esquina

As búlgaras estão com tudo

Nada a ver com a sucessão de Lula

Consuelo Dieguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Desabava uma chuva daquelas quando Geise Schmitz, de 20 anos, e Gabrielle Maciel, de 17, desembarcaram na porta de uma academia de dança em São Conrado, na Zona Sul carioca. As duas amigas vinham de Três Rios, no interior do estado, e haviam madrugado para não correr o risco de atrasar. Sabrina Reis e Simone Menser, ambas de 29 anos, moravam mais perto, em Niterói. Ao entrar no ônibus, haviam pedido aos santos que o aguaceiro não arruinasse o compromisso delas. Daniele Amorim, de 27, vinha do subúrbio do Méier e levara quase duas horas para chegar.

Pouco antes das dez da manhã, as cinco, já em suas malhas, espichavam-se nas barras da sala de balé. Na outra extremidade, o australiano Keith Hawley estava pronto para entrar em ação, o que, no caso, não exigiria dele muito mais do que arregalar os olhos. Como diretor de dança do hotel-cassino The Venetian, em Macau, sua tarefa ali era avaliar as moças.

 

O Venetian, sublinhe-se, não é um hotel-cassino qualquer. É o maior do mundo. Perto dele, os de Las Vegas viram birosquinhas inibidas onde se joga um carteado e olhe lá. O monstrengo arquitetônico ocupa uma área de 980 mil metros quadrados à beira de uma baía. Daria para estacionar quinze Boeings 747 sob o teto da extravagância, se fosse bom para os negócios. Não sendo, os incorporadores usaram o espaço para reproduzir Veneza – canais, palácios, a ponte dos Suspiros e a catedral de São Marcos, está tudo lá.

Hawley chegara ao Rio dois dias antes, com a missão de contratar dançarinas brasileiras para o cassino. Ele gasta boa parte do tempo correndo o mundo à cata de beldades que entendam do rebolado. Na atual expedição, depois de fechar negócio em cinco países – Bulgária, Rússia, Filipinas, Tailândia e Austrália –, não conseguia esconder certa decepção com a fornada verde-amarela. Apenas as cinco moças haviam atendido à convocação feita pela internet. Esperava, no mínimo, 100. “Se fosse na Austrália, a sala estaria lotada”, lamentou. “Lá eu sou muito conhecido.”

Além do próprio anonimato, Hawley atribui parte do desinteresse ao medo das brasileiras de entrarem numa furada. Todo mundo conhece uma história triste de moças que se tornam escravas sexuais. “Falta conhecimento do que somos”, disse Hawley. O Venetian é a joia da coroa do grupo americano Las Vegas Sands, uma das maiores corporações de entretenimento do mundo.

Não que as cinco candidatas soubessem disso. Geise, jovem esguia de cabelos cacheados, e a amiga Gabrielle, morena, pequena, cabelos igualmente cacheados, desconheciam essa grandeza toda, mas tinham “muita vontade de viajar e dançar pelo mundo”. Elas já participam de um famoso grupo de dança de Três Rios (eles se notabilizaram ao passar para a semifinal de um quadro de Street Dance no programa da Xuxa).

Simone Menser, de 29 anos, sabia um pouco mais. Há sete anos ela trabalhou num dos hotéis do grupo, também em Macau. “É uma rede muito grande, boa de trabalhar”, disse. “Eu tirava uns 2 mil dólares em 2003. Era um salário bom, e eles pagam pelos extras, como dança do ventre.”

Desde a temporada de Simone em Macau até a inauguração do Venetian, em 2007, muita coisa mudou. Simone, cujos dotes incluem coxas robustas e um bumbum arrebitado, era praticamente um colírio para olhos orientais à época em que esteve por lá. Mas o gosto é volátil, e hoje o tipo mulata exportação já não faz tanto sucesso. A exuberância das nossas moças, o jeito fogoso – ou fiery, como definiu Hawley – também perdeu pontos. No Olimpo feminino do Oriente, reinam hoje as longilíneas e as discretas.

“As búlgaras são espetaculares”, disse o coreógrafo, talvez o primeiro do mundo a manifestar tal opinião. “Elas dançam divinamente, têm pernas longas e são mais tímidas.” Para provar, mostrou fotos de búlgaras em poses sensuais, mulheres imensas de corpos perfeitos, cabendo, sabe-se lá como, dentro de microbiquínis de paetê. As búlgaras, em suma, caíram no gosto mundial. (Um contingente expressivo de brasileiros parece acompanhar a tendência.)

Às 11 horas, Hawley decidiu ensaiar alguns passos com as moças. Não durou muito. Diante da dificuldade das dançarinas em acompanhá-lo, parou no básico. Agradeceu a participação e disse que entraria em contato. “Talvez eu possa aproveitar duas delas”, disse, sem muita convicção. É fundamental contratar profissionais que peguem rápido os passos, pois a jornada de trabalho consiste em seis shows por dia, com três coreografias diferentes.

 

Sentado em outro canto da sala e mergulhado num silêncio meditativo, Guy Lesquoy, diretor de entretenimento do cassino, parecia frustrado. Ele estava ali por outra razão: selecionar recepcionistas para o lounge da Playboy que será inaugurado no cassino. Ou seja: vinha atrás de coelhinhas. Até aquele momento, só duas haviam atendido
ao chamamento.

Na manhã seguinte – nada como um dia depois do outro – duas dançarinas incorporaram Margot Fonteyn na frente de Hawley. Lesquoy ergueu uma sobrancelha. De si para si, julgou que uma delas, Alessandra Pinho, tinha a estampa de belo leporídeo e poderia abrilhantar o lounge. Como chegara a essa conclusão? “Buscamos mulheres lindas, inteligentes, sofisticadas e que tenham busto grande”, explicou, sem medo de trair o sigilo profissional. Para dar a medida do último atributo, abriu as duas mãos em concha e as aproximou (não muito, é claro) do peito.

O busto generoso é importante por vários motivos, entre os quais o fato de sobressair no corselet, peça chave da indumentária das coelhinhas. É bem verdade que, nesse quesito, Alessandra corria o risco de perder pontos. Lesquoy explicou que os chineses hoje buscam o padrão americano de beleza: quadril estreito, pernas longas e peito grande.

Parece que os deuses ouviram a descrição, pois, à tarde, Lesquoy e Hawley puderam estourar a champanhe. Uma penca de beldades louras, magras, bronzeadas, longilíneas, inteligentes, sofisticadas e de bustos grandes baixou, inesperadamente, na academia. Dançaram bem, desfilaram bem, falaram bem. A colheita estava salva.



Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras