esquina

As Esganadas vêm aí

Jô Soares fala de seu novo livro na Academia

Ricardo Cabral
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2011

Faltava pouco para uma da tarde quando a cozinheira Adriana de Oliveira Rosa passou os olhos pela longa mesa do Salão de Chá do Petit Trianon, no 2º andar do palacete amarelado que abriga a Academia Brasileira de Letras, no Centro do Rio de Janeiro. Satisfeita, constatou que estava tudo em ordem. Simultaneamente, na frente do prédio, Jô Soares saía com a mulher, Flávia, de um carro. Estava de terno branco, camisa azul listrada e chapéu cáqui. Ao entrar na recepção, todos os funcionários se levantaram, estamparam um sorriso e lhe apontaram o caminho do elevador.

Desde o ano passado, quando o acadêmico Marcos Vilaça reassumiu a presidência da casa, os imortais organizam almoços com personalidades. Pela sala de jantar da ABL já passaram o técnico Dunga, o vice-presidente Michel Temer e o humorista Chico Anysio. Chegara a vez de Jô, autor de um romance que tem a instituição como cenário: Assassinatos na Academia Brasileira de Letras.

Em todos os encontros, o protocolo se mistura à superstição: acredita-se que o acadêmico que se senta à cabeceira será o primeiro a falecer. A disposição dos comensais à mesa, mesmo direcionada por plaquinhas indicativas, foi um tanto confusa. A mulher de Vilaça, Maria do Carmo, pediu uma troca dos lugares, de modo a colocar a neta ao lado de Jô. “Ela é sua fã!”, explicou com um sorriso largo, e o apresentador acabou separado de Flávia.

Vilaça deu início ao almoço com um discurso cerimonioso, afogando Jô em um Niágara de elogios. Enquanto falava, uma das recepcionistas chamou a atenção de um garçom do outro lado da mesa. “Mais um prato!”, sussurrou. Ajuste feito, Vilaça mudou a direção dos elogios e mirou nos feitos da sua administração, como a constante recepção de estudantes para visitas guiadas ao prédio. Enquanto isso, os garçons faziam pequenos gestos uns aos outros. Aparentemente, alguém se sentara no lugar errado, mas era tarde demais. “É uma satisfação acolhê-lo”, encerrou o presidente.



Depois de receber a Medalha Machado de Assis – nem todos os convidados são assim homenageados nos almoços organizados pela casa –, Jô preferiu o escondidinho de siri à picanha com molho de mel e dispensou o arroz, o feijão e a farofa. Entre os vinte convivas, a maioria deles de cabelos brancos, a preocupação com as calorias era notável: ninguém repetiu o prato principal.

 

Apesar de ser a estrela daquela tarde chuvosa, Jô Soares não era o único no rol dos convidados. Ary Graça Filho, presidente da Confederação Brasileira de Voleibol, o jornalista Flávio Cavalcanti Júnior e o presidente de uma seguradora também foram homenageados, mas nem de longe receberam elogios como o apresentador.

Sorridente, Jô retribuiu contando, pela primeira vez em público, a quantas anda o seu novo livro. Adiantou que o enredo se passa no final da década de 30 e conta a história de um homem que, traumatizado com a esposa obesa que não o deixava comer, começa a matar mulheres gordas, sempre as estrangulando. O imortal Domício Proença Filho perguntou-lhe pelo título da obra. Jô respondeu que se chamará As Esganadas – e a mesa caiu na gargalhada.

Será seu quarto romance. Jô Soares revelou que hesitou bastante antes de escrever o primeiro, O Xangô de Baker Street, por temer enveredar-se levianamente no campo da literatura. Contou que, com a ideia na cabeça, telefonou a Rubem Fonseca, dizendo-lhe para que aproveitasse o enredo pronto para redigir, ao que o escritor teria respondido, ranzinza: “Deixa de preguiça que você já tem o livro pronto, escreve logo isso aí.”

Seguindo o gosto da casa, as sobremesas – brigadeirão, torta de abacaxi com coco e cheesecake – eram todas diet. Jô, no entanto, bem como a maioria dos imortais, escolheu a única que não se enquadrava na onda light: três fatias de bolo de rolo. O doce, a propósito, mereceu destaque no agradecimento proferido por Jô. O apresentador confidenciou ao acadêmico Carlos Nejar que se sentia muito bem em almoçar ali, ao lado dos imortais, naquele salão luxuoso.“É como se eu tivesse vivido aqui por toda a minha vida”, exaltou. Nejar mirou-lhe os olhos como quem acaba de ter uma ideia genial. “É uma premonição”, disse.

Ricardo Cabral

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