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As PHoDonas

Uma trincheira feminista na UFRJ

Yasmin Santos
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

“Judith Butler!”, chamou a professora. Numa sala da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com cadeiras organizadas em círculo, uma das alunas levantou o braço: “Tô aqui!” Não era a célebre filósofa norte-americana de 62 anos, mas uma jovem de 20 e poucos. Cenas como essa se repetiram durante todo o segundo semestre de 2018 nas aulas do curso O Cânone Feminista, ministrado por Beatriz Resende e Heloisa Buarque de Hollanda na Faculdade de Letras. Cada universitária ganhava o nome de uma teórica do feminismo e se incumbia não apenas de analisar as ideias dela como de expô-las para a turma.

As alunas com filhos pequenos podiam acompanhar o curso junto das crianças – um modo de compensar a falta de vagas na creche da universidade. Estudantes e professoras se revezavam no cuidado da meninada, que ficava num cercadinho dentro da sala.

As docentes ofereceram a disciplina pela primeira vez, de maneira experimental, e cogitam retomá-la em 2019. O curso fazia parte do Fórum Mulheres na UFRJ, projeto que discute as relações de gênero no ambiente universitário – ou que, como gosta de dizer Hollanda, “cria caso”. A expressão, de acordo com a professora e ensaísta, deriva do livro Les Faiseuses d’Histoires, escrito pelas filósofas belgas Vinciane Despret e Isabelle Stengers, cujo título pode ser traduzido como “as fazedoras de histórias” ou “as criadoras de caso”.

Organizado por cinco pesquisadoras da universidade, o fórum se inspirou numa revista online, a DR. De maneira bem-humorada, mas sem abdicar do rigor teórico, as quatro edições da publicação feminista tinham como um de seus objetivos “discutir a relação” de acadêmicas com Roland Barthes, Gilles Deleuze, Friedrich Nietzsche e outros intelectuais do sexo masculino. Daí a sigla DR. A iniciativa encantou Hollanda, uma das idealizadoras do fórum: “Veja a bibliografia de nossas teses. Só tem homem! O que faríamos se a bibliografia fosse outra? Que conhecimento produziríamos? Por que a experiência feminina não consta do cânone universitário? A gente pensa, não pensa? Então vamos brigar pelo pensamento.”

No Brasil, existe imensa disparidade entre os gêneros quando se consideram os cargos acadêmicos de prestígio. Um estudo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, demonstrou que, em 2015, somente 24,6% das bolsas destinadas a pesquisadores seniores couberam às mulheres. A discrepância se torna ainda maior sob a ótica racial. Segundo o Censo da Educação Superior, em 2016, menos de 3% dos docentes doutores no país eram negras.

 

Heloisa Buarque de Hollanda – que vai completar 80 anos em julho – leciona há mais de cinquenta. Em 1979, defendeu sua tese de doutorado, que tratava da poesia marginal ao longo da ditadura militar. Por distração, escreveu uma frase em primeira pessoa numa parte da pesquisa: “Eu me lembro dos hoje ‘incríveis anos 60’ como um momento extraordinariamente marcado pelos debates em torno do engajamento e da eficácia revolucionária da palavra poética.” A banca examinadora chiou. “Disse que o trecho não era acadêmico, não era objetivo, era impressionista”, recorda a pesquisadora. “Saí da sala com uma pulga atrás da orelha. Eu não sabia, mas aquele início de frase era ousadamente feminino.” E o primeiro de muitos casos que a professora criaria na universidade.

Ela afirma que só travou contato mais profundo com os estudos feministas em 1984, durante o pós-doutorado em sociologia da cultura, nos Estados Unidos. Quase uma década depois, em 1993, a Escola de Comunicação da UFRJ (ECO) abriu concurso para uma vaga de professor titular, o topo da carreira acadêmica. Única mulher a entrar na disputa, Hollanda sofreu perseguições cerradas.

“Alô, é do bordel da professora Helô?”, perguntou alguém pelo telefone à secretária do centro interdisciplinar que a pesquisadora coordenava na época. “Fui atacada de formas tão violentas e baixas que não podia desistir do concurso. Ganhei a vaga, mas não consegui engolir a situação. Passei a dar aula para os alunos da ECO em outro edifício.” Baseada no episódio, a escritora Ana Arruda Callado lançou em 2003 o romance policial Uma Aula de Matar, pela editora Rocco.

 

De início, o Fórum Mulheres na UFRJ teria um nome bem provocativo: PHoDonas, uma brincadeira com Ph.D., título equivalente ao de doutor em países de língua inglesa. O lançamento do projeto, no entanto, ocorreu em abril de 2018, cerca de um mês após o assassinato da vereadora Marielle Franco. As pesquisadoras, arrasadas, preferiram recuar. “Foi uma barra muito pesada para a gente sair de fodonas naquele momento”, explica Hollanda.

PHoDonas, agora, nomeia um encontro anual promovido pelo fórum. Nele, acadêmicas dedicadas ao estudo de gênero falam sobre seus trabalhos e, principalmente, sobre as dificuldades e os êxitos que vivenciam no meio universitário. A primeira edição do evento aconteceu em novembro e rodou três campi: dois da UFRJ e um da Unirio. “Eu queria que o encontro atraísse mais gente, sabe?”, comenta a professora. “Queria que viralizasse e que nós, mulheres, nos entendêssemos como fodonas. Mas não fodonas doutoras. O nosso Ph.D. é outro. É mais poderoso.”

Sobre o que esperar de 2019, Hollanda diz apenas: “Desejo que nos deixem em paz.” A má vontade do presidente Jair Bolsonaro em relação àquilo que define como “ideologia de gênero” pode se revelar muito prejudicial para os 272 grupos que estudam o assunto e o feminismo no Brasil. O número corresponde a somente 0,07% do total de grupos de pesquisa registrados no CNPq. Mesmo assim, o presidente parece assustado. Teme que as PHoDonas dominem o mundo.

Yasmin Santos

Estagiária de jornalismo da piauí

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