio.

Se tocados ininterruptamente, os arquivos de Planqué totalizariam 684 horas e 51 minutos, quase um mês de gravações. É o segundo maior acervo do mundo em número de espécies, perdendo apenas para a Biblioteca Britânica, com a ressalva de que a tradicional instituição inglesa não disponibiliza toda a sua coleção on-line.

O Xeno-Canto (“canto desconhecido”, do grego) tem o objetivo de ajudar pesquisadores a identificar espécies por meio de piados, trinados, gorjeios e silvos. Usando a ferramenta de busca desenvolvida pelo matemático, o internauta fornece informações sobre o canto que ouviu (volume, frequência, número de notas etc.) e o site lhe dá algumas opções de espécies. Daí é só escutar, comparar e está identificada a ave. O sonho de Planqué é criar um algoritmo que permita ao internauta inserir um arquivo de áudio de um canto e receber de volta o nome da espécie, mas para isso ainda falta um tanto de pesquisa.

De qualquer forma, do jeito que está a ferramenta é bastante útil, já que é mais fácil ouvir um pássaro do que avistá-lo. Isso faz com que 1 milhão de gravações sejam acessadas mensalmente no site. Planqué diz que boa parte de seus visitantes virtuais é gente de alma sensível, que quer, simplesmente, ouvir os passarinhos.

Coisa que, por sinal, não acontecia naquela manhã de outono. Apesar da total ausência de sons silvestres, o holandês não desanimou, e garantiu não ter se incomodado em sair de sua cama de hotel tão cedo. Os observadores de aves estão acostumados a acordar antes de o dia raiar. Isso sem falar que o esforço seria bem maior na sua Holanda natal, onde o sol se levanta às 4h30 no verão; e no inverno a temperatura fica em torno do zero grau na aurora.

Então, como que por milagre, duas longas sequências de piados ecoaram no parque. Um leigo cogitaria ser o canto de uma ave agourenta, um corvo talvez? Mas Planqué não hesitou:

– Bananaquit! – exclamou, com o indicador em riste.

Com cerca de 1,90 metro, o holandês tem olhos pequenos, rosto afilado e magro, e um nariz retilineamente aquilino. Somando-se essas características ao cabelo loiro espetado para frente e para o alto, é impossível não ver alguma semelhança entre o estudioso e seu objeto de interesse. Bob Planqué tem jeitão de passarinho. Um pica-pau-amarelo, quiçá.

Animado com o canto, o grupo se aproximou do líder. Planqué atarraxou o microfone numa pequena parabólica de acrílico e a apontou na direção do passarinho. Em português, o bicho atende pelo nome de cambacica (Coereba flaveola), uma avezinha de 10 centímetros, peito amarelo e asas cinzentas, idêntica ao bem-te-vi, a não ser pelo tamanho. Está presente em todas as regiões brasileiras e canta em qualquer lugar, a qualquer hora do dia, diante de qualquer plateia.

 

A primeira gravação foi bem-sucedida, apesar do ruído longínquo de um Boeing 737. Planqué desmontou a parabólica e tentou um novo registro, agora só com o bastão do microfone. A ideia é mostrar as variações de áudio causadas pelo equipamento. Num leve suspense, a plateia se aproximou ainda mais, olhando o pequeno visor do gravador. Por alguns instantes, todos esperaram. Mas a cambacica se calou. O grupo aguardou mais alguns minutos, depois seguiu adiante.

“O segredo é se aproximar o máximo possível dos pássaros”, ensinou o ornitólogo aos discípulos, em voz baixa. “Esconder-se atrás de uma rocha, ou de uma pedra, pode ser uma boa ideia.”

Eis que, do nada, um sabiá pousou num galho, a poucos metros do grupo. Planqué apontou o gravador com a parabólica. O bichinho fitou o grupo, mexeu a cabeça em movimentos estacados e… não deu nenhum pio.

Ligeiramente desanimados, os observadores retornaram à tenda de plástico branco onde, entre os dias 13 e 15 de maio, ocorreu o 6º Encontro Brasileiro de Observação de Aves, o Avistar 2011, feira voltada à observação de pássaros. É uma pena que o grupo fosse formado por entusiastas de aves, e não de aeronaves. Durante as duas horas do workshop nada menos do que doze aviões e nove helicópteros sobrevoaram o parque.